O reizinho índio

Sebastião Nery

Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá, exatamente há 22 anos, no jogo de abertura da Copa de 90, em Turim, na Itália: Argentina x Camarões. A cabine de honra lotada de autoridades: os presidentes da Itália, do Brasil (Fernando Collor), de Camarões, da Fifa, o primeiro-ministro italiano, a prefeita de Turim, o cardeal arcebispo, ministros, senadores, deputados (e eu, convidado como Adido Cultural do Brasil).

Quando começou a tocar o hino da Argentina, o estádio inteiro, praticamente todo, urrou numa vaia uníssona, colossal e continua. Os jogadores argentinos ficaram perplexos, os olhos e o rosto tensos, as bocas duras mal conseguindo acompanhar a música.

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MARADONA

Do meio de seu time, pequeno, miúdo, baixinho, com sua cara de índio descido dos Andes, saiu Maradona, três passos à frente, olhou bem para a cabine de honra, girou a cabeça pelas arquibancadas, deu uma volta sobre o corpo, levantou o pescoço, cresceu, ficou enorme, fechou o punho direito, deu um salto, um murro no ar, e gritou duas vezes:

– “Hijos de puta! Hijos de puta!”

O estádio foi se calando, a vaia morrendo, acabou.

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COPA DE 90

Era um grito de guerra do reizinho índio, pequeno e valente como a sua gente. Acuado por 70 mil pessoas que vaiavam o hino de sua camisa, Maradona fez a única coisa que ali lhe restava. Chutou a palavra. Poucas vezes vi um homem tão pequeno ficar tão grande.

A Itália estava magoada com a Argentina, por derrotas em copas anteriores. A reação do estádio era inevitável, mas não se esperava tão brutal. Maradona não podia deixar de dar o troco. Afinal, ninguém fez tão feliz aquele povo alucinado por futebol quanto o reizinho índio de Nápoles.

Ele sabia disso e dizia.

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ARGENTINA

Na véspera do jogo da Argentina com a Itália, Maradona desafiava soberbo na TV:

“O jogo vai ser em Nápoles. Nápoles não gosta da Itália, a Itália não gosta de Nápoles. (Para ele, a Itália era de Nápoles para cima). Por que Nápoles iria torcer agora pela Itália? Vai torcer é por Maradona. Eu faço Nápoles feliz durante o ano inteiro. A Copa dura apenas um mês”.

Durante semanas, Maradona travou, pela TV, rádios e jornais, uma guerra verbal sem tréguas, proposital, para levantar a moral dos argentinos, humilhados diante da derrota para Camarões na primeira partida, na abertura em Turim. E conseguiu. A imprensa malhava os argentinos, Maradona reagia. Foi uma estratégia política competentíssima.

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ALEMANHA

Todo mundo sabia que Maradona estava em péssimas condições físicas. O técnico Bilardo confessava que outro, no lugar de Maradona, iria negar-se a entrar em campo. Ele jogou todas as partidas o tempo inteiro, dando tudo, desdobrando-se, marcado e pisado.

É uma personalidade surpreendente. Ao contrário da maioria, vivia elogiando os outros jogadores, de qualquer país, mas sabia, e dizia, e repetia, que depois de Pelé foi ele.

E a Argentina, arrastada por Maradona, chegou à final com a Alemanha arrastando-se. A Alemanha jogou melhor e ganhou a Copa. Mas o fato de a Alemanha ter jogado melhor não diminuiu a fúria de Maradona diante do roubo escancarado, deslavado, desavergonhado, do juiz mexicano Codesal, que já entrou em campo para dar a vitória à Alemanha.

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JUIZ

A Argentina, com um futebol inferior, desdobrou-se com garra e manteve o empate até o fim. A coisa já vinha de antes. É estranho que só a Argentina tenha tido 4 jogadores afastados da final por punições. E o mexicano ainda expulsou dois argentinos. Não contente, porque Maradona crescia em campo, marcou pênalti que toda a imprensa internacional, inclusive a alemã e a italiana, disse que não houve.

Como era demais tirar Maradona, tiraram antes Caniggia, o segundo melhor. Aquele choro fundo, amargo, soluçado, de Maradona, no tablado, depois da partida, não lavou a sujeira da partida mas deixou a Fifa mal.

Depois disso, na Fifa só pinta sujeira.

 

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