O risco da falência das instituições

Carlos Chagas

Abafar a CPI do Cachoeira, quer dizer, não constituí-la, significaria revogar o Congresso. Deitá-lo ao mar como carga supérflua. Adiar sua instalação, quase isso. Pois é o que parece acontecer, esta semana, com base em argumentos descabidos. Primeiro, de que José Sarney sofreu uma crise coronariana, precisa ficar no hospital e não há prazo para sua volta a Brasília a fim de formalizar a CPI. Ora, com todo o respeito, o presidente do Congresso não é insubstituível. A deputada Rose de Freitas é a primeira vice-presidente das sessões conjuntas entre deputados e senadores. Acresce que a senadora Marta Suplicy é vice-presidente do Senado. Ambas podem substituir o presidente.

Outra alegação protelatória refere-se à coleta de assinaturas para a constituição da CPI. Na última quinta-feira, os líderes dos partidos davam como alcançado número mais do que suficiente, bastando aguardar a chegada de Suas Excelências a Brasília, esta semana. Chegar, chegaram, mas parece que as instruções mudaram. Nem 27 senadores, até ontem, assinaram, entre 81. E na Câmara, sendo necessários 127 deputados, sobre 513, só 75 se comprometeram.

Por que essa hesitação súbita? Porque correu a informação de que Dilma Rousseff teria se manifestado contra a CPI, mesmo sustentando opinião diversa do ex-presidente Lula. Será essa a razão principal de haver arrefecido o ímpeto pela criação da CPI. É a presidente que tem a caneta, raciocinam os integrantes da base parlamentar oficial. Salvo nova contramarcha, não há certeza de nada. Cada partido pretende criar problemas para os adversários e até para os aliados, poupando seus correligionários na hora de selecionar e crucificar os depoentes.

Inventaram a fantasiosa história de que a CPI do Cachoeira destruiria o julgamento dos réus do mensalão, raciocínio do presidente do PT, Rui Falcão, favorável. Em suma, o dia seguinte sempre parece começar um pouquinho pior do que a véspera. Caso nem a CPI do Cachoeira se instale, nem o Supremo venha a julgar o mensalão neste semestre ou neste ano, a conclusão será da falência de nossas instituições.

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BRINCADEIRA TEM HORA

Em sua meteórica passagem pelo Brasil, a Secretária de Estado, Hillary Clinton, voltou a propor um acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e nosso país. Nada de barreiras alfandegárias, muito menos subsídios ou protecionismo aos produtos de lá e de cá. Felizmente, nem o chanceler Antônio Patriota, nem o ministro Guido Mantega levaram a sugestão a sério. Muito menos a presidente Dilma Rousseff.

O que os americanos querem é inundar o Brasil com sua produção e, na base da abominável livre concorrência, acabar de matar a indústria nacional e estrangular nossas exportações, coisa que a China já vem fazendo. Seria voltar atrás o relógio da História. No passado, eram essas as regras. Hoje, nem que a vaca tussa…

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NEM A DITADURA OUSOU TANTO

Vale estabelecer a premissa: Carlinhos Cachoeira é um bandido, um corruptor sem escrúpulos que deveria ser condenado e ficar preso por décadas. Agora, se verdadeira a versão de ter a Justiça Federal impedido que ele comparecesse ao enterro de sua mãe, segunda-feira, seria o caso de perguntar “que país é este?” Porque negar a um prisioneiro o direito humanitário de despedir-se de seus entes queridos soa como algo medieval. Inominável.

Dona Lindú morreu quando o Lula se encontrava preso numa delegacia paulista. Permitiram-lhe ir ao velório da mãe, mesmo acompanhado por policiais. Juscelino Kubitschek estava no exílio mas nem os generais ousaram impedir que viesse despedir-se de dona Júlia. Veio e voltou com salvo conduto.

Não serve como argumento alegar que Carlinhos Cachoeira estava preso em Mossoró, no Rio Grande do Norte, sendo difícil seu deslocamento até Anápolis, em Goiás. Mesmo que a Polícia Federal não possuísse aviões, e possui, milionário como é, o bandido poderia alugar um jatinho de última geração e vir do Nordeste ao Centro-Oeste em pouco tempo. Será que um juiz impediu a viagem?

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NOVA REFORMA NO FIM DO ANO

Começa a circular na Praça dos Três Poderes o rumor de que conhecidos os resultados das eleições de outubro e desenhado o novo quadro político partidário, mesmo apenas municipal, a presidente Dilma aproveitaria para promover ampla reforma ministerial. Prometida para o começo deste ano, a troca de ministros limitou-se a poucas substituições pontuais, mesmo depois de sete deles terem sido mandados passear por denúncias de corrupção e outro por falar demais.

Depois das eleições e de acordo com as performances dos partidos de sua base parlamentar, em especial na disputa pelas prefeituras das capitais, a presidente estaria disposta a escolher ministros mais afetos às missões de cada ministério. Vale aguardar, sem a tentação de fulanizar quantos poderiam receber o aviso prévio.

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