O risco de fazer o jogo da reação

Carlos Chagas
                                                      
Posto na defensiva, para não dizer acuado, o governo Dilma Rousseff  custa a perceber que quanto mais recuar, mais avançarão as forças da reação. Aliás, as mesmas que, reagrupadas no governo Fernando Henrique, conquistaram vastos espaços no governo Lula e agora investem contra a sucessora. Tome-se apenas o último embate: depois de declarar na campanha eleitoral não ver motivos para ajustes fiscais e para a  contenção de gastos públicos, a presidente da República surpreendeu seu pano de fundo com o corte de 50 bilhões de reais nas despesas de governo. Além de manter-se  inflexível na sustentação da merreca de 545 reais para o salário mínimo, reivindicação dos conservadores e dos especuladores.  Agora assiste sem reagir a virulentas críticas formuladas contra o Lula, “que nos seus oito anos de governo  aumentou os gastos públicos em 282 bilhões de reais”…
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Ora bolas, mais deveria ter aumentado, porque longe de ter sido uma irresponsabilidade ou  um escândalo, esse aumento significou sólido crescimento no setor das políticas públicas. Atendeu às necessidades de saúde, educação, alimentação, habitação, transportes e outras obrigações do estado para com a maioria carente  da população. As elites financeiras jamais se preocuparam com esses detalhes, porque frequentam hospitais particulares, escolas privadas para seus filhos, restaurantes de luxo, mansões paradisíacas, helicópteros e jatinhos pagos por suas empresas.  Reagem diante das  iniciativas do  governo em favor das massas  porque preferiam  ver canalizadas para suas especulações  e seus interesses essas centenas de bilhões.
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O  diabo é  que estão conseguindo botar o governo Dilma na defensiva. Não engoliram o fato de que o Lula tornou-se popularíssimo precisamente por haver minorado parte das agruras dos menos favorecidos, ainda que tivesse atendido com igual empenho os pleitos do andar de cima. Um mês e meio de governo é pouco para avaliar a performance e os  rumos da nova administração, mas seria bom  a presidente perceber  que faz o jogo da reação, até mesmo conservando no ministério parte dos seus  representantes.  Correndo as coisas como vão, logo ficará  tarde para a contramarcha. O risco de ceder nas primeiras batalhas sempre será de perder a guerra.

OS QUATRO MOSQUETEIROS

No Senado, funcionam as representações partidárias. O  PT atua unido,  não  obstante a dissidência  de Paulo Paim. O PSDB briga lá fora, em São Paulo, mas comporta-se como  um time organizado, nas votações.  Vale o mesmo para o DEM e para  os pequenos partidos. Até  valeria para o PMDB, não fosse a evidência de que quatro mosqueteiros insurgem-se diante da tropa do Cardeal, perdão,  de José  Sarney, um  Richelieu redivivo atuando  atrás do trono.
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Pedro Simon, Roberto Requião, Jarbas Vasconcelos e Luiz Henrique não fazem caso da proibição de duelos, nos quais se lançam todos os  dias,  no  plenário e nas comissões.  Tem sido isolados,  afastados e até expurgados  das funções representativas da bancada, mas não perdem oportunidade de contestar a ortodoxia partidária.  Jamais formarão um  novo partido, muito menos deixarão as fileiras do PMDB, mas estão nelas para reafirmar a discordância. 

Deles não partiu nem partirá uma simples  indicação para diretorias de empresas públicas, como continuarão rejeitando convites para viajar ao exterior  às expensas do tesouro.  Mesmo com legítimo e reconhecido   direito às  aposentadorias de ex-governadores, decidiram abrir mão do benefício, deixando de recebê-lo  enquanto durarem seus mandatos no Senado.

SEM SURPRESA 

Política é uma caixinha de surpresas, mas tudo indica que as bancadas do governo na Câmara e no Senado manterão o reajuste de 545 reais para o salário mínimo. Amanhã as centrais sindicais  farão o último esforço para dobrar os partidos da base oficial,  levando-os a aceitar aumento um pouquinho maior, mesmo de 560 reais. Deverão malograr. Nem mesmo a concentração de milhares de trabalhadores nos jardins do Congresso está confirmada. Muito menos  garantida. Os dirigentes transitarão pelos  corredores e gabinetes com claque reduzida. Mesmo assim, quem sabe? Daqui a quatro anos, quando deputados e senadores tentarem a reeleição, alguém se lembrará de como votaram em fevereiro de 2011?  Mas no próximo fim de semana, quando desembarcarem em seus estados,  levarão na lapela os escudinhos representativos de seus mandatos?

DE NOVO O TROCA-TROCA? 

Tem gente especulando que no bojo da reforma política, se é que ela vai mesmo deslanchar este ano, virá um dispositivo autorizando a indiscriminada troca de partidos sem os obstáculos hoje verificados na legislação.  Nada de ter que entregar os mandatos à legenda pela qual os mandatários se elegeram. Uma espécie de “liberou geral” viria embutida nas mudanças eleitorais e partidárias.
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Se for assim é casuísmo, mas a pergunta que se faz é se existem,  no Congresso, mais do que uns poucos descontentamentos de parlamentares com seus partidos. Caso venha a ser aprovado o voto nas legendas, em listas, em  vez do voto pessoal nos candidatos, a coisa muda de figura. Afinal, quem for desafeto ou adversário dos caciques partidários correrá o risco de ser despachado para o  fim da fila, independentemente de estar bem nas pesquisas. Mas como, por isso  mesmo,  a proposta das listas não parece garantida, melhor será abrir hipótese para mais um troca-troca, puro e simples.

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