O segredo das jóias, 60 anos depois, chega a Buenos Aires

Pedro do Coutto

Reportagem de Gustavo Hannemann, correspondente da Folha de São Paulo em Buenos Aires, publicada na edição de 5, encontrou o tom certo para definir o roubo programado há seis meses contra o Banco da Província da Argentina, no bairro de Belgrano, praticamente centro de Buenos Aires: assalto hollywoodiano.

De fato, alugando um imóvel próximo há seis meses, os ladrões agiram como os personagens de O Segredo das Joias, clássico do cinema, dirigido por John Houston e que abriu o caminho a Marilyn Monroe no rumo do sucesso. Que durou pouco, já que ela morreria em 62, aos 35 anos de idade.

A obra é sensacional. Os que assaltaram o Banco da Província se inspiraram nela e tiveram a seu lado um surpreendente silêncio que não foi rompido pelos toques de alarme que soaram na noite de 31. O roubo do conteúdo de 136 cofres pessoais somente foi descoberto três dias depois. Para desvendar o crime, basta recorrer a Sherlock Holmes: elementar, meu caro
 Watson. Um mistério pouco misterioso.

Pois se os assaltantes alugaram uma casa  ao lado e nela permaneceram ao longo de seis meses, não será difícil sua identificação. Quem firmou o contrato de aluguel? Os visitantes da noite tinham que possuir faces, expressões, movimentos, hábitos. Até o momento, ninguém sabe, ninguém viu. Será possível? Não. Deixaram rastros. Ninguém escapa a observações de vizinhos, semanalmente, que dirá ao longo de seis meses? Não é crível que não tenham entrado e saído das escavações, sem cumprimentar pessoa alguma, sem limpar a poeira do tesouro. Que fizeram das manhãs, das tardes, das noites? Afinal eles estavam em Belgrano, não na Corrientes 348, endereço inexistente, mas imortalizado na voz de Carlos Gardel.

Não é possível que os criminosos não tenham ido à bela Galeria Pacífico, na Florida, na agradável Praça San Martin, na Recoleta, no tradicional Hotel Alvear, na Avenida de leva o nome de um presidente da República. Não tem cabimento que sob as luzes da cidade, intensas, permanecessem encapuzados.

E que dizer do Teatro Colón, onde cantaram Caruso e dançaram Nijinski e Ana Pavlova, em 1910, na sua inauguração. Buenos Aires é uma cidade fantástica. O Colón também. São marcas eternas do tempo e da arte. No museu Colón, subsolo, roupas usadas por Nijinski, Pavlova, os maiores bailarinos da história.

Como numa cidade enorme, de mais de 12 milhões de habitantes, ninguém viu,  ninguém sabe do vulto dos assaltantes? Estranho, muito estranho. E as caixas roubadas? Depositantes que agem assim procuram sempre preservar o segredo de seus valores. Revelá-los torna-se missão de risco tão arriscada quanto a ação dos bandidos. Qual o seguro que fizeram? A Polícia deve examinar todos os aspectos com serenidade, mas também com rapidez.

 No Segredo da Joias, o mentor do assalto, grande atuação de Sam Jafe, foi capturado porque demorou demais, extasiado com a dança num bar de uma adolescente sensual. Os que projetaram o assalto ao Banco da Província vão evitar tentações desse tipo? Que se realizaram apenas na atmosfera, mas demoraram o suficiente para a Polícia descobrir tudo e prender todos.

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