O senhor do voto

Sebastião Nery

Em Pernambuco, em 1954, uma edição do jornal comunista “Folha do Povo” foi falsificada. Para o governo do Estado, o chefe do Executivo, Etelvino Lins, lançara a candidatura do general gaúcho Cordeiro de Farias. Velho pessedista, Etelvino havia conseguido o apoio a Cordeiro do udenista João Cleofas, senador e ministro da Agricultura do governo Vargas. Cleofas rompeu o acordo e lançou-se também candidato, reeditando, mais uma vez, o choque entre pessedistas e udenistas.

Como conta Luiz do Nascimento, no primeiro trimestre de 1954 a “Folha” começara a combater o esquema Etelvino Lins e a candidatura Cordeiro de Farias. Nos meses seguintes, deu ênfase à campanha em favor dos “candidatos de Prestes” a deputados. Na edição de 18 de setembro vinha, em letras garrafais, o título: “Aliança patriótica para eleger João Cleofas”. E, em outras edições, páginas inteiras de propaganda dos candidatos comunistas inscritos em diversos partidos”.

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PRESTES

“Mas, no dia da eleição, circulou uma “Folha do Povo” falsificada, em formato menor que o habitual, com um desenho na primeira página, repetido na terceira, de Prestes em corpo inteiro e com uma manchete recomendando: – “Prestes dirige-se aos trabalhadores: para Governador de Pernambuco vote em branco. Para deputados, escolham nossos candidatos”.

“Cinquenta mil exemplares haviam sido distribuídos gratuitamente na capital e no interior do Estado, logo ao nascer do dia, para dar a entender aos eleitores comunistas e simpatizantes que Prestes retirara o apoio a Cleofas, seu candidato até a véspera do pleito. Como se processara a falsificação? O fornecimento de energia fora cortado na área da oficina gráfica do jornal, das 19 horas do dia 2 às 7 horas da manhã seguinte, e das oficinas da empresa “J. Néri da Fonseca” saíra a falsa edição”.

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COSTA PORTO

Essa história, bem pernambucana mas tão nacional, está em um livro indispensável a qualquer politico ou jornalista no pais : “A Mentirosa Urna” (Editora Martins Fontes), do professor de Direito Constitucional da Universidade de Brasília, Walter Costa Porto, pernambucano e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral. Em duas obras magistrais anteriores – “O Voto no Brasil” e “Dicionário do Voto” (Editora UnB), ele já havia mostrado porque é a maior autoridade brasileira em eleição e voto. Agora, mais esta.

Brilhantemente escrito e fartamente documentado, é impossível sintetizá-lo em uma cronica de jornal. Um retrato irrespondível de Juracy:

“Em 7 de janeiro de 1949, o projeto (de cassação dos mandatos de Prestes e dos deputados comunistas) era aprovado pela Câmara. Do clima de histeria em que se desenvolveu a votação o relato de Afonso Arinos dá a mostra, ao lembrar um dos parlamentares que apoiaram o projeto de cassação, Juracy Magalhães. Então senador (sic) pela Bahia, sentado no meio do recinto, entre um grupo decidido de correligionários, levantou-se e gritou para a bancada comunista, do outro lado:

 “Hoje não vim trocar votos, vim trocar balas”.

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O VICE

Outro retrato, também implacável, é o do baiano Manoel Vitorino:

Prudente de Morais, o primeiro dos presidentes civis, o primeiro a ser escolhido em eleições gerais, já assumiu o cargo doente. Assumindo o governo, o vice-presidente Manoel Vitorino procurou, como se comentava nos corredores da Câmara, “mudar a mobília presidencial”, entendendo indispensável fazer sua política e renovar o ministério, proclamando “a urgência de republicanizar-se a República”.

“Chegou até a transferir a sede do governo do casarão do Itamaraty, na Rua Larga, para o Palácio do Catete, “no meio das mais deslumbrantes manifestações de regozijo público”. De Teresópolis, Prudente escreve, em 27 de fevereiro de 1897, a Bernardino de Campos: “Estamos arrumando as malas para descer na próxima quarta-feira.”

“Pouco depois, em 4 de março, sem um aviso prévio sequer ao vice-presidente em exercício, entrava ele (Prudente de Morais) no palácio presidencial adentro, com uma precipitação só igual à de quem recebe a denúncia inopinada de estar sendo por bandidos assaltado o seu lar”.

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COCHILOS

Os romanos sabiam : – “Quandoque bonus dormitat Homerus” (“Até o bom Homero cochila” – verso de Horacio). Há duas cochiladas no livro:

1. – Pag. 193 : – “Na Assembleia Constituinte de 1946, Prestes, senador pelo Partido Comunista de São Paulo (sic), ocupava a tribuna quando Barreto Pinto, deputado pelo PTB do Rio, pediu-lhe um aparte : – “Não concedo aparte a deputado de 500 votos”…

(Prestes foi senador pelo PC do Rio – DF,  e não pelo de São Paulo).

 2. – Pag. 209 : – “Juracy, então senador (sic) pela Bahia”…

(Juracy em 1946 era deputado. Só foi eleito senador em 1954).

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