O ser humano é a porção inteligente e consciente da Terra

Leonardo Boff

O ser humano consciente não deve ser considerado à parte do processo da evolução. Ele representa um momento especialíssimo da complexidade das energias, das informações e da matéria da Mãe Terra.

Em outras palavras, nós não estamos fora nem acima da Terra viva. Somos parte dela, junto com os demais seres que ela também gerou. Não podemos viver sem a Terra, embora ela possa continuar sua trajetória sem nós.

Por causa da consciência e da inteligência, somos seres com uma característica especial: a nós foram confiadas a guarda e o cuidado da Casa Comum. Melhor ainda: a nós cabe viver e continuamente refazer o contrato natural entre Terra e humanidade, pois é de sua observância que se garantirá a sustentabilidade do todo.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Essa mutualidade Terra-humanidade é mais bem-assegurada se articularmos a razão intelectual com a razão sensível. Damo-nos conta, mais e mais, de que somos seres impregnados de afeto e de capacidade de sentir, de afetar e de ser afetados. Essa dimensão, também chamada de “inteligência emocional”, foi recalcada na modernidade em nome de uma pretensa objetividade da análise racional. Hoje sabemos que todos os conceitos, ideias e visões do mundo vêm impregnados de afeto e de sensibilidade (M. Maffesoli, “Elogio da Razão Sensível”, Vozes, Petrópolis, 1998).

A inclusão consciente e indispensável da inteligência emocional com a razão intelectual nos move mais facilmente ao cuidado e ao respeito da Mãe Terra e de seus seres.

Junto às inteligências intelectual e emocional, existe no ser humano também a inteligência espiritual. O espírito e a consciência têm o seu lugar dentro do processo cosmogênico. Podemos dizer que eles estão, primeiro, no universo e, depois, na Terra e no ser humano. A distinção entre o espírito da Terra e do universo e o nosso espírito não é de princípio, mas de grau.

Esse espírito está em ação desde o primeiríssimo momento após o Big Bang. Ele é aquela capacidade que o universo mostra de fazer de todas as relações e interdependências uma unidade sinfônica. Sua obra é realizar aquilo que alguns físicos quânticos chamam de “holismo relacional”: articular todos os fatores, fazer convergir todas as energias, coordenar todas as informações e todos os impulsos para cima e para a frente, de forma que se forme um Todo e o cosmo apareça de fato como cosmo, e não simplesmente a justaposição de entidades ou o caos.

UNIVERSO AUTOCONSCIENTE

É nesse sentido que não poucos cientistas falam do universo autoconsciente e de um propósito que é perseguido pelo conjunto das energias em ação. Não há como negar esse percurso: das energias primordiais passamos à matéria, da matéria à complexidade, da complexidade à vida, e da vida à consciência, que nos seres humanos se realiza como autoconsciência individual, e da autoconsciência passamos à noosfera, pela qual nos sentimos uma mente coletiva.

Todos os seres participam de alguma forma do espírito. Eles também estão envolvidos numa incontável rede de relações que são a manifestação do espírito.

Essa compreensão desperta em nós um sentimento de pertencimento a esse todo, de parentesco com os demais seres da criação, de apreço por seu valor intrínseco, pelo simples fato de existirem e revelarem algo do mistério do universo.

Ao falarmos de sustentabilidade em seu sentido mais global, precisamos incorporar esse momento de espiritualidade cósmica, terrenal e humana, para ser completa, integral, e potenciar sua força de sustentação.

 

5 thoughts on “O ser humano é a porção inteligente e consciente da Terra

  1. Leonardo Boff, merece respeito. Homem culto, preparado e inteligente. Tem o que mostrar. Só não entendo o seu silêncio(forma de omissão), diante de tantos descalabros protagonizados na política atual. Orgulho, ao que parece, não deveria ser “qualidade” de uma personalidade tão qual o ínclito Leonardo Boff!

  2. O Homem é o ato e ato de Boff não tem nada a ver com suas teorias que, diga-se de passagem, navegam em oceanos obscuros do sentimentalismo.

    O ato de Boff é sua viagem a Cuba que ele descreve como a maravilha das maravilhas, pois lá ficou hospedado no palácio do ditador , onde se deliciou com os prazeres que o poder propicia. Depois de tudo, passou a chamar Fidel de meu comandante, enquanto os cubanos há mais de 50 anos chamam urubu de meu louro.

    Tempos atraz escreveu aqui que Lula é santo.
    Ainda há pouco, também neste blog , poucas semanas atraz, fez descarada campanha para o governo do PT.

  3. Respeito o teólogo, mas discordo. O que vou escrever agora é tema espiritualista (via mediunidade)…acredite se quiser… o planeta Terra viveu feliz e contente durante milhões de anos. Quando apareceu a espécie humana começaram os problemas, as guerras, escravidões e afins que permanecem até hoje. No plano astral, muitas espécies querem o fim do homo sapiens. Precisamos desaparecer para o bem do ecossistema. Possivelmente iremos para outro planeta, nós somos uma espécie violentíssima, guerreira, egoísta, avarenta, destruidora. Os poucos pacifistas não vieram de Capela, nossas origens., mas de Vênus. A Lógica deste comentário não é Ocidental… outras lógicas…

  4. A espécie humana, por suas realizações, por algumas de suas ideias, sua capacidade de contestação e de transformação e por uma parte de sua natureza pode ser considerada a mais fantástica de todas.

    Por outro lado, todos conhecemos os efeitos bioquímicos das escolhas da consciência dominante, inclusive pela mentira e pela hipocrisia, que são muito mais pessoais e do intelecto do que determinadas como em outras espécies.

    Todos, desde que gozem de plena saúde psíquica, escolhem o que preferirão cultivar em sua mente.

    Há absurdos injustificáveis que se destacam em nossa espécie esquisita, que pode cultivar o sentir prazer no sofrimento alheio:

    Roubar (para comer?). Na maior parte das vezes não.

    Matar (para sobreviver?). Nem sempre. Muitas vezes tudo é arquitetado e outras razões determinam.

    Destruir (para reproduzir?!). Estupros, intenso desamor, egoísmo exacerbado, fazendo do outro um objeto.

    A espécie humana, por meio da torpeza, da vaidade, da futilidade, da crueldade sem medida, da destruição gratuita e dos desperdícios irracionais, se forem mais cultivados do que a verdadeira sabedoria, pode, contraditoriamente, escrever sua história como a mais parasitária e estúpida e a que menos aproveitou a sua própria capacidade natural, avaliando o resultado em seu conjunto.

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