O serviço médico é um direito inalienável que o Estado tem obrigação de oferecer. É para isso (e muito mais) que pagamos impostos escorchantes.

Roberto Nascimento

Aqui se iniciou um debate sobre a Emenda 29, em vias de ser votada no Congresso. O dispositivo constitucional obrigará o Estado a destinar mais recursos para o Sistema de Saúde. O governo diz que não tem recursos, mas injetou mais de 10 bilhões de reais para um único empreendimento agroindustrial no ramo de carnes. A reforma do Maracanã consumirá quase 1 bilhão de recursos do Estado. A lista de prioridades dos investimentos do Estado deixa a saúde e a educação no fim da fila.

Então, governistas como o atual governador do Rio de Janeiro vieram a público defender a volta da CPMF, ou seja, mais impostos que replicarão na cadeia produtiva com reflexos no aumento dos preços das mercadorias e consequentemente da inflação.

Na verdade, o fechamento dos Hospitais Rocha Maia, Paulino Werneck (atende a comunidade da Ilha do Governador) e agora o Centro Cirúrgico do Hospital Pedro Ernesto, situado em Vila Isabel, demonstra a falta de gestão dos recursos da Saúde no Rio de Janeiro. Dinheiro há e muito, o que falta é espírito público, mercadoria em escassez aos gestores públicos.

Tudo isso causa um sofrimento desmedido às populações mais pobres e que não têm Plano de Saúde por falta de condições financeiras. Os pobres não têm escolha, falta-lhes essa liberdade. É o Hospital público ou nada. Ser ou não ser? – essa é a questão básica a ser resolvida pelos que mandam no Brasil. Depois reclamam quando ocorrem as primaveras revolucionárias.

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O SERVIÇO MÉDICO NA  AMÉRICA

Nos EUA, o presidente Obama sofre uma campanha ferrenha dos republicanos do Tea Party por ter enviado ao congresso o Programa de Previdência Social americano.

O artigo de Paul Krugman,  dia 17, na Folha de São Paulo, intitulado “Livre para morrer”, identifica a virada política para a direita profundamente radical, hostil e sem compaixão pelos cidadãos mais pobres da sociedade americana. Segundo Krugman, em 1980, na Era Reagan, o economista Milton Friedman defendeu a economia do “laissez-faire” como a escolha e o empoderamento pessoal (ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões). O Free to Choose” da famosa série de TV americana virou “Livre para morrer”.

Na última segunda-feira, no debate dos pré-candidatos do Partido Republicano, o deputado Ron Paul respondendo a pergunta do jornalista da CNN sobre o que deveríamos fazer se um homem de 30 anos que optou por não ter convênio médico precisasse de seis meses de atendimento em UTI, disse ele que “a liberdade implica nisso: assumir seus próprios riscos” pagando pela escolha.

O jornalista então perguntou se a sociedade deveria simplesmente deixá-lo morrer! Antes de ser respondida a pergunta, a plateia explodiu entusiasticamente com aplausos e gritos histéricos de “sim, sim”!

A maioria dos cidadãos americanos não tem serviço médico (convênio ou público), porque ou não podem pagar ou porque são rejeitadas pelos convênios por serem velhos ou por terem doenças crônicas.

A liberdade de morrer se estende aos imprevidentes, aos que não podem pagar e até às crianças sem sorte.

Vimos essa realidade claramente, quando um maremoto atingiu New Orleans, inundando toda a cidade. A reportagem da época mostrou cidadãos de maioria negra desesperados pela falta de atendimento médico e pela ausência de serviços de defesa civil (bombeiros). O presidente Bush só apareceu lá uma semana depois. Qualquer semelhança com a tragédia da região serrana do Rio de Janeiro é mera coincidência.

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QUAL MODELO DEVEREMOS SEGUIR?

Depreende-se dos fatos acima narrados, que fomos por um longo período, enganados pela propaganda nacional, de que o “American way of life” (o modo de vida americano) seria um exemplo a ser seguido. A “Free to Choose” (livre-escolha) desse modelo americano resulta agora em uma crise sem precedentes, iniciada em 2008 e agravada nestes 2011. O tsunami econômico arrasta as economias da Europa, antes prósperos faróis mundiais e hoje em franca decadência.

O exemplo está aí para todos nós refletirmos sobre o país que queremos construir. Se optaremos por uma nação genuinamente brasileira, verde e amarela, ou copiada de alhures como no período português, depois voltada para a Inglaterra e por fim aos anglo-saxões americanos? Desponta no horizonte da terra a potência amarela, a badalada China com suas chagas sociais e falta de liberdade. Alguns articulistas têm defendido o modelo de crescimento chinês, que é calcado em mão de obra barata e quase zero de direitos trabalhistas e sociais.

O futuro dirá se a “Free to Choose” dos governantes brasileiros será a escolha mais acertada ou não.

 

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