O significado histórico da eleição francesa em meio ao atual excesso de polarização

O presidente da França, Emmanuel Macron, em meio a apoiadores após votar no segundo turno das eleições legislativas

Macron quebrou a polarização e consagrou a terceira via

Marcus André Melo
Folha

Após a debacle na eleição de 2017, o partido socialista (PS) francês, um dos mais importantes partidos europeus do pós-guerra, vendeu as “joias da coroa”. Explico: o PS vendeu sua sede histórica na Rue Solférino, numa das áreas mais valorizadas de Paris, para pagar as dívidas de campanha.

Nada poderia ser mais simbólico. O sistema partidário estabelecido há quase um século no país exauriu-se. A eleição contrapôs Macron, e seu recém fundado movimento En Marche, à Marine Le Pen, o que se repetiu em 2022.

FRANÇA INSUBMISSA – O PS obteve 1.8% do voto. No “terceiro turno” —as eleições legislativas desta semana— Jean Luc Mélenchon, da França Insubmissa, unificou a esquerda numa reviravolta ideológica de 180 graus. Se bem-sucedido, teria levado Macron a de fato lhe passar o bastão do executivo, conforme a prática do semi-presidencialismo no país.

Nela, presidentes governam no modo presidencialista quando contam com maioria parlamentar; e submetem-se ao primeiro-ministro, em coabitação, na ausência dela.

Macron, Mélenchon e Le Pen são, em graus distintos, outsiders: insurgiram-se contra as estruturas partidárias tradicionais. Mas a ascensão de Macron mostra que nem todos os outsiders são extremistas. Os partidos de centro-direita tiveram a mesma sorte que o PS: os gaullistas e seus satélites também encolheram.

RADICALIZAÇÃO – Há duas explicações rivais para esta transformação. A primeira foca em mudanças pelo lado da demanda: as preferências do eleitorado nas democracias avançadas mudaram, e se radicalizaram, sobretudo à direita, dando margem ao surgimento de partidos-nicho (verdes, feministas, etc.) e antissistema. (No pós-guerra estes últimos eram graúdos e estavam na esquerda, como os estalinistas PCI e PCF, que definharam).

A segunda explicação enfatiza a oferta institucional: os partidos distanciaram-se do eleitor médio. Voltaram-se para a governabilidade, tornando-se indistinguíveis uns dos outros. Resultado: filiação partidária e comparecimento às urnas despencaram.

No final dos anos 1960, a política consensual sofre grande transformação. Nos anos 1980, as divergências programáticas acentuaram-se.

POLARIZAÇÃO – Nas últimas décadas, a polarização recrudesceu, ao tempo em que sua natureza mudou; ela tornou-se fundamentalmente afetiva – ancorada na animosidade e rejeição entre rivais.

Muitos analistas, no pós-guerra, constataram a grande convergência programática entre partidos social-democratas, socialistas, democratas cristãos e conservadores. E lamentaram o cinismo cívico resultante. Afinal, a política parecia crescentemente uma farsa entre falsos rivais.

Hoje, eles lamentam que a política esteja marcada por divergências paralisantes. Antes teria havido ausência de polarização, hoje excesso dela.

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