O surpreendente Fidel Castro, chegou ao Poder em 1959, sem ser comunista. Em 1961, os EUA batiam de frente com ele por causa de uma refinaria. Teve que se aliar à União Soviética, depois de romper com Che Guevara. Agora, condena o comunismo, exalta o capitalismo

No último dia de 1958, primeiro de 1959, (foi exatamente na passagem do ano) Cuba se transformou em notícia de repercussão mundial. As tropas revoltosas, que o “marechalíssimo” Batista dizia que não tinham a menor importância, desciam das montanhas, chegavam ao centro de Havana, tomavam o Poder sem a menor resistência.

Os Estados Unidos, que desde 1898 tinham ligações com Cuba, não tiveram a menor ideia do que estava acontecendo. Completamente desinformados, ficaram felizes. Acreditavam que tudo continuaria como vinha acontecendo nos últimos 60 anos (De 1898 a esse estranho 1958).

Mas não era apenas os EUA que vibravam com a chegada de Fidel Castro e suas tropas. O Papa fazia questão de manter as melhores relações com Fidel e seu regime, que era total incógnita. Mas que ninguém, mas ninguém mesmo tinha a percepção de saber como se desenrolaria ou o que aconteceria.

Fidel Castro não era comunista, o único da família comunista ferrenho, seu irmão Raul. O editor chefe do “The New York Times” tinha casa na ilha, passava os fins de semana lá, era apenas uma escapada. Amicíssimos, não se imaginava que houvesse a reviravolta que aconteceu. E que custou a acontecer.

Em março de 1960 (praticamente um ano depois), Jânio Quadros, candidato a presidente, diante do prestígio internacional de Fidel, resolveu visitá-lo. Fretou um avião, 30 convidados. Éramos 28 jornalistas e 2 políticos. Um deputado que esperava ser Ministro da Justiça e não foi, Adauto Cardoso, e outro deputado que esperava ser Ministro do Exterior e foi, Afonso Arinos de Mello Franco. Ficamos lá 9 dias e depois mais 3 na Venezuela.

Como éramos jornalistas, políticos e um candidato que já estava eleito, mas queria ganhar na notícia, andávamos com Fidel e Che Guevara o tempo todo. Nas ruas ou então na casa do embaixador do Brasil, o conservadoríssimo (excelente figura, depois chanceler) Vasco Leitão da Cunha. Mas nunca, de longe ou uma vez sequer estivemos com Raul Castro, o irmão comunista. Não aparecia nunca, ficou sempre distante.

Duas vezes fomos colocar flores no túmulo de José Marti, o grande herói da Independência de Cuba, assaltada por tropas da Espanha, na já citada data de 1898. Os EUA, que pela vontade dos Fundadores, eram isolacionistas, entraram na guerra contra a Espanha, mais pela “vizinhança” do que por outra coisa.

A Espanha foi derrotada, os EUA garantiram Cuba, ganharam o direito de anexar Porto Rico, e pela primeira vez tiveram acesso à Ásia, ganharam as Filipinas. Para combater a Espanha, precisaram construir a base de Guantánamo, quem diria, teria destino completamente diferente.

Em 1960, Cuba já não era mais a que Fidel assumira na madrugada de 1959. Aqueles belíssimos cassinos, abertos, mas era como se estivessem fechados. As mesas de jogo, como se esperassem os jogadores, só existiam fantasmas. As ruas, desertas, os restaurantes luxuosos, mas sem ninguém para freqüentar, as mesas sem uma só pessoa. Seria o fim ou o início de alguma coisa? Só se saberia depois, mas não precisaríamos esperar muito.

O rompimento logo depois, em 1961, consequência da burrísima política externa dos americanos. Cuba precisava de uma refinaria, os EUA PROIBIRAM (a palavra exata é essa) a construção. As relações eram aparentemente ótimas, por que Cuba não poderia ter a sua refinaria? Em que isso atingia a potência EUA?

Houve o rompimento, a União Soviética, que acompanhava todo o processo de “comunização” de Cuba, (veladamente através de Raul, mas muito discretamente), negociou abertamente com Cuba. Como o país era grande produtor de açúcar que a União Soviética precisava, foi colocada a troca: açúcar pelo material para a refinaria.

Rapidamente foi feito o acordo, o açúcar chegou à União Soviética, o material para a refinaria desembarcou em Cuba. E junto com esse material, peças montáveis e desmontáveis de MISSÉIS NUCLEARES.

Cuba montava apressadamente esses MÍSSEIS NUCLEARES, os EUA não sabiam de nada. Em 1962, por acaso, aviões americanos fotografaram áreas de Cuba. Quando foram analisar as fotos, acharam alguma coisa diferente. Voltaram a fotografar as costas da ilha, descobriram os MÍSSEIS NUCLEARES, já montados.

Aí se travou a grande batalha de bastidores. Os generais russos e os generais americanos insensatos, queriam a guerra. John Kennedy e Kruschev , com medo de ficarem prisioneiros deles e mergulhares numa guerra destruidora, se entenderam nos bastidores, através de interlocutores, que palavra. Mas mantiveram o jogo de cena, iludindo os generais, os jornalistas e emocionando a opinião pública. MAS NUNCA O MUNDO ESTEVE PERTO DE UMA GUERRA NUCLEAR NESSE 1962.

E não estará jamais, todos se lembram da advertência de Einstein: “Se houver a Terceira Guerra, nuclear, a QUARTA será com paus e pedras, é o que sobrará”.

Fidel assumiu com 33 anos, dos 34 aos 84 (que acabou de completar) foram 50 anos de ditadura. Não tinha saída. Repudiado pelos americanos, precisava se aliar à União Soviética. O fato de que não houve perigo de Guerra Nuclear em 1962, era o Tratado de divisão do mundo entre as duas potências.

Uma não podia interferir no território dominado pela outra. Faziam apenas jogo de cena, quando vinha o ultimatum final, acabava tudo. Em 1968, a União Soviética massacrou a Tchecoslováquia, no que ficou conhecido na História, como “A Primavera de Praga”. Crime hediondo praticado com os americanos apenas assistindo.

1962, além do medo dos generais dos dois lados, a prioridade do interesse americano. Kennedy chegou a dar entrevista que teve a maior audiência do mundo inteiro, alertando para o PERIGO DE UMA GUERRA NUCLEAR. Assustou o mundo, sabia que isso era indispensável ou necessário.

Como não existe ditadura BOAZINHA, ou como chamam alguns que serviram a ela, de DITABRANDA, Fidel teve que cumprir as regras, não importa que exagerasse na crueldade, na selvageria, na tortura, nas prisões indiscriminadas. E o povão de Cuba não recebeu a contrapartida da perda da liberdade, isso jamais existe ou acontece.

A partir da doença e do Poder passado para o irmão, Fidel Castro começou a ver o mundo de forma diferente. Digamos que teve mais ou menos 5 anos para refletir sobre o passado, se atualizar no presente, situar-se no futuro, principalmente diante da História. A longevidade é cansativa e cara, mas permite essas mudanças.

Compreendendo que a hora é agora, depois dos 84 anos não se sabe a disponibilidade do tempo e da vida, Fidel resolveu agir. Fez contato com um jornalista importante, Geofrey Goldberg, de uma revista nem tanto, “Atlantic”. Fidel sabia que o que iria dizer teria repercussão onde fosse publicado, acertou em cheio. Só que mais uma vez na vida EXAGEROU. Pode ter sido deliberado, FALAVA PARA A HISTÓRIA.

***

PS – Só que Fidel não está credenciado a falar sobre COMUNISMO e CAPITALISMO, medir a duração de um sistema ou do outro, vaticinar qual sistema é eterno ou menos duradouro. Mesmo porque não existe COMUNISMO como possibilidade de substituição do CAPITALISMO.

PS2 – Ninguém na História falava em COMUNISMO, essa palavra só era (e é) citada por amadores. Marx é que em 1848 lançou o Manifesto do Partido Comunista.

PS3 – Quando Lênin e Trotski tomaram o Poder no fim da guerra civil de 1917, resolveram qual o nome que deveriam dar ao novo regime (e país), optaram por SOCIALISMO e SOVIÉTICO, nem imaginaram a palavra COMUNISMO. Fidel vai entrar na História, mas não precisava dizer tanta bobagem.

PS4 – O CAPITALISMO é eterno, irá sofrer modificações nos próximos tempos, (muitas, imprevisíveis) fará concessões, mas não desaparecerá por causa das considerações tolas de Fidel. O capitalismo é QUASE PERFEITO, não precisa de líderes. Funciona sem “homens-chaves”.

PS5 – Pode trocar Bush por Obama. O competente Mitterrand pelo burríssimo Sarkosy, fazer a mesma coisa no mundo todo. Já os ISMOS, precisam de NOMES, quando esses morrem, os ISMOS também morrem.

PS6 – O NAZISMO desapareceu com Hitler, o FASCISMO com a morte de Mussolini, o regime soviético com o fim de Stalin. No CAPITALISMO, morra quem morrer, viva quem viver, NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA.

Ps7 – Genial mesmo foi Marx. Além de “O Capital”, do MANIFESTO e das consequências, viu longe. E escreveu: “O sistema SOCIALISTA não sobreviverá se existir apenas num país”. Foi o que aconteceu.

PS8 – Em 1942, Stalin eliminou o Comintern (internacional), criou o Cominform (nacional), a República Soviética terminou ali. O resto foi sobrevida, FINANCIADA PELA CIA E PELA GUERRA FRIA.

PS9 – Vou escrevendo, lembrando. Há mais ou menos 30 anos, o jornalista Jean-Jacques Servan-Schreiber, editor e proprietário da importante revista semanal da França, “Le Express”, escreveu: “Eu estava na Arábia Saudita, no gabinete do Sheik, chegou Chê Guevara, perguntei rotineiramente: “Como estão as coisas?” E ele: “Não estão boas, estou indo embora”.

Schreiber diz que aceitou com resposta normal, nada importante. Meses depois, quando Fidel e Chê Guevara romperam, ele deixou o cargo de presidente do Banco Central e saiu de Cuba, Schreiber voltou a escrever, só que aí amargurado e ressentido com ele mesmo.

PS10 – Schreiber: “Compreendi que o ESTOU INDO EMBORA de Chê, era um recado para mim, não percebi nada, perdi um furo internacional. Tentei falar com  Fidel, não consegui, ele recebeu a saída de Chê com a mesma frieza com que recebeu seu assassinato, anos depois”.

Agora, depois de 50 anos de prisões, torturas e assassinatos, Fidel reaparece tentando entrar na História, como analista de regimes e ideologias, doutrinando sobre CAPITALISMO (que jamais praticou), e COMUNISMO (que sempre confundiu com irrealismo), acreditava que fosse a SALVAÇÃO DO MUNDO.

PS11 – Na verdade, o Fidel de 84 anos, procura se reconciliar com o jovem Fidel de 25, quando começou a luta, e o Fidel de 33 que tomou o Poder. E procura R-E-C-O-N-C-I-L-I-A-R seu irmão comunista como CAPITALISMO DOS EUA. Conclusão: pretende salvar Cuba, reintroduzindo-a no sistema que considera ETERNO, mas não se conforma apenas como a entrada na História, isso está garantido.

PS12 – Quer garantir a permanência no Poder, prorrogar o tempo do irmão, e satisfazer, quem sabe, a sua ânsia e vontade de ir aos EUA, sem sacrifício ou proibição. E quem sabe, ser recebido por Obama, já que os empresários americanos não querem outra coisa a não ser glorificar a Doutrina Monroe de 1800, antes dele ser presidente: “A América para os americanos”. Cuba, logicamente, incluída.

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