O tempo levou Orlando Batista, um dos grandes locutores do futebol

Pedro do Coutto

O tempo e o vento, para citar belo título de Érico Veríssimo, pai do escritor e colunista de O Globo Luis Fernando, há pouco mais de uma semana levaram Orlando Batista para outra dimensão da existência, não humana, porém eterna. Fomos amigos durante muitos anos e ele um dos grandes narradores do futebol e de confrontos esportivos os mais diversos desde 1948.

Estreava na Rádio Mauá, emissora do Ministério do Trabalho. Testemunha importante da Seleção de Ouro nas jornadas heroicas de 58, 62, 70, 94 e 2002. Presença em todas as Copas do após guerra, de 1950 a 2006. A saúde abalada impediu que fosse à Africa do Sul em 2010. Tenho a impressão, mas não a certeza, que se tornou o último dos narradores a desaparecer. Dos que, em plena era do rádio, marcaram época do futebol brasileiro.

Orlando contou a história, razão maior de sua vida, com a emoção de uma aventura épica. Ao mesmo tempo transmitindo e traduzindo para multidões o que às vezes não conseguem ver através das lentes da paixão. No final do ano passado, lá se foi Luis Mendes. Além de locutor e comentarista, historiador do futebol. O maior de todos em matéria de memória. Orlando Batista foi ao velório na sede do Botafogo. A última vez que o vi.

Tempos atrás almoçávamos frequentemente, sem marcar horário, no Yanque Brasil, Rua Rodrigo Silva, restaurante que não mais existe. Como diz a canção, na vida tudo passa. A geração Orlando Batista também passou. Já se foram Ari Barroso, Oduvaldo Cozzi, Luis Mendes, Galeano Neto, Antonio Cordeiro, Mário Provenzano, Raul Longras, Valdir Amaral, Jorge Cury, Doalcei Camargo, Clóvis Filho.

Entre os comentaristas, igualmente desembarcaram, imagem usada por Alceu Amoroso Lima, João Saldanha, Geraldo Romualdo, Armando Nogueira, José Maria Scassa, Achiles Chirol e Nelson Rodrigues. Este, mais que todos, interpretou a alma do torcedor. A emoção, que fez explodir nas páginas de O Globo e do Jornal dos Sports.

Mas eu disse que tudo passa. Todos estes que citei foram-se com o vento, mas ficaram na memória da cidade e do país. Orlando Batista foi o último a partir. Pena que não tenha deixado suas memórias. Testemunha da tribuna e dos bastidores. Ele, Ari, Cozzi, Mendes, Antonio Cordeiro encontravam-se no microfone narrando o dramático desfecho de 50.

Orlando começou em 1948, antiga Rádio Mauá, emissora que não tinha a potência da Tupi de Ari Barroso, da Mayrink Veiga com Oduvaldo Cossi, da nacional de Jorge Cury. Valdir Amaral começava como repórter na Continental antes de ir para Globo. Batista, porém, alcançou expressiva audiência com sua personalidade, voa possante, estilo marcante de narrar.

Saiu-se da concorrência duríssima. Tanto assim que assegurou o patrocínio permanente da Antártica, tornando-se presença de destaque nos almoços semanais que a empresa oferecia a seus diretores. Logo, a publicidade que veiculava atingia êxito. Foi assim por muitos anos. No país e fora dele, nas Copas e Taças disputadas pela Seleção.

Emocionou-se ao narrar a grande vitória sobre o Uruguai, 4 a 2 no Panamericano de Santiago do Chile 1952. Era a primeira investida para a desforra dos 2 a 1 no Maracanã. Tentativa de sepultar o fracasso naquele final. Outras vitórias contra a celeste olímpica se sucederiam. Em vão. A vitória uruguaia vive eternamente.

Agora, 2012, sepultamos Orlando Batista. No adeus a ele, tenho a certeza que sua imagem e seu estilo ficarão na memória e na cultura do futebol brasileiro. Para sempre.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

2 thoughts on “O tempo levou Orlando Batista, um dos grandes locutores do futebol

  1. Gostaria de saber onde anda o Luiz Orlando. Há uns anos atrás eu o vi em restaurante em Copacabana, sempre gesticulando. Nunca mais o vi. Acho que teria lugar em alguns destes programas de esporte.

Deixe um comentário para Haroldo de Castro Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *