O tempo passa, o tempo voa, e Erenice Guerra continua numa boa. Será que a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União, algum dia, num futuro mesmo distante, vão concluir as investigações?

Carlos Newton

Não foi mera coincidência: Erenice Guerra era a convidada mais feliz, saltitante e risonha, na posse da presidente Dilma Rousseff. A presença dela tinha um significado. Acabara de ser “inocentada”, porque os trabalhos da comissão de sindicância instaurada na Casa Civil, para apurar denúncias de tráfico de influência envolvendo os servidores Vinícius de Oliveira Castro e Stevan Knezevic, terminaram sem apontar nenhuma irregularidade por parte dos dois e, portanto, sem punições.

O funcionário Vinicius de Oliveira Castro é filho de Sonia Castro, que aparece como sócia de filhos de Erenice na Capital Assessoria e Consultoria. O outro servidor, Stevan Knezevic, que é funcionário concursado da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e estava cedido à Casa Civil, também era sócio de Israel Guerra. Durante o processo, Stevan portou-se de forma altamente suspeita e usou da prerrogativa de não prestar depoimento, já que, por lei, só está obrigado a fazê-lo em seu órgão de origem, no caso, a Anac.

Somente a criação dessa empresa de “consultoria”, para vender facilidades dentro do Planalto, já seria suficiente para incriminar todos eles (incluindo a própria Erenice, que era Chefe da Casa Civil, que Deus nos perdoe), especialmente pela intermediação da licença para a MTA Linhas Aéreas operar nos Correios

No dia da posse da presidente Dilma, para a exultante Erenice Guerra, era como se todas as acusações que pesam sobre ela subitamente tivessem se dissipado. E lá estava elaErenice, no meio das autoridades e convidados, dando adeusinhos aos fotógrafos. Uma presença inconveniente, não há dúvida, sobretudo porque a investigação na verdade não terminou.

As acusações envolvendo a ex-ministra aparentemente continuam sendo apuradas pela Polícia Federal e pela Controladoria Geral da União (CGU), uma vez que, como ela era titular do ministério, não podia ser investigada por uma sindicância interna. Mas teme-se que a decisão da Casa Civil, “inocentando os funcionários” seja meio caminho andado para “melar” a investigação.

E tudo caminha para isso. Na véspera da posse, numa sexta-feira, o Diário Oficial da União publicou uma portaria do então ministro Carlos Eduardo Esteves Lima para uma nova sindicância, desta vez destinada a analisar o convênio assinado em 2005 entre a Unicel e a diretoria de telecomunicação da Casa Civil para testes de um serviço móvel especializado (rádios comunicadores). Por coincidência, é claro, na época a Unicel tinha como diretor comercial o marido de Erenice, José Roberto Camargo Campos.

Mas acontece que o documento original dessa negociação não foi encontrado pelos servidores que apuraram as eventuais irregularidades. Surprendentemente, sumiu. Isso mesmo. Como num milagre de Natal, em dezembro desapareceu o documento original do convênio assinado em 2005 entre a Unicel e a diretoria de telecomunicação da Casa Civil para testes do serviço de rádios comunicadores.

Nos bastidores do Planalto, compara-se Erenice Guerra a um grande personagem de Alfred Hitchcock, no filme “O Homem que Sabia Demais”. Só que no caso do escândalo da Casa Civil a protagonista é feminina: “A Mulher que Sabia Demais”. E que, por isso mesmo, se julga inatingível.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *