O teto do Supremo continua firme

Carlos Chagas

Durante quase um século, ainda na Idade Média, os papas deixaram Roma, fazendo de Avignon, na França,  a sede da cristandade. Para não dizer dissolutos, os costumes eram mais ou menos livres, a começar pelos cardeais, verdadeiros príncipes da Igreja.  Um belo dia morreu o Papa e eles  reuniram-se em concílio para escolher o sucessor,  mas nada de chegarem a um consenso. Também, para que? A vida transcorria entre festas,  banquetes, impasses calculados  e  tentativas  de suborno que aumentavam a bolsa de cada um. Foi quando o rei Felipe, da França, que tinha o seu candidato,   mandou os soldados seqüestrarem  os  cardeais, prendendo-os numa capela nos subúrbios da cidade, com uma peculiaridade: não havia teto e as portas e janelas tinham sido muradas. Estavam Sua Eminências expostos ao sol, ao sereno, à chuva e à neve. Uma vez por dia recebiam pequena quantidade de pães  e o alerta de que nem isso teriam, caso não escolhessem rapidamente o novo Papa.  Escolheram, é claro.

Essa história se conta, com todo o respeito, a propósito  do Supremo Tribunal Federal.  Claro que guardadas as proporções. A mais alta corte nacional de justiça não decidiu se a lei da ficha limpa vale ou  não vale para as eleições de amanhã, deixando eleitores e candidatos em  grandes dúvidas. Ignora-se quando decidirá, provavelmente depois que o presidente Lula designar o último cardeal, perdão, o décimo-primeiro ministro que falta para completar a corte e evitar a continuação do empate de 5 a 5 lá registrado. Cada dia que passa aumenta a perplexidade nacional.   Afinal,  dúvidas constitucionais são para ser dirimidas pelo Supremo, assim como a escolha dos papas cabe aos cardeais.

Felizmente não temos rei, mas, se o impasse persistir,  quem sabe algum ministro, no plenário,  olhe para o alto  e dê graças a Deus porque o teto continua lá…

INTERFERÊNCIA TELEFÔNICA?

Um repórter da Folha de S. Paulo jura ter visto e escutado o candidato José Serra pedir a um auxiliar que  providenciasse  ligação celular-telefônica para o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Era a tarde de quarta-feira e a mais alta corte nacional de justiça apreciava recurso do PT contra a obrigatoriedade de os eleitores,  para poder votar  amanhã, apresentarem  o título e mais um   documento qualquer, com fotografia.  A decisão já contava com sete ministros contrários à dupla exigência.  Coincidência ou não, depois de receber  telefonemas, como todos os demais ministros recebem durante os julgamentos,  Gilmar Mendes pediu vista do processo e adiou seu voto.

Tanto  Serra quanto o ex-presidente do Supremo negam que se tenham falado, mas não deixa de ser significativo que os tucanos sustentem a manutenção da necessidade dos dois documentos e os companheiros agora  se insurjam contra ela. Complicações prejudicam  eleitores mais modestos.

BIRUTA DE AEROPORTO

Empenham-se os institutos de pesquisa, esta semana, em apresentar diariamente os últimos números apurados junto à pequeníssima fração do eleitorado que conseguem consultar. Assim, os números não batem, sequer os de cada instituto com ele mesmo, pois  o  divulgado   na véspera colide com o mostrado no dia seguinte.  “Dilma caiu”, “Dilma parou de cair”, “Dilma continua onde estava”, “Serra cresceu”, “Serra estacionou”, “Marina subiu” e outras conclusões tem sido apresentadas  pelos veículos de comunicação e pelas próprias  empresas encarregadas das consultas, tudo sem o menor respeito à inteligência do  eleitor.  Será que imaginam estar o cidadão comum acreditando na dança dos percentuais, como se a população se assemelhasse a imensa biruta de aeroporto, ao sabor  do vento? Na verdade, quem quiser aferir as tendências e até as decisões já tomadas por 135 milhões de eleitores, em 5.583 municípios do país, deve esperar a abertura das urnas, amanhã à noite. Ficar imaginando acertar,  depois de consultar quatro mil eleitores em duzentos municípios, ou é presunção descabida ou vã tentativa   de influenciar a voz do eleitorado.

VER TUDO COMEÇAR DE NOVO?

Em sã consciência, poderá ser preso como boateiro ou doido quem afirmar, hoje, que vamos ou não vamos ter segundo turno nas eleições presidenciais. O problema   é que,  se tivermos, deve o cidadão comum preparar-se para mais algumas semanas de sofrimento.  Voltará a execrável propaganda gratuita no rádio e na televisão, como de novo ganharão as ruas os abomináveis carros de som, além das falsas tertúlias entre candidatos – no caso apenas dois no plano federal e nos estados onde não tiver havido vitória na primeira eleição para governador.  Sem esquecer os debates com as mesmas regras coercitivas anteriores, a empáfia de boa parte dos  mediadores e o canhestro aproveitamento da fala de cada um conforme as tendências partidárias e econômicas do veículo de comunicação que for comentá-los.

Ainda bem que eleições gerais,  só de quatro em quatro anos…

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