O Tio Filé e a viúva

Sebastião Nery

Filemon Teles, o Tio Filé, presidente da Assembléia Legislativa do Ceará, recebeu pedido de um amigo da Paraíba, também deputado, para amparar um criminoso que fugira de lá e estava chegando ao Ceará. Tio Filé encaminhou o paraibano para o coronel Amâncio, do Cariri, poderoso chefe político do Crato.

Algum tempo depois, Tio Filé encontrou o coronel Amâncio:

– Como é, compadre, resolveu o problema do rapaz da Paraíba?

– Está tudo certo, já está trabalhando e é um homem de confiança para serviços de responsabilidade. Foi uma boa aquisição.

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TIO FILÉ

Tio Filé agradeceu, já ia saindo, voltou:

– E os documentos dele, como é que você fez?

– Fiz um atestado de óbito dele no cartório do Crato e mandei a certidão para a Paraíba. Aí, aquele ele se acabou. Depois, fiz um registro novo para ele no mesmo cartório, com outro nome. E ele virou um homem novo.

– E a mulher dele?

– Ora, compadre, a viúva casou com o novo.

E o Sertão do Cariri ganhou mais um cidadão de confiança para serviços de responsabilidade.

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CLASSE MÉDIA

Economistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) usaram a receita do coronel Amâncio em 2008 e resolveram o problema da pobreza no País. Foram ao cartório do governo Lula, fizeram um atestado de óbito para a nossa classe média, acabaram com ela, arranjaram um registro novo, com números novos e ela virou uma classe média nova, muito mais vasta e numerosa.

E a classe média, de uma hora para outra, virou um truque “de confiança para serviços de responsabilidade” na propaganda do governo. Mais do que um truque, uma fraude.

Assim, em 2008 decidiram que “um lar da classe média” é o que tem renda de R$1.064 a R$4.591. E, num toque de mágica, 52% da população brasileira passaram a ser classe média. Abaixo disso, é pobre ou miserável. Acima de R$ 16 mil, é rico.

Só mesmo muito óleo de peroba para dizer que renda de mil reais (!) colocava uma família na classe média. São pouco mais de dois salários mínimos. Era a mensalidade de grande parte das faculdades particulares ou dos planos de saude. No Rio, era salário da imensa maioria das empregadas domésticas, cozinheiras, arrumadeiras. A FGV perguntou se elas são da classe média?

O senador Sarney, com cinismo classe alta, comemorou para “puxar”:

– “É uma grande mudança. Viramos um País de classe média. E a boa notícia chega também para os ricos, que cresceram de 11,61% para 15,52%”.

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NA ARGENTINA

Clóvis Rossi (Folha) tem razão: – “A Argentina é um tiquinho mais exigente: para ser classe média, a família precisa ter renda mínima equivalente a R$ 1.830. Pois bem: 70% dos argentinos pertencem à classe média”.

– “É uma baixaria. Fiquei revoltado quando vi a notícia na TV. A classificação é vazia e mentirosa”, diz João Galdino, presidente da Associação de Moradores da Vila Progresso, no Rio”(Elvira Lobato, Folha).

O “novo rótulo” foi uma brutal e indisfarçada fraude, uma farsa: – 52% de classe média, 15% de ricos e 33% de pobres e miseráveis.

E ainda vão casar a viúva, o povo brasileiro, com o novo, com a mentira.

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