O trem-bala não passa de uma brincadeira provinciana de um governo que não sabe distinguir quais são os verdadeiros interesses nacionais.

Carlos Newton

É inacreditável a insistência do governo em implantar o trem-bala. Depois do fracasso do leilão de segunda-feira, esperava-se que o Planalto colocasse o pé no freio e diminuísse a velocidade do insano projeto. Mas não. O governo comporta-se como se estivessem de antolhos e não pudesse olhar para os lados.

A solução foi bestial, como dizem nossos irmão lusitanos.A Agência Nacional de Transportes Terrestres decidiu dividir em duas a licitação. Vai licitar primeiro o modelo de tecnologia (coreano, japonês ou europeu, por exemplo). Depois de definida a tecnologia, será feita a licitação das obras de engenharia.

O governo não tem nem ideia do preço da obra, nesse país ainda com bolsões em tudo carentes. Os “especialistas” avaliam que assim ficará mais fácil estimar o custo da empreitada, que deverá ser aberta para participação de construtoras internacionais. É muito amadorismo, não é mesmo?

“Não estão previstas mudanças estruturais no novo edital, previsto para ser lançado até outubro, nem novos cálculos econômicos”, afirmou o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Bernardo Figueiredo.

“Não estou mudando a essência, só a forma de licitar”, alegou Figueiredo, que estima o valor total da obra em R$ 33 bilhões – aproximadamente R$ 9 bilhões para equipamentos e operação e R$ 24 bilhões para obra. “Não vamos desfigurar o projeto para atender um perfil de empresas”, argumentou.

Como todos sabem, o leilão do trem da alta velocidade fracassou porque nenhum grupo se apresentou na concorrência. Segundo o “especialista” Figueiredo, que tem explicações para tudo, o fracasso foi motivado pela dificuldade das empresas detentoras de tecnologia de formar aliança com as empresas de construção nacionais. Por isso o governo acredita que, fatiando o processo, o leilão será um sucesso.

Apenas grupos que detêm tecnologia, e que estavam interessados em atuar como fornecedores, estiveram na Bovespa para verificar se havia ou não interessados no empreendimento. Compareceram grupos da França, do Japão e da Coreia do Sul, além de dois outros que nem quiseram se identificar.

Na verdade, sempre ansiosos em agradar a quem está no poder, as autoridades do segundo escalão do governo brasileiro não medem esforços. Defendem os projetos mais idiotas, aplaudem as ideias mais estapafúrdias, incentivam as propostas mais escalafobéticas, porque vale tudo para bajular os poderosos, até mesmo se expor ao ridículo.

É o que está acontecendo com o economista Luciano Coutinho, presidente do BNDES, que se prepara para abrir os cofres do banco estatal e subtrair-lhe dezenas de bilhões de reais, a pretexto de financiar essa nova brincadeirinha do governo Lula Rousseff. Para justificar tamanho desperdício num país com tantas necessidades básicas, afirmou o consagrado economista:

“O trem-bala é um projeto da maior importância, porque seu percurso vai unir os três maiores aeroportos do Brasil, em São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro”.

Diante dessa declaração lapidar, pode-se concluir que, com pensadores como Luciano Coutinho, não há trem-bala que consiga conduzir o Brasil para a frente. Afinal, qualquer criança sabe que o veículo de transporte que liga os aeroportos é o avião, jamais o trem.

É tudo muito prático e funcional. Poderemos dizer que, agora sim, os maiores aeroportos estarão realmente “interligados”. Isso porque vivemos num país governado por políticos moderninhos e provincianos, que sonham em imitar tudo que veem nos países estrangeiros, ao invés de raciocinar sobre as verdadeiras necessidades brasileiras.

Se ainda estivéssemos no regime militar, o ministro Juracy Magalhães resolveria a questão com apenas uma frase. Ao invés de proclamar “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, ele faria o percurso contrário e diria: “O que não é bom para os Estados Unidos, não é bom para o Brasil”.

Ora, se a Matrix mundial segue se recusando a adotar a novidade, por ser antieconômica e não resolver nada em matéria de transportes, porque a Filial aqui continua querendo enveredar por outro ramal? Por que não aproveitar essa gigantesca verba para melhorar as ferrovias ainda existentes e recuperar as que foram extintas?  Ou melhorar os aeroportos, portos e rodovias, diminuindo o chamado Custo Brasil?

O mais interessante, no caso, é a incrível velocidade com que aumenta o valor do trem-bala brasileiro. Quando se lançou a idéia, a obra custaria cerca de R$ 10 bilhões e seria inteiramente custeada com recursos privados. Antes mesmo de ser projetada, rapidamente já estava em R$ 33 bilhões. Mas ainda é pouco, porque nem apareceram interessados. E todos sabem que a infeliz iniciativa não sairá por menos de R$ 50 bilhões, vejam só como funciona essa espantosa máquina de sugar dinheiro público.

Quando lançou o projeto, o maquinista Lula estava encantado com o trenzinho de brinquedo e logo criou uma estatal, com capital inicial de modestos R$ 3 bilhões, para administrar a obra e 80% de seus investimentos, que serão financiados pelos cofres subsidiados do BNDES.

Mas a obra, de prioridade duvidosa diante de tantas outras carências nacionais na área da infraestrutura, só terá algum concorrente em leilão, nos moldes em que está organizada, se o governo entrar com todos os recursos. Os ditos interesses privados somente aflorarão com muito incentivo púbico, tal o espírito de aventura e a falta de planejamento que caracterizam o velocíssimo projeto.

Na verdade, o trem-bala não passa de uma brincadeira provinciana de um governo que não sabe distinguir quais são os verdadeiros interesses nacionais. É por isso que já está sendo chamado de “trem-bala perdida”.

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