O Trono do patrono

Sebastião Nery

Estrasburgo (França) – Velhinho miúdo de cabeça grande e longos cabelos e bigodes brancos, ele não nasceu aqui. Foi perto daqui, do outro lado do Reno, na Alemanha, onde o Meno se encontra com o Reno, em Mainz, que portugueses, espanhóis, italianos chamam de Moguncia. Nasceu em 1400 e também não morreu aqui, mas na sua Mainz, em 1468.

Mas é aqui, à beira do Reno, nesta maravilhosa Estraburgo, que já foi romana, germânica, alsaciana, francesa, alemã, de novo francesa e ocupada quando Hitler ocupou a França, que está seu trono, todo em bronze, no meio da praça, sobre um pedestal, segurando uma página de sua primeira Bíblia:

– “Et la lumière fut”. “E a luz se fez”.

E Gutenberg iluminou para sempre a humanidade, criando a imprensa.

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GUTENBERG

E, como geralmente a imprensa, sempre perseguido. Viveu correndo entre Mainz (Moguncia) e Estrasburgo. Operário modesto, empregado nos fundos do palácio do arcebispo, começou a fazer pesquisas, tomou dinheiro emprestado, que não pagou, e por isso foi perseguido. Um dia inventou uma maquina tosca que acabou derrubando todo o império da Igreja Medieval.

É arrepíante entrar na pequena oficina, lá da sua Mainz (Moguncia), em que ele pesquisou 25 anos seguidos, para afinal, em 1432, 500 anos antes de eu nascer, editar pela primeira vez uma pagina impressa. Nos mais mínimos detalhes, foi criando um a um os tipos gráficos, fazendo a composição à mão, inventando a prensa de imprimir. Ameaçado por motivos políticos, fugiu aqui para Estrasburgo e trabalhou como ourives.

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BIBLIA

De volta a Mainz em 1448, em 1455 terminava a primeira edição de um livro: a Bíblia, que por isso se chama a “Biblia de Moguncia” Apesar disso, de escolher a Bíblia para primeira obra impressa, acabou novamente perseguido. Tomaram-lhe os exemplares impressos, expulsaram-no do palácio, prenderam-no, alegando que não havia pago as dividas.

Na verdade, a nobreza e o clero medieval sabiam que ali estava o fim de seu brutal Imperio de mil anos. Gutenberg, o velhinho miúdo de cabeça grande, tinha dado à humanidade seu melhor pedaço de pão: a palavra impressa, onde ela poderia alimentar a liberdade de pensar e de existir.

Seu monumento é de 1840, quatro séculos depois de sua invenção. Numa cidade bem própria: além de belo e poderoso centro cultural, Estrasburgo é a capital política da Europa, sede do Conselho da Europa e do Parlamento Europeu. Em Bruxelas funciona o Poder Executivo da União Européia. Mas as decisões políticas, coletivas, são tomadas aqui.

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ESTRASBURGO

A França teve razão de lutar séculos por ela, disputando-a com a Alemanha. Estrasburgo é contemporânea da humanidade. Desde a Idade de Bronze já morava aqui uma comunidade de pescadores. Conquistada pelos romanos, que a chamaram de “Argentoratum”(“cidade de prata”), no ano 12 antes de Cristo, logo virou posto militar para vigiar as tribos germanicas.

Conta a historiadora Annamaria Giusti :

– “Na Idade Media, a maior autoridade eram os bispos. Em 1262, foi liberada da tutela dos bispos. Em 1300, construíram uma ponte sobre o Reno, para negociar madeira, vinho, algodão. No século 15, transformou-se numa Republica Livre, governada por um Conselho de Representantes. E logo aderiu à Reforma Protestante, virou polo cultural com a presença de pensadores, pregadores e perseguidos políticos da França, Itália, Suíça, etc”.

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HITLER

Em 1697, foi anexada ao reino da França. Em 1870, o novo Império Alemão, para fazê-la capital da Alsacia-Lorena, bombardeou e destruiu grande parte de seus monumentos. Acabada a Primeira Guerra, passou a ser França de novo. Em 1940, Hitler a ocupou, quando ocupou a França. Em 1944, foi a vez dos americanos. Em agosto e setembro, já Hitler cercado em Berlim e derrotado, os americanos, com sua estupida política militar de ocupar a Europa antes dos russos,bombardearam-na brutalmente, “fruto de grave erro que custou muitas vidas francesas e danos à cidade”.

A grande jóia de Estrasburgo é a deslumbrante catedral, “um dos monumentos mais maravilhosos do gótico europeu”, que o poeta Paul Claudel chamou de “o grande Anjo rosa de Estrasburgo”, construida de 1236 a 1275. É rosada, no centro, construída no perímetro da antiga cidade romana, sobre as ruínas de um templo dedicado a Mercúrio e em 550, igreja.

O Relógio Astronômico da catedral é por si um monumento, com um Cristo expulsando a morte, representada por um esqueleto, a cada quarto de hora e abençoando as quatro idades da vida. Um carro passa mostrando o dia da semana. E também as horas, o mês, o ano e outras informações astronômicas em um enorme globo terrestre. Ao meio dia os apóstolos desfilam diante de Cristo e se inclinam, recebendo a benção, enquanto um galo abre as asas e canta. Cristo volta-se para a praça e abençoa a todos.

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