O uísque e o retrato

Sebastião Nery

Paulo Maciel, professor de sociologia e reitor da Universidade Federal de Pernambuco, deputado, primo de Marco Maciel, logo depois do golpe de 64 foi nomeado presidente do IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool) pelo presidente Castelo Branco. Veio para o Rio, começou a trabalhar.

O IAA era sinônimo de Pernambuco. Sendo também ele um filho quatrocentão de Recife, Paulo Maciel conhecia todos os usineiros do Estado. No fim do ano, começaram a chegar a seu apartamento, na zona sul do Rio, caixas de uísque de seus amigos usineiros, como presentes de Natal.

Ele não bebia, não gostava dos presentes, mas não podia fazer nada. E o uísque chegando e a mulher dele guardando no quarto dos fundos. Passou o Natal, o Ano Novo, aquelas caixas ali empilhadas. Fazer o que? A mulher, muito naturalmente, resolveu livrar-se daquele uísque todo: pôs um anúncio mínimo nos classificados do Jornal do Brasil: “Vende-se uísque escocês”.

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PAULO MACIEL

E o endereço muito bem explicado. Antes do meio-dia, Paulo Maciel trabalhando no IAA, chegam dois senhores bem vestidos, terno e gravata:

– A senhora anunciou uísque escocês para vender? Quantas caixas são? De que marca? Podemos ficar com tudo.

– Pois não. Entrem e vejam lá dentro. Há muitas caixas, meias caixas e algumas garrafas isoladas. Nunca somei.

Os homens foram, contaram tudo, anotaram tudo, chamaram uma Kombi pelo telefone, mandaram descer as caixas:

– Quanto é, minha senhora?

– Tanto.

– Infelizmente, não podemos pagar. Somos da Policia Federal.

Paulo Maciel ficou com ódio de presente de usineiro.

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RETRATO DE GEISEL

Madalena trabalhava em Realengo, subúrbio do Rio, empregada na casa do doutor Otacílio, advogado e cabo eleitoral da Arena. Doutor Otacílio ajudou na eleição do deputado Nina Ribeiro, que lhe conseguiu um retrato, com assinatura, moldura e tudo, do presidente Geisel. Pôs o retrato logo na entrada do escritório, como homenagem e prova de prestígio.

Madalena era mãe de Joãozinho, quatro anos, menino travesso, que subia e descia das janelas como um trapezista. Madalena ficava em pânico quando ele subia nas janelas. Uma noite, doutor Otacílio chegou em casa, foi direto para o escritório. Percebeu que o retrato de Geisel não estava na parede:

– Madalena, onde é que está o retrato do presidente?

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JOÃOZINHO

Madalena ficou lívida. Doutor Otacílio ouviu o choro de Joãozinho:

– Por que é que o menino está chorando?

– Pus de castigo, doutor. Ele está levado demais. Não sai de cima das janelas. Uma hora dessas cai lá embaixo e morre.

Doutor Otacílio foi lá dentro tirar Joãozinho do castigo. Encontrou-o em prantos e o retrato do presidente Geisel na parede do quarto:

– O que é que a fotografia do presidente está fazendo aqui, Madalena?

– Doutor, é o castigo. O Joãozinho tem pavor desse retrato. Eu prendo o Joãozinho, ponho o retrato, ele chora, mas logo depois fica bonzinho. É a única coisa de que ele respeita. Só fica bom com o retrato desse homem.

O retrato de Geisel amedrontava mais do que a Polícia Federal.

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