O vencedor do debate

Carlos Chagas

Impressionar-se com o último livro que leu  acontece com muita gente, em especial os  jovens. O tempo, depois, se as leituras continuam, encarrega-se de ir deixando marcas e lembranças capazes de formar um conjunto ordenado, racional e  menos influenciável.

Assim deveria acontecer na campanha presidencial,  diante da rotina dos candidatos, mas, pelo jeito, eles, seus assessores e até os jornalistas  voltam-se  para os acontecimentos de ontem  como se  caracterizassem definitivamente  a sorte da eleição.   Sejam pesquisas, declarações infelizes, denúncias,  sucesso em algum comício,  reuniões proveitosas ou debates,  os fatos da véspera  fazem  as cabeças.

Vale  apostar que na sexta-feira, pela manhã, muita gente estará considerando eleito o candidato que tiver se saído melhor no debate da noite de quinta-feira, na TV-Bandeirantes. Tanto faz se tiver sido Dilma ou Serra, ainda que Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio possam ter superado os demais. É bom ir com calma, não só porque outros debates virão. A continuidade da campanha é que levará o eleitor  à decisão final.

Assim, parece precipitado apregoar que o vencedor do debate já ganhou a eleição, como certamente se ouvirá nas esquinas e se lerá nas colunas.  Precipitação, paixões e interesses variados costumam  induzir as pessoas a erro.

Tiraram o tapete

Deve o  Lula estar irritado com a  resposta seca e mal-educada do ministério de Relações Exteriores do Irã diante da proposta de ser enviada para o Brasil e não apedrejada em Teerã a mulher lá condenada à morte por adultério. Porque além de haver demonstrado humanidade, nosso presidente moveu mais uma peça no xadrez da política internacional.   Parece que  perdeu uma torre ou um bispo. Aceitar a sugestão brasileira teria sido, para os aiatolás,  uma prova de boa vontade. Uma evidência de que não são assim tão radicais nem medievais.

Ao contrário, o porta-voz da chancelaria iraniana chamou o Lula de desinformado, sem conhecer suficientemente o caso envolvendo a infeliz Sakinah Ashtiani. Ora, que “caso” levaria o governo daquele país a  matar uma mulher a pedradas em pleno Século XXI? Se agem dessa forma num episódio que nem geraria  processo criminal no resto do mundo, como agirão quando tiverem dominado a tecnologia nuclear capaz de levá-los a possuir a bomba? Ao primeiro sinal de crise vão jogá-la em cima de alguma cidade.

Em termos de Irã, deve o Brasil fechar a janela e nem olhar mais para aquelas bandas.

Cadeia neles…

O caos nos aeroportos aconteceu agora por conta da empresa Gol, responsável por cancelar num único dia trezentos vôos marcados e pagos pelos indigitados passageiros.  Para eles, intermináveis horas de espera, obrigados a dormir no chão e a receber maus-tratos de funcionários desqualificados, que nem informar sabiam.

Tem solução? Tem. Primeiro, multar a Gol e intimá-la a indenizar a multidão de prejudicados. Em seguida,  cassar-lhe a concessão,  levando seus proprietários à barra dos tribunais. Cadeia neles, pelo descumprimento dos contratos.

E depois? –  perguntarão os cultores da prevalência do mercado e do neoliberalismo.  Depois, que o poder público avoque a função de administrar o transporte aéreo, porque pior do que  a iniciativa privada vem fazendo não é possível.  Ou a Força Aérea Brasileira, estatal, não funciona exemplarmente, apesar da falta de recursos?

Os candidatos e os partidos

Se o PT aumentar suas bancadas no Congresso, terá sido mais pela presença do Lula do que de Dilma  Rousseff na campanha. Aliás, a eleição da candidata está na razão direta da popularidade do presidente.

No reverso da medalha, se o PSDB  perder deputados e senadores, a queda será debitada a José Serra. Pelo menos, é como raciocinam alguns dirigentes do partido.

Lá e cá, erros há. Porque  a diminuição ou ampliação das bancadas depende muito mais da performance dos diretórios estaduais.  Companheiros e tucanos votarão  nacionalmente nos estados para escolher o próximo inquilino do palácio do Planalto, mas para seus representantes no Congresso, pesarão muito mais os  fatores locais. Até porque, poderá acontecer a ironia: Dilma eleita e o PT menor. Ou Serra vencedor e o PSDB minguado. Sem candidato presidencial, não é por aí que o PMDB pretende continuar mandando no Legislativo?

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