O voto e o povo, o candidato e o presidente, após as promessas eleitorais

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro – ótima matéria de Dimitrius Dantas, O Globo de terça-feira, procurou rebater as críticas sobre o seu alinhamento político e disse que os eleitores que o levaram à vitória em 2018 sabiam que ele fazia parte do bloco do Centrão. Não é exata a afirmação. Pelo contrário, Bolsonaro elegeu-se anunciando um posicionamento exatamente contrário à ideologia do Centrão, ou melhor,  à fisiologia do centrão, como algo nocivo ao país e à democracia.

As afirmações de agora colocam em destaque a divergência entre o candidato de 2018 e o presidente da República que assumiu em 2019 e repete a política que condenava no poder. Decepcionada, uma parte substancial de eleitores e eleitoras foram atingidos pela vontade de buscar o voto de volta. Mas é tarde. Urnas agora só as de outubro deste ano.

PROGRAMA IDÊNTICO – O fenômeno de arrependimento não é novo. Ocorreu com Dilma Rousseff ao conquistar o seu segundo mandato nas eleições de 2014. Ela acusou Aécio Neves de ter um programa economicamente liberal e contrário aos interesses populares. Entretanto, reeleita passou a colocar em prática programa absolutamente idêntico. Os eleitores também quiseram buscar o voto de volta. É o risco que envolve o povo e o voto.

O risco dos candidatos , uma vez vitoriosos, assumirem na Presidência o comportamento oposto ao anunciado nas campanhas eleitorais existe. O voto e o povo, por sinal, é título de um livro meu publicado em 1966, o qual focaliza a diferença de comportamento político entre os grupos de renda mais alta e os segmentos de renda menor. Mas essa é outra questão.

CAÇA AOS VOTOS – O fato é que temos que reconhecer que na propaganda política ou partidária, os candidatos têm que dizer aquilo que os eleitores e eleitoras querem ouvir. Afinal de contas, os candidatos estão pedindo votos e não se pode pedir alguma coisa quando na formulação que está solicitando contraria de antemão os que estão sendo solicitados a comparecer às urnas.

É um risco democrático, mas não há o que fazer. O caso, entretanto, é de sensibilidade para com os limites do possível já que a política em si é a arte do possível. Por isso, quando uma promessa é flagrantemente exagerada, os eleitores e eleitoras devem desconfiar.

Conforme escrevi recentemente, não foi o caso do ex-juiz Sergio Moro que recebeu o Ministério da Justiça livre de pressões partidárias, acumulando até no seu esquema de atuação o Coaf, ponto profundamente nevrálgico às articulações entre setores políticos, setores administrativos e setores empresariais. Era poder demais e por isso a promessa durou pouco. Moro deveria ter percebido. Mas não o fez.

ARREPENDIMENTO – O presidente Jair Bolsonaro parece ter se arrependido do veto total que aplicou ao projeto que financiava dívidas tributárias de pequenas e microempresas. É o que revela a reportagem de Daniel Giulliano, O Globo de ontem. Tanto assim, que primeiro Bolsonaro admitiu que o seu veto será derrubado. Um fato inédito.

O autor manifesta-se certo de que o Legislativo vai anulá-lo. Assim mostra que não tinha a menor certeza da repercussão de seu ato. O projeto que o governo tenta agora reviver ou aguardar a quebra do veto, permitia o parcelamento de R$ 50 bilhões de dívidas. A quantia é alta, mas a fração relativa ao orçamento é pequena.

VETO – Bolsonaro diz que não pode responder processo por crime de responsabilidade fiscal, e por isso vetou a matéria. Mas depois de conversar com o ministro Paulo Guedes, admitiu a edição de uma portaria para atender a 75% dos pequenos e microempresários. Surpreende o caminho de uma portaria capaz de mudar partes de uma lei.

Portaria é um ato ministerial, as leis e os decretos têm que ser sancionados pelo presidente da República. Só ele pode assinar decretos e reconhecer leis. O presidente da República não pode editar portarias. Trata-se, conforme disse há pouco, de outra escala na administração.

EXPLICAÇÕES DO BC –  O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, publicou na tarde de segunda-feira, a sexta edição de sua carta anual para explicar porque a inflação de 2021 atingiu praticamente o dobro da meta de 5%. Ele diz que o fenômeno inflacionário é mundial, mas esquece que os reajustes aplicados à Selic, que agora está na escala de 9,25% ao ano, voltaram-se para a expectativa de conter a inflação. A primeira meta inflacionária de 2020 para 2021 era de 3,75 %. Depois a meta passou para 5,2% e acabou em 10,6%.

As teorias no papel são uma coisa. Na prática são outras. O papel aceita tudo, agora as telas do computador também. Mas a realidade prevalece. As perspectivas inflacionárias são elevadas, basta dizer que hoje, quarta-feira, sobem novamente os preços da gasolina e do óleo diesel.

DÍVIDA INTERNA –  Os economistas Bruno Funchal e Jeferson Bittencourt, dois integrantes da equipe do ministro Paulo Guedes, em declarações a Manuel Ventura, O Globo de ontem, citaram a alta da dívida interna brasileira como um freio ao avanço do PIB. Eles manifestaram essa opinião no fórum de debates promovido pelo Instituto Millenium, identificando o crescimento da dívida como contrário à retomada econômica do país.

Frisaram que nos últimos dez anos a dívida interna que era de 62% do PIB chegou e hoje encontra-se na escala de 82%. O Produto Interno Bruto, digo, atinge a escala de R$ 6,6 trilhões. Sobre esses R$ 6,6 trilhões incide a taxa Selic de 9,25% ao ano.  O custo da rolagem do endividamento é de R$ 540 bilhões a cada 12 meses, segundo Funchal e Bittencourt.

Quando se fala em percentagem para termos a dimensão correta tem que especificar sobre que número absoluto incide. Era um dos pontos fundamentais defendidos pelo ministro Roberto Campos, avô do atual presidente do Banco Central.

PRODUÇÃO INDUSTRIAL  – Daniela Amorim e Vinicius Neder, o Estado de S. Paulo de segunda-feira, destacam a retração verificada nos últimos 10 anos pela produção industrial brasileira. Trata-se, disseram, de uma década perdida, sobretudo porque com a inflação alta, a participação industrial no Produto Interno Bruto encolheu 33% e reduziu 800 mil empregos.  Os dados são do IBGE, comentados por André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE.

A retração industrial é uma consequência também, a meu ver, da queda do consumo, já que só se produz aquilo que se comercializa, e é assim absorvido pelo mercado nacional. O Estado de S. Paulo, segunda-feira, publica também reportagem de Adriana Fernandes sobre o pensamento de Bruno Funchal e Jeferson Bittencourt a respeito do endividamento interno do país.

3 thoughts on “O voto e o povo, o candidato e o presidente, após as promessas eleitorais

  1. Vamos aos fatos: como militar Bolsonaro foi uma nulidade, como deputado federal novamente uma nulidade e como presidente confirmou tudo o que se sabia quanto as suas incapacidades, promovendo um desgoverno igual ou maior que o do segundo mandado de Dilma. Votei nele para desabancar do poder a ORCRIM que sugou a nação nos anos PTralhas, mas diante de tanto descalabro a única possibilidade desse país não voltar para as mãos de Lula e seu bando reside em Sergio Moro. É o que temos.

  2. Sylvio, o problema da ‘anta’ foi não ter entendido o que o seu criador pensava para ela.
    Lula sabia, pelo Meirelles, o que estava vindo pela frente, no caso dos subprimes, de 2008. Não quis frear a economia naquele momento e continuou com o pé no acelerador da economia, para garantir seu sucessor, que aí sim teria forçosamente que dar o ‘freio de arrumação’ o que os ‘dilmistas’, provavelmente o Aluísio Mercadante com ‘bronca’ do Lula, se opôs. A ‘anta’, ao invés de aceitar o ‘bom conselho’ do seu criador e colocar o Meirelles na economia, preferiu seguir os maus conselhos e colocou o ‘manteiga’ para ministro e aí, colheu o fruto no seu segundo mandato que foi muito amargo.
    Agora, Sylvio, afirmar que o ‘tosco’ é uma nulidade é distorcer a realidade, pois se o ‘tosco’ fosse uma nulidade, não sairia como tenente e hoje está rico, junto com seu clã; dito isto podemos afirmar que ele não é uma nulidade e sim uma negatividade para o país.
    PS: E bota negatividade nisso.
    Bom dia fraterno irmão.

  3. Meu voto no segundo turno, será terrível mas, vou com o ‘bom ladrão’ pois ele foi absolvido na última hora, pois se arrependeu dos ‘mal feitos’.
    Falta o cidadão acima de qualquer suspeita, dizer-se arrependido realmente.
    PS: Sei que isto nunca acontecerá nesta encarnação.

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