O voto secreto e o coronel Chico Heráclio

Resultado de imagem para voto secreto charge

Charge do Mário, reprodução da Tribuna de Minas

Sebastião Nery

Chico Heráclio, o mais famoso coronel do Nordeste, mandava e desmandava em Limoeiro, Pernambuco.Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria. Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito:

– Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa: – Em quem foi que votei?

– Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

GUETO – No mundo existem 236 países. Em 205 é adotado o voto facultativo como tradição democrática. Já o voto obrigatório fica em um “gueto” de 31 países, a maioria na América Latina, onde imperam as oligarquias, aliadas do atraso e da antimodernização. Entre as 15 maiores economias do mundo, só no Brasil o voto é obrigatório. A totalidade dos países desenvolvidos, ao adotar o voto facultativo, demonstra que esse devia ser o caminho da sociedade brasileira.

Pesquisa do DataFolha mostra que 64% dos brasileiros são contra o voto obrigatório. A Agência Senado consultou 2.542 brasileiros e encontrou 85% de apoio ao voto facultativo.

O voto é um direito da cidadania, não um dever, como exige a atrasada legislação eleitoral brasileira. O percentual recorde de abstenção, mais nulo mais branco, na última eleição municipal, deixou lição que precisa ser aprendida. O desprezo pelo voto obrigatório, de acordo com a Ecopolítica (do Tribunal Superior Eleitoral), foi de 43% em Belo Horizonte; 42% no Rio e 38% em São Paulo. O recado das três capitais estende-se por todo o País.

Em São Paulo, o prefeito João Dória foi brilhantemente eleito no primeiro turno, com o total de 3.085.167 votos. Já a abstenção, o voto nulo e os brancos foram superiores: 3.096.304 nulos. O total dos inválidos foi maior do que os válidos.

VOTO OBRIGATÓRIO – No Brasil o voto é exigência legal, punindo o eleitor ausente que deve justificar-se na Justiça Eleitoral, para não ter interditado os seus direitos políticos. A punição é severa, não podendo participar de concurso público, matricular-se em universidades federais, tirar carteira de identidade, passaporte ou obter empréstimos em bancos públicos. O voto obrigatório é uma clara tutela do cidadão, determinando arbitrariamente punição em um regime democrático. A obrigatoriedade de votar no Brasil é um exemplo de subdesenvolvimento político.

Os seus defensores estão enquistados nos três poderes republicanos. Os diferentes partidos em todos os padrões ideológicos, direita, esquerda, centro e adjacências, defendem a obrigatoriedade do voto. No Judiciário, amplos setores entendem que os brasileiros não estão preparados para o voto facultativo. No Executivo não é diferente. Já no mundo desenvolvido, onde as populações têm mais elevados índices de integração humana e democrática, prevalece o voto facultativo.

ALVARO DIAS – Antenado com o desejo dos brasileiros, o senador Álvaro Dias (PV-PR) formulou Emenda Constitucional defendendo o fim do voto obrigatório, por ser incompatível com as liberdades individuais.

– “O voto obrigatório no Brasil estimula os altos índices de abstenção, votos nulos e brancos, bem como escolha de qualquer candidato só para cumprir obrigação jurídica de votar e escapar das sanções legais”.

No Supremo, o ministro Marco Aurélio, defensor do voto facultativo, entende que o voto obrigatório deva ser abolido. No Tribunal Superior Eleitoral, a sua grande maioria expressa essa tese anacrônica.

O voto facultativo é a expressão máxima de uma democracia real, o voto obrigatório uma clara anomalia democrática. A verdadeira reforma política deveria começar pela revogação da obrigatoriedade do voto. Ela é uma das causas da corrupção política.

6 thoughts on “O voto secreto e o coronel Chico Heráclio

  1. Sem a menor dúvida! A bandeira do sr.Alvaro é consentânea â modernidade democrâtica. O voto obrigatørio, digno de uma sociedadezinha símia,fala por si só! É o cabrestão remanescente.

  2. Alvaro Dias a fina flôr do obscurantismo. Devia dizer: Eu senador Álvaro Dias participei junto com Sérgio Guerra presidente do PSDB da farsa que arquivou a CPI da Petrobrás em 2009. Guerra já morto recebeu para o ABAFA 10 ou 20 milhões de reais já denunciado em delação premiada. ESSE DINHEIRO NÃO FOI PARA O CAIXA DO PARTIDO. FOI PARA ONDE ENTÃO? PARA O BOLSO DOS SENADORES DO PSDB. Tem mais, faasculhem a atuação de Álvaro Dias como “consultor” da ITAIPÙ e vão ver que tem lá uma quizilha enhvolvendo Álvaro Dias. Não tem moral para dizer como deve votyar o povo brasileiro.

  3. Sebastião Nery dizer que a obrigatoriedade de votar no Brasil é exemplo de subdesenvolvimento político. É a afirmação mais burra e desonesta, que um dito intelectual pode dizer. Primeiro querer que sigamos a fórmula existente em outros píases, isso sim confirma o que perpetuou Nelson Rodrigues: Os brasileiro têm complexo de vira-latas. Não têm personalidade, vivem de imitar outras culturas. Tudo o que se faz lá fora é melhor do se faz aqui. Isso sim é subserviência mental. A maioria dos países ditos adiantados têm 2.000 anos de existância. Nos EEUU o direito é anglo-saxão. O do Brasil é romano-germânico. Os EEUU foram formados de 13 Colônias. O Brasil foi formado de um “Estado Unitário”. Nery não merece crédito, mente muito e é sabujo que quer que imitemos outros países.

  4. O voto obrigatório é como se fora uma moeda. Em uma face é o direito, na outra o dever. São indissolúveis. Você pode anular e votar em branco, dizendo pessoalmente que não confia ou não gostou dos candidatos. O voto são duas condições que afirmam a cidadania. Não existe direito sem dever(dever se exercê-lo sempre que for chamado). É um direito e dever de cidadania. Quem lançõu essa idéia alguns anos atrás foi Sergio Cabral Filho e Chico Alencar. Isso por ouvirem que nos EEUU o voto era facultativo. A finalidade aqui É ELITIZAR O VOTO. A maioria do povão que tem mais dificuldade em se deslocar para votar não compareceria. A classe rica e mais abastada morando em zonas privilegiadas tendo carro disponível para se deslocar teriam mais facilidade para eleger seus candidatos. Essa é a razão.

  5. VOCÊS ESTÃO LOUCOS. HOJE, NO BRASIL, O NOVO CORONELISMO ELEITORAL É O VOTO DOS DITOS CRENTES, QUE VOTAM EM MASSA E EM QUEM A DIREÇÃO “ESPIRITUAL” MANDAR. COMO “FACULTATIVO,” A CLASSE MÉDIA VAI FICAR EM CASA FAZENDO AQUILO DOCE, DIZENDO QUE NINGUÉM MERECE SEU VOTO, E O BRASIL VAI VIRAR UM GRANDE IRÃ DE CRISTO, UM AFEGANISTÃO DE JESUS.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *