Obama emocionou o mundo, mas ele depende do Congresso e da Corte Suprema.

Helio Fernandes

Depois de Lincoln, que assumiu em 1860, já com os Estados Unidos em guerra civil, Obama foi o que mais se aproximou dele. É bem verdade que Franklin Roosevelt no primeiro mandato, 1933, assumiu com o país angustiado, quase desesperado. Estava em plena depressão, os EUA com 16 milhões de desempregados, uma população muito menor. (Hoje são 11 milhões sem trabalho, a população bem maior).

Os três, grandes oradores, tendo que se movimentar em circunstâncias diversas, num país dividido, e isso é mais do que uma palavra. Lincoln chegou à Casa Branca, então um charco, um lamaçal (ainda não existiam automóveis), as charretes e tilburys atolavam seguidamente.

Quatro anos de guerra de verdade, Norte contra o Sul, mortes às centenas de milhares, cirurgias cruéis, ainda não existia a anestesia. O ferido encharcado de uísque, com a boca amarrada, o cirurgião sofrendo mais do que operado. Quando a guerra acabou, Lincoln fez o maravilhoso discurso de Gettysburg, uma cidade transformada em cemitério. Poucos meses depois, reeleito, Lincoln era sepultado, assassinado.

Quase 70 anos a seguir, vinha Roosevelt, substituindo uma sequência de mediocridades. Novamente: os EUA devastados pela quebra de Wall Street de 1929, o desespero do desemprego e da depressão, o que fazer? Roosevelt “inventou” uma espécie de socialismo no capitalismo, que era na verdade isso que se chamou de New Deal.

Foi sendo reeleito até morrer, em 1945, terrível injustiça do destino. Não pôde ver o fim da Segunda Guerra Mundial, ganha por ele. Conseguiu manter juntos e conformados, personagens como Churchill e Stalin, que se odiavam. E impediu que Churchill expulsasse de Londres o general De Gaulle, que chefiava o governo da França no exílio.

OBAMA 62 ANOS DEPOIS

Destinado ou predestinado, chegava à Casa Branca muito moço, mas já com os holofotes voltados para ele, pelo que já havia feito e pelo que acreditavam que poderia fazer. Não era ostensivamente afetuoso e cordial, sabia conquistar com seu charme e capacidade de conciliar. Mas a partir de 2009 (eleito em 2008), mostrou que vinha para ficar.

É um lugar comum falar em EUA dividido. Mas a guerra acaba e traz prosperidade (Lincoln). A economia oprime e assusta, mas se recupera, foi o que aconteceu (Roosevelt). Só que a divisão encontrada por Obama foi e é política, essa não termina jamais. Seu combustível é o interesse pessoal fingindo se esconder atrás do interesse do país.

Obama, no primeiro mandato, cometeu o erro ou equívoco de acreditar que o caminho da realização era a conciliação, não era nem é. Bateu de frente várias vezes com os deputados (representantes) do Partido Republicano. Como sua arma era a “conciliação”, foi “conciliado” por eles, quase perdeu a reeleição.

Agora, saiu da Casa Branca para as ruas combatendo o violento enriquecimento da indústria do armamento. Usou como arma apenas a palavra falada que ele maneja com total conhecimento, brilhantismo e esplendor. Seu discurso conquistou pela importância das palavras, e outro fator, implícito ou explícito: o país terá mais 4 anos de outro Obama, agora ofensivo e nada conciliador.

OS COMPROMISSOS A PARTIR DE AGORA

A forma do discurso, como sempre uma aula de oratória. Seu mentor de Chicago, onde começou eleitoralmente, disse ao jornalista Roberto Pontual em excelente entrevista: “A primeira vez que ele me procurou, muito moço, não tinha nenhuma recomendação, resolvi recebê-lo. Conversamos horas, me conquistou”.

O conteúdo da proclamação do dia 21, notável, acertando em cheio nos problemas e nos compromissos. Analisou tudo, não teve compaixão com ele mesmo, garantiu que mudaria a forma de governar, abandonaria o tom de “dar a outra face”, seria muito mais “bíblico” do que antes.

Relacionou, um por um os maiores problemas que merecerão prioridade e a tentativa de solução. É evidente, não precisava citar, que cuidará da economia, dos impostos, como consequência do desemprego, tudo que faz parte da obrigação de um presidente, principalmente dos EUA.

Vamos separar os três compromissos fundamentais, como foram separados pelo próprio Obama.

“Igualdade para os nossos irmãos e irmãs gays, que deverão ser tratados como todos os outros perante a lei”. Foi a primeira vez que um presidente, e ainda mais dos EUA, faz afirmação inédita e importante como essa.

Receio que Obama tenha exagerado na análise do seu Poder presidencial de fazer. Há anos está na Suprema Corte o exame dessa mesma consolidação de direitos. Como a Corte está sempre dividida entre 4 conservadores e 4 progressistas, a decisão seria do presidente (vitalício), nem ele quer isso. Decisão individual e monocrática como essa? Quase um absurdo.

Se a Corte Suprema decidir a questão gay antes do Executivo, contra ou a favor (contra não acredito, o mais certo é que o processo fique engavetado, mas até quando? Os 9 juízes são vitalícios, o presidente da Corte só deixa o cargo se morrer ou resolver se aposentar), Obama terá que se conformar. Se a decisão vier antes, poderá ser considerada inconstitucional.

DIREITOS IGUAIS PARA
NEGROS, MULHERES, IMIGRANTES

Esses pontos, importantíssimos, podem ser resolvidos pelo presidente, respeitando a Constituição, mas decidindo como garantiu ou prometeu. Terá que enfrentar os Republicanos do Congresso. Mas estes sabem que dentro de 4 anos haverá nova eleição presidencial, e sem Obama.

Os Republicanos têm que se lembrar que os Estados Unidos foram povoados por imigrantes, “o sonho americano” começou com eles. “A terra da oportunidade” era um convite do próprio país, quase desabitado, para quem quisesse habitá-lo.

As mulheres estão conquistando seu espaço no mundo inteiro, incluindo lá mesmo. Por que então algumas restrições colonialistas sem qualquer explicação? Obama acertou em cheio, cumprirá o que colocou num discurso emocionante.

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PS – Se não conseguir agora, Obama trabalhará para vencer a eleição parlamentar de novembro de 2014, tem dois anos para plantar essa conquista. Se ganhar, terá outros dois anos para exercer o Executivo e a maioria da Câmara e do Senado.

PS2 – Deixei para o fim a questão ainda conflitante, dos negros. Um deles está no Poder, mas isso não corresponde à conquista dos direitos iguais. Obama fez muito bem em não esquecê-los ou deixar de relacioná-los entre os que precisam ou exigem direitos iguais.

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