Obama escolhe Cinelândia para lembrar Passeata dos Cem Mil

Pedro do Coutto

Ao escolher a Cinelândia, no centro do Rio, como palco principal para seu encontro com o povo nas ruas, o presidente Barack Obama sem dúvida procurou – e fixou – um forte símbolo democrático do passado recente. Não foi por acaso. Um presidente da república não age por impulsos isolados. Nada disso. Preferiu a Cinelândia porque, em junho de 68, marcou o desfecho da memorável passeata dos cem mil contra a violência e o arbítrio da ditadura militar brasileira.

Assim agindo, Obama solidariza-se com o passado e acentua seu repúdio aos regimes de força. Foi um recado histórico que mandou ao povo brasileiro. E, ao mesmo tempo, realçou indiretamente a participação da hoje presidente Dilma Rousseff no processo romântico de reação armada ao peso do poder então vigente.

O presidente americano retornou ao passado para destacar no presente sua total rejeição e seu total repúdio às ditaduras, não só as existentes de fato no continente, mas sobretudo no universo. Não poderia haver melhor cenário do que o Brasil para uma afirmação de fé no sentido da liberdade e da democracia. Em nosso país, vemos hoje na dimensão histórica que só o tempo proporciona o quanto grotesco foi o episódio do ex-presidente Juscelino sendo interrogado pelo coronel Ferdinando de Carvalho no quartel da Polícia do Exército. Isso sem falar na estupidez da tortura, o que de mais hediondo existe na face da terra. Tortura inclusive a que foi submetida a atual presidente do Brasil.

No Rio de Janeiro, por exemplo, militares e policiais espancavam os estudantes nas manifestações que realizavam. Estavam espancando o futuro como se a vida de uma nação acabasse no dia seguinte.

Não tenho informação, porém me vem a impressão, que Barack Obama decidiu pela Cinelândia com base na foto histórica de Evandro Teixeira que transmitiu a densidade e a força do protesto que reuniu a juventude universitária, Dom José Castro Pinto, Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, artistas, professores, jornalistas, intelectuais, rostos na multidão, todos unidos na eterna luta do ser humano pela liberdade. Provavelmente a foto do tempo foi levada a ele, pois há 43 anos atrás era uma criança.

A foto ficou para sempre. A ditadura brasileira foi destroçada pelos fatos, como escreveu Elio Gáspari em sua obra sobre a ascensão e queda do ciclo dos militares no poder. Ascensão e Queda – estou me referindo a outro monumento da literatura histórica moderna, William Schirer, sobre o nazismo na Alemanha de Hitler. O jornalista foi correspondente do New York Times em Berlim.

Testemunha do tempo, como todos nós, profissionais da imprensa, que se empenham para ir ao encontro dos leitores que formam um gigante chamado opinião pública. Evandro Teixeira um exemplo. Sua foto na primeira página do Jornal do Brasil marcou um período da vida em nosso país. Agora, passa às mãos, aos olhos, à sensibilidade política do presidente Barack Obama. Na Cinelândia, no domingo, vai se encerrar mais um capítulo do esforço e da afirmação do povo pelo direito à liberdade. Pelo direito de votar , que foi suprimido pela ditadura de 64 a 79.

Faço a ressalva indispensável. Porque em agosto de 79, o general João Figueiredo assinou a lei de anistia. E, três anos depois, restabeleceu as eleições diretas para governador. Base para a campanha pela volta das eleições presidenciais diretas e pelo fim da censura, prática que vem das trevas e inevitavelmente conduz a elas.

Optando pelo centro do Rio, Obama encerra brilhantemente um capítulo da história. Não só brasileira. Mas universal. Esta a sua verdadeira mensagem. Mensagem que vai permanecer para sempre como um alto momento da consciência humana.

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