Obama foi derrotado pelos conservadores

Pedro do Coutto

O presidente Barack Obama foi amplamente derrotado – como ele próprio reconheceu num gesto de grandeza – nas urnas de 2 de novembro, depois de sua vitória espetacular na sucessão de 2009 pela Casa Branca, que comoveu não apenas os Estados Unidos, mas todo o mundo. Multidões foram às ruas de Paris, por exemplo, Itália, Inglaterra, e até em nosso país houve manifestações. O que terá acontecido? – a pergunta é geral. Não há uma razão única, é claro, pois isso não existe em política, mas sim um conjunto de fatos.

A meu ver, entretanto, em síntese, ele foi derrotado pelos conservadores. Estes são a maioria e se encontram localizados por igual tanto no Partido Democrata quanto no Republicano. Ilude-se quem pensa que os democratas são reformistas e os republicanos adeptos do conservadorismo. O pensamento conservador situa-se tanto de um lado quanto de outro. Em questões de política externa, por exemplo, Eisenhower, republicano, foi quem terminou a Guerra da Coreia desencadeada pelo democrata Harry Truman. A guerra do Vietnã foi iniciada por Kennedy, democrata. E terminada por Gerald Ford, republicano, que sucedeu a renúncia de Nixon.

O que abalou Obama não foi apenas o extraordinário montante de ajuda financeira aos bancos, sobretudo os envolvidos no sub prime. Esta iniciativa, como é fácil recordar, foi para cobrir o rombo da administração George Bush. Obama, carismático como é, não teria dificuldade em livrar-se do peso eleitoral que isso possa representar. O que derrotou Obama e o Partido Democrata, no fundo da questão, foi o Plano de Universalização da Saúde, que incluiu 45 milhões de americanos, 15% da população, num sistema social que não existia.

Incrível a omissão no país responsável por um terço do Produto Bruto Universal. Mas para estender a cobertura de serviços médicos aos que não podem pagar planos de saúde, Obama teve que aumentar impostos. E os norte-americanos detestam qualquer elevação tributária. Qualquer elevação capaz de reduzir seus vencimentos e ganhos de capital, toda e qualquer investida que julguem ser contra o seu bolso.

Inclusive há nos EUA uma visão muito clara do que representam os índices de inflação e os aplicados à remuneração de cada um. Milhões de eleitores sentiram-se diminuídos, traduziram a majoração tributária como uma redução dos valores de seu trabalho. Têm uma noção muito nítida de tais valores. Ao contrário de no Brasil, país em que as massas trabalhadoras não percebem direta e claramente cortes que lhes são aplicados.

No momento, por exemplo, o FGTS está sendo atualizado mensalmente a uma taxa de 0,3%. Isso para um índice inflacionário anual de 5,3%, de acordo com o IBGE. Significa perda real de 1,7% em doze meses. A enorme maioria do povo não traduz esta constatação. Mas a grande maioria da sociedade americana traduz. E define seu voto a partir do que podemos chamar de tradução tributária popular. Jimmy Carter foi derrotado por Ronald Reagan no pleito de 80, por larga margem, pelo fato de ter aumentado impostos e ter permitido que em 79 a inflação atingisse 12%. A média lá oscila entre 2 a 3%. Em síntese, a tributação fixada por Obama foi interpretada como uma descapitalização coletiva.

Os que votaram contra o presidente não consideraram que o produto dos novos impostos vai assegurar a vida e a integridade de milhões de seres humanos, que no inverno, não podem sequer ligar a calefação. Em Nova Iorque, para citar um grande estado, a temperatura atinge 10 graus negativos. Portanto, analisando-se bem a questão e o desfecho eleitoral, a vitória foi muito mais conservadora do que republicana. É sempre assim nos pontos centrais de atrito: é difícil vencer o conservadorismo.

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