Obama só foi atacado pelos radicais do Oriente Médio

Pedro do Coutto

O pronunciamento do presidente Barack Obama, de fato histórico – como destacou Fernando Eichenberg, correspondente de O Globo em Washington, na edição de sexta-feira -, somente recebeu reação adversa dos radicais israelenses e palestinos que desejam manter eternamente o conflito armado no Oriente Médio. Começou em 1948 e não foi resolvido até hoje. O ódio que alimenta a indústria mundial de armas atravessa as décadas sem solução efetiva.

O presidente dos Estados Unidos, dando sequência a seus antecessores na Casa Branca, fez da forma mais concreta possível seu lance de dados no quadro internacional. Partiu em mais uma tentativa de paz. Escolheu o rumo certo e, por isso mesmo, desagradou aos radicais de ambos os lados. Estes querem manter o conflito na Cisjordânia e pelo controle de Jerusalém. A atual capital de Israel, que, exatamente a partir da Guerra de 67, substituiu Telaviv nessa condição. Destina-se a ser o principal ponto da divergência.

Uma questão muito difícil. Para projetar sua dimensão, temos que voltar ao passado, aliás como propõe Obama em relação às fronteiras existente antes da Guerra dos Seis Dias. Estamos em Junho de 67. Inconformado com a existência do Estado de Israel, promulgada pela ONU em 47, sob a presidência do embaixador brasileiro Osvaldo Aranha, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, foi à televisão no Cairo e anunciou a invasão para o dia seguinte. Dirigiu um apelo ameaçador aos jornalistas: saiam de Telaviv, por que amanhã estaremos aí para cortar a cabeça dos judeus. E vai ser difícil saber quem é jornalista e quem não é.

Ao assistir ao programa, em Israel, a primeira ministra Golda Meir ordenou o ataque imediato comandado pelo general Moshe Dayan. A derrota do Egito e dos aliados Síria e Jordânia foi total. Golda ocupou o Sinai, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, a cidade de Jerusalém. Passou a ser a capital do Estado judeu. Nasser morreu em 70, três anos depois portanto. Ainda jovem, vítima de infarto. Foi sucedido por Anuar Sadat. Em 73, Sadat atacou de surpresa e conseguiu retomar espaços ocupados de seu país. Na guerra de 67, o Egito perdera trinta por cento de seu território. A partir de 74, houve uma série de tentativas de acordo patrocinadas pelos presidentes Jimmy Carter, Ronald Reagan, Bill Clinton. Sadat aceitou a reaproximação e desceu em Israel. Pouco depois foi assassinado numa parada militar. Já o  primeiro-ministro israelense, Itzak Rabin, dispôs-se a um entendimento pela paz. Foi assassinado por um judeu radical.

Não vale a pena recuar mais no tempo e relembrar mais as guerras de 48, a invasão do Suez em 56 por forças israelenses, inglesas e francesas, que causou a queda do primeiro ministro inglês Anthony Eden. Agora, com Barack Obama abrem-se as cortinas para, mais uma vez, montar um novo cenário. O que acontece? Logo, no primeiro momento, se opõem o chefe do governo israelense, Netanyahu, e o grupo Hamas, que, até um mês atrás atacava, inclusive com armas, o governo da Autoridade Nacional Palestina, chefiado por Mahamoud Abas.

Ser atacado pelos radicais, que, no fundo, são os mensageiros da intolerância, das armas e da morte, constitui, se não uma prova, pelo menos a forte impressão de que Barack Obama está certo. Na colocação, sem dúvida. Na execução vamos ver.

Ponto mais difícil não é a desocupação da Cisjordânia apenas. Pois pode ser objeto de acordo, dependendo das bases. É Jerusalém, por sua importância histórica e emblemática. Ela estava até 67 sob domínio árabe, que decidia sobre a passagem dos judeus ao Muro das Lamentações. Hoje é exatamente o contrário. O domínio militar pertence a Israel. A devolução da cidade de mais de três mil anos de existência é a razão mais complexa, a síntese, agora, de uma guerra sangrenta que dura há 63 anos. Obama jogou uma grande cartada com implicação direta nas eleições americanas de 2012. Arriscou-se no caminho das urnas.

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