Obama só retirou a metade das forças do Iraque

Pedro do Coutto

Francamente, quando o presidente Barack Obama anunciou a retirada das forças militares americanas no Iraque, acentuando que permaneceriam 50 mil soldados para missões de consultoria, me surpreendeu o fato de a Casa Branca não dar o número exato dos que estavam em Bagdad. Afinal de contas, se era uma retirada, sem vitória e sem derrota, o natural era que o presidente dos Estados Unidos fosse mais específico. A falta de dados concretos sobre o tema deixou uma dúvida no ar, se a saída era mesmo pra valer, ou se tratava de um lance político visando às eleições parlamentares de novembro. Pois em novembro, Obama espera manter a maioria de que hoje desfruta na Câmara e no Senado. Não será tarefa fácil. Mas o que é fácil em matéria política?

A indagação permaneceu cerca de quinze dias até a mais recente edição da Veja, domingo passado, número 2181 que está nas bancas. A revista publica o essencial: com base no Iraq Body Count, do Departamento de Estado, o contingente americano na antiga Babilônia, em julho, era de 107 mil soldados, cabos, sargentos e oficiais. Como 50 mil permaneceram, e inclusive entraram em combate no atentado de domingo na capital do país, como O Estado de São Paulo publicou na segunda-feira, verifica-se que foram efetivamente retirados 57 mil militares. Uma retirada parcial, portanto. Metade voltou para os EUA, praticamente outra metade não saiu do Iraque. Até quando esses homens e mulheres permanecerão “em funções de assessoria?” Eis aí um tema interessante.

Barack Obama cumpriu pela metade, isso sim, a promessa feita na campanha eleitoral de 2008, cujo resultado (sua vitória) comoveu o mundo. Multidões saíram às ruas festejando, como aconteceu em Paris principalmente. Foi a vitória da esperança, sem dúvida. Ainda continua ecoando, mas o reflexo nas urnas de novembro será também parcial? O fato é que, exceto a travada contra o Japão, aItália e o nazismo de Hitler, a médio prazo nenhuma guerra é popular.

Quando explode, ocorre um impulso de mobilização, mas logo depois é quebrado por falta de motivação interior. Ninguém deseja ver seus filhos e netos correndo o risco de morte nas rochas da Coreia (1950-1953) ou nos pântanos do Vietnam (de 62 a 75). Porém o complexo industrial militar denunciado em livro pelo general Eisenhower não recua de seus propósitos sinistros de ampliar o mercado de armas à custa de vidas humanas. Tudo sob a sombra da democracia e da liberdade. Agora se vê claramente: Obama reduziu o efetivo no Iraque, mas aumentou a presença americana no Afeganistão. O processo não para nunca.

Em 1952, comprometendo-se a acabar com a guerra da Coreia, o general Dwight Eisenhower elegeu-se presidente. Cumpriu a promessa e publicou seu livro. Em 76, Jimmy Carter foi vitorioso nas urnas prometendo anistiar os desertores do Vietnam, guerra terminada no ano anterior por Gerald Ford que substituiu Richard Nixon. Cumpriu a promessa. Obama comprometeu-se a deixar o Iraque. Cumpriu a metade. A saída das tropas do Afeganistão possivelmente será compromisso da campanha pela reeleição daqui a dois anos. O complexo industrial militar é muito forte.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *