Obras de Santo Antonio revelam tesouros arqueológicos da Amazônia

Pedro do Coutto

O desenvolvimento econômico tanto pode destruir irresponsavelmente quanto revelar e assim preservar tesouros arqueológicos, antropológicos, palenteológicos e botânicos  que permanecem nos subterrâneos das florestas e somente são descobertos quando alcançados pelo progresso. É o que está acontecendo em Rondônia agora com as obras de construção da hidrelétrica de Santo Antonio. A afirmação é do jornalista Luiz Fajardo, da equipe de comunicação de Furnas, ao visitar semana passada a usina que está sendo erguida em Porto velho.

Pois as empresas que formam o consórcio encarregado da construção, Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Cemig, contrataram a Scientia Consultoria Científica exatamente para assegurar a preservação e catalogação das peças encontradas e das pegadas que antepassados deixaram na geografia e na história. Sessenta arqueólogos atuam nos trabalhos. No Brasil, só existem 700, revelou o repórter Cláudio Ângelo, Folha de São Paulo de 10 de julho, Caderno Ciência. A profissão até hoje não é regulamentada.

O exercício dela por qualquer um que se apresente  como habilitado contribui para a destruição de impressões digitais do passado. Alternativa predatória à cultura colocada e defendida por Fajardo. As obras em Santo Antonio, usina que integra o PAC, correm rápido, inclusive porque é projeto do presidente de Furnas, Flávio Decat, iniciar já em dezembro deste ano a primeira etapa de geração de energia.

No país inteiro, destaca Cláudio Ângelo, estão sendo realizadas descobertas em série de marcas do passado, como também destruídas obras de arte e de testemunho histórico. Consequência do progresso. Há tanto o responsável, preservador, quanto o irresponsável depredador. A busca do outro, para citar Charles Chaplin, muitas vezes não leva em conta os valores culturais da existência humana. A vida – digo eu – não é só dinheiro. É também cultura e amor à história e memória dos povos, que, no fundo, formam a história de nossas origens, portanto significam a nossa própria aventura.

Para se ter uma ideia das descobertas efetuadas e das destruições prováveis movidas pelos egoísmo e imediatismo, basta dizer, como fez Ângelo na FSP, que em 1991 foram escavados em todo o país apenas 5 sítios arqueológicos. Mas nos últimos vinte anos, de 91 a 2011, esse número saltou  para 965. Foram alcançadas cerca de 20 mil descobertas só no  ano passado.

Em Santo Antonio, foram localizadas origens dos tupis e também de populações diversas da Amazônia brasileira. Luiz Fajardo revela terem sido encontrados mais de 300 fósseis vegetais com idade estimada até em 45 mil anos, o primeiro registro de um sítio paleobotânico em Rondônia, possivelmente o maior da região Amazônica. O material recolhido foi devidamente catalogado.

Renato  Kipnis, coordenador de paleontologia e arqueologia do consórcio de empresas, diz que foram encontrados vestígios de ocupações indígenas de oito mil anos. As populações praticavam um tipo peculiar de agricultura, o que abre campo para estudos detalhados sobre as origens da região e do país. Viviam em assentamentos densos a céu aberto. As pequenas – acentuou – vão nos permitir melhor conhecer as terras baixas da própria América do Sul. Material cerâmico conduz a uma nova percepção dos sítios populacionais datados de 4 a 6 mil anos atrás. Foi encontrada uma preguiça gigante, um jacaré pré histórico, um toxodonte, animal próximo ao hipopótamo.

Belo trabalho, sem dúvida, o desenvolvido por Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Cemig. Contribuição notável para preservação da arte enterrada no passado e cristalização de uma cultura ambiental de dezenas de séculos.

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