Odebrecht já apresentou as provas contra os políticos que foram corrompidos

Capa edição 984 - home (Foto: Época )Diego Escosteguy e Flávia Tavares
Época

A delação da Odebrecht vai muito, mas muito além dos trechos já conhecidos dos vídeos dos delatores. Todos eles, assim como a cúpula da empresa, tiveram de entregar provas que corroboram os crimes que narraram. Graças a esses documentos, os cerca de 500 gigabytes da delação da Odebrecht constituem, indubitavelmente, o maior e mais rico acervo de corrupção política da história. Um acervo para acadêmicos e historiadores. Um acervo que, além dos depoimentos, contém milhares de documentos. São, ao menos, cerca de 5 mil pedaços de evidência.

Incluem comprovantes de pagamentos em contas secretas no exterior, extratos bancários no Brasil e lá fora, contratos de fachada, notas fiscais frias, planilhas internas com registros de entrega de propina em dinheiro vivo, e-mails internos com discussões das negociatas, registros de encontros clandestinos com políticos, extratos telefônicos, comprovantes de viagens…

VALOR DAS PROVAS – Época analisou a consistência de cada uma das provas apresentadas pela Odebrecht contra os principais políticos do país. A força jurídica de cada evidência depende da relação dela com os fatos que ela pretende provar. Foi esse o critério usado pela reportagem para a avaliação de cada caso.  Se o crime confessado envolver propina, a prova apresentada pelo delator, para ter valor, precisa ajudar a provar, em algum grau, que o pagamento de propina de fato transcorreu como narrado – ou ajudar a provar que o político agiu em favor da empresa. A mera existência de um documento, portanto, não significa que o caso seja sólido. A relevância dele está subordinada à corroboração do crime em questão.

Os delatores da Odebrecht, ao contrário do que ocorreu em outros casos recentes de colaboração premiada, entregaram somente documentos que realmente podem ter relevância como prova. A maioria dos principais casos está lastreada, no mínimo, em planilhas internas com registros de pagamento a políticos e e-mails internos em que os funcionários da empresa combinam a entrega da propina – quase sempre no Brasil, em dinheiro vivo. Quase todos os políticos suspeitos no caso Odebrecht aparecem múltiplas vezes nas planilhas, como os tucanos Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin.

RELAÇÃO PRÓXIMA – As principais provas da delação, no entanto, não se resumem aos documentos que corroboram (nos casos de pagamento em dinheiro vivo) e confirmam (nos casos de pagamento em contas secretas no exterior) as propinas. Para provar que políticos agiram em favor da Odebrecht de maneira a receber a propina, a empresa e os delatores anexaram evidências que demonstram, em alguns casos, a relação próxima e constante com os beneficiários.

São documentos que comprovam reuniões, contatos telefônicos e viagens, sempre envolvendo os dois lados: executivos da Odebrecht e políticos suspeitos de beneficiá-la. Esse tipo de documentação é especialmente relevante nos casos dos políticos do PMDB, que costumavam manter contato assíduo com diretores da Odebrecht.

MENSAGENS – Trocas de e-mails entre diretores da empresa também são fundamentais. Nelas, o método favorito de comunicação da cúpula, a Odebrecht acabava registrando resultados de reuniões com políticos, demandas deles e, não raro, o pagamento das propinas. É o caso de reuniões com senadores do PMDB sobre a compra de Medidas Provisórias de interesse da empresa. Ou da ordem de Marcelo Odebrecht a seu departamento de propina, num dos documentos ainda inéditos revelados por ÉPOCA, para que não pagasse propina ao marqueteiro João Santana, em 2014, até que a então presidente da Petrobras, Graça Foster, ajudasse a Odebrecht num contrato.

Embora haja gradação entre a força das provas em cada caso, com mais peso a um ou outro tipo de documento, nenhum político aparece tão encalacrado na delação quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As provas apresentadas pela empresa, de todo tipo, sustentam, em larga medida, os graves episódios narrados nos depoimentos por delatores como Emílio Odebrecht, Marcelo Odebrecht e Alexandrino Alencar. Lula, frise-se, nega qualquer ilegalidade, a exemplo de todos os demais políticos suspeitos no caso Odebrecht.

TESTEMUNHOS – Ressalte-se que os depoimentos dos delatores também são provas – provas testemunhais. Testemunhos, a depender da circunstância, têm o mesmo valor de provas documentais. Tudo depende da credibilidade da testemunha, da materialidade dos documentos (o que eles provam) e das exigências da lei para a correta imputação de cada crime. No caso da Odebrecht, as investigações ainda estão no começo – mas se iniciaram da melhor forma possível.

Os procuradores e delegados ainda terão de produzir muitas outras provas, ouvir novamente os delatores, cotejar documentos. E algo importante: submeter essas provas à defesa dos acusados, de maneira que o direito ao contraditório e à ampla defesa seja respeitado. Um dos objetivos da Justiça em casos como esse é buscar a verdade dos fatos. Os documentos entregues pela Odebrecht e analisados por Época oferecem um caminho promissor para isso.

7 thoughts on “Odebrecht já apresentou as provas contra os políticos que foram corrompidos

  1. E mais Sr. Marques,

    Não se pode dizer que a crise do falido Rio de Janeiro passa longe do Tribunal de Justiça. Mas está longe de passar perto. Em dezembro de 2016, por exemplo, o Judiciário fluminense abriu os cofres e pagou cifras gordas, muito gordas, aos seus magistrados.

    Com acúmulo de gratificações, 13º salário, venda de férias e licença, 23 juízes e desembargadores levaram para casa pouco mais de R$ 100 mil cada um. Isso é, ressalte-se, o rendimento líquido.

    E não só: 118 magistrados embolsaram valores entre R$ 90 mil e 100 mil; 173 receberam em suas contas valores entre R$ 80 mil e R$ 90 mil; 147 receberam na faixa de R$ 70 a R$ 80 mil; 136 na faixa de R$ 60 mil a R$ 70 mil; e 268 juízes e desembargadores na faixa de R$ 50 mil a R$ 60 mil.

    Os pensionistas também não ficaram de fora. Uma delas recebeu, sozinha, uma bolada de R$ 186 mil.

    A folha de dezembro dos magistrados custou, no total, R$ 94,7 milhões aos cofres públicos. Isso sem contar todos os outros concursados que trabalham para o tribunal.

    Não há nada de ilegal. Mas não há nada semelhante, custeado pelos cofres públicos, acontecendo em outra parte do Rio de Janeiro.

    Coluna do Globo

    • Veja como somos ricos, chora Japão, Noruega, Suécia, Suiça, Finlãndia, Dinamarca

      Uma pensionista recebe a mixaria de 186 mil contos de réis……

      Dona janaina, Where Are You.???
      Vale a pena lutar pelo Livro Rasgado, ops, Sagrado.
      Acredita Sr., Marques, vale a pena.

  2. Prezado Armando,

    Injustiças deste porte e calibre, de os juízes receberem proventos milionários, assim como os ladrões dos parlamentares, que as “reformas’ desejadas pelo Planalto e aprovadas pelo Congresso não devem ser aceitas pelo trabalhador, que mais uma vez arcará sozinho com o custo da incompetência e corrupção!

    Desta forma, a “greve” de ontem, um espetáculo de baixíssimo nível pela violência empregada por bandidos e baderneiros, impedindo o ir e vir das pessoas, mostra por inteiro a sua ineficácia e inoperância, comprovando que as associações, sindicatos e centrais, apenas fizeram a sua pantomima, o seu teatro, que estão a favor do povo quando, na verdade, cumpriram exatamente o que o governo queria, um protesto sem qualquer resultado prático, somente bagunça e quebra-quebra.

    O Judiciário continuará embolsando proventos irreais com a situação brasileira, os parlamentares recebendo salários indecorosos pelo que prejudicam a população e vagabundagem, afora roubar escandalosamente o erário e cidadão, e as tais mudanças na Previdência e alterações nas Leis Trabalhistas seguirão o seu curso!

    Em outras palavras:
    Fazem conosco não só o que querem, mas indiscutivelmente somos mesmo milhões de palhaços, de incultos e incautos, um apanhado de pessoas que mora no mesmo território, sem representatividade, sem quem defenda esta sociedade explorada e violentada de várias maneiras, e ainda nos botam para queimar pneus, quebrar vidraças de lojas e bancos, atear fogo em ônibus e impedir que outros trabalhadores – diga-se de passagem que os vândalos, na sua maioria, passavam longe da condição de trabalhador, basta assistir com atenção quem eram os participantes – quisessem exercer o seu sagrado direito de escolha!

    Aonde estarão os criminosos presidentes da CUT e CGT na terça-feira?!

    Gozando de seus salários também nababescos, enquanto muitos daqueles que se viram impedidos de ir para seus empregos o perderão, pois não tinham transporte público à disposição, tanto ônibus, lotações, trens e metrôs!

    Ah, e as tais reformas, evidentemente aprovadas por corruptos e desonestos, que “representam” o cidadão, o trabalhador, a pessoa correta, honesta, de bem, de caráter e personalidade!

    O Brasil definitivamente faliu ética e moralmente, e se quisermos ter alguma esperança para o futuro é fechar o Legislativo e haver ao mesmo instante a devida intervenção no Planalto!

    Um abraço, Armando.
    Saúde e paz.

    • Bendl
      Todos os episódios patrocinados pelo PT, seu puxadinhos e as centrais sob seu comando tem os mesmos desfechos: badernas, quebra-quebra, inocentes machucados, veículos queimados e estabelecimentos invadidos.
      Lamentavelmente os governadores/prefeitos são uns irresponsáveis, frouxos e medrosos.
      Sabem, de muito, o que farão e não se preparam.
      Para este pessoal não basta fumaça e bala de borracha: tem de ser borracha pura!
      E os assaltados devem ingressar com ações pedindo indenizações, DO BOLSO DOS ADMINISTRADORES.
      Os sindicalistas estão malucos com a perda dos fundos!
      Vamos ver quantos trabalhadores se associarão aos sindicatos e quais.
      Abraço e saúde.

  3. Pra fechar a matéria, o resumo: estamos entregues ‘as baratas: o STF está guarnecido com juízes comprados, o legislativo liderado por corruptos, o executivo de joelhos porque não quer abandonar os kumpanheros encalacrados, e nós só tomando. A quem apelar? Ah, sim, já sei: Alô, general Villas Boas está?

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