OPEP faz guerra de preços contra produtores norte-americanos

MK Bhadrakumar
Indian Punchline

A reunião da OPEP em Viena na 5ª-feira foi como divisor de águas, no ir e vir da maré da política de energia. A Arábia Saudita expôs ali, sem meias palavras, a decisão de que não haverá qualquer corte na produção para deter a acentuada queda nos preços do petróleo. Ouviram-se vozes discordantes, mas na OPEP os sauditas mandam e desmandam.

Será o raiar de uma ‘nova ordem do petróleo’? Os sauditas distribuíram notícias de que a OPEP está realmente em guerra aberta contra os produtores norte-americanos de petróleo de xisto, e de que é guerra necessária, para que se preservem as fatias de mercado dos países reunidos na OPEP.

Mas, privadamente, os sauditas já informam que todos tratem de aprender a viver com menor renda por um ano ou dois, e que se agarrem com unhas e dentes à própria fatia de mercado. Mas nem todos estão convencidos de que a posição dos sauditas seja autêntica.

MUDANÇA NO MERCADO

Há mérito na posição dos sauditas, na medida que já se constatou grande mudança no mercado global de petróleo nos anos recentes. Se o forte aumento nos preços do petróleo em meados dos anos 2000 (graças a forte aumento na demanda global) galvanizou a busca por novas fontes, e eventualmente levou ao uso das revolucionárias tecnologias do fracking e da perfuração horizontal, para extrair petróleo de “formações de xisto” nos EUA, o salto na produção gera a ameaça de crise de excesso de oferta.

Somada ao enfraquecimento da demanda por petróleo na Europa (Alemanha) e Ásia (China e Japão), só a produção adicional dos EUA (4 milhões de barris/dia) significa aumento substancial na oferta (antes baseada em 75 milhões de barris/dia). Além disso, houve aumento na produção de petróleo também no Canadá e na Rússia, e a Líbia está de volta aos negócios, depois da caótica “mudança de regime” pela qual o país passou.

Essencialmente, a OPEP (saudita) decidiu deixar o preço cair a um preço tal que os projetos de perfuração de altíssimo custo em curso nos EUA sintam que a nova produção é antieconômica e sejam forçados a desistir.

ALTO RISCO

É gambito de alto risco, porque ninguém sabe com certeza qual o ponto a partir do qual a extração de petróleo de xisto tornar-se ‘não lucrativa’.

Na verdade, a combinação de demanda mais fraca e oferta crescente fez o preço cair de $115/barril em meados de junho, para $80 em meados de novembro. Depois da reunião da OPEP na 5ª-feira, os preços literalmente desabaram. O Brent cru está agora em torno de $70/barril.

Claramente, a influência da OPEP sobre o mercado mundial de petróleo já não é hoje a mesma de antes, historicamente. Até o presente, a OPEP (que produz hoje 40% do petróleo do mundo) podia ‘controlar’ efetivamente o preço mundial do petróleo pelo método simples de coordenar cortes (ou picos positivos) na produção. Já não é o caso.

“Produziremos 30 milhões de barris/dia nos próximos seis meses, e veremos como se comportam os mercados”. Assim o secretário-geral da OPEP, Abdalla El-Badri comentou o resultado da reunião de 5ª-feira em Viena. Em resumo, há à vista uma nova era no mecanismo de fazer preço para o petróleo, na qual o próprio mercado administrará a oferta, não mais a OPEP.

E O XISTO?

Enquanto isso, para todos os efeitos práticos, a OPEP declarou guerra aos perfuradores norte-americanos de xisto, com os EUA como novo ‘produtor duvidoso’ [orig. ‘swing producer’]. O impacto de tudo isso na política mundial não pode ser mais profundo. Se o mundo estava dividido entre países produtores e países consumidores de petróleo, os países consumidores serão os grandes ganhadores.

A queda nos preços do petróleo para $70 ou abaixo disso por barril é como ganhar a sorte grande para aquelas economias e entre elas estão a União Europeia, China, Japão e Índia. A conta a pagar por petróleo importado da Índia, ano passado, chegou a $135 bilhões. A economia é muito substancial.

Moscou deu-se por parte prejudicada, com EUA e Irã, os principais perdedores ante a queda nos preços do petróleo. Mas a história não acaba aí. Moscou parece ter interesses comuns com a Arábia Saudita, como país produtor interessado em desalojar do mercado o petróleo de xisto dos norte-americanos.

ARÁBIA E RÚSSIA

Interessante: o ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita Faisal Al-Saud visitou Moscou apenas uma semana antes da reunião da OPEP, e os dois países concordaram amplamente com a abordagem saudita a ser divulgada, como foi, na reunião da OPEP.

Como o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov disse depois das conversações com o ministro saudita, “quando países exportadores de petróleo veem desequilíbrio entre oferta e demanda, quando veem que a oferta ou a demanda está sendo artificialmente manipulada por atores particulares no mercado, é claro que têm o direito de tomar medidas que visem a corrigir aqueles fatores não objetivos, para devolver o mercado à sua posição natural.”

Mais uma vez, a queda nos preços do petróleo teria variados impactos também na China. O ponto é que se sabe que a China tem as maiores reservas do mundo de gás de xisto. Atualmente está às voltas com a extração – o que pode mudar, se a tecnologia norte-americana for acessível.

A assinatura do recente acordo entre China e os EUA pode dar o ímpeto de que os dois lados carecem para cooperar na extração do petróleo de xisto.

JOGADA ARRISCADA

Mas, feitas todas as contas, a atitude dos sauditas, de desafio, é jogada arriscada. Com certeza é mais barato bombear petróleo na Arábia Saudita, que extrair petróleo de solos de xisto no Texas ou no Dakota do Norte. Em princípio, claro, se o preço do petróleo continuar a cair, pode acontecer de os produtores norte-americanos fugirem do negócio – com o que os preços do petróleo se estabilizarão e a OPEP manterá sua fatia de 40% do mercado.

O caso é que ninguém sabe qual terá de ser o preço do petróleo no mercado mundial, para que o boom do xisto realmente fracasse. A Agência Internacional de Energia só sabe que cerca de 4% dos projetos de xisto dos EUA podem ruir, se o preço do petróleo cair abaixo de $80/barril. Por outro lado, muitos projetos na formação Bakken no Dakota do Norte permanecerão nos negócios, a menos que os preços do petróleo caiam abaixo de $42/barril (o que é impensável).

Será longa jornada noite adentro até junho, quando deve acontecer a próxima reunião da OPEP. (artigo enviado por Sérgio Caldieri)

3 thoughts on “OPEP faz guerra de preços contra produtores norte-americanos

  1. Pode ser que o objetivo principal da Arábia Saudita, via OPEP , seja “fazer guerra de preço para inviabilizar a produção de petróleo/gás Americano ( hydraulic fracking, retortagem de areias betuminosas, gaseificação de carvão, etc ), mas a meu ver, o problema me parece POLÍTICO, e a Política sempre comanda a Economia.
    A Arábia Saudita ( Sunitas ), Israel, Egito e EUA, estão apavorados que o Iran ( Xiita), desenvolva Armas Atômicas ( Urânio 235 e Plutônio 238 , futuramente a poderosíssima Arma de Hidrogênio) , com seus meios de lançamentos ( Foguetes) desequilibrando todo o “Equilíbrio de Poder no estratégico Oriente Médio, hoje dominado pela Potência Nuclear ISRAEL). Com a queda acentuada do preço do petróleo, a Arábia Saudita ( Sunita), junto com seus Aliados, busca implodir a Economia do Iran ( Xiita ), e conseguir a tão buscada “Mudança de Regime”.

  2. 1. Como fica a Venezuela que depende exclusivamente do petróleo estatal, uma vez que as empresas privadas de outros segmentos foram praticamente proibidas de trabalhar ?
    2. E como ficarão eles, que vendem a maior parte do petróleo para os EUA, caso os mesmos resolvam lhes dar um susto, em função da campanha difamatória movida pelo taxista bolivariano que já caiu de Maduro ?
    3. E o pré-sal da dupla Lulla/Dilma ? Como vão financiar o partido ?

  3. O pré-sal não PERTENCE à dupla citada, e sim ao Brasil. A continuar essa situação por mais de ano, como estão a assinalar sites econômicos internacionais, vamos TODOS sofrer prejuízos com o desestímulo a investimentos na área. Os problemas dos EUA, Canadá, México, Venezuela, Equador, Rússia, Iran, assim como agravamento da recessão na Comunidade Européia e Japão, como estão a dizer por aí, são assuntos deles. A propósito, por detrás de tudo isso está uma tremenda jogatina nas últimas semanas com o preço do ouro, um sobe e baixa semanal de quase 2%. Pode acabar caindo abaixo de 1000d/onça e ferrando também mineradoras. A partir de agora, só com bola de cristal, como naquele livro O Presidente Negro, de Monteiro Lobato.

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