Opinio pblica no tem e jamais ter donos

Pedro do Coutto

Ao discursar sbado na cidade de Campinas ao lado da candidata Dilma Rousseff, o presidente Lula atacou a imprensa, culpando-a pela publicao das matrias que terminaram levando a demisso da ex-ministra Erenice Guerra e disse, com todas as letras, que os pobres no precisam de formadores de opinio. Ns acrescentou somos a opinio pblica. Est em O Globo de domingo, reportagem excelente de Srgio Roxo. O presidente da Repblica trocou os sinais da lgica e enveredou por um estranho caminho de fantasia e irrealidade.

Em primeiro lugar, a imprensa no produz fatos, reflete-os. Se eles so pssimos , os responsveis so seus autores, no os jornais e revistas, ou as emissoras de televiso e rdio. No terrvel episdio Erenice Guerra, os jornalistas nada inventaram: ao contrrio, reproduziram as declaraes do empresrio Fbio Baracat, de uma empresa area interessada em participar do mercado de correspondncia e cargas, e que se apresentou como alvo das rajadas de uma corrupo palaciana. Foi a ponta de um iceberg que emergiu e fez submergir a ministra chefe da Casa Civil.

A contradio de Lula da Silva, no caso, total. Se a imprensa no merece crdito, ento ele, presidente, errou em demitir Erenice Guerra. Deveria t-la investigado mais e no apenas determinado Polcia Federal que investigasse as estranhas investidas de seu filho, Israel Guerra. Mas no. Julgou desnecessrio, preferindo afastar a pessoa que substituiu no posto a Dilma Rousseff. O desfecho do raciocnio deixa mal a maior figura do PT. Se para ele a imprensa no vale como formadora de opinio, mas se ele afastou Erenice, porque achou exatamente o contrrio do que disse. Agiu em funo de uma realidade, buscando ir ao encontro da opinio popular, a qual no identifica como uma fora viva do pas. Claro. Da a frase ns somos a opinio pblica.

Luis Incio da Silva comete, alm de tudo, ingratido quanto imprensa. Esquece agora ter sido as imprensa que, a partir da greve dos metalrgico de 79, o levou s primeiras pginas e ao conhecimento de sua presena junto opinio pblica. Trinta e um anos depois de sua caminhada vitoriosa no sentido do poder, vem ressaltar que os jornais e jornalistas nada representam e escrevem coisas que o irritam. O que certamente o irritou no foram as reportagens da Veja, de O Globo, da Folha de So Paulo e de O Estado de So Paulo, e sim o desempenho quase inacreditvel de Erenice Guerra.

Deveria, isso sim, agradecer imprensa. Pois foram os jornais e revistas que o fizeram livrar-se de to negativa ministra. Sobretudo de uma ministra que ocupava sala ao lado da sua. Quando a Casa Civil recebe pacotes de propinas, os autores de tal trfico de influncia esto efetivamente traindo a confiana do presidente da Repblica e agindo para afundar eticamente o governo.

A tempestade no Planalto no vai alterar o destino das eleies. Mas vai mudar o runo da sucesso sob o ngulo poltico. Dilma Rousseff vai vencer nas urnas a 3 de outubro. No h dvida. Porm para formar sua equipe de governo ter mais dificuldade do que supunha. Depender mais da coligao PT-PMDB do que dela mesma. Perdeu fora. No poder nem de leve contrariar as duas siglas. Quem viver ver. A opinio pblica no tem donos.

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