Os bancos, o lobo e o cordeiro

Carlos Chagas

Pela primeira vez em décadas, este ano, a Febraban não escolheu um banqueiro para  sua presidência. A escolha recaiu num técnico de renomada experiência e capacidade, Murilo Portugal, que no momento do convite exercia o importante cargo de diretor do Fundo Monetário Internacional, baseado em Washington e viajando pelo mundo quase todas as semanas. Ele cedeu à possibilidade de voltar a morar no Brasil, com a família, mesmo ganhando menos do que recebia lá fora. Não é um banqueiro, ou seja, suas decisões não seriam pautadas pelo interesse exclusivo do faturamento a qualquer custo, mas pelo bom senso que faz o sistema financeiro  inserir-se na macro-política economica  nacional.

Assim aconteceu até a semana que passou, quer dizer, a Febraban atuava conforme as diretrizes dos bancos, mas sem exagerar.  Tendo presente os diversos componentes da ciranda que envolve  as instituições de crédito, mas prestando atenção, também, nos clientes, nos correntistas e nas necessidades do poder público. Claro que sustentando o lucro, ainda que  olhando em volta.

É bom prestar atenção: isso aconteceu até a semana passada, porque de lá para cá a Febraban passou monumental rasteira na população. Tendo  em vista a greve dos funcionários dos Correios, o natural seria que sem receber as contas e os boletos de pagamento, o cidadão comum obtivesse  de seus credores, os bancos, a natural  moratória para saldar seus débitos. Afinal,  impedido de saber o total de suas dívidas, o indigitado devedor necessitaria do tempo necessário a que a greve chegasse ao fim e se normalizassem os serviços de entrega.

Aconteceu, porém, o inominável. Os bancos, através da Febraban, avisaram que débitos não saldados no dia certo  seriam taxados pelos juros e demais encargos inerentes a situações em que o indivíduo não paga porque não pode ou não quer. Azar o dele, se não recebeu a cobrança. Que vá pesquisar, desdobrar-se e buscar junto ao bispo o total daquilo que deveria pagar na data aprazada. Os bancos é que não abrem mão de cobrar a inadimplência forçada. Mesmo sem que o infeliz tenha recebido o aviso para pagamento, tem que pagar. Mas sem saber quanto? Ele que se dane.

Convenhamos,  eis aí mais uma evidência da usura, do egoísmo e da injustiça. Nem dividir com os devedores  o prejuízo da paralização dos Correios   os bancos aceitaram. Sua postura é a mesma dos feitores de escravos. Ou, se quiserem, do lobo diante do cordeiro. 

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DESFAZENDO ESPERANÇAS 

Continuando as coisas como vão e tendo-se como definitivas as declarações do ex-presidente Lula, de que a vez de disputar a presidência da República, em 2014, é de Dilma Rousseff, poderia  ter-se acendido uma luz no fim do túnel em que se encontram aprisionados os tucanos. Afinal, disputar com o Lula seria sucídio, mas se o primeiro-companheiro abre mão para a sucessora, o quadro muda de figura.  Haveria chance para uma candidatura de oposição.

Por conta disso deveria o PSDB, desde já, estar afiando suas espadas e organizando-se como um corpo uniforme e bem capacitado. Estabelecendo, por exemplo, linhas gerais de ação capazes de confrontar  o modelo em execução pela presidente Dilma. Apontando falhas  e apresentando alternativas.  Acima de tudo, porém, preparando o seu candidato, que a lógica e o bom-senso indicam deva ser o senador Aécio Neves.

Acontece o oposto.  Nem um programa crítico de governo emerge do ninho onde todos se bicam e ninguém alça vôo.  José  Serra acha que tem que ser ele  o candidato. Afinal, só  perdeu duas vezes, sendo que o Lula perdeu três, até chegar à  vitória na quarta tentativa. Geraldo Alckmin faz ouvidos de mercador e comporta-se como a hipótese ideal, baseado na força de São Paulo. Fernando Henrique continua de olho, apesar de seus oitenta anos. Ou Konrad Adenauer não reconstruiu  a Alemanha com mais idade? Enquanto isso, Aécio Neves parece haver-se encolhido, no exercício de seu mandato de senador. São tucanos e não pombas, ainda que prevaleça a poesia inesquecível: vai-se mais uma, depois outra… No caso, oportunidades.

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POR QUE NÃO ANTECIPAR?  

Mais do que voz corrente, tornou-se verdade absoluta que a presidente Dilma promoverá ampla reforma  no  ministério, no fim do ano ou no começo do próximo. As razões são mais do que  necessárias: adaptar o governo às suas concepções, livrando-se das indicações que não fez, mas apenas aceitou, de partidos e do próprio antecessor.  Claro que sob a capa da desincompatilização de um ou dois  ministros que seriam candidatros às eleições do ano que vem.

Pois começa a correr no Congresso e na Esplanada dos Ministérios uma indagação tão simples quanto óbvia: se é para melhorar a performance do governo, por que esperar? Não seria melhor mudar logo as peças tidas como supérfluas e inoperantes? Por que aguardar meses que poderiam ser essenciais para a performance da administração federal?  Constrangimentos que fatalmente  acontecerão  em dezembro  ou  janeiro seriam apenas antecipados.

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