Os black blocs não devem ser tratados como terroristas

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Leonardo Boff

As manifestações pacíficas de 2013 e de 2014 mostraram também, paralelamente, a atuação violenta dos black blocs, que, mascarados, faziam quebra-quebras, atacando policiais, culminando na morte do cinegrafista Santiago Andrade. Suscitou-se, então, o tema do terrorismo.

É arriscado tratar logo como terrorismo os atos violentos praticados. Estes irromperam no seio de grupos insatisfeitos com certas alianças do PT com políticos altamente desacreditados ou em reação à violência policial. Pode estar presente um traço ideológico como oposição radical ao sistema macroeconômico neoliberal, dentro do qual se situa o Brasil. Tais grupos vêm carregados de decepção e amargura. Dão vazão a esse estado de ânimo por meio de ações destrutivas.

Pode-se qualificar tais atos como expressão de terrorismo? Penso que não seria exato. O terrorismo tem por trás de si um radicalismo excludente, seja de natureza religiosa ou política. Leva militantes a sacrificar a vida por seus propósitos.

Essa fenomenologia mostra a singularidade do terrorismo: a ocupação das mentes. Nas guerras e guerrilhas, precisa-se ocupar o espaço físico para efetivamente se impor. No terror, não. Basta ocupar as mentes com ameaças que produzem medo, internalizado na população e no governo. O medo produz fantasmas que desestabilizam as pessoas e a ordem vigente.

ESTRATÉGIA

Para dominar as mentes pelo medo, o terrorismo segue a seguinte estratégia: 1) os atos têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada; 2) apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada; 3) devem sugerir que foram minuciosamente preparados; 4) devem ser imprevistos, para dar a impressão de ser incontroláveis; 5) devem ficar no anonimato dos autores, porque quanto mais suspeitos, maior o medo; 6) devem provocar permanentemente medo; 7) devem distorcer a percepção da realidade (qualquer coisa diferente pode configurar o terror).

Formalizando: o terrorismo é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com o medo e o pavor. O importante não é a violência em si, mas seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos.

Está em debate no Ministério da Justiça, nos órgãos de segurança do Estado e no Parlamento uma legislação visando tipificar os atos destrutivos dos black blocs como terrorismo. Mas os atos, por seu caráter destrutivo, têm traços de terrorismo sem ser terrorismo propriamente dito.

Se os tratarmos como terrorismo, como já foi advertido pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, correremos o risco de instaurar o medo na sociedade, medo que acaba inibindo as manifestações populares. Com medidas de caráter antiterrorista, podemos estar levando água ao moinho dos black blocs: ocupar, pelo medo, as mentes da população. Basta enquadrá-los nas leis existentes, com as punições previstas.

SOCIEDADE DESIGUAL

Mais importante do que saber quem cometeu e comete atos de violência é saber por que se recorre a eles. A nossa sociedade altamente desigual e discriminatória sempre oferece razões para a indignação violenta. Cumprir a Constituição, possibilitando educação, garantindo o mínimo para todos, suscitando amor às pessoas como o fizeram, exemplarmente, a esposa do cinegrafista Santiago Andrade e a ministra Maria do Rosário, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

São caminhos de outro tipo de estratégia política, certamente mais eficazes do que a pura e simples repressão policial, que ataca os efeitos, mas não atinge o coração dessa violência que, não acompanhada, pode se transformar em eventual terrorismo organizado.

9 thoughts on “Os black blocs não devem ser tratados como terroristas

  1. Caro Jornalista,

    Parabéns pela publicação do artigo do Boff.
    É bom saber que, neste espaço, nenhum ponto de vista é discriminado. Nem mesmo os daqueles que, só por birra, insistem em pertencer à realidade da Turma do Balão Mágico, Peter Pan e Sininho!

    Abraços.

  2. Destruíram patrimônio público e privado, usando máscaras do anonimato.
    E agora mataram o cinegrafista.
    Isso jamais será esquecido.
    Essas manifestações são proibidas em qualquer parte do mundo.
    Baderneiros e terroristas sim. Com seu terror calaram a voz da sociedade que tentava protestar, pacificamente, em junho.

  3. Esse “genésioboff”, além de degenerado, é irrecuperável. Em jornal meu, um mau elemento como esse sequer passava na porta. E olha que sou democrata pra dedéu.

  4. Os Black Blocks praticam um terrorismo includente, do bem!.

    Li e reli cuidadosamente o artigo do ex-frade Boff e como sempre nos surpreende pela sua forma de interpretar e comentar os fatos que trata. Considero que um intelectual deve nos apresentar luzes que iluminem os fatos que pretende tratar para o bem comum.
    Neste artigo, como leitor, não consigo concordar com sua interpretação a respeito “da violência dos Black Blocks”. Penso que o Sr. Boff mistura vários elementos confundindo mais do que explicando. Vamos por partes. Em primeiro lugar reconhece que os atos dos mascarados são violentos! Depois seu raciocínio tenta justificar esta violência por causa do sistema neoliberal que vivemos…em seguida tenta nos alertar para não confundir os rapazes com terroristas.
    Inclusive o Sr. Boff nos ensina sete características do que seria o terrorismo como estratégia. Curiosamente estas sete estratégias correspondem na sua maioria ou quase todas na forma de atuação destes grupos, inclusive ele não diz, mas existe financiamento, suporte e apoio políticos…que estariam por trás destes atos, eles não são assim tão espontâneos como querem fazer crer.
    Ora, o parâmetro para definição do que seja terrorismo que o Sr. Boff usa corresponde a noção do clássico “terrorista” nacionalista ou religioso islâmico [hoje contra cristãos na Nigéria, Filipinas, Síria] infelizmente em uso.
    Trata-se de “terrorismo” com objetivos bem definidos “a nível de ideologia, poder e o domínio das mentes pelo medo. Estes grupos violentos fizeram com que os protestos pacíficos desaparecessem das ruas, isto não seria também uma espécie de terrorismo excludente? Muitos ficaram com medo de continuar nas ruas e isto se configura num atentado a democracia e ao justo direito da população exprimir sua revolta contra a corrupção e ao descaso do Governo e do Estado para com as suas necessidades não atendidas. Sobre isto não ouvi nenhuma palavra dos sábios de plantão.
    Lendo suas considerações vemos que implicitamente da a entender que existiria um outro tipo de violência, do tipo “includente” em contraposição ao terrorismo excludente. Aqui começa meu espanto. Como é que intelectuais de um preparo tão refinado e humanista como o Sr. Boff é capaz de abstrair questões como a de se esses protestos são do bem e que a sua “violência” teria algo de redentora e que nos temos a obrigação de entender as causas subjacentes e que a melhor estratégia seria uma educação que num futuro bem distante nos garanta a paz e tranquilidade que por agora nos falta?
    Aqui ecoa aquele principio marxista da seita comunista de que no futuro nossa sociedade será perfeita e igualitária e que estes dissabores e agruras atuais serão apenas coisas do passado…[isto é, se o socialismo com liberdade prevalecer]
    Sr. Boff, a lei antiterrorista como esta sendo proposta pelo seu partido o PT, não tem nada a ver com preocupações humanitárias ou sociais. Tem a ver sim com o controle social durante a Copa e claro com a reeleição da Sra. Presidente e nesse ponto podemos até concordar, mas por razões completamente diferentes, a Lei antiterrorista como a pensa e formula o seu Governo visa apenas neutralizar os protestos que tomarão as ruas e prejudicarão o Ibope do governo.
    Todo este imbróglio seria resolvido se os protestos fossem pacíficos, ordenados e organizados de forma tal que as pessoas pudessem expressar suas opiniões e críticas e que fossem excluídos sim os atos de violência que tem traços de terrorismo e que são terrorismo mesmo sem tergiversar, sem eufemismos, sem desculpas nem conivências, sem cinismo nem hipocrisias.
    A propósito, aproveitando o tema, e os protestos na Venezuela, por la a população ainda faz protestos pacíficos e temos visto em vídeos na internet os soldados e os agentes cubanos e grupos armados disparando contra a população indefesa. Os humanistas aqui nada de nada, cumplicidade…
    E naquela ilha paradisíaca [Cuba] onde é proibido e punido com prisão qualquer protesto o que dizer do terrorismo de Estado?
    Agora é um crime não responsabilizar alguém pelos crimes que comete em nome de uma causa abstrata, essa mania de justificar é estabelecer a injustiça e responder a um mal com outro mal pior. Sabe do caso de um homem que empurrou uma mulher no metrô e esta perdeu um braço, sabe que disse o criminoso? Que estava protestando contra a sociedade…esse tipo de raciocínio de desrespeito a lei, que cria a impunidade, veja que paradoxo, lá em Cuba e na Coreia do Norte, do Norte, o respeito a lei são absolutos aqui não…são relativos.
    Vivemos o mito de Prometeu, pretendendo salvar a humanidade da ignorância este roubou o fogo do Olimpo e foi punido por isso, ficou acorrentado a um rochedo. Assim, os iluministas nos acorrentam com ideologias totalitárias não nos enganemos, lobos com pele de cordeiros, os inocentes que se cuidem. A propósito já rezou pela alma do cinegrafista?

  5. É o que eu digo sempre. Vale tudo para interesses partidários ou ideológicos. Tem até “democrata pra dedéu” que se confessa censor, o que prova que a palavra democracia também tem tempero exótico para gosto domomento. Estou farto de constatar que não conseguem os fascistas e lacaios dos interesses dos EUA daqui do blog fazerem uma crítica ou mesmo espinafrar um artigo, sem invocar Cuba, Coréia do Norte e, mais recentemente, países latino americanos que contrariam interesses norte americanos, os quais nenhuma relação, por exemplo, com o tema específico acima e com a realidade brasileira têm. Esqueceram que não vivemos mais naqueles meses que antecederam o golpe militar de 1964 e que suas propagandas e mentiradas que desgraçaram famílias de milhares de PATRIOTAS NACIONALISTAS, a começar pela do deputado do PTB Rubens Paiva, cassado pelo Ato 1 e massacrado fisicamente anos depois, não convencem mais.

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