Os cães enlouquecidos

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

Lemos, nos jornais, a história da morte bárbara da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, amarrada e espancada por um grupo de assassinos, no bairro de Morrinhos, na Baixada Santista, em Guarujá.

Uso a palavra assassinos porque, ao contrário do crime pretensamente atribuído à sua vítima – de ter sequestrado uma criança para praticar magia negra – o  deles ficou provado pelo resultado: a morte, por linchamento, de uma jovem mãe,  a partir da divulgação, em site sensacionalista que emula programas vespertinos de televisão, de um retrato falado que teria servido para a “identificação” da vítima pelo grupo de psicopatas que a matou.

Temos tido, no Brasil, nos últimos meses, inúmeros exemplos desse tipo. Como se não bastassem milhares de mortes de suspeitos, por auto de resistência à prisão, ou em circunstâncias não esclarecidas, pela polícia, pessoas consideradas aparentemente “normais”, estão fazendo “justiça”, ou melhor, cometendo crime de tortura e homicídio, com as próprias mãos.

Descarregando seu ódio, seu recalque e suas frustrações, com porretes ou pedaços de cano nas mãos.Como cães enlouquecidos.

CARNAVAL DOS PSICOPATAS

O linchamento é a festa dos assassinos, o playground, ou carnaval dos psicopatas, o recurso mais covarde dos canalhas. Nada o justifica.

Quem quer punir alguém por um crime, chama a polícia e o entrega à justiça. Quem quer cometer um crime, usa a circunstância de o outro estar cercado, inerme, em minoria – principalmente quando se trata de alguém mais velho, muito jovem ou de uma mulher – para dar vazão aos seus instintos mais baixos, se assenhoreando do corpo do outro, vibrando a cada pancada, a cada paulada, a cada pontapé, bebendo do seu medo, da sua vulnerabilidade, de seu pavor diante da iminência da morte.

Não existe nenhuma diferença entre matar uma criança em um ritual de magia negra e participar do assassinato coletivo de uma mãe. Os homicidas que humilharam, espancaram e mataram Fabiane Maria de Jesus, devem ser encontrados e punidos, como devem ser os responsáveis pela divulgação do retrato falado e do boato, que não tinham sequer a confirmação do desaparecimento de qualquer criança no município. E que, provavelmente, queriam apenas aumentar o número de visitantes do blog.

CONSCIÊNCIA

A punição maior deve vir da própria consciência dos culpados. Eles mereceriam ouvir, de novo, a cada noite, a cada sonho, para sempre, os apelos dramáticos de sua vítima. Ver, em sua mente, até o último de seus dias, o olhar apavorado de Fabiane, clamando por sua vida.

É isso que nos dá vontade de desejar-lhes, esperando que, em um país que está perdendo a razão em nome do combate à violência, em que não existe mais a presunção de inocência, eles não venham, também, a ser linchados um dia. Se chegar sua vez e seu momento, como chegou, para o cachorro castanho que vi, cercado pelos outros, no areal do rio Lima.

2 thoughts on “Os cães enlouquecidos

  1. Sei não…
    Cada vez mais, os escândalos e a violência tornam-se a base para a pauta do dia nos jornais, revistas e canais de TV e… redes sociais.
    Estamos deixando de ser um país feliz ?

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