Os canhões não falaram e a democracia saiu ilesa

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Juscelino e o general Lott, que garantiu a posse dele

Carlos Chagas

Sexta-feira, 11 de novembro de 1955, o Rio não dormiu. Ou dormiu pouco, porque de madrugada a cidade já estava acordada. Em todos os quartéis e repartições do Exército havia movimentação inusitada. Tanques e canhões ocupavam as principais avenidas e praças. Soldados equipados  guardavam repartições federais e, de forma um tanto estranha, cercavam estabelecimentos da Marinha e da Aeronáutica.

No ministério da Guerra, as luzes estavam acesas, em especial nos andares dos gabinetes do ministro e do comandante do I Exército.  Aparelhos de telegrafia e telefones não paravam de tilintar, transmitindo ordens e recebendo adesões das unidades espalhadas pelo país inteiro.

O Exército erguia-se em solidariedade ao ministro Henrique Teixeira Lott, demitido na véspera, mas horas depois outra vez instalado em seu gabinete pela totalidade dos demais generais e altos oficiais. Levantava-se o país armado para evitar o golpe engendrado pelo presidente interino da República, Carlos Luz, apoiado pela Marinha e a Aeronáutica, empenhados em não dar posse ao presidente eleito, Juscelino Kubitschek.  Em nome da legalidade e para assegurar o regime democrático e a Constituição, o general Lott aceitara chefiar a rebelião. Um golpe para evitar outro golpe, ironicamente batizado de Movimento de Retorno aos Quadros Constitucionais Vigentes. A agressão à semântica tinha sido o único erro do Exército, porque como retornar ao que não era  mais vigente?

Enquanto o sol nascia, o presidente derrotado e mais uns poucos ministros e conspiradores conseguiram embarcar no cruzador “Tamandaré”, rompendo a linha de defesa das fortalezas do Exército, na entrada da baía da Guanabara. Diz a crônica que general Lott mandara bombardear e afundar o navio rebelado. Como estávamos no Brasil, as fortalezas atiravam, o estrondo era grande, mas nenhuma bala acertou. Brasileiros matando brasileiros? De jeito nenhum.

O navio seguiu para o Sul, mas precisou voltar, pois nenhuma adesão foi conquistada. O Exército dominava o litoral e o interior. O Congresso encontrou outro presidente interino, no caso Nereu Ramos. Juscelino Kubitschek tomou posse, dias depois, mantendo o general Henrique Lott como ministro da Guerra. Estava salva a Legalidade, pelo menos até 1964. Ainda hoje ressoam os estampidos dos poderosos canhões das fortalezas. Merecem medalhas os bravos artilheiros que, de propósito, erraram o “Tamandaré”.  Da mesma forma os marinheiros que não responderam ao fogo amigo. Felizmente, os canhões não falaram.

3 thoughts on “Os canhões não falaram e a democracia saiu ilesa

  1. Chagas, Lott foi o verdadeiro líder dos acontecimentos que tiveram início com a morte e o enterro do general Canrobert Pereira. No enterro, o coronel Jurandir Bizarria Mamede fez um discurso que o Ministro da Guerra general Lott presente entendeu como quebra de disciplina. Exigiu que Mamede fosse preso pois estava adido a Escola Superior de Guerra. Foi a Palácio fazer a exigência a Carlos Luz que deixou-o esperando por bom tempo. Negado o pedido de punição Lott pede demissão. Diz que passará o comando ao general Fiuza de Castro as “10h” do dia seguinte. A noite, com o general Denis prepara o golpe. Ao alvorecer do dia seguinte o Exército já bloqueara da Praça Mauá ao Aeroporto Santos Dumont. O Almirante Pena Boto comandante da Esquadra e o comandante do cruzador Tamandaré almirante Silvio Heck resolveram seguir para Santos. Esperavam com o apoio de Janio governar o Brasil de São Paulo. Nada feito: As Forças Armadas em todo o Brasil atendiam o comando do general Lott. Alguns escritores por paixão quiseram desmerecer Lott dizendo que Denis e que fora o líder do movimento. Não é verdade. Lott era um disciplinador e jamais se deixaria conduzir por outro general. Quanto aos tiros dados no Tamandaré da Fortaleza de Santa Cruz, soube-se depois foram de advertência(festim). Eu servia no Cruzador Barroso e estava de serviço. O oficial de serviço era o capitão Brígido.

    • Posso contar essa historia que vivi dentro do Forte Copacabana. Eu estava presente no PC (Posto de Comando ) do Forte, ao lado dos seus oficiais e assisti quando o coronel comandante recebeu ordens diretas do General LOTT para afundar o Tamandaré. Isso só não aconteceu porque a bateria principal, de 360 mm estava avariada e São Pedro, carioca de coração, felizmente mandou uma densa neblina sobre o mar de Copacabana, que nao permitiu a visada direta sobre o vaso de guerra. Mesmo assim, a bateria dos 190mm atirou fazendo pontaria por dentro da alma dos canhões e atingindo a ilha de Cotunduba. A história completa deixou de ser trágica e apresentou lances cômicos inesquecíveis para aqueles que estavam servindo naquela unidade

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