Os cortes orçamentários, anunciados pelo governo, mostram a realidade da economia herdada pela presidente Dilma. As dividas se avolumam, o dólar não sobe e as dificuldades aumentam.

Carlos Newton

Já comentamos aqui as disparidades dos números divulgados pelos órgãos de comunicação sobre as dívidas interna e externa. Como a grande maioria dos jornalistas não tem formação acadêmica em Economia, são facilmente enganados pelo “conceito” com que o governo divulga a dívida. A economia brasileira vai bem, mas nem tudo são flores.

Na verdade, o noticiário econômico é sujeito a diversos tipos de maquiagem. Ninguém se importa, a preferência é pelas reportagens esportivas, sempre muito mais agradáveis. Poucos tentam entender por que o governo está anunciando cortes e uma nova política de contenção fiscal. E isso ocorre justamente quando a inflação volta a ameaçar. Realmente há nuvens negras no horizonte.

A Tribuna da Imprensa online é o único órgão de comunicação que leva em conta a DÍVIDA PÚBLICA como um todo. Utilizamos as informações oficiais da equipe econômica, que têm sido brilhantemente analisadas aqui no blog pelo jornalista Pedro do Coutto, que acompanha diariamente o Diário Oficial da União, sem falar no Helio Fernandes, que há décadas vem denunciando a questão das dívidas interna e externa .

Segundo o balanço de 2010 emitido pela Secretaria do Tesouro, assinado por Arno Hugo de Augustin Filho e Valdir Agapito Teixeira (respectivamente, secretário do Tesouro e secretário federal de Controle Interno), a dívida interna já passa de estratosféricos 2,475 TRILHÕES DE REAIS. É este número que levamos em conta aqui na Tribuna da Imprensa, com base exclusivamente nas informações do próprio governo.

Outros órgãos de comunicação exibem números menores, porque, como o governo federal quer mostrar serviço, divulga totais mais reduzidos, sempre abatendo, por exemplo, a chamada “DÍVIDA MOBILIÁRIA DO TESOURO NACIONAL INTERNA”, cujos títulos estão em carteira no Banco Central.

A diferença é expressiva. No último Relatório de Gestão Fiscal, que faz o balanço de 2010, a DÍVIDA FUNDADA OU CONSOLIDADA estava em R$ 2,475 TRILHÕES”.  Mas o pior é abater (como se não existisse) a chamada “DÍVIDA MOBILIÁRIA DO TESOURO NACIONAL INTERNA”, cujos títulos, repita-se, estão em carteira no Banco Central. Na virada do ano, este total passou de R$ 706 BILHÕES, quantia nada desprezível.

Como esses títulos não estão no mercado e ficam em carteira no BC, o governo age como se não existissem. Mas na verdade existem, porque o governo fez o lançamento desses títulos e usou os recursos. Melhor explicando: o dinheiro referente a esses títulos não está depositado em lugar algum. Já foi gasto e se esfumaçou. Apenas os títulos é que estão “em carteira no BC”. E rendem juros Selic (11,5% ao ano), que o governo terá de pagar.

Com essa operação mágica (de fazer inveja a Mister Houdini, a David Copperfield ou ao Mister M), o governo acaba de divulgar que a dívida mobiliária interna é de apenas R$ 1,6 TRILHÃO. E os jornais publicaram essa notícia, semana passada, sem analisar nada, sem dar uma simples conferida no último Balanço da União, que inclusive registra a existência de outras dívidas menores, que não estão somadas aos R$ 2,475 TRILHÕES.

Quanto à divida externa, que o governo “insinua” já ter pago, a  parcela reconhecida pela União (relativa apenas a títulos, há outros tipos de dívida) está hoje em R$ 71,44 bilhões, enquanto as dívidas de operações de equalização cambial subiram para R$ 48,53 bilhões. O total da dívida externa está em torno de US$ 250 bilhões, dos quais cerca de US$ 90 bilhões são da responsabilidade do governo federal, enquanto o restante é da alçada de estados, municípios, estatais e empresas privadas, especialmente bancos brasileiros, que pegam dinheiro barato no exterior e emprestam com altos juros aqui no mercado interno.

As tão elogiadas reservas internacionais acabam de ultrapassar US$ 300 bilhões de dólares, porque vêm sendo realimentadas pela compras diárias do BC, na tentativa de aumentar a cotação da moeda norte-americana. Mas essas operações saem caro. Ao comprar dólares, o BC tem de arcar com o custo dos reais utilizados na troca (títulos com Taxa Selic, 11,25% ao ano). No ano passado, essas operações custaram aos cofres públicos R$ 48,53 bilhões. Detalhe importante: as reservas internacionais – depositadas no mercado financeiro suíço – rendem no máximo 3% ano, ou seja, apenas o equivalente a R$ 5 bilhões. Um péssimo negócio.

Esta é a realidade da nossa economia, que vem crescendo, simultaneamente ao endividamento. Mas precisa ser analisada friamente, sem maquiagem e sem artifícios. É um assunto apaixonante e preocupante, embora muito árido e desprezado pela maioria dos leitores.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *