Os desatinos e os escândalos viajaram

Carlos Chagas

Para  sair de férias, não há força humana ou divina  que impeça. Falamos do Congresso, como poderíamos falar, também,  do Judiciário e seus tribunais superiores. Com toda certeza não haverá um trabalhador em todo o território nacional que não tenha sido obrigado, em algum momento, a adiar férias antes programadas. A empresa exige, a repartição apela, até a família se intromete.

Com deputados e senadores, de jeito nenhum. O primeiro semestre parlamentar foi atípico, entrando tempestuoso pelo mês de julho. Desde a mais recente agressão do presidente Lula, chamando os oposicionistas de pizzaiolos,  até a explosiva CPI da Petrobrás, a constituição singular  do Conselho de Ética do Senado, as sucessivas denúncias contra o presidente José Sarney, a votação atabalhoada da Lei de Diretrizes Orçamentárias, enfim, não obstante  um desgaste poucas vezes verificado no Legislativo – apesar de tudo, deram-se as mãos líderes e bancadas de todos os partidos. Escafederam-se sorrindo.  Esqueceram divergências e desafetos, tanto quanto a necessidade de investigar, esclarecer e  prestar contas à opinião pública de uma das maiores crises de sua história. Cessa tudo, na hora de Suas Excelências ganharem o caminho da praia, da montanha ou do exterior.

Causava espanto a movimentação no aeroporto de Brasília, no fim de semana. O saguão de entrada parecia um plenário lotado e efervescente, ainda que a maior parte dos representantes do povo tenha encontrado nova forma de escapar  do próprio, quer dizer, do povo. Embarcam através de salas especiais, antes da plebe. Raramente entram em filas, já que seus aspones fazem o check-in antecipado.

Muita gente fica com a impressão de o Congresso haver encenado uma farsa na capital federal, de fevereiro até agora, porque fecharam as gavetas, empurraram graves questões para agosto e, felizes, foram embora. Depois se argumenta que Brasília é o centro  da corrupção, dos desatinos e dos escândalos. Não é. Os escândalos, os desatinos e a corrupção viajaram…

As obras de Santa Engrácia

No tempo dos nossos avós, quando os portugueses ainda mantinham forte influência na vida cultural e comercial do Brasil, era comum   o uso da  imagem lusitana que lembrava as “obras Santa Engrácia” para explicar empreitadas sempre adiadas e jamais completadas.  A referência ia  para a construção da igreja de Santa Engrácia, em Portugal, iniciada no século XVI e à época ainda  não concluída.

É mais ou menos o que acontece com a aquisição dos imprescindíveis novos aviões de caça para a Aeronáutica. Estamos defasados de décadas em nosso equipamento aéreo, e nem se  compara a situação  com os Estados Unidos, a Rússia, a China  e outros países militarmente desenvolvidos. Perdemos para a Venezuela, o Peru, o Chile, a Argentina e a  Colômbia, em número e qualidade de aeronaves de combate. Há quantos anos ouvimos dizer que o governo, agora, modernizará nossa frota? Mil anúncios são feitos, contratos anunciados, mas nossos pilotos frustram-se há várias gerações.    Estão enganando a Força Aérea Brasileira faz muitos  presidentes da República. Um dia, queira Deus que jamais aconteça, ficaremos arrependidos de tanta protelação, porque dinheiro para acudir bancos falidos e empresas em estado pré-falimentar, nunca faltou.  Para garantir a segurança e a soberania nacional, é outra conversa…

Não tem prazo

Irrita-se o presidente Lula toda vez que toma conhecimento da opinião de parlamentares da base oficial no sentido de estabelecer prazos para a consolidação da candidatura da ministra Dilma Rousseff. Porque com razoável cautela, até companheiros do PT afirmam que estão com a candidata, mas que ela deve afirmar-se antes do final do ano, nas pesquisas. Não há prazo, para o Lula, ainda que sempre acrescente estarem os resultados  muito melhor do que as previsões. Mas não admite dúvidas e questionamentos. Dilma é o nome e não haverá que reformar a decisão.

São poucos, no PT e fora dele, nos partidos que apóiam o governo, com coragem de ponderar junto ao chefe  a hipótese de a chefe da Casa Civil não decolar. Falta coragem para questionar a imposição presidencial. De qualquer forma, haverá que aguardar.

“Deixe que eles falem…”

Do outro lado, no ninho dos grão-tucanos, prevalece a determinação de  José Serra de falar pouco sobre sua candidatura mas de manter férrea a determinação de ir até o fim. Quando indagado da possibilidade de abrir mão da disputa pelo palácio do Planalto e fixar-se na reeleição para o palácio dos Bandeirantes, o governador reage sempre com a mesma resposta: “deixe que eles falem…”

A referência é para o fato de que o PSDB identifica no governo e no PT a onda de insinuações a respeito de Serra preferir o certo ao duvidoso, ou seja, preferindo o segundo mandato em São Paulo.  Para quem o conhece, desde os tempos em que presidia a União Nacional dos Estudantes, essas versões só fazem solidificar ainda mais a disposição pela candidatura presidencial.  Precisa evoluir com cuidado, até pela existência das pretensões do governador de Minas, Aécio Neves. Mas a conclusão é de que vai até o fim.

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