Os empresários e a democracia

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

Não existe liberdade econômica sem liberdade política, e o melhor regime para se empreender é a democracia. Isso demonstram os números da economia brasileira, na maior parte dos anos deste início de século, e fatos como o divulgado no início desta semana de que o Brasil acaba de conquistar, segundo o GEM – Global Entrepreneurship Monitor, o título de nação mais empreendedora do mundo.

Ora, tanto a economia quanto a política pressupõem o respeito a regras previamente estabelecidas, e a necessidade de que as disputas transcorram com um mínimo de estabilidade. O caos não interessa a quem emprega, a quem produz, a quem empreende, assim como não interessam o terrorismo, nem o boato, nem a distorção de fatos e de dados, nem interessa o pessimismo, que, como qualquer pessoa de bom senso pode perceber, são ótimos para os que desejam hipócrita e interessadamente a crise, e nefastos para quem precisa trabalhar e depende diretamente do clima e do humor do ambiente de negócios.

Até agora, as principais entidades ligadas ao empresariado, como a CNI – Confederação Nacional da Indústria, a CNA – Confederação Nacional da Agricultura, e a CNC – Confederação Nacional do Comércio – a exemplo de outras organizações da sociedade civil, como a OAB – têm mantido prudente distância dos protestos que defendem o impeachment da Presidente da República e a delirante tese de uma “intervenção militar”.

QUEBRA DA NORMALIDADE

É preciso, portanto, prestar atenção, quando – em momento em que alguns de nossos maiores empresários estão sendo tratados como bandidos em meio a um inquérito que ainda está em curso, e suas empresas estão ameaçadas de quebra e de arrastar com elas dezenas, centenas de médias, pequenas e micro empresas, jogando milhares de brasileiros no olho a rua – formadores de opinião que circulam no meio empresarial começam a defender a quebra da normalidade política, e a lançar assustadores alertas ao público, na esteira de movimentos que não têm a menor possibilidade de sucesso, do ponto de vista da Legislação.

Este é o escopo de artigo publicado na coluna de opinião de conhecido jornal paulista na semana passada, que compara o momento atual com a campanha das Diretas e a do impeachment de Collor.

O autor, que trabalha com a organização de feiras e encontros empresariais, reconhece que não há “arcabouço técnico-jurídico” para um pedido de impeachment da Presidente da República. Mas diz que essa é uma discussão “para o Direito”. Que o dia 15 de março abriu novo marco na vida institucional. Saúda o surgimento de um tipo de cidadão com “apurada conscientização política”. Afirma que a vida política e institucional passou a ser banhada por “gigantesco lamaçal”. E conclui que a sociedade clama por uma “cirurgia rápida”, “antes que seja tarde”.

ESTADO DE DIREITO

Ora, é extremamente temerário relegar a lei, e o direito, a uma simples “discussão” para especialistas. Principalmente, quando se vive um momento em que milhares de cidadãos, justamente porque seu nível de informação e de “apurada conscientização política” é discutível, insistem cada vez mais em exigir medidas que são tão improváveis, como impossíveis e absurdas, no marco da plena vigência do Estado de Direito.

Como é temerário dizer que a política econômica do país se exauriu, quando continuamos com uma das mais baixas taxas de desemprego da história, com as reservas monetárias em um dos mais altos níveis – acima de 360 bilhões de dólares – a dívida interna líquida é a metade do que era há 12 anos, o PIB cresceu mais de quatro vezes, em dólar, desde 2002, e as principais agências de qualificação internacionais mantêm a nota do Brasil em Grau de Investimento, diante da solidez dos fundamentos nacionais na macro-economia.

E OS OUTROS CASOS?

Também é temerário, ou no mínimo extremamente seletivo, dizer que o país passou a ser tomado por um gigantesco lamaçal, como se nunca antes se houvesse praticado corrupção nesta República. Por acaso o Banestado, o Mensalão do PSDB, o Trensalão Paulista, a privatização do BANESPA e da Vale do Rio Doce, o caso das Termelétricas Merchant – muitos deles jamais investigados, ou, hoje, prescritos – estão, por obra e graça de alguns, ou de secretas indulgências papais, imaculadamente limpos e não fazem, moralmente, ou melhor, imoralmente, parte desse mesmo pântano e dessa mesma lama?

Por acaso não é preciso investigar, com o mesmo rigor, casos como os do CARF, da Máfia das Próteses, do HSBC – que, como podemos ver, nos lembra a proclamação de que aquele que nunca pecou, deveria atirar a primeira pedra – ou vamos punir apenas o que ocorreu no âmbito da Petrobras?

9 thoughts on “Os empresários e a democracia

  1. Artigo interessante este do Santayana!
    Ele tem como plano de fundo o seguinte pensamento: pobre vai continuar pobre com ou sem democracia e os áulicos devem se apropriar dos recursos públicos como puderem para que a economia continue girando!
    Belíssimo!

  2. A esquerda desde seu começo efetivo em sua vertentes socialistas, nazismo,fascismo e comunismo, tem na propaganda a sua maior realização.
    Como a teoria na prática é outra, esta desmente as maravilhas que santayana, ministro oculto da propaganda deste governo apregoa. Aliás ele faz isto tentando desviar o foco, que é a ruína do país pelo PT.
    Não colou.

  3. O senhor que assina o artigo veicula a mais nova tese do petismo. Os que se manifestam contra o governo tem uma conscientização política discutível ou até nula. Portanto o protesto não é válido.
    Quando temos eleições e sabemos da “compra” de votos pelas prefeituras e demais governos que estão no poder com chantagens, como a que fez maria do rosário no RS ameaçando por telefone as pessoas com a perda do bolsa-família se votassem no Aécio, os petistas dizem que a votação tem total validade! Agora questionam os protestos dizendo que as pessoas não tem “consciência” política.
    Essa negação é típica dos NAZISTAS! FASCISTAS! DITADORES! Que não aceitam o contraditório. Ao contrário de argumentar simplesmente anulam opiniões antagônicas.
    Quando isso virar Sarajevo não reclamem…

  4. Volto a frisar que não sei de onde o Santayana tirou isso. Do Global Entrepreneurship Monitor é que não foi.

    Segundo os dados fornecidos pelo site da organização (http://www.gemconsortium.org/docs/download/3106), entre os 37 países avaliados em Finanças, Política Geral, Legislação, Programas de Governo, Educação, Infraestrutura Comercial, Mercado Interno – Dinâmica, Mercado Interno – Abertura, Infraestrutura Física e Normas Culturais e Sociais, na tabela 3.2 – Principais Indicadores Das Condições De Empreendedorismo -, o Brasil ocupa a 36ª posição, penúltimo lugar, à frente apenas do Irã.

Deixe uma resposta para Mauro Julio Vieira Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *