Os fracassados de ontem e de hoje

Carlos Chagas

Primeiro, a evidência: a construção do Muro de Berlim foi  a maior estupidez que um regime político jamais praticou, em todo o século passado.  Seus responsáveis,  dirigentes  das extintas  União Soviética e República Democrática da Alemanha,  deveriam ser execrados até a eternidade pelo ato de burrice adotado no início dos anos sessenta,  que marcou a derrocada da versão totalitária do socialismo. Bem-feito para eles.

Todo muro exprime violência e ignorância, tanto faz se para impedir a entrada ou a saída de seres humanos.  Fica para outro dia comentar a existência de outros muros, como o que os Estados Unidos  erigiram na fronteira com o México ou o que Israel levanta diante dos territórios palestinos. Trata-se de iguais agressões à natureza das coisas, idênticos atentados à liberdade.

Agora, é bom prospectar um pouco essas olímpicas comemorações pelos vinte anos da   queda do Muro de Berlim. Redes de televisão dedicam tempo e espaço ilimitados à lembrança do que aconteceu. Por que tantas imagens, depoimentos e comentários a respeito? Vale o mesmo para jornais, revistas e sucedâneos eletrônicos em desvairada orgia publicitária, no Brasil e lá fora.

Tem azeitona nessa empada. Aliás, fácil de detectar.  Acontece que entrou em crise  o regime oposto àquele  socialismo distorcido, chame-se capitalismo   selvagem,  globalização ou neoliberalismo. Assim como o comunismo saiu pelo ralo, na esteira do  Muro de Berlim, os seus contrários estão indo para as mesmas profundezas. A recente crise econômica mundial apenas apressou a débâcle do pérfido sistema que impunha a prevalência do mercado e a supremacia do lucro e do capital sobre os valores da pessoa humana. O poder público emergiu  como fator primordial para equilibrar as relações sociais.

É precisamente  essa  realidade  que a exagerada campanha de recordação da queda do Muro de Berlim tenta abafar.  Quantos bilhões os fracassados de hoje  gastam para relembrar os fracassados de ontem?

Pretensões ilimitadas

Transforma-se  Fernando  Henrique Cardoso,  de sociólogo em sapateiro. Tenta botar  meia-sola no artigo que escreveu recentemente, tanto  de agressão  ao presidente  Lula  quanto de  vontade  de atropelar Serra e Aécio  na indicação presidencial tucana.

Depois de comparar o Lula a Perón, de acusá-lo nas linhas e nas entrelinhas de autoritário candidato a ditador, FHC dá um passo atrás e sustenta  terem sido ao governo e não  pessoais,  as críticas que fez.

Com todo o respeito e o reconhecimento pela cultura do  ex-presidente,  suas pretensões  parecem um sonho impossível  que jamais deixou de ser sonhado. Não se  contentou  em  atropelar  a Constituição e a  legalidade ao mudar as regras do jogo depois dele começado, impondo ao Congresso a reeleição. Eleito para quatro anos, ficou oito, advindo de sua permanência desmesurada no poder a ilusão de retornar outra vez.

O artigo de dias atrás expressou  ilusório lançamento de sua candidatura, por ele mesmo. Percebendo depois o tamanho do absurdo, vem agora dizer não estar empenhado em campanha eleitoral.  Rendeu-se ao óbvio.

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