Os ingredientes da felicidade, na viso de William D. Ogden

Jos Carlos Ibrahim

H 69 anos, William D. Ogden escreveu uma coluna para o New York Times a respeito da arte da felicidade. O texto foi publicado na edio de 30 de dezembro de 1945. Aqui esto algumas passagens que, pela sabedoria, mostram como isso poderia ter sido escrito na semana passada.

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UMA POCA CURIOSA
William D. Ogden

Hoje existe uma condio curiosa no mundo. Jamais houve uma poca em que tanto esforo oficial fosse feito para produzir felicidade, e tambm uma poca em que o indivduo prestasse to pouca ateno para criar as qualidades pessoais que contribuem com ela…

O que est sendo mais desprezado nos dias atuais a determinao pessoal de desenvolver um carter que, por si mesmo, dadas as condies razoveis, contribua para a felicidade. Toda nossa nfase recai sobre a reforma das condies de vida, de melhores salrios, ou controles sobre a estrutura econmica, casa prpria para mais gente, sempre com o enfoque no governo e muito pouco para que as prprias pessoas possam se aperfeioar como seres humanos.

Os ingredientes da felicidade so to simples que podem ser contados nos dedos da mo. Antes de mais nada, a felicidade deve ser compartilhada. O egosmo seu inimigo; fazer feliz a outra pessoa fazer feliz a si mesmo. A felicidade silenciosa. Raras vezes nos encontramos com ela em grandes aglomeraes.

Pode-se obt-la com mais facilidade em momentos de solido e reflexo. Ela vem de dentro, e descansa com mais segurana na bondade simples e uma clara conscincia. A religio pode no ser essencial para consegui-la, mas no se sabe de ningum que a tenha alcanado sem uma filosofia baseada em princpios ticos.

No pode ser comprada. Na verdade, o dinheiro, por estranho que parea, pouco tem a ver com ela. Foi Thomas Kempis quem disse, sabiamente, que ‘uma competncia modesta o suficiente’.

As pessoas no so felizes a menos que estejam razoavelmente satisfeitas consigo prprias, de modo que a busca da tranqilidade deve comear necessariamente por um exame de conscincia. Muitas vezes no ficaremos felizes com o que encontrarmos nessa busca.

Temos tanto para fazer, e to pouco feito! Mesmo assim, desta severa autoanlise depende a descoberta das qualidades que tornam nicas todas as pessoas, e cujo desenvolvimento a nica forma de ser feliz.

De todos aqueles que tentaram nestes anos criar um sistema para se obter a felicidade, poucos tiveram tanto xito quanto William Henry Channing, um padre que era o capelo do Senado americano na metade do sculo passado. Ele explicava sua filosofia desta maneira:

Viver contente com poucos meios. Buscar a elegncia mais do que o luxo, e o refinamento mais do que a moda. Ser merecedor de respeito em vez de respeitvel, e ter dinheiro em vez de ser rico. Estudar com fora, pensar em silncio, falar com suavidade, atuar com franqueza, escutar as estrelas e os pssaros, criaturas e sbios. Suportar com alegria, fazer tudo com valentia, esperar a ocasio, nunca apressar-se. Em uma palavra, deixar que o espiritual, o instinto e o espontneo se desenvolvam de forma normal. Esta minha sinfonia.

Devemos advertir, conclui Ogden, que nenhum governo pode fazer isso por voc. Voc mesmo tem de faz-lo. Quer ser feliz? Ento faa a sua parte e toque sua prpria sinfonia!

3 thoughts on “Os ingredientes da felicidade, na viso de William D. Ogden

  1. Gostei muito do texto acima, realmente muito inspirador. Segue abaixo um pequeno texto do escritor russo Liev Tolsty, que me acompanha por muito tempo em minha vida, e fonte de sabedoria.
    Aqueles que poderem obter o pequeno livro Calendrio de Sabedoria do mesmo escrito russo, tero um bom livro de aforismos e preceitos tico-morais, para o dia a dia.
    Gostaria de desejar um Feliz Natal a todos, sem exceo.
    As trs perguntas
    Liev Tolsty.
    Certa vez, ocorreu a um imperador que, se soubesse responder apenas s seguintes perguntas, nada jamais o afastaria do caminho justo:

    Qual o melhor momento para qualquer coisa?

    Quais so as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?

    Qual a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?

    O imperador promulgou um decreto para todo o seu imprio, anunciando que quem soubesse responder s trs perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palcio com as suas diferentes respostas.
    Respondendo primeira pergunta, algum sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupao total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso letra, o imperador poderia ento vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossvel prever tudo, que o imperador devia pr todas as distraes inteis parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho no podia possuir a clarividncia e a competncia necessrias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sbios e agir de acordo com as suas recomendaes. Uma outra pessoa disse que certas questes necessitavam de uma deciso imediata e no podiam esperar por uma consulta. Contudo, se o soberano desejasse conhecer com antecedncia o que ia acontecer, ser-lhe-ia possvel interrogar os adivinhos e os magos.

    As respostas segunda pergunta tambm divergiram muito entre si. Algum disse que o imperador devia colocar toda a sua confiana nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos mdicos e mesmo aos militares.

    terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a cincia, outros insistiram que era a religio e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador no ficou satisfeito com nenhuma das repostas e no atribuiu a ningum a recompensa.

    Depois de vrias noites de reflexo, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as trs perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por no receber seno pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razo, o soberano disfarou-se como um pobre campons e ordenou sua escolta que esperasse por ele aos ps da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.

    Ao chegar morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabea e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: Vim pedir a vossa ajuda. So estas as minhas perguntas:

    Qual o melhor momento para qualquer coisa?

    Quais so as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?

    Qual a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”

    O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse ento: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.

    O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no cho para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas trs perguntas. De novo, o velho homem no respondeu, mas levantou-se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Porque no descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra. Passaram uma e outra hora. Por fim, o sol ps-se atrs da montanha. O soberano pousou a enxada e disse ao eremita: “Escutai-me, eu vim at aqui para vos perguntar se sabeis responder s minhas trs perguntas. Mas se no souberdes, dizei-mo para eu regressar minha casa”.

    O eremita levantou a cabea e perguntou ao imperador: “Ouvis algum a correr na nossa direo?. O imperador virou a cabea e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direo ao soberano at cair sem sentidos no cho. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua prpria camisa. Visto que o sangue corria abundantemente, teve de enxaguar e enfaixar vrias vezes a sua camisa at conseguir estancar o sangue da ferida.

    Finalmente, o homem ferido retomou a conscincia e pediu gua. O imperador correu at ao rio e trouxe consigo uma bilha de gua fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. A, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que tambm se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmrio dificilmente perceptvel: “Por favor, perdoai-me”.

    “Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.

    “Vossa Majestade no me conhece, mas eu vos conheo. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmo na ltima guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vnheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que no vnheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem-me, infligiram-me esta ferida. Felizmente, consegui fugir e correr at aqui. Se no vos tivsseis encontrado, teria, com certeza, morrido na hora. Eu tinha a inteno de vos matar e vs salvastes-me a vida! Sinto uma enorme vergonha, mas tambm um reconhecimento infinito. Se viver, fao o voto de vos servir at ao meu derradeiro sopro e ordenarei aos meus filhos e aos meus netos que sigam o meu exemplo. Suplico-vos, Majestade, concedei-me o vosso perdo!”.

    O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. No apenas o perdoou, mas prometeu tambm restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu prprio mdico e os seus servidores para se ocuparem dele at se curar completamente. Aps ter dado ordem sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palcio, o soberano desejava, por uma ltima vez, fazer as trs perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os gros nas fileiras cavadas na vspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas j tendes a resposta a essas perguntas”.

    “Como assim?”, disse o imperador intrigado.

    “Ontem, se no tivsseis tido piedade da minha velhice e no me tivsseis ajudado a cavar a terra, tereis sido atacado por este homem quando regresssseis. Tereis ento lamentado profundamente no terdes ficado comigo. Por conseqncia, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o no tivsseis feito, ele teria morrido e vs tereis desperdiado a ocasio de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que no existe seno um nico momento importante, que agora. Este instante presente o nico momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistrio. A pessoa mais importante sempre a pessoa com a qual se est, aquela que est diante de vs, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante fazer feliz a pessoa que est ao vosso lado, porque a procura da vida apenas isso.

  2. Muitas vezes confunde-se a felicidade com o prazer material. O
    prazer momentneo, a felicidade eterna, no se corre atrs dela,
    essa corrida nos faz infeliz. A felicidade, a paz interna, que atravs
    do auto conhecimento e entendendo e aceitando as coisas como so,
    no desejando sempre mais, a sim sentiremos a paz interna que
    a verdadeira felicidade. Ningum pode dar ou receber felicidade, ela
    pessoal, est dentro de cada um de ns.
    Esse meu ponto de vista, respeitando os demais.

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