Os Jogos Olímpicos são uma metáfora da humanidade humanizada

0

Ilustração do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

As Olimpíadas de 2016 deixarão um legado inesquecível para a população carioca por causa da implantação de uma imensa infraestrutura de arenas, estádios, novas avenidas e túneis. Tradicionalmente, a abertura e o encerramento constituem ocasiões de grandes celebrações, nas quais o país-hóspede tenta mostrar o melhor de sua arte e singularidade. A abertura foi de um esplendor inigualável. O ponto alto foi o desfile das delegações de 206 países, número maior que os representados na ONU, que são 193. Cada delegação desfilou em trajes típicos.

Sabemos que em todas as relações sociais subjazem interesses de poder. Nos Jogos Olímpicos, se existiram, ficaram praticamente invisíveis. Predominou o espírito esportivo e olímpico acima de diferenças nacionais, ideológicas e religiosas. Até um grupo de refugiados desfilou.

Talvez esse evento seja um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como única família, antecipando uma humanização sempre buscada, mas nunca sustentada definitivamente, porque não avançamos ainda em consciência de que somos uma espécie, a humana, e que temos um único destino comum junto com a Casa Comum, a Terra.

Esta seja talvez a mensagem simbólica mais importante que um evento como este envia para todos. Para além dos conflitos, diferenças e problemas, podemos viver antecipadamente e, por um momento, a humanidade que se humanizou e encontrou seu ritmo em consonância com o ritmo do próprio universo.

REFLEXÕES – Os Jogos Olímpicos nos dão o ensejo de refletirmos sobre a importância antropológica e social do jogo. Não penso no jogo que virou profissão e grande comércio internacional. O jogo, como dimensão humana, se revela melhor nos meios populares, nas peladas de rua ou na praia, em algum espaço gramado ou arenoso. Esse tipo de jogo não tem finalidade prática nenhuma. Em si mesmo carrega um profundo sentido como expressão de alegria de divertir-se juntos.

Nas Olimpíadas impera outra lógica, diferente daquela cotidiana de nossa cultura capitalista, cujo eixo articulador é a competição excludente: o mais forte triunfa e, no mercado, se puder, engole seu concorrente. Aqui há competição, mas ela é includente, pois todos participam. A competição é para o melhor, apreciando e respeitando as qualidades e virtuosidades do outro.

JOGO DE DEUS – A tradição cristã desenvolveu toda uma reflexão sobre o significado transcendente do jogo. Sobre ela quero me concentrar um pouco. As duas igrejas irmãs, a latina e a grega, se referem ao “Deus ludens”, ao “homo ludens” e até à “ecclesia ludens” (o Deus, o homem e a igreja lúdicos).

Eles viam a criação como um grande jogo do Deus lúdico: para um lado, jogou as estrelas, para outro, o sol, mais abaixo jogou os planetas e, com carinho, jogou a Terra, equidistante do Sol, para que pudesse ter vida. A criação expressa a alegria transbordante de Deus, uma espécie de teatro no qual todos os seres desfilam e mostram sua beleza. Falava-se, então, da criação como um “theatrum gloriae Dei” (um teatro da glória de Deus).

Não precisamos temer. O que nos tolhe a liberdade e a criatividade é o medo. O oposto à fé não é tanto o ateísmo, mas o medo, especialmente o medo da solidão. Ter fé, mais que aderir a um feixe de verdades, é poder dizer, na esteira de Nietzsche, “sim e amém a toda a realidade”. Em seu profundo, ela não é traiçoeira e má, mas boa e bela, alegre, acolhedora. Alegrar-se por participar dela o expressamos pelo jogo e, de forma universal, pelos Jogos Olímpicos.

4 thoughts on “Os Jogos Olímpicos são uma metáfora da humanidade humanizada

  1. Cadê Cuba? Quantas medalhas ela obteve? Poucas que nem apareceram nos jornais.
    É a total decadência do comunismo cubano. Cuba será americanizada daqui a cinco anos, para desespero dos comunistas e petistas.

  2. Leonardo Boff é um exímio manipulador das palavras!

    Certamente não leu o artigo postado neste blog incomparável sobre Corrupção Verbal, Miséria Cultural e Comunicação Precária, de ontem, 20 de agosto, pois teria visto que usa mal a palavra “legado”.

    E omite que este “legado” custará muito caro ao povo que, se pudesse fiscalizar as obras efetuadas, elas não teriam seus preços aviltados como nos apresentam os organizadores deste evento mundial, em face da corrupção vigente no Brasil, de Boff, do PT, que foi quem trouxe a Olimpíada para o país!

    Mesmo assim nos saímos bem perante o mundo, a lamentar, entretanto, a vida ceifada do militar morto pelos traficantes porque errou o caminho, e foi então fuzilado inapelavelmente!

    Reflexo da insegurança que o PT nos deixou como LEGADO – neste caso a palavra é adequada – de milhares de brasileiros liquidados pela violência a cada ano porque os petistas preferiram ROUBAR o Brasil, menos se preocuparem com a educação, saúde e o nosso direito de ir e vir com tranquilidade!

    Nada com relação ao capitalismo, que se aproveita o ex-frei para dar a sua alfinetada, mas referente à incompetência, corrupção e desonestidade da sua esquerda política, do seu grupo de criminosos travestido em partido político!

    Muito menos em se tratando de ateísmo ou as “marteladas” de Nietzcshe quando tenta traçar um vínculo entre medo e fé quando, na verdade, os atletas brasileiros se mostraram corajosos, enfrentando os melhores do mundo, e sem apoio das autoridades, dos governantes, permanentemente anunciando falta de verbas para o esporte, menos para pagar salários absurdos e nababescos conforme artigo acima, postado na Tribuna da Internet, quanto aos vencimentos dos juízes brasileiros que, pelo menos trabalham.

    E quanto aos proventos dos parlamentares, que recebem mais que os magistrados e nada fazem, exceto roubar, pilhar, e arquitetarem planos de extorquir o país e povo?!

    De forma a provar que Boff sucumbe à sua própria interpretação política neste artigo, apresentem-me, por favor, qualquer medida do ex-frei e do PT apoiando o esporte, menos de como roubar estatais, o erário público, fundos de pensão, empréstimos consignados, que podem ser muito divertidos para os petistas, mas extremamente dolorosos para o cidadão brasileiro (CURIOSAMENTE OS PAÍSES VENCEDORES EM MEDALHAS DE OURO NÃO POSSUEM O TAL MINISTÉRIO DOS ESPORTES)!!!

    Finalizo este comentário sobre o artigo em tela, aproveitando que Boff tenha citado o filósofo alemão para ampliar o conceito que faz desta política que o ex-frei tanto defende, pois é exatamente a partir da possibilidade de denúncia da FRAGILIDADE DOS VALORES QUE AMPARAM A POLÍTICA NA MODERNIDADE QUE SE DEVE INTERPRETAR O AFORISMO 470 de, Humano, Demasiado Humano:
    O político é o lobo por trás da ovelha!

    Nietzsche não deixa de admitir relevância à política; ele tão somente se recusa a estar entre aqueles que compreendem a política como cuidado da vida de uma coletividade, de um rebanho satisfeito.

    A dedicação ao Estado deve ser, portanto, preocupação de quem pensa mais do que em si mesmo e em seu tempo. O que deve vincular o homem ao Estado é um compromisso com o futuro, com a durabilidade de suas criações, com as possibilidades e condições para o que é humano para além da duração da própria vida.

    O Estado, ao passar a ser compreendido e defendido como instrumento dos mais fracos, dos que precisam de proteção – e neste momento julgamos que Nietzsche se reporta às tentativas de fundamentação do Estado em vista da proteção à vida humana –, passa a ser visto “apenas” como “instrumento da vontade popular, não um ‘alto’ em comparação a um ‘baixo’, mas meramente uma função do único soberano, do “povo”.

    Por esse mesmo motivo, Nietzsche RESPONSABILIZA o Estado democrático – justamente este, do PT, que se intitula o protetor dos mais fracos, e somente nesta função, conforme o discurso petista – por conduzir o Estado à morte!

    Boff é mesmo um exímio manipulador das palavras, mas, às vezes, sucumbe ao seu próprio enredo!

    (Agradeço a Adriana Delbó, ter usado parte do seu estudo sobre Nietzsche, nesta contestação que faço sobre o artigo de Leonardo Boff)

  3. Excelente, Francisco Bendl, seu comentário é esclarecedor e se sobrepõe completamente ao surrado discurso de Boff. Este senhor é cansativo, a repetir as mesmas coisas, sua abordagem é sempre a mesma, o que muda é o tema no qual ele insere a sua ideologia, neste caso a Olimpíada..
    .

    • Prezada Rosela Elisa Prestes,

      Obrigado pelo comentário e apoio à minha crítica sobre o artigo em tela, de Leonardo Boff.

      Escreveste bem, “surrado discurso de Boff”, pois a cantilena é a mesma, e o ex-frei tem se enredado nas suas próprias palavras.

      Ao resgatar Nietzsche e amenizar como ex-religioso o ateísmo, Boff envereda para um recado absolutamente incongruente, desconexo, pois o alemão foi um dos maiores críticos da Igreja, da tal “herança cristã”, e a descrença em Deus, ateísmo, como sendo menos grave que o medo – então por que pedir ajuda ao Criador diante de situações de desespero?!” -, Boff confessa nas entrelinhas o seu comunismo abjeto, repulsivo, que condena milhões à miséria para manipular incultos e incautos da forma como entende ser mais fácil!

      E, ainda por cima, tem a insolência de instituir a sua Teologia da Libertação como uma espécie de Evangelho, que enaltece a pobreza, que edifica o pobre, e que o torna vítima dos ricos e poderosos!

      Cínico, hipócrita, a questão não é a miséria como agente de eterna proteção e recebimento de esmola do Estado, como diz o filósofo alemão, pois desta forma ELE, o Estado, É MORTO, mas permitir e incentivar que o pobre cresça, progrida, se desenvolva, mediante estudo e trabalho, simplesmente condições que Lula e catrefa rejeitaram para o povo brasileiro!

      Então, Boff vocifera que o PT foi responsável pela inclusão social de milhões?!

      Através da esmola denominada Bolsa Família?!

      E ter condenado esses milhões a serem permanentemente dependentes do Estado, de outros milhões de trabalhadores, que já sustentam os vagabundos, corruptos e desonestos parlamentares?!

      Um abraço, Rosela.
      Saúde e Paz!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *