Os paradoxos da democracia e da soberania, na visão crítica de Karl Popper

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A propósito do excelente artigo de Henrique Fróes e Gabriele Cornellie, como também de muitas indagações acerca da situação de nossas instituições, importante a perspectiva de Popper (1902-1994), a qual revisita criticamente as teorias políticas platônica, aristotélica e subsequentes, ancoradas nos paradoxos da soberania, da liberdade, da tolerância etc. O saudoso prof. Carlos Chagas afirmou diversas vezes que nossas instituições estavam “em frangalhos”… Atualmente, na mesma linha, o nobre editor Carlos Newton e diversos comentaristas (e. g. Fallavena).

Abaixo, recortes que demonstram a desconfiança popperiana nos “dons”, “qualidades” e “benevolência” dos “governantes”. Para Popper, os “políticos” são, em regra, despreparados e, mais cedo ou mais tarde, farão estragos.

Como proposição para enfrentar a questão da “classe política” (que pode descambar em farsantes, larápios e tiranos), Popper conjectura o controle institucional dos governantes.

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OS PARADOXOS DA SOBERANIA
Karl Raimund Popper

Os sábios hão de conduzir e governar, e os ignorantes hão de segui-los. (Platão)

A ideia platônica de justiça exige, fundamentalmente, que os governantes naturais governem e os escravos naturais sejam escravizados. Faz parte da exigência historicista que o Estado, para impedir mudanças, seja uma cópia de sua Ideia, ou de sua verdadeira “natureza”. Essa teoria da justiça indica com muita clareza que Platão resumia em uma pergunta – quem deve governar o Estado? – o problema fundamental da política. […]

Pois até mesmo os que compartilham dessa suposição platônica reconhecem que os governantes nem sempre são suficientemente “bons” ou “sábios” (não precisamos nos preocupar com o significado exato desses termos) e que não é fácil obter um governo em cuja bondade e sabedoria se possa confiar de maneira irrestrita. Feita essa admissão, cabe indagar se o pensamento político não deve enfrentar desde o começo a possibilidade de um mau governo. Ou seja, devemos torcer para que os melhores cheguem ao governo, mas nos preparar para ter os piores dirigentes. Isso altera o problema da política, pois nos força a substituir a pergunta “quem deve governar?” por outra: Como podemos organizar as instituições políticas de modo que os governantes maus ou incompetentes possam ser impedidos de fazer demasiados estragos? […]

Para enfrentar a questão do controle institucional dos governantes só precisamos presumir a ideia de que os governos nem sempre são bons ou sábios. Mas, como eu disse algo sobre fatos históricos, devo confessar-me inclinado a ir um pouco além dessa suposição. Inclino-me a pensar que os governantes raramente ficam acima da média, seja em termos morais ou intelectuais, e amiúde ficam abaixo dela. Creio que, na política, é sensato adotar o princípio de que devemos nos preparar ao máximo para o pior, embora, é claro, devamos tentar obter o melhor. Parece-me loucura basear nossos esforços políticos na tênue esperança de que logremos conseguir governantes excelentes ou sequer competentes. […]

É possível desenvolver uma teoria do controle democrático que esteja livre do paradoxo da soberania. O que tenho em mente é uma teoria que não provém, digamos, de uma doutrina da bondade ou honradez intrínsecas de um governo majoritário, mas da vileza da tirania; para sermos mais precisos, é uma teoria que se apoia na decisão ou na adoção da proposta de evitar a tirania e resistir a ela.

Podemos distinguir dois tipos principais de governo. O primeiro consiste em governos dos quais podemos nos livrar sem derramamento de sangue – por exemplo, por meio de eleições gerais; nesse caso, em outras palavras, as instituições proporcionam meios pelos quais os governantes podem ser destituídos pelos governados, e as tradições sociais garantem que tais instituições não sejam facilmente destruídas pelos ocupantes do poder. O segundo tipo consiste em governos dos quais os governados só podem livrar-se por meio de uma revolução bem-sucedida – ou seja, na maioria dos casos, não tem como se livrar.

(POPPER, Karl Raimund. Os paradoxos da soberania. In: Idem. Textos escolhidos. Org. e int. David Miller. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2010, p. 311-316 ) [destaques em itálico no original; em negrito, nossos].

34 thoughts on “Os paradoxos da democracia e da soberania, na visão crítica de Karl Popper

    • Concordo plenamente Sr. Mário Jr, sendo que tenho por Modelo ideal, a Confederação Suíça.

      Parabenizo o Dr. Christian Cardoso, antigo Escritor/Leitor do TI onLine, pelo bom Artigo.

      Karl Popper ( 1902 – 1994) viu surgirem os terríveis Totalitarismos do século XX, Comunismo URSS (1917), Fascismo Itália ( 2922), Nazismo Racista Alemanha (1933), duas Guerras Mundias, Guerra Fria, etc, com toda sorte de tragédias Humanas, e tentou criar uma Teoria do Controle Democrático, que evitasse essas Tiranias Científicas.
      Fascinante o
      Assunto.
      Abrs.

  1. A grande sacada de Popper, o “paradoxo da intolerância”, na verdade, não aparece no corpo do artigo e sim apenas na epígrafe que o encabeça. Mas pode, de fato ser traduzida, como no comentário de Teresa Fabrício, por “tolerância tem limites”.

    E isso vale para a liberdade quase absoluta com que vem sendo tratada a citação, reprodução, publicação, e as variadas formas de compartilhamento de textos na internet. Pelo caráter libertário com que foi concebida, visando a democratização massiva do acesso a informação, e a colaboração criativa, questiona as restrições impostas pela idéia de autoria e propriedade intelectual. Mas o esgarçamento dessa proposta pode levar ao sentido oposto: a desinformação.

    Neste caso, um comentário publicado como artigo, fica sugerido que o texto é do próprio Karl Popper, quando o autor na verdade é Daniel Mota, e foi publicado originalmente no blog Filosofia do Cotidiano. E o comentarista mexe no texto, introduzindo, por exemplo, o parêntese em:

    “…os governantes nem sempre são suficientemente ‘bons’ ou ‘sabios’ (não precisamos nos preocupar com o significado exato destes termos)…”

    Ora, imaginando num primeiro momento que o texto fosse de Popper, estarrecido, logo vi que não. Um texto filosófico jamais diria isso, pois é da essência da Filosofia a acuidade em conceituar, a formulação é totalmente antifilosofica.

    Pra encurtar a história: não sou conhecedor de Popper, tenho vagas noções, mas o texto me pareceu confuso e na tentativa de entender melhor cheguei ao texto original. A partir deste, então, é possível dizer que os fragmentos recortados formam um colcha de retalhos e mais deturpam que informam.

    A própria essência mesma do “paradoxo da soberania” não fica clara. A rigor, questiona o caráter soberano do poder, e diz que o governante nunca detém o poder absoluto. Mesmo o tirano precisa das forças de repressão, milícias, os executores das suas ordens, obras, etc., e inclusive da aprovação de alguma parcela do povo. A grosso modo: precisa ser controlado até pela sua maior fragilidade, que é a dependência daqueles que o cercam.

    • Não entendi sua colocação, amigo Levi. O comentarista amigo Christian Cardoso, a quem muito prezamos e respeitamos, apenas fez uma compilação de textos de Popper, bastante conhecidos, mas fez questão de esclarecer que as frases em negrito eram de autoria de Popper, introduzindo comentários em parenteses.

      O fato de Daniel Mota e outros também comentarem as teses de Popper nada tem a ver com distorções que acontecem na internet. A intenção de nosso amigo Christian Cardoso, a quem muito admiramos, foi apenas de acrescentar informações para alimentar o debate sobre o tema levantado pelo interessantíssimo artigo anterior.

      Junte-se a nós, Levi, neste livre-debate de ideias, que é a principal característica deste blog.

      Abs.

      CN

  2. Caro Carlos Newton;

    Com “o muito pouco que conheço” quis dizer em relação a extensa obra do filósofo (mais de 40). E faço uma diferenciação entre ler e estudar um autor. Tinha por exemplo, A República comigo, mas perdeu-se na poeira do tempo, além de outros textos e muitas leituras esparsas, até porque Platão é dos mais citados e comentados pelos mais diversos autores.

    A sua importância é indiscutível, mas há pensadores mais atuais que dão uma contribuição mais significativa para o tema em pauta. Ia comentar Cornelius Castoriadis, por exemplo, mas me preocupo em não me estender demais e acabar sendo prolixo, em se tratando de um comentário.

    Acho que sou meio perfeccionista também, mas quis dizer apenas que o mais adequado, pra não haver confusão, é que as citações textuais sejam colocadas entre aspas (por erro meu ou do corretor saiu “entre parenteses”, desculpe). Diferenciando daquilo que é da própria lavra de quem escreve, uma boa prática e bem comum quando nos comunicamos por escrito.

    Veja que consta no fim do texto, entre colchetes:

    “Destaques em itálico no original; em negrito, nossos.”

    Talvez resida aí uma das causas de algum mal entendido, e eu tenha sido induzido ao erro.

    Platão tem sido apontado como um dos pais do pensamento totalitário e, apesar dos meus parcos conhecimentos, considero uma leitura equivocada, muito literal, do seus escritos. Percebi um eco disso no texto em tela, foi nesse sentido a minha crítica. É parecido com uma distorção de Machiavel, por exemplo, que resultou no conhecido clichê, assimilado pelo senso comum: a idéia de “maquiavélico”, que não tem nada a ver.

    De forma nenhuma tive a intenção de ser desrespeitoso, talvez às vezes eu seja incisivo demais, se soei assim, peço desculpas. O artigo tem todos os méritos, até por estar proporcionando o debate, inclusive este nosso agora. Entendo crítica no sentido kantiano, de análise, e você só analisa o que quer compreender, porque considera importante. Ou seja, ao fazer uma crítica você está reconhecendo a importância do objeto desta crítica, do contrário a sua postura seria de indiferença.

    O fato é que nós lidamos mal com a crítica (e eu me incluo nisso), muitas vezes confundida com um ataque pessoal. Que acontece muito mesmo, às vezes é tênue a linha que as separa, mas para o bom debate é preciso saber diferenciar.

    Um abraço, e tamo junto…

    • Caro Levi,

      Peço permissão ao editor Carlos Newton (8:20 pm) para fazer côro e reiterar o pedido: deixe o perfeccionismo de lado e permita-nos aprender com você!

      Cordiais Saudações,
      Christian.

      PS: Sugestão: escreva-nos sobre o Castoriadis, cuja obra não conheço, mas está na “lista de espera”… soube (“por ouvir dizer”) que é um dos maiores especialistas em H. Arendt.

  3. Parafraseando o Prof. Antonio Rocha:

    01) Agradeço ao editor Carlos Newton pela promoção do humilde comentário a artigo;

    02) Agradeço a todas pessoas que fizeram comentário(s), contribuindo para avaliação crítica do pensamento do autor em comento, no caso, Popper;

    03) Em atenção especial às considerações do comentarista Levi e do editor Carlos Newton, registramos o seguinte, a título meramente informativo e não-exaustivo, para fins de esclarecimento tão-somente:

    04) Os Textos escolhidos foram compilados pelo Prof. David Miller (ex-assistente de Popper na London School of Economics/UK e aposentado do Departamento de Filosofia de Warwick/UK), com autorização do próprio Popper;

    05) Na seção Nota editorial, fontes e agradecimentos, ao final da obra supra, o Prof. Miller esclarece (literalmente):
    ‘25. “Os paradoxos da soberania”: consiste em parte do material introdutório e nas seções I e II, do capítulo 7 de A sociedade aberta e seus inimigos’;

    06) Os “recortes” do comentário são registros literais da obra do Prof. David Miller. Os parênteses são originais, ou seja, foram considerações do próprio Popper. Consultando o vol. 1 da edição brasileira de A sociedade aberta e seus inimigos, o referido trecho é transcrito como segue:
    “[…] De facto, mesmo aquêles que adotam essa admissão de Platão chegam a convir em que os dirigentes políticos nem sempre são suficientemente “bons” ou “sábios” (não necessitamos incomodar-nos com a significação precisa dessas palavras), e que absolutamente não é fácil obter um govêrno em cuja bondade e sabedoria se possa confiar implicitamente.” (POPPER, Karl Raimund. A sociedade aberta e seus inimigos: o fascínio de Platão. v. 1. Trad. Milton Amado. Itatiaia: Belo Horizonte; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1974, p. 136);

    07) Assim, inobstante variações na tradução, parece-me que as traduções acima de A sociedade aberta e seus inimigos e dos Textos escolhidos não são tão distantes no âmbito semântico;

    08) Humildemente, penso que, ao reforçar ao leitor a desnecessidade de incômodo com a significação precisa das palavras “bons” e “sábios”, Popper quer afastar-se de qualquer aproximação com a teoria do conhecimento platônica/idealista: conhecer uma coisa é conhecer a sua ideia, exercício mental de partir do mundo sensível ao mundo inteligível, e retornar ao mundo sensível com a verdadeira representação/imagem da coisa conhecida). Como também, afastar-se da corrente aristotélica/essencialista: conhecer uma coisa é a sua essência, especialmente sua teleologia, em última instância, através dos sentidos; entre outras.

    09) Esse reforço de Popper quanto à significação das palavras decorre da premissa de que, para ele (assim como para Aristóteles), a linguagem é instrumento (organon) do pensamento, e não deve ser reificada:
    “[…] 4. Eu não entendo por Filosofia uma tentativa, seja de esclarecer, analisar ou “explicar” conceitos, palavras ou linguagens.
    Conceitos ou palavras são meros instrumentos para formular proposições, conjeturas e teorias. Conceitos ou palavras não podem ser verdadeiros per se: eles servem meramente à linguagem humana descritiva e de argumentação. Nosso objetivo não deveria ser analisar significados, mas buscar verdades importantes e interessantes, ou seja, teorias verdadeiras.” (POPPER, Karl Raimund. Lógica das ciências sociais. 3. ed. Org. Vamireh Chacon. Trad. Estevão de Rezende Martins; Apio Cláudio Muniz Acquarone Filho; Vilma de Oliveira Moraes e Silva. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004. p. 91) [destaques no original];

    10) Quanto a Platão, Popper reconhece seus méritos, mas não o poupa de críticas. Por exemplo, Popper considera Platão o primeiro sistematizador do mundo objetivo: o mundo das Ideias (mundo inteligível) de Platão corresponde, guardadas as devidas distinções, ao mundo-3 popperiano (mundo dos objetos ideais, em que habitam as teorias, inclusive). No mesmo sentido, Popper considera a Apologia a Sócrates uma obra basilar da Ética ocidental (além das influências do Cristianismo e da moral kantiana);

    11) No entanto, a teoria política inaugurada por Platão (que Popper alcunhou de “historicismo”) é sagazmente criticada. Bertrand Russell, p. ex., considerou a crítica popperiana a Platão muito pertinente (v. contracapa de A sociedade aberta e seus inimigos);

    12) O registro “em recortes” certamente reduz a coesão semântica do texto. No entanto, respeitando o formato desse espaço incomparável (F. Bendl) que é o Blog da TI, optei por complementar o comentário com os “recortes”, ao invés de parafrasear (resumindo-o com risco de prejuízo de entendimento do pensamento do autor) ou transcrever (ampliando-o com o risco de cansar o leitor com um comentário longo, p. ex., copiando-se todo um capítulo de livro);

    13) Nesse sentido, peço perdão por qualquer equívoco/incompreensão na exposição das teses dos autores citados, o que deve ser tributado exclusivamente ao autor do comentário;

    14) Como o tema central do comentário abrange a crise das instituições políticas, foram compulsados apenas os trechos que fazem referência mais incisiva à necessidade de controle democrático de governo/governantes/dirigentes políticos. Nesse sentido, penso que Popper contribui muito, não só por indicar equívocos de grandes pensadores (gigantes) como Platão e Aristóteles, mas, principalmente, por construir teorias alternativas àquelas que sustentam regimes totalitários há milênios;

    15) Esticar os “recortes”, explicando mais detidamente os paradoxos da soberania, da liberdade, do mentiroso, da tolerância etc. implicaria em mais espaço e em perda de foco em relação à questão do controle institucional-democrático;

    16) A intenção do comentário era apresentar o autor, levando o leitor a uma primeira aproximação. O leitor interessado certamente poderá fazer o exame mais adequado do autor consultando diretamente sua obra (o que, para fins de crítica, é fundamental), através das remissões feitas, entre outras fontes;

    Por fim, indistintamente, agradeço novamente a todas(os) pelas considerações, o que certamente enobreceu o meu humilde comentário e, contribuiu para o aumento de estoque teórico das pessoas participantes dessa TI.

    À disposição.

    Gratíssimo e Abs!
    Christian.

  4. Caro Christian;

    Quando eu disse “não sou conhecedor” quis dizer, na verdade, que não sou um profundo conhecedor, mas tenho alguns textos de Popper nas minhas velhas pastas, do tempo de estudante, já li alguma coisa dele no original. Mais por curiosidade pessoal, como leitor e não por estudo, por diletantismo mesmo.

    Como disse no comentário anterior, com outras palavras, acho que a sua intenção, e foi como eu entendi mesmo, de proporcionar uma primeira aproximação ao filósofo, foi bem sucedida.

    Quanto ao Castoriadis, prefiro me abster, deixo para os especialistas. Um texto publicado, a meu ver, é diferente de um comentário (que pode ser reformulado com esse fim, sem problema). Mas Filosofia exige um certo rigor, até pela sua complexidade, e nesse caso o meu perfeccionismo não me atrapalha, pelo contrário, está inserido no contexto.

    Tenho alguns textos sobre nas mesmas pastas e em PDF, gostaria de recomendar, mas prefiro não arriscar, só o faria se tivesse certeza de corresponder a sua expectativa no momento. Acho que você não teria dificuldade em encontrar algo do Castoriadis que desperte o seu interesse, na web.

    Me ocorreram muitos pontos a ponderar sobre o seu extenso e provocativo (no melhor sentido) comentário, é um tema que me apaixona, mas me estenderia demais. Em todo caso, se tiver algo a acrescentar, fique a vontade.

    Um abraço, e estamos aí…

  5. Caro Levi,

    A internet facilita o acesso aos autores, é verdade. Mas, por outro lado, o volume de materiais (escritos, vídeos etc.) é tão grande, que despende-se bastante tempo filtrando-se o que se procura: uma introdução, uma obra específica, uma análise sobre certa dimensão da pensamento do autor…

    Respeito suas reservas quanto à publicação no Blog da TI, que é um espaço aberto. Lamento apenas que ficamos privados de conhecer seus argumentos (vedação à crítica – no melhor sentido kantiano, como você bem observou).

    De qualquer sorte, também continuamos à disposição…

    Forte Abraço,
    Christian.

  6. Caro Christian;

    Eu procuro evitar quando uma sucessão interminável de réplicas e tréplicas acaba se tornando cansativa e da margem a interpretações equivocadas, em algum ponto. Como agora, que você entendeu mal o que eu disse e sou forçado a esclarecer:

    Não tenho absolutamente nenhuma reserva em publicar na TI, pelo contrário, teria o maior prazer em fazê-lo. O que eu quis dizer é que para transformar um comentário em texto publicado na página do blog, como me foi proposto, eu, pessoalmente, gostaria de revisa-lo para dar o formato que considero mais adequado, porque pra mim são coisas diferentes.

    No caso específico, sobre o Castoriadis, não o citei como “argumento”, no debate, para contestar Popper ou o seu comentário. Foi apenas para ilustrar, como exemplo de autor que trata do tema com outro enfoque, igualmente interessante. Portanto, não há nenhuma “vedação a crítica”, como você diz.

    Pelo contrário, se eu publico e assino um texto, acolho e respondo eventuais críticas com prazer, tanto pelas razões expostas antes como pelo fato de que me permitiriam esclarecer melhor o seu conteúdo.

    Desde que sejam embasadas e tenham fundamento, obviamente. Aliás, isso vale também para os comentários. A minha maior motivação, que me deixou a vontade pra participar e comentar aqui no blog, foi o lema “Sob o signo da liberdade.” E até agora, pra mim, ele tem se confirmado.

    Um abraço.

    • P. S. – Quando se trata de um texto com tema filosófico, pela sua complexidade, maior ainda a possibilidade de alguma distorção ou interpretação equivocada, por isso a necessidade de um certo rigor, a que me referi antes.

  7. Caro Levi,

    Antecipadamente, agradeço o tempo reservado ao nosso diálogo/discussão crítica.

    Inicialmente, reitero o meu respeito em relação à sua postura, antes mesmo de conhecer as razões trazidas em 26/08/2018-09:21 pm. Em relação a estas, gostaria de dizer que recebo e acato a todas humildemente, reconhecendo a correção das mesmas, cujos fatores determinantes estão mais do que explicitados, e agradeço tais esclarecimentos adicionais.

    Peço sua permissão para dizer que passo por situação semelhante (guardadas respectivas distinções nas circunstâncias subjetivas), com causalidades diversas que afetam a minha disponibilidade de tempo, o que também restringe a minha participação no Blog da TI (como leitor e/ou comentarista).

    Adicionalmente, apenas para fins de esclarecimento, a menção que fiz ao Castoriadis era no sentido de ter esse primeiro contato com a teoria do autor, a qual não conheço. Dele, apenas já vi algumas referências em notas de rodapé (em textos de terceiros), e ouvi comentários elogiosos de algumas pessoas que o estudaram (não cheguei nem mesmo a ter a oportunidade de iniciar uma distinção entre ler/estudar o autor, como você se referiu em 25/08/2018-12:15 pm). Ou seja, sem adentrar no mérito do seu sistema teórico. Nesse quadro, eu não tinha intuito de fazer cotejo com a teoria de Popper, apenas de identificar as linhas gerais do sistema do Castodiaris.

    Por fim, quanto à questão da expressão “vedação à crítica”, você está coberto de razão! Peço-lhe perdão pelo uso equivocado que fiz da expressão, a qual ensejou o entendimento de que você, subjetiva e aprioristicamente, estaria impedindo a crítica a seus textos, o que não é verdade. A simples leitura das manifestações acima já atesta a sua conduta de abertura dialógica/crítica kantiana (a qual, diga-se de passagem, você brilhantemente expôs e sintetizou – 25/08-12:15am).

    Assim, uma expressão correta que poderia ter sido utilizada seria “impossibilidade à crítica” vez que não teríamos acesso ao seu conjunto de argumentos em decorrência de uma situação objetiva. E não por eventual deliberação subjetiva sua, como ficou entendido (encontramos aqui exemplo da necessidade de rigor à qual você, como interlocutor qualificado, corretamente se refere e merece…). Ante o exposto, reitero o reconhecimento do meu erro, e peço-lhe perdão pelo transtorno.

    Aproveito, ainda, para desculpar-me por demais erros meus incorridos no curso da nossa discussão crítica, e que por ventura ainda não tenham sido indicados. Fique à vontade para criticá-los.

    Ademais, fico alegre em saber você esteja satisfeito em participar, na medida de suas possibilidades, desse Blog “incomparável” (F. Bendl). Em meu humilde entendimento, a singularidade do Blog da TI decorre, muito, da variedade de seus participantes (leitores e/ou comentaristas), e da correlata variedade de correntes teóricas nele veiculadas com liberdade de defesa de argumentação. Como diz o nosso nobre editor Carlos Newton, do “livre debate de ideias”!

    À disposição.

    Gratíssimo! e,
    Forte Abraço,
    Christian.

  8. Parabenizo ao Chistian Cardoso e Levi, pelo debate acima.

    Elegante, cada um mostrando seus conhecimentos quanto ao tema postado, enalteceram a qualidade dos comentaristas deste blog incomparável, que muito me orgulho dele fazer parte.

    Evidente que se trata de um assunto muito acima da minha capacidade intelectual, pois limitada, de poucas luzes, sem grande alcance.

    No entanto, diante da situação que o povo está sendo manipulado, explorado e roubado, só posso dizer que, de fato, somos exemplos de um dos paradoxos da democracia!

    Se o povo é quem elege seus representantes e quem quer que o governe, das duas uma:
    Ou não sabemos a importância de uma eleição, então escolhemos permanentemente os piores ou temos sido vítimas de um sistema que se adonou da vida do trabalhador e nos conduz para onde quer, e as eleições são apenas pantomimas
    para nos iludir, pois nada muda.

    Logo, debates deste nível são imprescindíveis à TI, que se consolida como um espaço democrático e de liberdade de expressão, condições inatas de uma democracia perfeita, onde se registram pensamentos os mais diversos e exóticos, quanto os que concordam e discordam do assunto em tela.

    E aprendemos todos, indistintamente, o que se poderia fazer para melhorar o país, apesar de que tal atitude necessitaria de gente com iniciativa e disposição, que motivasse mais seguidores a mudar o estado atual desta nação grandiosa, e que teria de ter outra maneira de ser conduzida, e não pelos mesmos corruptos e criminosos que se alternam no poder.

    O meu forte abraço ao Levi e Christian, que abrilhantaram a TI mais uma vez.

    • Caro Bendl,

      Peço permissão ao Levi (27/08/2018-03:17 pm) para fazer das palavras dele as minhas!

      Apenas a título de ilustração de suas tristes e estarrecedoras conclusões: “Instituições”, em Popper, operam o princípio da solvência (diminuição gradativa) de erros/problemas. “Instituições em frangalhos” (como observou o saudoso prof. Carlos Chagas) não são instituições democráticas no sentido popperiano pois mantêm, multiplicam e/ou aprofundam problemas…

      Gratíssimo e Abs!
      Christian.

  9. Caro Christian;

    Já que falamos tanto no santo e absolutamente nada sobre o milagre, me estendo um pouco mais do que gostaria:

    Me interessa muito no Castoriadis a crítica contundente que ele faz ao marxismo ortodoxo e dogmático, especialmente o leninismo e stalinismo e o seu conteúdo autoritário. Essa é uma das suas proximidades com Hannah Arendt a que você se referiu.

    Mas o que mais me atrai nele é o conceito de autonomia (sociedade autônoma) e suas relações recíprocas com a ideia de imaginário social, como constituintes de uma forma de organização social radicalmente livre e democrática. Ou seja, a possibilidade da superação dos “paradoxos da democracia” referidos no título do seu texto.

    E também uma afirmação da liberdade individual, cuja bandeira foi apropriada pelos liberais mas irrealizada no capitalismo financeiro monopolista vigente hoje.

    Traduzir esses conceitos numa linguagem menos acadêmica sendo fiel ao seu verdadeiro significado não é tarefa simples (daí a preocupação com o rigor a que me refiro). E podem facilmente soar utópicos, ou abstratos demais, pra maioria, só interessando talvez a nós dois, o editor e um ou outro gato pingado.

    Se tem coisa que eu detesto é soar pedante, pernóstico, ou coisa parecida. Acredito mesmo convictamente (como Sócrates) que a Filosofia é inerente ao todo ser humano, todo mundo filosofa a sua maneira, e superar a barreira da linguagem deveria ser um esforço permanente de todos, sobretudo de quem a valoriza. Como você sabe, Sócrates desprezava os grupelhos dos “sábios” para dialogar com o cidadão comum, nas ruas.

    Não há nada com que se desculpar, meu amigo, foi um prazer interagir com um interlocutor qualificado e interessado como você.

    Um abraço.

    • Caro Levi,

      Não cansarei de agradecer-lhe a oportunidade de ter estabelecido essa discussão crítica.

      Para mim, foi muito fecunda: anotei diversos pontos para estudo, aprofundamento e, certamente, aproveitamentos; seja no âmbito de conteúdo teórico, seja no plano da postura socrática de humildade em face do próximo (“Eu, sem o outro, ainda serei eu mesmo?” – Levinas).

      Neste ponto, saio mais rico que no começo do nosso diálogo (aprendi em sua companhia, muito).

      Gratíssimo por revelar um pouco do “milagre”: acompanho humildemente você, e penso que essas linhas temáticas do Castoriadis são relevantíssimas ao pleito de construção de uma sociedade democrática. Portanto, importam não só aos especialistas, mas a todas pessoas, indistintamente!

      Outrossim, a satisfação de manter diálogo consigo será recíproca (evidentemente, continuarei a aprender com você…). Para mim, será uma honra!

      Estou à sua disposição, na medida de minhas humildes possibilidades, meu Amigo!

      Gratíssimo! e,
      Forte Abraço,
      Christian.

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