Os passarinhos eternos que enfeitam a poesia genial de Manoel de Barros

Resultado de imagem para manoel de barrosPaulo Peres
Site Poemas & Canções

O advogado e poeta mato-grossense Manoel Wenceslau Leite de Barros (1916-2014), no poema“De Passarinhos”, ensina como se deve fazer um tratado sobre estas aves.

DE PASSARINHOS
Manoel de Barros

Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos
Eternos que nem uma fuga de Bach.

3 thoughts on “Os passarinhos eternos que enfeitam a poesia genial de Manoel de Barros

  1. Hoje, Paulo Peres nos brinda com o menino que carrgava água na peneira, gostava de passarinho, tinha uma casa com um rio em volta dela.

    Manoel de Barros nos deixou o tesouro de suas poesias. Este menino que ganhou um rio é um exemplo de sua criatividade, inteligência e invencionices. Tenho a maior admiração por ele.

    O rio que fazia uma volta
    atrás da nossa casa
    era a imagem de um vidro mole…

    Passou um homem e disse:
    Essa volta que o rio faz…
    se chama enseada…

    Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
    que fazia uma volta atrás da casa.
    Era uma enseada.
    Acho que o nome empobreceu a imagem.

    Gostei da gozação dele, dizendo que como enseada a volta do rio foi rebaixada, cobra de vidro era mesmo mais charmoso.

  2. Árvore – Manoel de Barros

    Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
    Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
    No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
    sol, de céu e de lua mais do que na escola.
    No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
    mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
    Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
    Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.
    E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
    no tronco das árvores só serve pra poesia.
    No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
    Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
    envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
    E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
    Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
    porque fez amizade com muitas borboletas.

    Manoel de Barros BARROS, M. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record, 200

  3. O menino que carregava água na peneira – Manoel de Barros

    O menino que carregava água na peneira
    Tenho um livro sobre águas e meninos.
    Gostei mais de um menino
    que carregava água na peneira.

    A mãe disse que carregar água na peneira
    era o mesmo que roubar um vento e
    sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

    A mãe disse que era o mesmo
    que catar espinhos na água.
    O mesmo que criar peixes no bolso.

    O menino era ligado em despropósitos.
    Quis montar os alicerces
    de uma casa sobre orvalhos.

    A mãe reparou que o menino
    gostava mais do vazio, do que do cheio.
    Falava que vazios são maiores e até infinitos.

    Com o tempo aquele menino
    que era cismado e esquisito,
    porque gostava de carregar água na peneira.

    Com o tempo descobriu que
    escrever seria o mesmo
    que carregar água na peneira.

    No escrever o menino viu
    que era capaz de ser noviça,
    monge ou mendigo ao mesmo tempo.

    O menino aprendeu a usar as palavras.
    Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
    E começou a fazer peraltagens.

    Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
    O menino fazia prodígios.
    Até fez uma pedra dar flor.

    A mãe reparava o menino com ternura.
    A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
    Você vai carregar água na peneira a vida toda.

    Você vai encher os vazios
    com as suas peraltagens,
    e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

    Uma didática da invenção

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *