Os pequenos grandes terremotos que nos abalam, na visão de Affonso Romano

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O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, no poema “Assombros”, confessa os abalos que lhe ocorrem, mas que os outros nem percebem.

ASSOMBROS
Affonso Romano de Sant’Anna

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e o omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

4 thoughts on “Os pequenos grandes terremotos que nos abalam, na visão de Affonso Romano

  1. Existe verdade que não seja absoluta, seu Quintana? Verdade quer dizer exatidão, conformidade de idéia com objeto, expressão da realidade.
    O patetico é que o exagero sempre aparece nesses arroubos de super-homens dos sentimentos: terremotos ocorrem do lado esquerdo do meu peito; em mim há algo soterrado…
    Eu, hein, pra quê tanta hipérbole. Por isso que eles sempre morrem pobres.

  2. Affonso Romano de Sant’Anna, um dos meus idolatrados poetas é mineiro de Juiz de Fora e posso dizer que nunca o vi remexendo escombros em suas despedidas por onde passa

    Despedidas

    Começo a olhar as coisas
    como quem, se despedindo, se surpreende
    com a singularidade
    que cada coisa tem
    de ser e estar.
    Um beija-flor no entardecer desta montanha
    a meio metro de mim, tão íntimo,
    essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
    a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
    daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
    quanto mais habito a noite!
    Nada mais é gratuito, tudo é ritual
    Começo a amar as coisas
    com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
    já não mentem.

    ( Affonso Romano de Sant’Anna )

  3. Às vezes, pequenos grandes terremotos
    ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
    quando chega a separação, um dos mais belos poemas de ARS. A separação dói e como dói

    Desmontar a casa
    e o amor. Despregar
    os sentimentos das paredes e lençóis.
    Recolher as cortinas
    após a tempestade
    das conversas.
    O amor não resistiu
    às balas, pragas, flores
    e corpos de intermeio.

    Empilhar livros, quadros,
    discos e remorsos.
    Esperar o infernal
    juizo final do desamor.

    Vizinhos se assustam de manhã
    ante os destroços junto à porta:
    -pareciam se amar tanto!

    Houve um tempo:
    uma casa de campo,
    fotos em Veneza,
    um tempo em que sorridente
    o amor aglutinava festas e jantares.

    Amou-se um certo modo de despir-se
    de pentear-se.
    Amou-se um sorriso e um certo
    modo de botar a mesa. Amou-se
    um certo modo de amar.

    No entanto, o amor bate em retirada
    com suas roupas amassadas, tropas de insultos
    malas desesperadas, soluços embargados.

    Faltou amor no amor?
    Gastou-se o amor no amor?
    Fartou-se o amor?

    No quarto dos filhos
    outra derrota à vista:
    bonecos e brinquedos pendem
    numa colagem de afetos natimortos.

    O amor ruiu e tem pressa de ir embora
    envergonhado.

    Erguerá outra casa, o amor?
    Escolherá objetos, morará na praia?
    Viajará na neve e na neblina?

    Tonto, perplexo, sem rumo
    um corpo sai porta afora
    com pedaços de passado na cabeça
    e um impreciso futuro.
    No peito o coração pesa
    mais que uma mala de chumbo.

    Affonso Romano de Sant’Anna

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