Os sentimentos de amor e ódio na campanha eleitoral

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Leonardo Boff

Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro “Raízes do Brasil”. Ele entendia a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de “coração”. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio.

Escrevo isso para entender os sentimentos cordiais que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve declarações de entusiasmo e de amor para os dois candidatos do segundo turno e de ódio profundo de ambas as partes do eleitorado.

Talvez em nenhuma campanha anterior tenham-se expressado os gestos cordiais dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nessa palavra. Quem seguiu as redes sociais se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV.

Para entender melhor essa nossa cordialidade, cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão. Em consequência, criaram-se a casa-grande e a senzala. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado, os senhores que tudo possuem, e, do outro, o servo que pouco tem. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade.

ESCRAVIDÃO

Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Houve uma época em que mais da metade do Brasil era composta de escravos. Hoje, cerca de 60% da população possui algo em seu sangue de escravos afrodescendentes. A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro.

As consequências dessas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso, quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante porque vive no semiárido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do Nordeste nos vêm grandes escritores, poetas e atores. No Brasil de hoje, é a região que mais cresce economicamente, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.

Todas essas contradições de nossa cordialidade apareceram nas redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.

AMBIGUIDADE

Acrescento ainda um argumento de ordem antropológica para compreender a irrupção dos amores e ódios nessa campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade frontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de simbólica (que une) e de diabólica (que divide). Cada um deve saber equilibrar essas duas forças.

Esses meses de campanha eleitoral mostraram quem somos por dentro, cordiais no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e, ao mesmo tempo, de exaltação positiva e de militância séria.

Devemos procurar entender e buscar formas civilizadas de cordialidade nas quais predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos, num projeto por todos assumido, para que se transforme o país na “terra da boa esperança” (Ignacy Sachs).

14 thoughts on “Os sentimentos de amor e ódio na campanha eleitoral

  1. “Para entender melhor essa nossa cordialidade, cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão.”
    … … …
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_I_de_Portugal … está lá:

    “Política religiosa[editar | editar código-fonte]
    Iluminura do período manuelino, “Livro 3 Místicos”
    D. Manuel I era um homem bastante religioso que investiu uma boa parte da fortuna do país na construção de igrejas e mosteiros, bem como no patrocínio da evangelização das novas colónias através dos missionários católicos.
    O seu reinado é lembrado pela perseguição feita a judeus e muçulmanos em Portugal, particularmente nos anos de 1496 a 1498. Esta política foi tomada por forma a agradar aos reis católicos, cumprindo uma das cláusulas do seu contrato de casamento com a herdeira de Espanha, Isabel de Aragão.
    O Massacre de Lisboa de 1506 foi talvez uma das consequências da política de D. Manuel I. Seguiram-se as conversões forçadas dos judeus e, depois, confiou ao seu embaixador em Roma a missão secreta de pedir ao papa, em 1515, a permissão de estabelecer a Inquisição em Portugal.”

  2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Inquisi%C3%A7%C3%A3o_portuguesa:

    A Inquisição Portuguesa tinha de cobrir todos os territórios do império ultramarino português, tendo sido particularmente mais rigorosa em Portugal e menos violenta na Índia. É natural serem hoje recordados somente os casos mais marcantes que tenham comovido ou irado as populações, contentes ou não pelos resultados dos julgamentos feitos. Foi decretada uma lei que proibia a todos de apedrejarem, cuspirem, ou insultarem os réus e os condenados. Contudo eram as crianças que apedrejavam de forma “desculpável”.
    Foi pedida inicialmente por D. Manuel I de Portugal, para cumprir o acordo de casamento com Maria de Aragão. A 17 de dezembro de 1531 Clemente VII pela bula Cum ad nihil magis a instituiu em Portugal, mas um ano depois anulou a decisão. Em 1533 concedeu a primeira bula de perdão aos cristãos-novos portugueses. D. João III, filho da mesma Dª Maria, renovou o pedido e encontrou ouvidos favoráveis no novo Papa, Paulo III que cedeu, em parte por pressão de Carlos V de Habsburgo.
    A bula Cum ad nihil magis foi publicada em Évora, onde então residia a Corte, em 22 de outubro de 1536. Toda a população foi convidada a denunciar os casos de heresia de que tivesse conhecimento. No ano seguinte, o monarca voltou para Lisboa e com ele o novo Tribunal. O primeiro livro de denúncias tomadas na Inquisição, iniciado em Évora, foi continuado em Lisboa, a partir de Janeiro de 1537. Em 1539 o cardeal D. Henrique, irmão de D. João III de Portugal e depois ele próprio rei, tornou-se inquisidor geral do reino.”

  3. Para aprofundar o assunto, temos a historiadora Neusa Fernandes com (http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.538.pdf): “ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003. … FAMILIAS JUDAIZANTES – VITIMAS DA INQUISIÇÃO EM MINAS GERAIS … Neusa Fernandes (Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro) … … … ou seu livro recentemente relançado “A Inquisição em Minas Gerais no século XVIII.”
    … … …
    Em torno de 20% de brasileiras e brasileiros são filhos de Sara!!! … e antes de índios e negros sofreram!!!

  4. Oi, senhor Lionço. Saudações.

    Lendo os seus comentários, de um modo geral, chegamos a uma conclusão nada satisfatória para a humanidade. Ela está retrocedendo, com pressa…

    Está valendo até mesmo para o Brasil, que ferve mais do que nunca com tamanha falta de líderes, estadistas, que poderiam melhorar nossa imagem nessa fotografia de terra dividida e de ânimos para lá de quentes, após uma eleição de resultado para lá de suspeito.

    Aqui, e alhures, no mundo como um todo, o que se vislumbra não é nada poético e sossegado…
    Assustador, não acha?..

    Grande abraço.

    • Caro Sr. Andrade … Saudações.

      Realmente, temos motivos para irmos até o pessimismo … no entanto, volta e meia, faço pesquisa procurando chegar na Esperança … não podemos perder a FÉ!!!

      Tenho procurado mostrar que estamos no tempo da MENTIRA … somos obrigados a conviver com ela – visto HomeMulher ter fugido da VERDADE … … … porém, temos que resistir … não crendo na MENTIRA!!!

  5. Torna-se necessária a análise e comparações do que dizia Leonardo Boff enquanto oposição e hoje, enquanto situação.
    Não tem graça, embora possa parecer correção de rumo, que agora peça aos outros, o que não soube fazer e ensinar seu lado quando estava na oposição.
    Dois pesos e várias medidas. Quem sabe a idade e o tempo que passou o tenha feito ver coisas por outros lados, com outros olhos.

  6. Truque velho esse de Boff ao generalizar o ódio na campanha eleitoral. Assim todos foram pecadores e por isso se absolvem.
    Arranje outra mentira, Boff. Menos infantil.
    Os vídeos estão aí para provar. O tal ódio houve sim, mas a partir do seu partido, o PT e de seu chefão, o bandido Barba.

  7. Leonardo Boff, normalmente os estúpidos intelectuais (o senhor está incluido?), quando não têm mais babozeiras para dizer, falam em colonização e escravidão. Buscam estúpidos argumentos os mais disparatados, para dizerem que os negros eram considerados preguiçosos. É uma estupidez. Desde os primórdios de nossa colonização os negros sempre foram conhecidos como trabalhadores. Quem os portuguêses estigmatizaram de preguiçosos foram os índios. Só os estúpidos intelectuais que lêem e estudam nossa história , mas não a interpretam. Acham que nosso povo ainda vive, submetido a sentimentos atávicos que povoam o inconsciênte coletivo. Tudo o que aconteceu na eleição é próprio da democracia. “A democracia não é praticada no silêncio dos cemitérios”. O senhor que não trabalha(ninguém sabe do que vive), deveria procurar conhecer o “Brasil profundo”, o Brasil que os intelectuais (os falsos) não conhecem. O Povo brasileiro é um povo especialissímo e cordial sim. Ver na TV o pateta do Aécio querer esmagar Dilma, parecendo mais um promotor de justiça; em vez de ser didático, elegante, educado. Meteu os pés pela cabeça, Chamou Dilma para debater em um terreno pantanoso onde ele com toda empáfia de uma “Sacerdotisa de Vesta” afundou “cheio de rabos”, dando de mão beijada a vitória a Dilma.

    • 1) Licença prezado Antonio Santos Aquino… não sou Boffista, mas a bem da verdade informo:

      2) O escritor Leonardo tem mais de 20 livros publicados e muito traduzidos em várias línguas, logo vive de “direitos autorais”.

      3) Além disso é professor doutor em Filosofia, aposentado da UERJ.

      4) Ele esteve na cabeceira da cama do então Senador Darcy Ribeiro até os segundos finais.

      5) E vamos de Ciro 2022 !

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