Os sentimentos de amor e dio na campanha eleitoral

http://3.bp.blogspot.com/_f5_poNdYa7M/TG1n4kxlsBI/AAAAAAAADIE/1ABSWVb0LaQ/s400/AUTO_ivan.jpg

Leonardo Boff

Dizer que o brasileiro um homem cordial vem do escritor Ribeiro Couto, expresso generalizada por Srgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro Razes do Brasil. Ele entendia a cordialidade no sentido estritamente etimolgico: vem de corao. O brasileiro se orienta muito mais pelo corao do que pela razo. Do corao podem provir o amor e o dio.

Escrevo isso para entender os sentimentos cordiais que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve declaraes de entusiasmo e de amor para os dois candidatos do segundo turno e de dio profundo de ambas as partes do eleitorado.

Talvez em nenhuma campanha anterior tenham-se expressado os gestos cordiais dos brasileiros no sentido de amor e dio contidos nessa palavra. Quem seguiu as redes sociais se deu conta dos nveis baixssimos de polidez, de desrespeito mtuo e at falta de sentido democrtico como convivncia com as diferenas. Essa falta de respeito repercutiu tambm nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV.

Para entender melhor essa nossa cordialidade, cabe referir duas heranas que oneram nossa cidadania: a colonizao e a escravido. A colonizao produziu em ns o sentimento de submisso. Em consequncia, criaram-se a casa-grande e a senzala. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado, os senhores que tudo possuem, e, do outro, o servo que pouco tem. Essa estrutura subsiste na cabea das pessoas e se tornou um cdigo de interpretao da realidade.

ESCRAVIDO

Outra tradio muito perversa foi a escravido. Houve uma poca em que mais da metade do Brasil era composta de escravos. Hoje, cerca de 60% da populao possui algo em seu sangue de escravos afrodescendentes. A escravido foi internalizada na forma de discriminao e preconceito contra o negro.

As consequncias dessas duas tradies esto no inconsciente coletivo brasileiro em termos de status social. Diz-se que o negro preguioso, quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino ignorante porque vive no semirido sob pesados constrangimentos ambientais, quando um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do Nordeste nos vm grandes escritores, poetas e atores. No Brasil de hoje, a regio que mais cresce economicamente, acima da mdia nacional. Mas os preconceitos os castigam inferioridade.

Todas essas contradies de nossa cordialidade apareceram nas redes sociais. Somos seres contraditrios em demasia.

AMBIGUIDADE

Acrescento ainda um argumento de ordem antropolgica para compreender a irrupo dos amores e dios nessa campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade frontal da condio humana. Cada um possui a sua dimenso de luz e de sombra, de simblica (que une) e de diablica (que divide). Cada um deve saber equilibrar essas duas foras.

Esses meses de campanha eleitoral mostraram quem somos por dentro, cordiais no duplo sentido: cheios de raiva e de indignao e, ao mesmo tempo, de exaltao positiva e de militncia sria.

Devemos procurar entender e buscar formas civilizadas de cordialidade nas quais predomine a vontade de cooperao em vista do bem comum, se respeite o legtimo espao de uma oposio inteligente e se acolham as diferentes opes polticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos, num projeto por todos assumido, para que se transforme o pas na terra da boa esperana (Ignacy Sachs).

14 thoughts on “Os sentimentos de amor e dio na campanha eleitoral

  1. “Para entender melhor essa nossa cordialidade, cabe referir duas heranas que oneram nossa cidadania: a colonizao e a escravido. A colonizao produziu em ns o sentimento de submisso.”
    … … …
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_I_de_Portugal … est l:

    “Poltica religiosa[editar | editar cdigo-fonte]
    Iluminura do perodo manuelino, “Livro 3 Msticos”
    D. Manuel I era um homem bastante religioso que investiu uma boa parte da fortuna do pas na construo de igrejas e mosteiros, bem como no patrocnio da evangelizao das novas colnias atravs dos missionrios catlicos.
    O seu reinado lembrado pela perseguio feita a judeus e muulmanos em Portugal, particularmente nos anos de 1496 a 1498. Esta poltica foi tomada por forma a agradar aos reis catlicos, cumprindo uma das clusulas do seu contrato de casamento com a herdeira de Espanha, Isabel de Arago.
    O Massacre de Lisboa de 1506 foi talvez uma das consequncias da poltica de D. Manuel I. Seguiram-se as converses foradas dos judeus e, depois, confiou ao seu embaixador em Roma a misso secreta de pedir ao papa, em 1515, a permisso de estabelecer a Inquisio em Portugal.”

  2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Inquisi%C3%A7%C3%A3o_portuguesa:

    A Inquisio Portuguesa tinha de cobrir todos os territrios do imprio ultramarino portugus, tendo sido particularmente mais rigorosa em Portugal e menos violenta na ndia. natural serem hoje recordados somente os casos mais marcantes que tenham comovido ou irado as populaes, contentes ou no pelos resultados dos julgamentos feitos. Foi decretada uma lei que proibia a todos de apedrejarem, cuspirem, ou insultarem os rus e os condenados. Contudo eram as crianas que apedrejavam de forma “desculpvel”.
    Foi pedida inicialmente por D. Manuel I de Portugal, para cumprir o acordo de casamento com Maria de Arago. A 17 de dezembro de 1531 Clemente VII pela bula Cum ad nihil magis a instituiu em Portugal, mas um ano depois anulou a deciso. Em 1533 concedeu a primeira bula de perdo aos cristos-novos portugueses. D. Joo III, filho da mesma D Maria, renovou o pedido e encontrou ouvidos favorveis no novo Papa, Paulo III que cedeu, em parte por presso de Carlos V de Habsburgo.
    A bula Cum ad nihil magis foi publicada em vora, onde ento residia a Corte, em 22 de outubro de 1536. Toda a populao foi convidada a denunciar os casos de heresia de que tivesse conhecimento. No ano seguinte, o monarca voltou para Lisboa e com ele o novo Tribunal. O primeiro livro de denncias tomadas na Inquisio, iniciado em vora, foi continuado em Lisboa, a partir de Janeiro de 1537. Em 1539 o cardeal D. Henrique, irmo de D. Joo III de Portugal e depois ele prprio rei, tornou-se inquisidor geral do reino.”

  3. Para aprofundar o assunto, temos a historiadora Neusa Fernandes com (http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.538.pdf): “ANPUH XXII SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Joo Pessoa, 2003. … FAMILIAS JUDAIZANTES – VITIMAS DA INQUISIO EM MINAS GERAIS … Neusa Fernandes (Instituto Histrico e Geogrfico do Rio de Janeiro) … … … ou seu livro recentemente relanado A Inquisio em Minas Gerais no sculo XVIII.
    … … …
    Em torno de 20% de brasileiras e brasileiros so filhos de Sara!!! … e antes de ndios e negros sofreram!!!

  4. Oi, senhor Liono. Saudaes.

    Lendo os seus comentrios, de um modo geral, chegamos a uma concluso nada satisfatria para a humanidade. Ela est retrocedendo, com pressa…

    Est valendo at mesmo para o Brasil, que ferve mais do que nunca com tamanha falta de lderes, estadistas, que poderiam melhorar nossa imagem nessa fotografia de terra dividida e de nimos para l de quentes, aps uma eleio de resultado para l de suspeito.

    Aqui, e alhures, no mundo como um todo, o que se vislumbra no nada potico e sossegado…
    Assustador, no acha?..

    Grande abrao.

    • Caro Sr. Andrade … Saudaes.

      Realmente, temos motivos para irmos at o pessimismo … no entanto, volta e meia, fao pesquisa procurando chegar na Esperana … no podemos perder a F!!!

      Tenho procurado mostrar que estamos no tempo da MENTIRA … somos obrigados a conviver com ela – visto HomeMulher ter fugido da VERDADE … … … porm, temos que resistir … no crendo na MENTIRA!!!

  5. Torna-se necessria a anlise e comparaes do que dizia Leonardo Boff enquanto oposio e hoje, enquanto situao.
    No tem graa, embora possa parecer correo de rumo, que agora pea aos outros, o que no soube fazer e ensinar seu lado quando estava na oposio.
    Dois pesos e vrias medidas. Quem sabe a idade e o tempo que passou o tenha feito ver coisas por outros lados, com outros olhos.

  6. Truque velho esse de Boff ao generalizar o dio na campanha eleitoral. Assim todos foram pecadores e por isso se absolvem.
    Arranje outra mentira, Boff. Menos infantil.
    Os vdeos esto a para provar. O tal dio houve sim, mas a partir do seu partido, o PT e de seu chefo, o bandido Barba.

  7. Leonardo Boff, normalmente os estpidos intelectuais (o senhor est incluido?), quando no tm mais babozeiras para dizer, falam em colonizao e escravido. Buscam estpidos argumentos os mais disparatados, para dizerem que os negros eram considerados preguiosos. uma estupidez. Desde os primrdios de nossa colonizao os negros sempre foram conhecidos como trabalhadores. Quem os portuguses estigmatizaram de preguiosos foram os ndios. S os estpidos intelectuais que lem e estudam nossa histria , mas no a interpretam. Acham que nosso povo ainda vive, submetido a sentimentos atvicos que povoam o inconscinte coletivo. Tudo o que aconteceu na eleio prprio da democracia. “A democracia no praticada no silncio dos cemitrios”. O senhor que no trabalha(ningum sabe do que vive), deveria procurar conhecer o “Brasil profundo”, o Brasil que os intelectuais (os falsos) no conhecem. O Povo brasileiro um povo especialissmo e cordial sim. Ver na TV o pateta do Acio querer esmagar Dilma, parecendo mais um promotor de justia; em vez de ser didtico, elegante, educado. Meteu os ps pela cabea, Chamou Dilma para debater em um terreno pantanoso onde ele com toda empfia de uma “Sacerdotisa de Vesta” afundou “cheio de rabos”, dando de mo beijada a vitria a Dilma.

    • 1) Licena prezado Antonio Santos Aquino… no sou Boffista, mas a bem da verdade informo:

      2) O escritor Leonardo tem mais de 20 livros publicados e muito traduzidos em vrias lnguas, logo vive de “direitos autorais”.

      3) Alm disso professor doutor em Filosofia, aposentado da UERJ.

      4) Ele esteve na cabeceira da cama do ento Senador Darcy Ribeiro at os segundos finais.

      5) E vamos de Ciro 2022 !

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.