Os turcos estão chegando

Carlos Chagas

Em 1453 os Turcos Otomanos sitiavam Constantinopla com formidáveis exércitos. Dentro das inexpugnáveis muralhas a população dedicava-se a bizantina discussão,  muitas vezes sangrenta, dividindo bairros inteiros, igrejas e grupos de intelectuais que lideravam a massa:  quem Deus havia criado primeiro, o ovo ou a galinha?

Engenheiros e sapadores turcos, mais poderosos canhões, conseguiram  abrir uma brecha. Os soldados entraram, transformaram em escravos aqueles que não foram passados pelas armas e a cidade, até hoje, chama-se Istambul.

A historia se conta a propósito de outra dúvida que assola não apenas o governo Dilma Rousseff, mas imobilizou governos anteriores: quem identificar e punir  primeiro, os corruptos ou os corruptores?

Tudo começou, faz tempo, quando funcionários públicos descobriram que podiam aumentar seus rendimentos despachando com rapidez ou lentamente processos e licenças para a construção de obras públicas, em troca de comissões e propinas.  Eram os corruptos.   

A sucessão de estradas, ferrovias, pontes, túneis, viadutos, portos e toda a parafernália de transportes foi criando empresas especializadas, as empreiteiras, todas interessadas em lucrar o máximo. Criaram seções especializadas em obter  favores do poder público em troca de vantagens para seus funcionários. Eram os corruptores.

 Com o tempo, o casamento tornou-se indissolúvel entre eles,  a ponto de uns tornarem-se outros, e outros, uns.  Funcionários viraram empreiteiros e empreiteiros, funcionários. 

O fenômeno estendeu-se a outras atividades do serviço público. Compras, licenciamento, perdões fiscais, exportações e importações, tudo formou monumental  conluio de corrupção. Até encarregados de traçar a política bancária tornaram-se banqueiros. E banqueiros,  encarregados das diretrizes bancárias.

Encontra-se o governo Dilma Rousseff na transcendental dúvida de investigar e punir os corruptos ou, primeiro,  cuidar dos corruptores. Enquanto  isso, os turcos estão chegando…

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A REFORMA PARTIDÁRIA

Franklin Roosevelt, às vésperas de conquistar o quarto mandato, decidiu lançar-se em empreitada maior do que a transformação da indústria  americana em indústria de guerra, que conseguira.  Imaginou reformular os partidos Republicano  e Democrata segundo concepções ideológicas, criando os partidos Liberal e Conservador. Isso porque havia democratas aos montes que eram segregacionistas, bem como   republicanos empenhados em acabar com a segregação racial.  Procurou seu tradicional adversário, que derrotara quatro anos antes, Wendell Willkie. Ele  apoiou a idéia, apesar  de republicano. Só que não deu tempo.  Willkie morreu de um ataque cardíaco e Roosevelt, pouco depois, de derrame cerebral.  

Nossos partidos  andam precisando  de uma transformação igual. Porque há conservadores, até reacionários, no PT, assim como socialistas no PMDB e no PSDB. Multiplique-se por outras legendas essas divergências doutrinárias e se terá  a receita de um aglomerado mais parecido com uma salada mista. Quem sabe o Lula e Fernando  Henrique não se dispõem a dialogar de verdade?

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A CULPA É DO PROFESSOR

Quando um ou dois alunos vão mal, devem ser reprovados. Mas quando a classe inteira não consegue passar de ano, reprovado tem que ser o professor.

Essa sentença poderia ser aplicada no futebol. Assentada a poeira do vexame de domingo passado, nota-se que o time inteiro foi mal, na medida em que não conseguiu fazer um gol,  sequer.    Por mais cruel que pareça, quem está sobrando é o Mano Meneses, conclusão a que chegariam os responsáveis pela CBF, não fossem também eles os piores professores de todos  os tempos. 

A propósito, nunca é demais recordar que quando o presidente Garrastazu Médici tentou influenciar a seleção de 1970, sugerindo a convocação do Dario “peito de aço”, o  técnico João Saldanha mandou o recado: “eu não me meto no ministério dele, ele que não se meta no meu time”.       Mais pela frase do  que por pertencer ao Partido Comunista Brasileiro, Saldanha viu-se demitido… 

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NOVIDADES

Quando o Congresso voltar a reunir-se, em agosto, são esperadas novidades. O presidente do Senado, José Sarney,  não  abre mão de ver aprovadas as novas regras para a edição de medidas provisórias, que  limitarão as prerrogativas da presidente Dilma Rousseff. Aécio Neves e os tucanos virão  com toda força em apoio ao PMDB, sendo que Michel Temer lavará as mãos. Resta saber que contingentes parlamentares a ministra Ideli Salvatti poderá mobilizar.

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