Oscar Niemeyer, renovador e testemunha de um século

Pedro do Coutto

Aos 104 anos (bela edição de O Globo), morreu o arquiteto e autor de uma série de obras de arte, Oscar Niemeyer, que deixa sua marca entre nós, no Brasil, além de em grande número de países. Estão aí Brasília, com sua catedral em forma de oração, o edifício da ONU, obras na Argélia entre tantas que concebeu, tornando-se um marco de modernismo no concreto. Deu forma e sinuosidade à matéria, acrescentando enormemente à arte do ato de criar realidades.

Niemeyer no Museu de Niterói

Foi um gênio, sob todos os aspectos. Um transformador do concreto, sempre à procura da criação do novo, do que tornava eterno o que produzia. Com apoio de Juscelino, partiu do projeto da Pampulha, na capital mineira, e daí para Brasília. Lagos entre os concretos das duas cidades. Na segunda, quando traçou as linhas exaltadas por André Malraux, quando o ministro da Cultura de De Gaulle desembarcou em nosso país chamou a cidade de capital da esperança. Uma nova etapa surgia com os traços de Niemeyer apontando para o futuro. Esta foi a expressão usada pelo intelectual que percebeu o arrojo e a qualidade do artista buscando o futuro, tentando o porvir.

E foi assim, de passo a passo, que Niemeyer lançou-se ao futuro, não sem antes projetar o Sambódromo, o Museu de Niterói e a própria concepção de viver. Em linhas esteticamente livres.
Ninguém como ele uniu a arte à técnica, a ruptura estética com a existência humana. Um ateu, mas cuja obra na Catedral de Brasília são traços que simbolizam mãos erguidas para o céu em oração.

Ele humanizou o planalto central, uma cidade cuja previsão era em 1960, para 500 mil habitantes no ano 2000. Essa previsão não se confirmou. Foi várias vezes ultrapassada. No prazo inicial o país chegou ao final do século e do milênio com uma população de mais de 2 milhões de pessoas. Equívocos dessa ordem servem para acentuar a força dos projetos em si. Não fora Brasília, como se viveria em centros como o Rio de Janeiro e São Paulo. As favelas e os cortiços seriam ainda mais numerosos do que são. O efeito demográfico tem que ser considerado. Afinal as obras destinam-se aos seres humanos.

Oscar Niemeyer legitimou suas obras e legitimou o país, os governos, legitimando-se a si próprio e a sua arte, tanto quanto a sua técnica. No momento em que viaja para a eternidade, eternizando todas as suas realizações, mais ele acrescentará a seu vulto que imortalizou com suas concepções, com suas ideias, consigo próprio.

Ficará para sempre como um dos grandes nomes da cultura brasileira e universal. Nunca será esquecido como , e será lembrado como tendo consigo a força da renovação. E também quanta economia proporcionaram seus traços nos empreendimentos do passado recente, do presente e vão proporcionar no futuro?

Não quero dizer que seja copiado, isso seria simples demais para a complexidade de sua obra. Sustento somente que seus traços marcantes inspiraram e inspiram arquitetos no mundo inteiro. Onde tais obras estiverem, além do gênio diretamente, está a sua sombra inspiradora produzindo autores, os quais a partir de sua concepção tornam possíveis etapas que sem ele, Niemeyer, não poderiam ser realizadas e concluídas.

Por isso nada mais oportuno no momento em que atravessa a fronteira entre a existência e a eternidade, do que se criar um museu com seu nome, cujo destino é ser tão eterno quanto ele. Jamais será esquecido. Obra e arte se encontram na eternidade. Isso é tudo para o arquiteto e o artista.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *