Ou prova ou deve ser cassado

Carlos Chagas

Tanto quanto os efeitos do ciclone na região de Nova York; acima e além dos resultados das eleições de domingo; mais do que a violência que assola São Paulo, Brasília não poderia ficar atrás na disputa pelas manchetes da semana. Terça-feira, o senador Mário Couto, do PSDB do Pará, declarou da tribuna ter vontade de cuspir na cara de seus colegas senadores corruptos, aqueles que enriqueceram roubando a nação e o povo.

Exortou o Supremo Tribunal Federal a examinar o patrimônio de cada senador. Abominou a prática de serem engavetados processos contra seus colegas ladrões, porque muitos tem jatinhos particulares, casas luxuosas e até 50 mil bois no pasto, sem condições de comprovar seu patrimônio, livres e andando pelo Congresso, apresentando projetos.

De quando em quando o Senado revela figuras singulares, aí está o exemplo do ex-senador Mão Santa, mas dessa vez foram ultrapassados todos os limites. Ou Mário Couto será responsável pela devassa de um dos maiores escândalos da História da República, não deixando pedra sobre pedra no Congresso, ou deverá ser recolhido ao manicômio mais próximo da Praça dos Três Poderes.

O que não dá é para omitir e esquecer a denúncia generalizada, que sem novas explicações atingiu o Senado inteiro. O representante do Pará não fulanizou suas acusações, apesar de não ser difícil identificar os colegas que possuem jatinhos ou 50 mil cabeças de boi. Não que seja crime ser fazendeiro bem sucedido ou dispor de recursos para ter aviões particulares, mas, do jeito que o senador enfatizou, essas riquezas foram adquiridas através da corrupção.

Como poderá o presidente do Senado, José Sarney, deixar de abrir sindicância e convocar o senador para explicar-se? Melhor dizendo, para dizer a quem e a quantos se referiu, em seu discurso? Mário Couto não poderá sair do gabinete do presidente senão como herói ou como doido. Que tenha provas de suas acusações ou que seu mandato seja cassado por insanidade.

Fica impossível o Senado deixar em branco um pronunciamento desses, sob pena de estar protegendo senadores que tem esquadrilhas privadas e monumentais rebanhos sem poder comprovar suas origens. Ou que cabe a seus dirigentes defender a honra da instituição através da punição a seu detrator.

As senadoras Lídice da Mata, do PSB da Bahia, e Vanessa Grazziotin, do PC do B do Amazonas, reagiram na hora, exigindo do senador que particularizasse sua denúncia, mas ele já havia deixado o plenário. Estranha, mesmo, foi a defesa de Mário Couto feita pelo senador Álvaro Dias, para quem as acusações foram genéricas, sem necessidade de maiores explicações.

Em suma, a próxima semana promete ser explosiva, tendo em vista a importância da defesa da instituição parlamentar ou, no reverso da medalha, a identificação dos acusados. Deixar que o barro escoa do ventilador, positivamente, não dá.

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