Ovo por carne (ou ficando para trás na economia global)

Alexandre Schwartsman
Folha

Segundo o ministro da Fazenda, o fraco desempenho da economia brasileira no mandato da presidente se deve exclusivamente à conjuntura internacional.

Diante da mais severa crise do capitalismo desde os anos 30 do século passado, a redução do crescimento brasileiro seria consequência inevitável, descontadas, é claro, todas as bravatas sobre a “marolinha” que jamais afetaria o desempenho nacional.

O argumento, reproduzido à exaustão a cada pronunciamento ministerial, é logicamente impecável, sofrendo apenas de um modesto problema: não guarda a mais remota semelhança com o ocorrido, seja no que se refere ao Brasil, seja no que diz respeito à economia global.

Não é necessário mais que uma simples tabela para demolir a história oficial, no caso uma que compare o crescimento brasileiro ao mundial, assim como ao do conjunto dos países emergentes, cobrindo os últimos cinco mandatos presidenciais.

Editoria de arte/Folhapress

Como se vê, o mundo cresceu algo como 3,5% ao ano entre 2011 e 2014, precisamente o mesmo ritmo registrado nos quatro anos anteriores. Por outro lado, o Brasil, que crescera 4,6% ao ano no período 2007-10, deve registrar expansão de apenas 1,6% anual nos últimos quatro anos, redução abrupta equivalente a três pontos percentuais. Nunca antes na história recente deste país o Brasil ficou tão para trás da economia global.

Posto de outra forma, a desaceleração mundial não pode ser invocada como motivo para a piora extraordinária do nosso desempenho, simplesmente porque jamais ocorreu, certamente não fora da fértil imaginação do ministro da Fazenda.

A tabela também sugere que a “velocidade de cruzeiro” da economia global não parece ser muito diferente da observada no período mais recente: em 4 dos últimos 5 mandatos presidenciais ali destacados o mundo se expandiu à taxa de 3,5% ao ano, saindo da toada apenas no período 2003-2006, quando se acelerou para 5% anuais, sob o efeito combinado da bolha imobiliária nos países ricos e do pico do crescimento chinês.

RECUPERAÇÃO GLOBAL

Nesse sentido, mesmo reconhecendo que a recuperação global poderia ser mais vigorosa, considerada a intensidade da queda do produto observada durante a crise de 2008-09, o ritmo de expansão mundial não chega a ser particularmente desastroso, pelo contrário.

Já se limitarmos a comparação ao conjunto de países emergentes, as conclusões são ainda mais vexatórias. Em momento algum o Brasil conseguiu superar o desempenho de nossos pares. Afora isso, mesmo nos últimos quatro anos, quando a expansão emergente perdeu algo de seu brilho, caindo de 6,2% para 5,1% ao ano, a piora nacional foi bem mais pronunciada, padrão também difícil de reconciliar com a desculpinha oficial para a queda aguda do nosso crescimento.

Nosso lamentável desempenho não pode, portanto, ser atribuído nem à (inexistente) desaceleração global nem à (muito mais modesta) desaceleração das economias emergentes. Como notado (com certo atraso) pelo FMI, se queremos entender o que vem ocorrendo no Brasil, temos que buscar causas locais, que, aliás, não são tão difíceis de encontrar.

QUEDA DA PRODUTIVIDADE

Em primeiro lugar, a redução visível do crescimento da produtividade, refletindo em larga medida a virtual paralisia do esforço reformista que marcou o país entre 1990 e 2005.

Em segundo lugar o esgotamento da mão de obra ociosa, que durante algum tempo permitiu expansão baseada na simples adição de trabalhadores ao processo produtivo.

E, por fim, também a fraqueza do investimento, que caiu de insuficientes 19,5% do PIB em 2010 para risíveis 17,7% do PIB nos últimos quatro trimestres, a despeito da maciça injeção de recursos nos bancos públicos, assim como de toda sorte de incentivos fracassados.

Nenhum desses fenômenos óbvios é sequer reconhecido como problema no discurso oficial, que continua a insistir nas fantasias que criou, vendendo ovo por carne, tentando justificar a injustificável deterioração em praticamente todas as dimensões da economia brasileira.

6 thoughts on “Ovo por carne (ou ficando para trás na economia global)

  1. O artigo está perfeito, e no final, as três causas arroladas para nosso baixo crescimento Econômico no período Presidenta DILMA/TEMER: Baixa da Produtividade (Produção/Hora Trabalhada); Quase Esgotamento da Mão de Obra ociosa; e Fraqueza e queda do Investimento de 19,5% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2010 para 17,7% do PIB em 2014, lembrando que só para repor o Capital Desgastado se necessita +- 10% do PIB/Ano, essas três causas são verdadeiras, mas não a causa principal para explicar o baixo crescimento de nossa Economia.
    A meu ver a causa principal é que nossa Presidenta DILMA é uma Líder muito forte, muito ESTATISTA, interferiu muito nos Mercados ( Juros, Combustíveis, Energia Elétrica, Tarifas Públicas, etc, e passa a impressão de que mesmo o LUCRO NORMAL é uma coisa meio vergonhosa, injusta….
    Com isso criou um ambiente anti-Negócios e perdeu a CONFIANÇA dos Investidores, que se sentem INSEGUROS e tratam apenas “de se manter”. E a CONFIANÇA é rápida e fácil de se perder, e demorada e difícil de se RECONQUISTAR.

  2. O artigo é preclaro e desnuda as justificativas mentirosas do ministro Mantega em relação ao fraco desempenho da nossa economia sob seu comando e de Dilma.

    Ótima postagem Sr. Newton. E ótimo arrazoado do Sr. Bortolotto.

  3. Como o PIB do Brasil pode crescer mais que o dos outros se o PSDB vem a pelo menos 2 dois anos criando todos os tipos de incertezas que interferem negativamente no mercado, e na economia como um todo. Para acabar com o sucesso da prospecção do petróleo do pré sal , o PSDB expôs as vísceras da empresa com escândalos de corrupção quem vem desde 1979, se aproveitaram do mensalão, do joaquim barbosa, tudo que é sujo deste país associaram ao PT. UMA COVARDIA ! NO entanto mesmo assim, Dilma foi para o segundo turno, um feito sem dúvida, uma vitória, resistiu bravamente, o PIB cresceu sempre, e o país caminha com uma economia sólida, na prática , o que vemos nas ruas contraria os analistas. Fim de semana em Cabo Frio , a cidade lotada, carros com placa de vários estados, Manaus já é a 5ª cidade do país, usinas hidroelétricas e linhas de transmissão associadas com mais 2 000 km já estão prontas para entrar em operação. Obras de grandes impactos econômicos já estão quase prontas para operar ,equipamentos pesados, todos os insumos para as essas grandes obras estruturantes já finalizaram. O PSDB detonou com a copa do mundo, dizia que o Brasil não tinha infraestrutura, que os aeroportos não atenderiam o grande número de pessoas , que os turistas seriam assaltados, atacaram a presidente com xingamentos nos estádios, ofenderam, não a deixaram em momento algum participar da competição, mas a copa foi um sucesso, tudo funcionou. Um ciclo econômico positivo finalizou. Agora é torcer para Dilma ser eleita para continuar outro ciclo econômico virtuoso. Aécio não é empreendedor, Aécio é um herdeiro político e de fortuna de banqueiro, Aécio é homem que vive de juros e pendurado no orçamento da união para não gastar sua riqueza, acumular mais. O que Aécio faz com a fortuna que tem ? Empreende o que ? Gera emprego ? Aécio disse que se eleito trará Armínio Fraga , um jogador, um técnico que vive do golpe das bolsas, do dinheiro ganho com esperteza, sem trabalho. Aécio e o PSDB são financistas não desenvolvimentistas. Vivem das incertezas econômicas para se dar bem na política. Eu, apesar mal esclarecido, e eleitor PT, não acredito, pela prática, que o PSDB, o Aécio, representante da velha política do café com leite, trará prosperidade para o povo brasileiro.
    DILMA, a leoa do planalto !

    • Tenha dó, sr Renato. A mesma administradora daquela famosa lojinha de R$ 1,99 está levando o Brasil para o mesmo caminho. Poupe-nos, por favor. Ou o sr. é descendente da Velhinha de Taubaté ?

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