Impressionante relato de um médico que conseguiu sobreviver a um erro hospitalar.

Dr. Eduardo Raia

Bom, aqui estou eu vivo e saudável graças ao meu bom Deus que com toda a certeza deste mundo estava ao meu lado, ou melhor, estava comigo em seus braços e aos seus anjos da guarda enviados, Marcello Vianna, Márcio Ananias e Cláudio Vieira, todos muito responsáveis por eu estar aqui agora escrevendo esta história.

Estava eu internado, sendo hidratado para tentar expelir uns cálculos que estavam impactados em meu ureter, quando um auxiliar de enfermagem da Casa de Saúde São José colocou uma solução de 50 ml de soro fisiológico com uma medicação chamada Nexium. que serviria para proteger meu estômago. Não era o Nexium que estava ali dentro.

Era ali, naquele momento, que começaria a pior experiência que eu passei em toda a minha vida, a de morrer, de saber que ia morrer sem nada poder fazer, de saber do que estava morrendo e não poder avisar aos meus anjos que me socorriam, de morrer tão jovem e cheio de sonhos…

Uma sucessão de erros iniciados na farmácia da Casa de Saúde, que liberou uma droga de uso restrito em centro cirúrgico para um andar de enfermarias, passando pela diluição sem conferência pela enfermagem, culminou na administração de uma droga chamada Nimbium em minha veia.

O Nimbium é um relaxante muscular derivado do curare, usado em anestesia geral para paralisar os músculos, permitindo ao cirurgião um relaxamento muscular adequado à realização de cirurgias. Portanto, quando administrada sozinha, esta droga, produz paralisia de todos os músculos do corpo, inclusive os responsáveis pela respiração, mantendo a pessoa imobilizada, porém consciente de tudo.

Agora, vocês podem imaginar o que eu, um anestesiologista, conhecedor profundo dos efeitos desta droga, senti. Minha vida foi-se indo, sem forças para respirar, sem forças para avisar aos meus anjos, que ainda atônitos me davam os primeiros socorros de suporte a vida, sem ter a menor idéia do que havia acontecido.

Com toda a minha força e alegria de viver, lutei contra esta droga, que por alguns segundos me venceu. Porém, graças a uma máscara e um ambú salvador, que demorou a chegar porque o carrinho com o equipamento de ressuscitação do hospital estava com suas rodas quebradas e se desprendendo, ressurgi respirando por força das “ambuzadas”  salvadoras do Cláudio Vieira, um amigo, pai, irmão, companheiro de trabalho que lutava ali pra me salvar. Juntei todas as minhas forças, porque graças à “presença de espírito” do Marcello Vianna, que estava ao meu lado quando se iniciou a administração da droga, a mesma foi interrompida por ele, permitindo que apenas uma pequena quantidade tenha realmente entrado em minha veia.  Consegui então, verbalizar com muito esforço aos meus outros dois anjos (Márcio Ananias e Cláudio Vieira) a palavra: “Curare… foi curare…” E desta forma receber o tratamento definitivo.

O mais impressionante de tudo isto, é que naquele momento a Casa de Saúde estava recebendo um certificado internacional de Acreditação Hospitalar, e eu ali, morrendo por um erro grosseiro de toda uma estrutura hospitalar que estava sendo certificada internacionalmente por sua excelência em atendimento hospitalar, que ironia não?

Curiosamente neste dia, folgas de funcionários haviam sido canceladas, número de cirurgias diminuídos para que não se repetissem as cenas que eu vi na semana anterior, de pacientes e acompanhantes sentados no chão da recepção de tão cheio que o hospital estava. Tudo isso para que os acreditadores tivessem uma boa impressão do hospital.

Mas o que aconteceu? O que levou a tantos erros? O que pode levar um funcionário da farmácia a liberar uma medicação errada? O que pode levar uma farmacêutica permitir que isso aconteça? O que levou um auxiliar de enfermagem experiente a diluir e administrar uma droga errada? Que a Acreditação canadense me responda. Que o excesso de burocracia ou “burrocracia” que a tão falada Acreditação prega, me responda. Que bom que possam responder a mim e não aos meus herdeiros…

Será que não estamos vivendo um momento de excesso de papéis? São tantos termos, formulários, protocolos, fichas que os profissionais de saúde têm que preencher que no momento mais crucial, no momento em que deve haver mais concentração, no momento em que se deve cuidar do paciente, separar e diluir as medicações, estes profissionais estão esgotados mentalmente, sendo passíveis de erros tão grosseiros que podem determinar o fim da vida de um ser humano.

Que segurança hospitalar é essa pregada onde papéis são mais importantes do que os seres humanos? Muitos me perguntam o que eu vou fazer, outros me afirmam “você vai processar, né?”, porém, o que eu realmente vou fazer, com o tempo, todos saberão. Todavia, eu que sempre lutei pela ética, pela boa prática médica, pela lisura em todos os campos da vida, que critiquei os que se omitiram por covardia, eu, que sempre levei o lema “não me assustam os gritos dos homens maus, mas sim, o silêncio dos homens de bem”, não posso me calar, tenho que lutar e exigir mudanças.

Não é possível se administrar uma medicação e simplesmente dar as costas para o paciente. Por que o enfermeiro não leva a prescrição até o quarto, não a lê para o paciente e prepara a diluição na frente do paciente? Isso não aumentaria a segurança? Não seria isso excelência hospitalar?

De uma coisa eu tenho certeza, mudanças profundas precisam ocorrer, porque o que aconteceu comigo não pode acontecer mais. A medicina e a assistência ao paciente precisam de uma reformulação profunda de seus conceitos, visando à maior atenção a quem de direito: pacientes e profissionais de saúde em detrimento ao lucro e a papelada burocrática.

Encerro aqui muito feliz por estar vivo e bem, agradecendo a Deus por tudo em minha vida e a todos meus amigos e parentes por fazerem parte da minha vida.

(Publicado originalmente
no blog do Dr. Eduardo Raia)

 

A quem interessa um Judiciário fraco e subserviente?

Jean Lafitte 

A magistratura federal vive momentos angustiantes. Os vencimentos dos juízes federais não têm aumento real, como os de qualquer trabalhador, há mais de 5 anos. Pouquíssimos são aqueles que dispõem de carro oficial,  e, quando têm, são veículos velhos e totalmente sem condições de uso. Mesmo os juízes federais que trabalham em comarcas do interior utilizam seus automóveis próprios. Ao contrário dos parlamentares, que legislam em causa própria e possuem as mais variadas verbas de representação, os juízes federais não recebem nem auxílio-combustível.

A imprensa noticia, cada vez mais, que os juizes federais ganham R$ 21 mil por mês, mas ninguém tem coragem de noticiar que 40% desse valor não entram no bolso dos juízes e vão direto para o “Leão”, o que resulta num vencimento real de aproximadamente R$ 15 mil.

Apesar de a Constituição lhes assegurar autonomia administrativa e financeira (art. 99), o aumento dos vencimentos dos magistrados, às vezes simples correções, está condicionado a um beija-mão interminável que passa necessariamente pela “boa-vontade” do Legislativo e do Executivo, que, assim ficam donos das suas almas, tais como Mefistófoles, no “Fausto”de Goethe.

Será que ninguém percebe que isso é catastrófico para a independência e altivez do Poder Judiciário?  Será que ninguém percebe que a independência do Poder Judiciário é, antes de tudo, garantia do cidadão?

Muito se fala nas prerrogativas dos juízes (vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídio). Ninguém, contudo, as explica. Faço, então, eu, a explicação, correndo o risco, é claro de ser apedrejado pela opinião pública, tal como na música do Chico, como fizeram com a pobre “Geni”.

Os cidadãos que reclamam do arbítrio do Estado já se deparam com a total ausência da indispensável “paridade de armas”. Os atos da administração pública, presumem-se legítimos. A União, os Estados, as autarquias e por aí vai, possuem prazo em dobro para recorrer e em quádruplo para contestar, em qualquer ação movida por um cidadão. Se no final da sua “via crucis”, ganhar a ação contra o Poder Público (e que Poder!) ainda terão eles, os incautos que ousaram contender com o Poder Público, que amargar a fila dos precatórios, verdadeiro purgatório, de fazer corar de inveja Dante Alighieri.

Podem jogar pedra à vontade, mas as garantias da magistratura são garantias do cidadão contra o arbítrio. Imaginem os senhores se os juízes pudessem ser trocados, mexidos, movidos, ao talante do governante de ocasião. E se, ao julgar uma causa grande contra a União, um juiz (propenso a reconhecer o direito do cidadão em confronto com o do Estado) pudesse ser removido pelo tal governante para a Conchinchina? Pois, é. Só falta isso. Não falta mais nada.

A magistratura há anos não recebe um aumento real. E quando nisso se fala, é pedra pra todo o lado. Cada vez mais os juízes federais estão à mercê da boa-vontade do Executivo e do Legislativo. Quem perde, é você, cidadão. Quando um juiz ganha mal, quem perde é você, cidadão. Quando a dignidade do Poder Judiciário é conspurcada, quem perde é você, cidadão. Quando o Poder Judiciário fica “devendo um favorzinho” ao Executivo e ao Legislativo, quem perde é você, cidadão, porque no Jogo dos Poderes da Fábrica de Brinquedos Estrela, “não tem almoço grátis” para ninguém.

Os grandes ditadores da história da humanidade, de esquerda ou de direita, sempre começaram por empreender um objetivo em comum, a fim de garantir a concentração do Poder: enfraquecer o Judiciário, até torná-lo subserviente. De Hitler a Idi Amim Dada, passando por Slobodan Milosevic, o ponto de partida é enfraquecer o Judiciário.

Falta pouco para governadores entrarem em gabinetes de presidentes de Tribunais “exigindo decisões extra-autos”, falta muito pouco para o Executivo e o Legislativo se intrometerem de vez no Judiciário. Mas o que o País precisa é de um Judiciário forte, é de um Sir Edward Coke, que proclamou, já em 1608, que nem o Rei estava acima da Lei (even the king is not above the law). É de um John Marshall, Chief Justice da Suprema Corte dos Estados Unidos da América do Norte, que no célebre caso Marbury versus Madison proclamou que a essência da liberdade civil está em o cidadão poder reclamar perante o Judiciário os danos imputados pelo Estado.

A imprensa e algumas autoridades de ocasião, oportunistas, corvos, aves de rapina, que querem ficar bem na foto, e seguem a “opinião geral da maioria”, que, na abalizada opinião de Nelson Rodrigues, é burra, e, se não é burra, ao menos ignorante é, prestariam melhor serviço à nação se ajudassem a construir um Judiciário forte, destemido, corajoso, ao invés de apequená-lo perante os cidadãos.

Uma juíza federal, cumpridora de seu trabalho e com a estatística em dia (zerada), diz que a Justiça Federal tem o pior marketing da história do mundo globalizado. E tem mesmo. Porque os juízes, embora tenham muitas vezes razão, não conseguem explicar, senão em juridiquês, as razões que têm.

O pior é que na Justiça “antiguidade é posto”, relegando-se o merecimento. Juízes que trabalham e estão com a estatística em dia, ganham o mesmo que juízes que não trabalham e acumulam 700 processos para sentença. Um horror. Os que trabalham e não se tornam “puxa-sacos de desembargadores” são esquecidos. Já os “Doutores Pangloss”, aqueles otimistas inveterados, que nada veem de errado com o sistema, que passam os seus dias nas salas e antecâmaras do tribunal, a fazerem a “boa política” do sou “fã de V. Exa”, esses sim alavancam vertiginosamente as suas carreiras, quando não conseguem licenças sem prejuízo dos vencimentos, para “se aprimorarem” em cursos no exterior.

Vamos discutir a realidade da Justiça. Mas sem fantasias. Com reconhecimento aos juízes que trabalham e são a maioria, e sem favorecimentos a juízes relapsos, que só envergonham a magistratura.

Reflexões sobre a utopia da independência editorial e sobre a crescente decepção com a classe política e as instituições brasileiras.

Carlos Newton

Desde que começamos a fazer este blog com Helio Fernandes, há pouco mais de dois anos, vem sendo possível perceber uma sensível e expressiva mudança no comportamento dos comentaristas. De início, qualquer artigo com a menor crítica ao governo ou ao então presidente Lula era imediatamente contestado, com o máximo rigor. Surgiam logo muitos comentários ardorosos em defesa da administração petista.

Não fazia diferença se saíssem críticas também ao principal candidato adversário, José Serra, a FHC ou aos demais tucanos, ou aos verdes de Marina Silva, de toda forma o blog era considerado simplesmente antiLula ou antiPT, e era logo postado grande número de comentários nos chamando de PIG (Partido da Imprensa Golpista) e por aí a fora.  

Aos poucos, porém, a situação foi se modificando. Começaram a diminuir expressivamente o número de comentários na defesa incondicional do governo Lula Rousseff. Ao que parece, com o tempo os comentaristas passarem a perceber que nenhum articulista aqui no blog é contra ou a favor de A ou B, deste partido ou daquele.

Todos os que aqui escrevem são livres, nenhum é “amestrado”, como diz Helio Fernandes, nenhum deles está pendurado em sinecuras públicas ou da iniciativa privada. Esta é a grande diferença para os blogs que fazem permanente oposição ao governo ou que simplesmente apóiam tudo o que o governo faz.

Alguns desses blogs, devemos reconhecer, são excelentes. Escritos por grandes jornalistas, sem a menor dúvida trazem informações importantes aos leitores. Mas o que atrapalha é que, de uma forma ou outra, eles são atrelados e se posicionam sempre a favor ou contra o governo.  

Nós aqui, entretanto, insistimos em manter a independência, que é uma espécie de utopia, já que não é possível ao ser humano tornar-se independente por inteiro. Sempre haverá, no recôndito da alma, algum sentimento negativo (seja soberba, inveja, decepção, ira etc.) que nos prejudicará nessa busca da liberdade editorial completa.

De toda forma, porém, é preciso continuar cultivando essa utopia. E muitos comentaristas já se acostumaram com a linha editorial utópica do blog, passando a aproveitar com sabedoria essa liberdade de expressão que lhes é garantida, enquanto muitos outros ainda insistam em defender pontos de vista meramente partidários, ideológicos, filosóficos e até religiosos, o que não é ruim. Pelo contrário, mostra-se salutar e fundamental para que haja debates e entrechoques de opinião.

Percebemos também que a grande maioria dos comentaristas mostra hoje uma grande decepção com a política e os partidos. Do lado de fora do blog, esse fenômeno também se verifica, levando destacados nomes da política a abandonarem nos últimos meses a vida partidária, fazendo pesadas críticas ao comportamento dos governantes e parlamentares do país.

Primeiro, foi o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB. Em março, ele tornou pública a decisão de deixar a sigla tucana e a política partidária, após mais de duas décadas de filiação. Depois, em junho, o ex-deputado paulista Fábio Feldmann se desligou do seu último reduto partidário, o PV, após ter passado por PSDB e PMDB. E há duas semanas, foi a vez do ex-deputado Vladimir Palmeira anunciar, com um discurso de cobrança por ética, a saída dele do PT, que ajudou a fundar.

Na verdade, em meio aos sucessivos e rotineiros escândalos de corrupção nos planos federal, estadual e municipal, as deserções de Bresser, Feldman e Vladimir, embora isoladas, expõem a gravidade da crise que atinge as instituições políticas brasileiras, espalhando uma decepção com a política que parece ser a grande característica desse momento difícil que o país atravessa, decepção que também se pode perceber na análise dos comentários que diariamente este blog publica.

É muito triste constatar essa situação desalentadora. As pessoas, para seguirem em frente, precisam ter confiança na classe política, defender suas ideias e se posicionar em prol do interesse público.  Por isso, talvez seja fundamental que, à margem de ideologias e partidos, os brasileiros tentem, pelo menos, redescobrir o nacionalismo, que hipoteticamente deveria entusiamar a todos. Caso contrário, que país estaremos legando às próximas gerações?

Pagot se acertou com o governo no fim de semana e seu depoimento no Senado foi uma grande enrolação. Não será surpresa se for mantido no cargo.

Carlos Newton

Quem tinha razão sobre o depoimento de Luiz Antonio Pagot, diretor em férias do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), era o comentarista Luis Fernando, do Rio de Janeiro, que previu: “Sinceramente não vejo motivos para suspense, vai ser aquela ladainha de sempre, eu só falo em juízo,eu não sabia de nada e blá blá blá!!!!!!!!”

Realmente, não deu outra coisa. No fim de semana, o Planalto se acertou com Pagot, e tudo acabou em pizza. Ele fez apenas uma apaixonada e comovente defesa do Dnit, o órgão mais corrupto do país, desde quando se chamada DNER. Mudaram o nome, mas esqueceram de mudar as práticas administrativas ilegais.

“Ele nunca me exigiu nem pediu nada”, disse Pagot sobre o ministro Paulo Bernardo, mudando as antigas versões.  Em seguinda, perguntado sobre a mudança de escopo (faixa de custo) das obras pelo senador Blairo Maggi (PR-MT), Pagot responde que “as obras sofrem mudança de escopo quando a conclusão de estudos de viabilidade aponta a necessidade de alterações necessárias”.

Segundo ele, “o ideal era que só fossem licitadas as obras com projeto executivo. O que acontece é a licitação com projeto básico”. Entre os dois projetos, de acordo com Pagot, são identificados alguns problemas e ocorrem as mudanças de valor (que são sempre para mais).

Foi um depoimento impressionante, em termos de desfaçatez. “Me surpreendi de ela (presidente Dilma Rousseff) ter se admirado de algumas obras estarem acima do escopo inicial”, diz Pagot, citando uma obra do PAC que tinha um valor estimado em R$ 450 milhões e, durante o processo licitatório, subiu para R$ 850 milhões: “A diferença não é superfaturamento. O TCU e o CGU são muito ágeis. Quando a licitação está em andamento, se eles têm algum achado, imediatamente emitem um relato para nós”.

O depoimento ainda nem acabou, mas  não adianta esperar alguma revelação. Pagot está mais do que dominado. Não será surpresa se for mantido no Dnit. Tudo é possível.

Confira como vive Sergio Côrtes, secretário de Saúde de Cabral. É um cirurgião que consegue fazer operações milagrosas (no mercado imobiliário).

Carlos Newton  

De início, é preciso ressalvar que o secretário de Saúde Sérgio Côrtes não apreendeu nada com governador Sergio Cabral. Seus desvios de conduta já vinham de experiências anteriores, especialmente quando dirigiu o Into – Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, um importante hospital situado no Rio de Janeiro.

Antes mesmo de assumir a Secretaria Estadual de Saúde e iniciar seu relacionamento mais direto com o governador Cabral, Dr. Sérgio Côrtes já dava demonstrações de enriquecimento ilícito. No ano eleitoral que levaria Cabral a conquistar o poder, por exemplo, a 7 de março de 2006 o Diário Oficial do Município registrava que Sérgio Luiz Côrtes da Silveira tinha comprado um imóvel na Avenida Borges de Medeiros 2.475, o apartamento duplex 1.103, de cobertura, com cinco vagas na garage. 

E pagou de Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) a quantia exata de R$ 71.035,46, correspondente a um imóvel cujo valor  efetivo seria de no mínimo R$ 3.551.773,00, porque o ITBI corresponde a 2% do valor da chamada “planta de valores” atualizada.  

É claro que Sergio Côrtes poderia ser de uma família rica, porque nenhum diretor de hospital público, tão jovem (tinha apenas 39 anos), jamais conseguiria juntar os R$ 3,5 milhões necessários para comprar o imóvel, no valor derivado do Imposto de Transmissão. Mas é justamente aí, na escritura, que começam a surgir as evidências de irregularidades na compra da cobertura duplex, cujo valor de mercado naquela época já era calculado em pelo menos R$ 5 milhões.

Acredite se quiser, mas o preço do imóvel, declarado na escritura, foi de apenas R$ 1,3 milhão, incrivelmente inferior aos R$ 3,5 milhões (do Imposto) ou aos R$ 5 milhões do valor de mercado, vejam que grande negócio. O mais interessante é que a escritura mostra que a cobertura duplex foi comprada à  vista, em dinheiro em espécie. Quer dizer, Sergio Côrtes chegou ao cartório carregando uma mala com R$ 1,3 milhão, que devia guardar no colchão. Ou seja, pagou em dinheiro vivo para não deixar rastro da origem. 

Em 2007, já integrado ao governo Cabral, o secretário de Saúde dá nova tacada imobiliária e entra para o seleto clube dos proprietários do Condomínio Portobello, em Mangaratiba. Mas agora  é que vem o pior.  Côrtes comprou uma mansão, avaliada hoje em 8 milhões (preço em que esteve anunciada a propriedade vizinha), mas declarou no cartório que estava adquirindo apenas um terreno de 4.575 m², constando como se não existisse nada construído lá.

Para não despertar suspeitas, o grande negócio foi feito em nome de sua mulher Verônica Fernandes Vianna, que usou o nome de solteira. Examinando-se o carnê de IPTU da Prefeitura de Mangaratiba, relativo a este ano de 2011, observa-se que nele está registrado: “Área Construída: 0,00”. Ou seja, Sérgio Côrtes continua fraudando a Prefeitura de Mangaratiba, alegando que tem apenas um terreno e não uma mansão luxuosa, para pagar menos IPTU, ora vejam só que espertalhão.

Da mesma forma que aconteceu na negociação do duplex cobertura na Lagoa, o mais interessante é o preço. A cópia da escritura da mansão em Portobello, lavrada em 2007,  por coincidência no Cartório Cabral, em  Mangaratiba, em nome de Verônica Fernandes Vianna, a mulher de Sergio Côrtes, mostra que o negócio foi feito pela módica quantia de R$ 250 mil, embora o próprio IPTU registre que o valor venal do terreno (só o terreno) é de R$ 516 mil, mais do dobro.  

Essas compras de imóveis de altíssimo luxo ocorreram em 2006 e 2007. De lá para cá, com sua convivência mais próxima a Sergio Cabral e sem existir um Código de Conduta que possa refrear a volúpia de determinados administradores do patrimônio público, a fortuna do secretário Sergio Côrtes certamente se multiplicou, porque está mais do que provado que ninguém sabe fazer determinadas “operações” como esse hábil cirurgião. Com ou sem Código de Conduta.

Na Secretaria Estadual de Fazenda, Côrtes agiu de uma forma impressionante, seus ilícitos são inacreditáveis. O mais impressionante, porém, foi que em 30 de novembro do ano passado, quando muitas negociatas do secretário já tinham sido reveladas pela Rede Globo, Cabral teve a desfaçatez de dar entrevista à imprensa anunciando que Côrtes seria ministro da Saúde do governo Dilma Rousseff.

Vamos conferir o que publicou a Agência Brasil (antiga Agência Nacional) naquela data, às 14h05m:

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse nesta terça-feira (30) que o secretário estadual de Saúde, Sergio Cortes, deverá ser ministro da Saúde no governo da presidenta eleita, Dilma Rousseff. Ele afirmou que conversou “longamente” com Dilma na segunda-feira (29), em Brasília, e que um dos assuntos abordados foi a possibilidade de convidar Cortes para o cargo.

“Ela foi muito enfática, na campanha, na admiração do trabalho que realizamos aqui na área da saúde pública. E o Sergio Cortes, provavelmente, será o próximo ministro da Saúde. Para nós, é uma honra. Já foi feito um convite. Eu já o consultei, e ele aceitou. Mas é evidente que ele vai ter que sentar com a presidenta e conversar”, disse Cabral.

Como se sabe, a nomeação não se concretizou. A presidente Dilma Rousseff teve uma inspiração divina e livrou-se da pressão de Sergio Cabral Filho, apesar de não existir um Código de Conduta em que ela pudesse se basear.

Pausa para um tema sério (final)

Carlos Chagas
                                       
Na tarde de 31 de março, consegui localizá-lo pelo telefone. Eu trabalhava no “Globo” e tivera a informação de que Juscelino havia estado no palácio das Laranjeiras, com o presidente João Goulart. Ele foi seco, do outro  lado da linha: “Estive sim, estou chegando agora do Laranjeiras.  Mas não  me  pergunte mais nada porque  não vou contar.”
                                                       
Os militares batiam cabeça, com a queda de Jango, até que dez dias depois de  os tanques terem  ido para a rua, os generais  decidiram botar ordem  na bagunça e substituir o Comando Supremo da Revolução (Costa e Silva, Augusto Rademaker e Francisco de Assis Correia de Melo) pelo general Castelo Branco. 

Imaginando que as instituições funcionavam, ou fingindo  muito bem, Castelo Branco quis ser eleito pelo Congresso.  Mesmo com as esquerdas cassadas, votos eram necessários, e o futuro presidente foi recebido pela direção do PSD,  maior partido nacional.   Foi na casa do deputado Joaquim Ramos, em Copacabana. Lá estavam Amaral Peixoto, José Maria Alkimin, Negrão de Lima, Martins Rodrigues e outros. Juscelino também. 

A conversa seguia amável,  mas tensa, e JK não parava de olhar o relógio de pulso. Seu diálogo com Castelo foi curto. Quis saber se teríamos eleições presidenciais no ano seguinte, e o futuro presidente garantiu que sim. Malicioso, ao notar que Juscelino continuava olhando o relógio, comentou: “Senador, percebo que o senhor deve ter outro compromisso. Não se prenda por mim, ainda que eu tenha reservado esta noite para dialogar com o PSD”. 

Por mais estranho que pudesse parecer, Juscelino retirou-se logo depois, para espanto dos companheiros. Na  manhã seguinte, Negrão de Lima telefonou: “Juscelino, você ficou  maluco?  Abandonar o todo poderoso  general  que vai tomar posse amanhã! O que você tinha de tão urgente assim?”

Resposta: “Uma reunião na casa do Bené Nunes, que ia tocar piano para um grupo de amigos…”

Como senador por Goiás, JK votou em Castelo Branco, sem perceber que se transformaria na maior vítima do regime de arbítrio. Não demorou para que o mandato do primeiro general-presidente fosse prorrogado por um ano, sob o argumento de que o país não poderia viver em 1965 uma convulsão eleitoral. A verdade é que a impopularidade da chamada Revolução aumentava dia a dia e todos previam que Juscelino seria eleito por larga margem.  Quando da prorrogação, foi alertado de que  dificilmente o deixariam ser candidato, mas só acreditou quando, em julho,  teve seu  mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos. Seu maior algoz foi o então governador Carlos Lacerda, que também se julgava candidato.
                                     
Avisado por José Maria Alkimin de que seria atingido pelo Ato Institucional, veio a Brasília para pronunciar seu último discurso. Contou-me depois que após o protesto feito pela tribuna, uma das maiores peças de oratória que produziu, deixou o plenário do Senado pelo corredor central. Rostos se viravam quando passava.  Nenhum cumprimento. Desceu com Dona Sarah até o saguão principal do Congresso.  A vida soube  ser cruel com quem, meses antes, era bajulado aos extremos.  
       
Um apressado retorno do exílio levou-o à humilhação de responder a dois Inquéritos Policiais Militares, tratado com  desdém por coronéis e majores, obrigado a passar horas sentado num  banquinho, sem direito sequer à presença de seu advogado, Sobral Pinto.  Logo voltou para Portugal, sendo que no aeroporto do Galeão, pela primeira   vez na vida, botou um pequeno revolver  na cintura. O Rio estava cheio de boatos de que não o deixariam embarcar, que o prenderiam na hora. Disse-me que se fosse humilhado, ou se Dona Sarah submetida  a violências, atiraria no primeiro oficial da Aeronáutica que surgisse à sua frente. Seria   morto depois, mas com  honra.       
                                              
O tempo passou, a angústia de JK  crescia em progressão geométrica, longe do Brasil. Pensou em dar fim à vida, num Natal passado em Paris só com o  fiel coronel Afonso Heliodoro.  

No final de 1966 o  general Costa e Silva havia imposto sua candidatura ao presidente Castelo Branco, mas as relações entre eles eram tão tensas que o segundo presidente do ciclo revolucionário entendeu de viajar para o exterior.  Fui mandado acompanhá-lo,  pelo “O Globo”. Lisboa era a primeira parada.  No intervalo de uma visita e outra do general  a autoridades portuguesas, em companhia do jornalista Washington Novaes,  aproveitei para visitar o ex-presidente Juscelino.  Ele tinha escritório no Chiado, bem defronte à  Lisboa Antiga. Recebeu-nos emocionado, pediu notícias do Brasil e em dado momento, levou-nos á sacada, para  ver a vista.   Estávamos os três de frente para a paisagem e aí percebi  o porque da iniciativa. Olhando-o de soslaio, vi  que chorava.   

De noite, no hotel, um daqueles coronéis truculentos da comitiva veio tirar satisfações. Como tínhamos ido conversar com o inimigo da Revolução? Para falta de sorte dele o general Costa e Silva vinha saindo do elevador e quis   saber sobre o que discutíamos. Contei sobre  a visita e ainda perguntei ao futuro presidente: “Se um dia desses, passeando na rua, o senhor desse de frente com o presidente Juscelino? Faria o quê?”

O sempre surpreendente general respondeu, encerrando o assunto: “Nos cumprimentaríamos, como todo brasileiro deve fazer com outro brasileiro, quando se encontram no exterior…” 

Juscelino acabou voltando ao Brasil, mesmo suspenso em seus direitos políticos, proibido de entrar em Brasília e recebendo os ônus de se haver composto com Carlos Lacerda,  na estranha Frente Ampla que os reuniu a João Goulart numa  luta efêmera pela volta do  país à democracia. 

O resultado foi a agitação dos radicais e a edição do Ato Institucional número 5, o mais hediondo de todos. O presidente era paraninfo de uma turma de formandos, na noite de 13 de dezembro de 1968.  Depois de discursar no Teatro Municipal, no Rio, ao sair foi preso, conduzido ao Forte Copacabana, onde permaneceu alguns dias. Horror dos horrores, naquela mesma hora Carlos Lacerda também tinha sido detido  e conduzido a um quartel da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O cárcere não deixou sequelas em JK, ao contrário do antigo desafeto.

Juscelino, segundo Ulysses

Sebastião Nery

RIO – Ulysses Guimarães recordava Juscelino:

– Se você me perguntar qual o maior político que conheci, o mais completo, foi Juscelino. Este realmente tinha tudo, um pouco de todas as qualidades. A coragem, por exemplo.

O Juarez Távora fez um discurso contra ele, e o presidente da República reuniu o Ministério. Os ministros dividiram-se, porque Juarez era general de quatro estrelas, um monumento nacional, e disputara a Presidência contra o próprio Juscelino. Até o ministro da Guerra, marechal Lott, estava na noite. Aí o Juscelino encerrou as discussões:

– Ministro – perguntou ao Lott -, eu só quero saber se o pronunciamento dele infringiu os regulamentos militares.

– Infringiu – respondeu Lott.

– Então mande prendê-lo – concluiu Juscelino. E encerrou a reunião.

Eu disse ao Nelson de Melo, que era chefe do gabinete militar de JK:

– Nelson, acho que amanhã o governo está no chão.

– Nada disso, não vai acontecer nada. O Juarez será preso e nascerá grama na sua porta, porque ninguém vai lá.

De fato, nada aconteceu. Mas foi muita coragem prender Juarez.

***
JUSCELINO

Juscelino tinha sorte. Ele mesmo reconheceu que, se não fosse o suicídio do Getúlio, dificilmente chegaria à Presidência. É claro que de qualquer forma ele tentaria porque tinha uma noção de ser predestinado. E trabalhava incansavelmente. Me chamou ao Catete às 3 horas da manhã:

– Estou preocupado com o Jânio. Ele me telefonou dizendo que vai renunciar, está abaladíssimo com a morte do pai. Gostaria que você fosse lá.

– Posso ir, mas não creio que seja o mais indicado. Conheço o Jânio, fomos colegas na faculdade, mas não temos grande intimidade – argumentou Ulysses.

– Sim, mas você é paulista e é o presidente da Câmara dos Deputados. Acho que será um bom mediador.

E fui no primeiro avião. Conversei, ele se queixou que os políticos não o aceitavam em São Paulo e o tratavam como um mato-grossense.

– Ora, Jânio, um homem que fez a carreira que você fez aqui, vereador, deputado estadual, prefeito e governador, agora citado para ser presidente da República, não pode dizer uma coisa dessas!

Ele continuou triste. Conversamos muito e acabou desistindo da renúncia. Contei essa história para você ver que o Juscelino trabalhava de madrugada, depois de enfrentar todos os problemas do Brasil durante o dia.

***
DILMA

A presidente Dilma está com alguns problemas graves para enfrentar imediatamente e para isso é preciso ter a coragem de Juscelino e ficar acordada até de madrugada.

Primeiro, os banqueiros, cada dia mais especuladores e vorazes, estão apertando o cerco ao Banco Central para jogar os juros lá em cima.
Se não forem enfrentados, a economia vai lá para baixo e ninguém a segura.

Segundo, cresce o número de militares incomodados, inconformados com a novela do SBT, “Amor e Revolução”, um belo, verdadeiro, corajoso, inadiável e histórico trabalho que merecidamente está disparando na audiência, mesmo contando só 10% do que realmente aconteceu.

Terceiro, a gasolina e a Petrobrás. Nas páginas de leitores dos jornais e revistas, na Internet, há uma articulada e criminosa campanha exigindo que a Petrobrás vá ao suicídio para enfrentar sozinha o aumento da gasolina

***
GASOLINA

Os pecados da Petrobrás estão na absurda petização da empresa, com centenas de falsos “dirigentes sindicais” mamando em suas “divinas tetas”.

Mas no preço da gasolina, não. Há seis anos a Petrobrás, sem reajustar o preço, sangra com o aumento internacional do petróleo.

Requião complica a situação de Paulo Bernardo, ao confirmar que o ministro fazia lobby para empreiteiras.

Carlos Newton

Notícia divulgada pela Folha de S. Paulo traz informações liberadas
pelo ex-governador paranaense e senador Roberto Requião (PMDB), que
deixam mal o ministro Paulo Bernardo (hoje na pasta das
Comunicações, mas que ocupava o Ministério do Planejamento no último
mandato do presidente Lula).

Requião afirma que o ministro interessava-se também por ferrovias e
diz ter sido procurado por ele, no Paraná, acusando Bernardo de ter
proposto a construção de uma ferrovia sem licitação, com preço
superfaturado e favorecimento a uma empreiteira. O custo da obra
saltaria de R$ 220 milhões para R$ 550 milhões.

Bernardo admitiu que se reuniu com Requião à época em que ele
governava o Paraná, mas atribuiu a iniciativa a uma “determinação do
presidente Lula”. Negou, porém, que tenha tratado de direcionamento da
obra ferroviária.

O mais interessante é que os dois, Requião e Bernardo, estão se
digladiando na Justiça. O ex-governador acionou o Ministério Público
Federal para investigar o caso, enquanto o ministro também protocolou
no STF uma petição na qual acusa o agora senador de tê-lo caluniado.

Requião, diga-se de passagem, foi quem denunciou o chamado escândalo
dos precatórios, em sua passagem anterior pelo Senado. Depois, quando
governador, na época em que apoiava o presidente Lula, fez acordo para
receber os precatórios pobres que o governo do Paraná detinha. Bateu
de um lado e levou vantagem de outro.

Agora, aguarda-se com ansiedade o depoimento de Luiz Antonio Pagot,
diretor do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de
Transportes), esta terça, às 9 da manhã. Se Pagot confirmar as
acusações que tem feito a Bernardo, a República vai tremer.

Varejo no atacado. A operação pretendida pelo Pão de Açúcar não nacionaliza o grupo, apenas aumenta o poder de arbítrio de Abilio Diniz.

Carlos Lessa

Nas últimas semanas, a fusão do grupo Pão de Açúcar com o grupo Carrefour para a criação do Novo Pão de Açúcar abriu um debate que percorreu a dimensão ética, jurídica, de interesse privado e dos interesses nacionais. Praticamente todos os articulistas da mídia impressa, televisiva e radiofônica colocaram em pauta a questão (corretamente, pois o BNDES, banco histórico do desenvolvimento industrial brasileiro, estava se propondo a aplicar mais de US$ 2 bilhões em uma operação global de quase US$ 3 bilhões!).

Pelo lado ético, foram feitos reparos a diversos protagonistas públicos e privados envolvidos na operação. Pelo ângulo jurídico, a redução do peso do grupo francês Casino em um Novo Pão de Açúcar tem as características de um divórcio parcial do empresário brasileiro e sua nova parceria com outro grupo francês, o Carrefour. Tem ou não um valor impeditivo para a
operação pretendida (a existência de um acordo de acionistas entre
o Pão de Açúcar e o Casino)?

Neste momento, tudo leva a crer que a operação é juridicamente contestável e, levada aos tribunais, seria extremamente nociva para os parceiros atuais e os novos (Carrefour e BNDES). Isso, aparentemente, não foi levado em conta pelo BNDES, que não apenas avançou num comprometimento prévio com Abilio Diniz como lhe pôs nas mãos o poderoso argumento de R$ 3,7 bilhões.

Hoje, 7 de junho, li em jornal de grande circulação que o dr. Abilio declarou: “Fiz um trabalho extenuante”. Costurar esse trabalho que foi feito não é fácil e entendo por quê; afinal, não é todos os dias que um empresário pode dizer a outros: tenho a chave para um suprimento financeiro superior a US$ 2 bilhões.  

Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES, declarou antes da
controvérsia que o BNDES somente faria a operação se houvesse acordo do grupo Casino. O negócio não foi desmanchado, por isso o dr. Abilio, com a chave do BNDES, desafia o grupo Casino a demonstrar que a fusão não é uma boa ideia.

Obviamente, a fusão é magnífica para o interesse privado do dr. Abilio, que, em entrevista, declara que quer “continuar levando a companhia que tem o DNA dele”. Porém, isso não o impediu de, há alguns anos, assinar com o grupo Casino o direito de, em 2012, trocar, por R$ 1, a possibilidade de o grupo Casino consolidar os resultados do grupo Pão de Açúcar, diluindo o
seu DNA. Quando assinou o acordo, era pré-datada a diluição do DNA
brasileiro.

É transparente a vantagem da operação pretendida para dr. Abilio. É inteiramente obscuro o interesse da sociedade brasileira nessa fusão que daria origem a um trio (dois franceses e um brasileiro).

É importante advertir a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que o BNDESPar é o braço do BNDES em operações no mercado de capitais e que é uma subsidiária 100% de propriedade do banco oficial. Este, como a ministra deve saber, é 100% do Tesouro. Assim sendo, são recursos públicos que, pela missão do BNDES, devem ser aplicados em projetos que gerem emprego e renda para os brasileiros.

Fusões podem ser meritórias, porém essa operação do Pão de Açúcar não nacionaliza o grupo de varejo, apenas aumenta o poder de arbítrio do dr. Abilio, restaurando seu DNA. Não é uma operação geradora de crescimento da economia.

E, ao contrário do que declarou o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio, Fernando Pimentel, não gerará saldo comercial positivo. O ministro declarou que o grupo Carrefour iria, associado ao Pão de Açúcar, “ampliar exportações brasileiras” (?!). O atual Pão de Açúcar é uma rede varejista que importa muito mais do que exporta, gerando um saldo comercial negativo.

O grupo Carrefour já participa da rede brasileira de varejo e não é exportador líquido para o varejo mundial; a entrada do Carrefour não ampliará a rede de varejo. O que amplia o varejo é a multiplicação de emprego e renda no interior da economia brasileira.

Alguém afirmou que a aplicação do BNDESPar em papéis do Pão de Açúcar é um ótimo negócio para o BNDES. A elevação de valor patrimonial passa por um aumento futuro de lucratividade do cogitado NPA – Novo Pão de Açúcar. Isso pode ser obtido por redução dos custos operacionais (inclusive massa de salários) ou pelo aumento da margem comercial na compra e venda das mercadorias que distribui como rede varejista.

Cabe ao Cade julgar se essa concentração do varejo vai baratear o custo de vida ou a lucratividade maior será um jogo perverso em relação às famílias brasileiras. De qualquer forma, o BNDES não é vocacionado a maximizar seu lucro (não é um banco de investimento); é um banco de desenvolvimento cuja primeira função é ampliar o emprego e a renda dos brasileiros. Tenho a preocupação de que se produza um desgaste na imagem do BNDES, o que seria um subproduto perverso da cogitada operação.

O dr. Abilio diz que foram encomendados “estudos” a três consultorias para avaliar a operação. É óbvia a vantagem patrimonial privada de dispor de mais de US$ 2 bilhões de recursos públicos. As três consultorias devem estar construindo “argumentos” para seduzir o grupo Casino; outras deveriam mostrar “vantagens” para a sociedade brasileira.

Esta terça, às 9 horas da manhã, começa o depoimento de Pagot no Senado, sobre a corrupção que assola o Dnit (antigo DNER) e o Ministério dos Transportes, como um todo.

Carlos Newton

Os nervos estão à flor da pele e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, quase perdeu a linha com a repórter Luiza Damé, de O Globo, que lhe fazia perguntas sobre o envolvimento dele com as obras do Ministério dos Transportes na gestão de Lula, quando ocupava o Ministério do Planejamento.

Como se sabe, o ainda diretor-geral do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Luiz Antonio Pagot, presta depoimento na Câmara hoje, e Paulo Bernardo é o coringa do carteado que se coloca sobre a mesa. Se Pagot fizer carga contra o ministro, dizendo que obedecia ordens diretas dele para beneficiar empreiteiras, vai ser uma festa.

De toda forma, mais ou cedo ou mais tarde, tudo virá à tona, não adianta tentar esconder, porque é corrupção demais. A CGU (Controladoria-Geral da União) já apura irregularidades em 34 contratos de obras e uma licitação do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e da Valec, estatal de ferrovias, órgãos vinculados ao Ministério dos Transportes. E a Polícia Federal já abriu outros 74 inquéritos para investigar desvio de verbas no Dnit, comandado até quarta-feira passada pelo PR, que é o ex-PL.

A coisa está feia, e na quinta-feira, representantes da CGU foram aos três órgãos (Dnit, Valec e Ministério), copiaram dados de oito computadores e levaram documentos para uma auditoria determinada pela presidente Dilma Rousseff. Os computadores do diretor afastado do Dnit, Luiz Antonio Pagot, do ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o “Juquinha”, e do ex-chefe de gabinete do Ministério dos Transportes, Mauro Barbosa, serão analisados.

Uma expressiva fonte de corrupção está na Valec, estatal na qual a CGU já encontrou irregularidades em 23 contratos e uma licitação para ferrovias. Um dos problemas levou o ex-ministro Alfredo Nascimento a cancelar em maio passado uma licitação de R$ 800 milhões para a compra de trilhos para a Ferrovia Oeste-Leste. E se Nascimento cancelou, é porque a corrupção realmente passara de qualquer limite.

Os 23 contratos com indícios de irregularidades são referentes a vários trechos em construção da Ferrovia Norte-Sul e somam quase R$ 2 bilhões. Há indícios de superfaturamento e pagamento por serviços não realizados.

No Dnit, estão sendo fiscalizados pela CGU inicialmente 11 contratos: sete de rodovias e quatro de hidrovias. Na maior parte deles, os pagamentos não correspondem ao que foi realizado pelas construtoras. Mas há os outros 74 inquéritos da Polícia Federal em andamento para investigar desvio de verbas no órgão, vejam a que ponto chegamos.

Bem, de toda forma, a partir das 9 horas da manhã, com o início do depoimento de Pagot, transmitido direto do Senado Federal, começaremos a saber mais detalhes sobre o Dnit, que é o antigo DNER, também famoso por suas bandalheiras. Mudaram o nome, que já estava completamente imundo e desgastado, mas esqueceram de mudar as práticas administrativas.

Por favor, que alguém esclareça, se puder. O consagrado jornalista Jorge Bastos Moreno, de O Globo, está mesmo afirmando que Lula tem um caso com a presidente Dilma?

Carlos Newton

O colunista Ibrahim Sued vivia repetindo que “em sociedade tudo se sabe”. É verdade. De uma maneira ou outra, as informações acabam surgindo e circulando. Agora, com a revolução da internet, a velocidade da notícia passou a ser realmente meteórica, em tempo real, costuma-se dizer.

Os jornalistas brasileiros ainda mantêm um certo pudor em abordar a privacidade dos governantes, especialmente a vida amorosa. Nesse ponto, a imprensa brasileira é muito mais civilizada do que a inglesa ou a norte-americana, por exemplo, onde os tablóides denigrem qualquer um, com total liberalidade.

Mas nossos jornalistas sempre dão um “jeitinho brasileiro” de fazer revelações picantes, mesmo pisando em ovos e em linguagem mais ou menos cifrada, mas que acaba sendo entendida, pois o velho ditado nos ensina que, para quem sabe ler, um pingo já é letra.

No dia 27 de junho, por exemplo, o colunista Ricardo Noblat, de O Globo, encontrou uma curiosa maneira de dizer que o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, estava se separando da primeira-dama Adriana Ancelmo.

No violentíssimo artigo que publicou, sob o título “Diz aí, Cabral!”, Noblat deu a seguinte informação: “Sou do tempo em que os políticos escondiam amantes, tesoureiros de campanha e empresários do peito. Amantes ainda são mantidas à sombra – embora algumas delas, de um tempo para cá, tenham protagonizado barulhentos escândalos. Outras morrem sem abrir o bico”.

Comentamos aqui no blog que, com invulgar habilidade, Noblat contou tudo, sem dizer nada, revelando com clareza que a morte de Fernanda Kfuri era mais um motivo para o desespero do governador e para a insistência em “amarrar” com o amigo Eike Batista a história do empréstimo do avião, mentindo sobre a hora em chegou a Porto Seguro etc. e tal.

Agora, no sábado, outro destacado colunista de O Globo, Jorge Bastos Moreno, bem-informadíssimo sobre os bastidores políticos de Brasília, publicou uma nota, também em linguagem mais ou menos cifrada, a respeito do misterioso sumiço de Dilma Rousseff, durante cinco horas, no Rio de Janeiro, na semana passada, sob o título “O desaparecimento da presidente Dilma”.

Então, vamos conferir o texto publicado por Jorge Bastos Moreno, em sua coluna política na página 3 de O Globo:

“O amor verdadeiro é o maior antídoto contra intriga. Onde existe amor, não há desconfiança.

Na última quarta-feira, depois de uma visita oficial ao Rio, a presidente Dilma simplesmente desapareceu. Avisou aos ministros da sua comitiva, já dentro da base aérea do Galeão:

“Me esperem aqui. Vou ali e volto já”.

Dilma só reapareceu para o embarque cinco horas depois.

Perguntem-me se, na volta, alguém teve a coragem de perguntar o que ela esteve fazendo nesse tempo todo.

Durante cinco horas, Dilma esteve reunida, em algum lugar da cidade, com Lula.

Vejam que gracinha: Lula estava na base aérea de São Paulo, onde teria uma conversa com a presidente. Quando soube que Dilma se atrasara na cerimônia do Rio, resolveu esperá-la na base aérea do Rio e, assim, evitar seu deslocamento.

– Presidente da República é Dilma. Eu, que não sou mais nada, é que tenho que ir ao encontro dela – ponderou Lula ao cerimonial do Palácio.

Mesmo com uma baita crise sobre as costas, Dilma voltou a Brasília tão feliz, mas tão feliz, que até parecia ter visto um passarinho azul.

E viu!”

Esta surpreendente nota foi publicada no sábado. Note-se que Moreno foi muito mais contundente do que Noblat, cuja afirmação até passou despercebida para muita gente que ainda não tinha recebido nada pela internet, que àquela altura já começava a ficar infestada de mensagens circulando sobre Fernanda Kfuri e Cabral.

Moreno foi direto ao ponto. Começa a nota falando que “o amor verdadeiro é o maior antídoto contra a intriga” e  dizendo que “onde existe amor, não há desconfiança”. Só faltou dizer que “o amor é lindo”. Depois, fala sobre longa duração do encontro secreto entre Lula e Dilma, e termina com uma observação picante sobre a presidente, dizendo que, “mesmo com uma baita crise sobre as costas, Dilma voltou a Brasília tão feliz, mas tão feliz, que até parecia ter visto um passarinho azul. E viu!”

Essa lembrança do passarinho azul, inclusive, é muito original, nunca ninguém ouvira falar disso. Quem chegou mais próximo foi Collor, na Presidência da República, quando disse “ter nascido com aquilo roxo”. De certa forma, de roxo para azul, não fica tão destoante assim.

Durante todo o sábado, aguardamos que saísse algum desmentido à nota de Moreno. O Planalto podia dizer que a presidente Dilma fora visitar uma velha amiga guerrilheira, que está doente, algo assim. Mas nada. Então esperamos passar 24 horas e fomos conferir na edição de domingo de O Globo, para ver se o Planalto ou o próprio Lula tinham se manifestado a respeito. Ainda nada.

Então, será que estou maliciando demais as coisas? Será que nenhuma outra pessoa entendeu a mensagem de Jorge Bastos Moreno da mesma forma do que eu? É possível acreditar que seja apenas “uma brincadeira” do jornalista?

Mas não se brinca com esse tipo de coisas. E os editores do jornal não deixariam ser publicada “uma brincadeira” dessa gravidade. Então, para que possamos realmente saber a quantas anda este país, por favor, que alguém esclareça essa situação, se puder.

Pausa para uma tema sério (2)

Carlos Chagas

Na posse das informações sobre a inusitada visita, escrevi um artigo para “O Estado de S. Paulo”, sob o título “Brasília não vê JK chorar”, reproduzido em seguida por diversos outros jornais.  Começou ali  meu relacionamento com o presidente, a quem tinha visto e entrevistado no passado apenas de forma profissional. Seguidas vezes, aos domingos, ia visitá-lo na fazendinha. Ele não era daqueles políticos cheios de informações, que fazem a felicidade dos jornalistas. Dele fluíam  sentimentos, assim  como memórias permanentes.   Fui tomando conhecimento, ao vivo, de centenas de episódios da vida dele, de seu governo e de seu calvário político. 
                           
Contou-me, por exemplo, que ainda governador de Minas, mas já pré-candidato à presidência da República, compareceu ao palácio do Catete para uma audiência com o então presidente Café Filho, adversário implacável de sua candidatura. O tema que ia tratar dizia  respeito aos preços mínimos do  café,  que seu estado produzia aos  montes.  Lá em cima,  primeiro a surpresa:  Café Filho tratou-o com desmesurada gentileza, chegando a levantar-se da cadeira presidencial e  pedindo que ele nela sentasse.  Meio sem  jeito, sentou, quando  o presidente mudou de tom, tornou-se agressivo e disse:  “Esta foi a primeira e a  única vez que você ocupou essa cadeira. Você não será presidente,   até porque os ministros militares não querem!”
                                                         
Irritado, JK deu a audiência por terminada e desceu até a sala de imprensa. Os jornalistas não  tinham a menor idéia do que se passara.  Foram logo perguntando sobre o café, claro que não o presidente.  Vingou-se: “De que café você está falando, meu filho, do vegetal ou do animal?”
                                                       
Naquela noite a Hora do Brasil divulgou o manifesto dos ministros   militares, contra sua candidatura. Reunido com amigos em  seu apartamento, em Copacabana, aceitou a sugestão de Augusto Frederico Schmidt, telefonou para o “Correio da Manhã” e ditou sua reação, começando com a frase lapidar de que “Deus poupou-me o sentimento do medo”.
                                                       
Não é essa a oportunidade para referir o que foi o governo de Juscelino Kubitschek, muito  menos para concordar com um certo sucessor dele, responsável pela falsa imagem de que a paciência era sua maior qualidade. Bobagem. Ele  era a impaciência em pessoa, queria tudo pronto e resolvido o  mais  breve possível, como ainda há dias retificou sua filha Maristela.  Tão impaciente que  mudou o Brasil.
                                                         
Homem de coragem física. Sabendo por amigos comuns que Jânio Quadros faria violento discurso contra o seu governo, na hora da transmissão da faixa presidencial, mandou avisar que reagiria. Chamou o chefe da Cerimonial e indagou como seria a solenidade. Informado de que logo atrás dele estaria o seu ministério, assim como o ministério de Jânio atrás do novo presidente, pegou o mapa e, com um lápis vermelho,  mudou a disposição. Queria ficar frente a frente com o sucessor, a menos de  um metro um do outro. E os ministros bem atrás. 

Disse-me anos depois estar pronto para, se ofendido em sua honra, dar um passo à frente e um soco na cara de Jânio.  Ia ser um escândalo internacional, mas estava decidido. Os tais amigos comuns souberam, avisaram o novo presidente e,  na hora da passagem do governo, Jânio foi todo sorrisos e elogios.  

Ao deixar o palácio do Planalto, JK foi acompanhado por grande multidão até  o aeroporto que hoje   leva o seu nome.  No Galeão, voaria direto para Portugal, com a família. A aeronave começava a sobrevoar o Atlântico quando o piloto chama-o à cabine.  Colocou os fones de ouvido e percebeu que Jânio discursava, na “Hora do Brasil”. Dizia tudo aquilo que não tivera coragem de dizer com os olhos nos olhos. Voltou á sua poltrona e pensou como o Brasil ainda tinha   muito a percorrer em   matéria de democracia. 

Muito mais tarde, com os dois já cassados, foi ao Guarujá para uma palestra.  Descansava depois do almoço, no quarto do hotel, quando escutou um vozerio na porta. De repente, quem irrompe pelo aposento, sentando-se na beirada da cama? Jânio Quadros.  Nunca mais se tinham encontrado e o ex-presidente, segurando seu braço com as duas mãos, exclamou  aos berros: “Errei, meu amigo, errei. Também, eu nem tinha lido antes o discurso que escreveram para  mim…”

Quando da renúncia de Jânio Quadros, a imprensa  encontrou Juscelino  na sede do extinto PSD, no  Rio. Só teve um comentário: “É doido mesmo…”

Integrou-se à campanha de Leonel Brizola pela posse de João Goulart, mas,  já senador por Goiás, insurgiu-se contra a decisão do Congresso de implantar o parlamentarismo. Era candidatissimo a voltar ao poder em 1965. Só que, pouco antes de deixar o governo, fechou a cara para Tancredo Neves, seu dileto  amigo, diante da proposta de ver votada  emenda constitucional permitindo sua reeleição. Nem quis ouvir falar no assunto…

Em 1963 e 1964, estava em plena campanha.  Adotou o costume de visitar jornalistas, mais do que ser visitado por eles. Foi ao apartamento do saudoso Oyama Telles, do “Correio da Manhã”, conversar com cinco ou seis  repórteres políticos, entre os quais eu estava incluído.  Semanas depois,  a vez da casa do também hoje desaparecido Heráclio Salles.  Estava marcada para o final de abril de 1964 sua ida ao meu apartamento, no Flamengo. Não deu, por conta do golpe militar. (continua amanhã) .

Fim do “News of The World”: a diferença entre um jornal e a tela da Internet

Pedro do Coutto

Rupert Murdoch, magnata internacional da comunicação (no Brasil é o proprietário principal da Rede Sky, que adquiriu da Globo), surpreendido ou exposto pelos métodos ilegais de atuação dos editores e repórteres de seu jornal “News of The World”, decidiu fechá-lo embora sua vendagem atingisse 2,7 milhões de exemplares.

Sua despedida das bancas de Londres ocorreu ontem, domingo. Um escândalo, mais que um escândalo, crimes em série contra a privacidade das pessoas. O jornal era sensacionalista. Comum na Inglaterra. O tablóide “The Sun”, também de propriedade de Murdoch, o homem parece estar em todas, segue a mesma linha há várias décadas. Sua tiragem diária? Dois milhões e oitocentos mil exemplares.

Entretanto, o exemplo do “News of The World” nada tem de exemplar. Realizava escutas ilegais nas residências, escritórios e principalmente celulares. Assim como, segundo revelou Élio Gaspari na sua obra sobre a ditadura brasileira, o general Golbery do Couto e Silva gravava as conversas do presidente Ernesto Geisel. E Golbery era o chefe da Casa Civil. Vejam só. Golbery fazia o papel de Cássio, principal traidor de Julio Cesar na peça de Shakespeare. Um detalhe para conter as dúvidas: Brutus foi o primeiro a apunhalar Cesar. Mas a trama foi articulada por Cássio. Estas porém são divagações de uma visão impressionista. Voltemos à decisão do imperador Murdoch.

Teria mesmo sido traído por seus redatores ou tornou-se, pela mão do destino, um traidor traído? Importa pouco no caso. A questão é que se os grampos ilegais tivessem sido utilizados apenas na internet o episódio duraria dois dias. E a rede de intrigas apenas daria uma parada. A trama não marcaria como a torpe atuação daquele jornal londrino marcou. Aí está a diferença principal entre o jornal de papel e a tela mágica de navegação informativa em tempo real. A repercussão do jornal impresso é muito maior. Sobretudo quando sua vendagem é de dois milhões e setecentos mil exemplares. O que significa mais de 8 milhões de leitores.

Sim. Porque um jornal dificilmente é lido por apenas uma pessoa. Para se chegar à escala efetiva de leitura deve-se sempre multiplicar a vendagem nas bancas ou por assinatura por três. Nem todos os analistas observam tal método, aliás parâmetro das agências para veicular publicidade. O anunciante não se baseia apenas na tiragem, porque é necessário descontar o encalhe natural, mas sim na vendagem efetiva, multiplicando cada unidade por três vezes.

A Folha de São Paulo, edição de 28 de julho do ano passado, guardei o recorte, publicou excelente matéria sobre a circulação no país dos 94 principais jornais (há mais de mil), concluindo que no primeiro semestre de 2010 a média diária de venda foi de 4,2 milhões de exemplares. E que as vendas avulsas cresceram 2% enquanto – digo eu – a população aumentou 1,2%, segundo o IBGE. O hábito de leitura portanto aumentou.

Rupert Murdoch conhece isso. Muito bem, é claro. Ele é um grande empresário de jornais e televisões. Há cerca de dois anos comprou o “Wall Street Journal”, que cobre a área econômica, especialmente as oscilações de Bolsas de Nova Iorque. Por isso sabe que uma empresa de comunicação exige credibilidade. O jornal (de papel) proporciona um compartilhamento que a internet não oferece.

A internet, absolutamente insuperável em matéria de pesquisa, fornece a sensação de que nos encontramos a bordo de uma nave espacial. Inclusive a expressão navegar não foi inventada à toa. Tem toda lógica diante da tela mágica digital. Mas o compartilhamento amplia a onda da repercussão.

Murdoch necessita de imagem favorável de suas empresas. Pois é exatamente esta imagem que tem assegurado seu êxito. Ele e os grandes empresários podem fazer  tudo. Mas não se podem deixar apanhar em flagrante. A direção do “News of The World” não observou tal limite. Afundou.

Meu Papa santo

Sebastião Nery

Cracovia é uma Salvador, uma Olinda mágica da Polônia. Uma pequena Praga. Às margens do rio Vistula, perto dos montes Cárpatos, no ano 700 o lendário rei Krak construiu um castelo, que, na Idade Media, ligava a Bélgica ao Oriente, a Europa Meridional ao Báltico.

Cercada de muralhas e fossos, é uma cidade medieval do século X, com a praça do Mercado, Rynek, no centro, e a “rotunda romantica” da igreja de São Felix e Santo Adauto. A catedral, Wawel, renascentista e barroca, tem tumbas de reis, heróis e poetas e um sarcófago com os restos mortais do padroeiro Santo Estanislau. Ali nasceu e viveu meu Papa santo.

Naquele ano de 1957, o congresso mundial da UIE (União Internacional dos Estudantes) foi lá. Lembro-me sobretudo de dois com quem longamente conversei sobre a America Latina : o presidente, o bem falante Giovanni Berlinguer, irmão do futuro secretario-geral do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, e que depois conheci senador em Roma pelo PCI, e Lionel Soto, cubano calado, inteligente, diretor da revista da UIE “Mondo Estudantil”, barbaramente torturado e arrebentado nas prisões do ditador Batista e depois reitor da Universidade de Havana.

***
CRACOVIA

Nossa delegação brasileira ao congresso da UIE era pequena, oito : Murilo Vaz, publicitario do Rio, Ubirajara Brito, da Bahia (depois vice-ministro de Ciência e Tecnologia), Amazonas Brasil, do Paraná (depois presidente do Tribunal de Contas de Roraima). Eu e outros da UNE.

Eramos mais de 500 estudantes do mundo inteiro. No salão nobre da Universidade publica, medieval, não cabia tanta gente. O maior salão da cidade era o do Instituto Católico, que tinha um padre muito ligado à juventude, esportista, professor de Ética e de Filosofia. Será que ele emprestaria para a abertura de um congresso de comunistas e socialistas?

O presidente da Juventude Comunista da Polônia, chefe da delegação polonesa, não gostava do padre, não gostou da idéia. Mas foi derrotado.

***
AS CHAVES

A UIE criou uma comissão para ir lá pedir a ele. Do Brasil, Ubirajara Brito e eu. O padre era um homem jovem, de 37 anos, magro, alto, bronzeado, vermelho, tipo atlético, cara de camponês descido das montanhas nevadas, com um topete e uma boina roxa, óculos com armação de tartaruga, batina preta com uma faixa na barriga.

Recebeu-nos carinhosamente, falou francês e italiano, perguntou de onde cada um era, disse ironicamente que sabia que a UIE era controlada por Moscou, mas esperava que o congresso tratasse mesmo do lema: a paz.

E fez uma sugestão. A Universidade oficial estava em aulas. O congresso lá iria perturbar os estudos. Se quiséssemos, podíamos fazer todo o congresso, e não apenas a abertura, no seu Instituto Católico, que estava de férias. Chamou um assessor, pediu um punhado de chaves, ficou com elas nas mãos por algum instante. Estendi a mão e ele me deu as chaves.

***
O PADRE

Não só emprestou seu Instituto. No dia seguinte, na abertura, apareceu lá, para ver se estava tudo em ordem. Continuava com seu sorriso contido, seu ar de mansidão, de boa fé, de quem sabe exatamente o que e por que está fazendo. Convidado pelo presidente da UIE, que era o presidente do congresso, para sentar-se à mesa, agradeceu, mas não foi.

Sempre de pé, pegou o microfone e fez uma pequena saudação, metade em italiano metade em francês, dizendo que a juventude tinha um dever fundamental, que era lutar para que o mundo não sofresse uma outra guerra, como a que devastara a Europa e a sua Polônia. Foi aplaudido calorosamente. O chefe da delegação da União Soviética, presidente da Juventude Comunista de Moscou, levantou-se da mesa, abraçou-o e insistiu para que ele participasse da mesa. Em vão. Agradeceu, saiu sob palmas.

***
WOYTILA

Vinte e um anos depois, em outubro de 1978, vi nos jornais do Rio a foto do novo Papa. Tive certeza de que o conhecia. Era o padre Woytila de Cracovia, na Polônia de 1957, bispo em 1958, cardeal em 1968 e Papa João Paulo II em 1978. Liguei para a arquidiocese do Rio e confirmei. Era mesmo o ex- professor de Ética e Filosofia do Instituto Católico de Cracovia.

O homem que pôs as chaves de seu Instituto em minhas mãos era agora o dono das chaves de São Pedro. E o presidente da Juventude Comunista de Moscou, que tanto insistira para ele sentar-se à mesa diretora do congresso, era o estudante de Direito, que se formava naquele ano, Michail Gorbathev. Trinta e três anos depois, em 1990, os dois juntos derrubaram o Muro de Berlim e o sistema comunista.

Adido Cultural em Roma em 90 e 91, recebeu-me no Vaticano. Ele se lembrava bem da UIE na Cracovia de 1957. Agora, a Igreja o beatifica, penultimo degrau para ser proclamado santo. Meu Papa santo.

A responsabilidade do Estado-juiz precisa ser rediscutida

Roberto Monteiro Pinho

De toda forma não estamos diante de uma discussão efêmera, já que a responsabilidade civil é do Estado quando existirem atos danosos manejados por quaisquer de seus agentes. A grande dúvida é o enquadramento da lesão pela cumplicidade do juiz com a morosidade administrativa das varas, dos tribunais e dos Colendos Superiores. Na concepção do Ministro José Augusto Delgado, “A culpa do serviço público não tem caráter identificador. Ela surge, anonimamente, sem permitir a investigação sobre quem seja o autor do dano”. (Revista Jurídica 226 /5).

Não temos a menor dúvida de que a sociedade e nem as instituições privadas, poderiam emprestar mais que simples reclamos, quanto às mazelas praticadas pelo judiciário brasileiro, elas se manifestam pelas pesquisas de opiniões elaboradas pelos institutos, que comparadas as do próprio judiciário (leia-se CNJ), se convergem, o resultado tem sido uma constante e a média de conceito sempre abaixo de 50%. Em recente análise do sistema do judiciário brasileiro, realizada pelo instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), em 26 Estados e no DF, este segmento numa escala de 0 a 10 recebeu, nota 4,55, após uma avaliação critica da Justiça pela maioria dos 2.770 entrevistados. Os resultados divulgados fazem parte do Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips), lançado pelo instituto.

A ótica da punibilidade do juiz não deve ser confundida com a de responsabilidade, temos como paradigma os atos que causa dano a pessoa física no processo criminal, EMENTA: RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO – ERRO JUDICIÁRIO – LEGITIMIDADE PASSIVA – JUIZ E PARTE CONTRÁRIA NO PROCESSO ONDE OCORREU O SUPOSTO ERRO – AÇÃO PROPOSTA DIRETAMENTE CONTRA O JUIZ – ILEGITIMIDADE. Dispõe o artigo 5º, inciso LXXV, da Constituição Federal, que: “O Estado indenizará o condenado por erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na sentença”. Os atos praticados pelo juiz, que é agente político do Estado, devem sempre assegurar a independência da magistratura, motivo pelo qual a responsabilidade civil é do Estado. Posteriormente, este poderá ajuizar ação de regresso, restrita aos casos de dolo ou culpa, hipóteses em que o Juiz já responde funcionalmente perante a Corregedoria e o Conselho da Magistratura, e civilmente, como contemplado pelos artigos 133, I e II, do CPC e 49 da LOMAN”. AC N° 1.0473.05.006858-3/001 – COMARCA DE PARAISÓPOLIS RELATOR: EXMO. SR. DES. NILO LACERDA ACÓRDÃO: Vistos etc. acorda, em Turma, a 12ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, incorporando neste o relatório de fls., na conformidade da ata dos julgamentos e das notas taquigráficas, à unanimidade de votos, EM NEGAR PROVIMENTO. 

Em 2008 o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com os protestos da magistratura, criou com base na Carta Maior (art. 103-B, 4º, I e II), a Loman (art. 60 da LC nº 35 /79) e seu Regimento Interno (art. 19, incisos I e II), o Código de Ética da Magistratura, e apenas no seu Capítulo VI, no Art. 20 “Cumpre ao magistrado velar para que os atos processuais se celebrem com a máxima pontualidade e para que os processos a seu cargo sejam solucionados em um prazo razoável, reprimindo toda e qualquer iniciativa dilatória ou atentatória à boa-fé processual”, faz referência à “pontualidade” e do “razoável prazo”.

É por essas e outras razões que a sociedade é mera contempladora dos acontecimentos que ocorrem no judiciário brasileiro, o único canal, para mudar o quadro desta anomalia congênita, que assola os tribunais é a via do legislativo, criando, mudando leis que possam efetivamente restabelecer a ordem jurídica, administrativa e de responsabilidade do estado/Juiz na entrega da prestação jurisdicional, mas antes precisa romper a muralha imposta pelo lobby dos magistrados no Parlamento.  

Quando alertamos da existência do corporativismo, da reserva de mercado e da impunibilidade, já que a Loman e o CEM, são capazes de punir a demora processual, a não ser administrativamente, onde apenas são dirigidas para vedação em atos de promoção de carreira, o que nem sempre tem seu efeito, já que grande parte dos juízes deixa a magistratura antes mesmo de galgar o segundo grau. O nosso tema central é quanto aos processos existentes no judiciário trabalhista, onde temos o principio da primazia, tese que ganhou expressão no artigo 4º da LICC (Decreto-lei 4.657/42): “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito (g.n.)”. A CLT no artigo 8º, caput. “As autoridades administrativas e a Justiça do Trabalho, na falta de disposições legais ou contratuais, decidirão, conforme o caso, pela jurisprudência, por analogia, por eqüidade e outros princípios e normas gerais de direito, principalmente do direito do trabalho, e, ainda, de acordo com os usos e costumes, o direito comparado, mas sempre de maneira que nenhum interesse de classe ou particular prevaleça sobre o interesse público”. (g.n.).  

Vale lembrar os Dados do relatório “Justiça em Números”, do Conselho Nacional de Justiça, onde a JT, na fase de conhecimento, apresenta índices de congestionamento inferiores aos obtidos na fase de execução: são 34,1% contra 59,6%, em um universo de seis milhões de processos julgados no ano de 2009, incluindo os casos pendentes dos anos anteriores. Veio há pouco a Anamatra (entidade classista dos magistrados trabalhistas), ver aprovado sua indicação da Certidão Nacional de Débitos Trabalhistas, com a promesa de reduzir essa diferença, mas “quem viver verá”.  O capitulo que orienta a execução trabalhista inserto na CLT, ( Art. 8° , Parágrafo único – O direito comum será fonte subsidiária do direito do trabalho, naquilo em que não for incompatível com os princípios fundamentais deste), é limitado, e por isso são esposados artigos de outros códigos em complemento a sentença executória, quando temos data vênia inúmeras injunções, criando brechas para recursos infindáveis

OAB não aceita a declaração de Jobim de que os documentos sobre crimes cometidos pelo regime militar foram destruídos. E daí?

 Carlos Newton

É impressionante como as autoridades brasileiras gostam de perder tempo com discussões inócuas. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por exemplo, solicita à Procuradoria-Geral da República a abertura de um inquérito civil público para apurar se houve destruição de documentos do período da ditadura militar.

De acordo com uma nota distribuída pela OAB, o pedido foi baseado em afirmações feitas pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. Realmente, na semana passada, o ministro anunciou que a proposta de acabar com o sigilo eterno de documentos – incluindo os do período da ditadura militar – não deverá encontrar resistência nas Forças Armadas. porque os documentos não existem mais.

“Não há documentos, nós já levantamos os documentos todos, não tem. Os documentos já desapareceram, já foram consumidos à época”, afirmou Jobim.

Diante disso, o presidente da OAB, Ophir Cavalcante, afirmou que, se a destruição de documentos realmente ocorreu, ela configura crime com punição mínima prevista de um a quatro anos de prisão. Na nota, Cavalcante destacou que “documentos públicos não desaparecem simplesmente. São destruídos (ou consumidos, como preferiu dizer o ministro) em razão de caso fortuito, ou então por negligência culposa ou ato doloso”.

Bem, e daí? Digamos que a Procuradoria-Geral da República decida atender ao pedido da OAB. Abre o inquérito, convoca a Polícia Federal para ajudar os procuradores. E daí? Perde-se um tempo enorme fazendo diligências, tentando encontrar testemunhas, sabendo-se que os oficiais que determinaram a destruição dos documentos já morreram, o inquérito não dá em nada e fica tudo por isso mesmo.

Com tanta corrupção a investigar, pode-se até considerar criminosa essa destinação de recursos e de pessoal do serviço público para investigar o que na verdade não tem condições materiais de ser investigado. Melhor faria a OAB se concentrasse esforços para corrigir e punir graves ilícitos cometidos por autoridades que ainda estão vivas – e muito vivas, pode-se dizer.

O proprio ministro Jobim, por exemplo, seria um alvo perfeito para a OAB. Afinal, não é réu confesso de que fraudou a Constituição de 1988, na condição de sub-relator, ao inserir no texto alguns dispositivos que beneficiam os bancos e que não tinha sido aprovados nas comissões temáticas. Jobim confessou espontaneamente esse crime clamoroso e inacreditável e ninguém tomou a mesmo providência. E a OAB não fez nada, à época.

Na verdade, a exemplo de tantas autoridades e instituições, a OAB quer apenas criar mais um factóide, em meio a tantos outros que diariamente são impingidos à opinião pública brasileira. É lamentável. Mas quem se interessa por isso?

Faltam 48 horas para o depoimento de Pagot, o diretor do Dnit demitido por Dilma, mas que não saiu. Preferiu pedir cartas à mesa e está pagando para ver. E Paulo Bernardo já o considera um diretor “correto”.

Carlos Newton

Como dizia o genial publicitário e compositor Miguel Gustavo, “o suspense é de matar o Hithcock”. Conforme anunciamos aqui no blog, emissários palacianos querem evitar que o diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot, revele o que sabe sobre a corrupção no Ministério do PR, perdão, do deputado Waldemar Costa Neto.

A oposição ainda não conseguiu o número de assinaturas necessárias para a criação da CPI, mas tudo é possível, especialmente porque Pagot não se curvou à ordem de demissão determinada pela presidente Dilma Rousseff, simplesmente anunciou ter entrado de férias, e dará depoimento terça-feira no Senado, em sessão conjunta da Comissão de Infraestrutura com a Comissão de Fiscalização e Controle. Na quarta-feira, vai falar na Câmara, em sessão conjunta de quatro comissões, vejam só o estrago que pode fazer.

“Não sei como será o depoimento do Pagot. Eu me encontrei com ele e achei que estava muito triste” – informou o líder do PR, deputado Lincoln Portela (MG). É aí que mora o perigo, como dizem os jovens.

Na quinta-feira, Pagot chegou a afirmar a O Globo que tudo o que fez no comando do Dnit “foi realizado conforme as instruções recebidas”. E quando o diretor em férias se refere a “instruções recebidas”, na verdade está dando um recado duro, porque já é mais do que sabido que essas determinações partiam do então ministro do Planejamento, Paulo Bernado, um dos petistas de maior prestígio e marido da atual chefe da Casa Civil, Geisi Hoffmann.

A informação que corre em Brasília dá conta de que Paulo Bernardo admitiu ter recebido uma ligação telefônica de Luiz Antônio Pagot, que negou ter citado o nome de Bernardo em qualquer conversa com parlamentares do PR. O ministro, por sua vez, teria se solidarizado com Pagot e dito que entendia sua indignação com o afastamento do cargo, além de reconhecer que, se havia alguém correto no Dnit, certamente era o ainda diretor do órgão.

Olhem bem como as coisas vão evoluindo. Pagot foi demitido, rebelou-se, entrou de férias e agora já é tido como um dirigente “correto” de um órgão inteiramente corroído pela corrupção das empreiteiras, que é uma espécie de doença crônica (e incurável) da máquina administrativa brasileiras nos três níveis – federal, estadual e municipal.

Bem, ainda faltam 48 horas para o esperado depoimento de Pagot, que será atacado frontalmente pela oposição. Até lá, as farmácias de Brasília certamente já terão esgotado todo o estoque de tranquilizantes. Detalhe: o depoimento será transmitido ao vivo pela TV Senado. Vai ter audiência recorde.

Sem um homem de frente, Brasil não ganha de ninguém

Pedro do Coutto

A frase que está no título deste artigo, para citar o belo poema de Ferreira Gullar, é uma frase gasta. Mas nem por isso menos verdadeira. No futebol, sem um atacante que perturbe os zagueiros na entrada da área adversária, nenhuma equipe por mais hábeis que sejam seus jogadores, consegue alcançar êxito. A seleção brasileira de mano Menezes é um exemplo. Em texto recente, comentando o zero a zero com a Venezuela, fiz esta observação. Volto ao mesmo enfoque agora, logo após o inesperado empate que conseguimos com o Paraguai.

O técnico tornou a repetir o esquema neutro que vem adotando. Quatro homens no meio campo, todos trocando passes para o lado entre si, nenhum atacante típico avançando e penetrando na área adversária. Paulo Ganso em campo no estilo do antigo center half, posição que desapareceu do futebol há muito, a qual portanto as novas gerações de jornalistas e atletas não conheceram.

De Ramirez para Ganso, de Ganso para Neymar, de Neymar para Jadson. Este ainda conseguiu fazer um belo gol. A distância da seleção de ouro da defesa paraguaia tornava-se maior do que o razoável. Resultado: a defesa passa a jogar com mais tranquilidade e, com isso, cresce na partida. O time ocupa mais espaços do jogo.

O panorama era dos piores. Dois a um para o Paraguai e corríamos o risco de uma desclassificação na quarta-feira contra o Equador. Um risco grande, uma vergonha para nosso futebol, um vexame para todos nós, torcedores. Aí, faltando dez minutos para o fim, teria acontecido um milagre? O gol de Fred estaria escrito há seis mil anos, como costumava dizer Nelson Rodrigues? Não. Apenas entrou em campo um jogador que sabe atuar na frente. E finalizar. Era o que estava faltando. O homem de frente é indispensável.

Porque este atua exatamente num perímetro difícil, onde as jogadas sãomais duras e nervosas, a zona do agrião a que se referia João Saldanha. Tem que enfrentar fortes trancos, entrar em bolas divididas, suportar choques com os homens da defesa, mais pesados que os atacantes. Por isso, Neymar, o próprio Pato, muito leves, preferem, prudentemente, vir tocando a bola de trás e só partirem para a finalização quando o lance está muito mais para eles do que para a zaga. Fenômeno natural. Em primeiro lugar, é mil vezes mais fácil destruir do que construir. Em segundo, a defesa joga de frente para a bola, só não acontecendo isso quando os cruzamentos vem da linha de fundo.

Linha de fundo. Como a ela chegavam Garrincha, Jairzinho, Julinho Botelho, que antecedeu a ambos. Tesourinha que apareceu no futebol na década de 40, antes dos três. Contra o Paraguai se alcançamos a linha de fundo por três vezes apenas foi muito.

Não agredíamos, não incomodávamos os paraguaios. Eles foram crescendo na partida. Chegaram mesmo a nos dominar. Tive a sensação da derrota, sexto sentido que o torcedor tem em matéria de histórias de bola, mas o acaso surgiu. Mano Menezes, um  treinador sem criatividade, de tática escassa, boa figura humana, mas que me parece sentir demais o peso da responsabilidade, foi iluminado por uma rara centelha: substituir Neymar por Fred.

Não foi certamente uma decisão fácil. Sobretudo porque a Folha de São Paulo de sábado publicou que Neymar está com um contrato milionário garantido no Real Madri. Uma substituição pode reduzir o valor final do passe e assim diminuir as comissões tradicionais que estão envolvendo o esporte. Mas o técnico sem dúvida acertou, embora movido pelo impulso do desespero. Um homem de frente salvou a seleção da derrota. Ficou a lição mais uma vez. Vamos esperar que a comprovação da tese mantenha o time ofensivo contra o Equador. Amém.

Continua o jogo de faz-de-conta. Enquanto juiz corrupto não for realmente punido, o Brasil jamais será um país democrático.

Carlos Newton

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, com sede em Brasília, decidiu por unanimidade instaurar processo disciplinar contra quatro ex-presidentes da Ajufer (Associação dos Juízes Federais da Primeira Região), para apurar a responsabilidade por empréstimos fraudulentos contratados durante dez anos com a Fundação Habitacional do Exército.

Serão investigados os juízes Moacir Ferreira Ramos, Hamilton de Sá Dantas, Solange Salgado e Charles Renault Frazão de Moraes. Por maioria, a corte decidiu afastar o juiz Moacir Ramos até a conclusão do processo, que tem prazo de 90 dias e também vai averiguar o destino dos recursos desviados.

A Fundação Habitacional do Exército cobra na Justiça dívida de R$ 21 milhões da Ajufer, e já se descobriu que vários juízes tiveram nomes usados indevidamente em contratos fictícios.

A decisão do Tribunal Regional Federal é louvável, mas pouco se deve esperar dela. Um dos maiores problemas da Justiça brasileira é a impunidade dos magistrados. O caso do juiz Moacir Ramos, por exemplo, que acaba de ser afastado, não vai dar em nada. A decisão foi totalmente inócua. Ele já havia sido afastado pelo Conselho Nacional de Justiça em novembro, mas conseguiu uma liminar para voltar à função e em março pediu aposentadoria por invalidez.

Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça puniu  com aposentadoria compulsória o juiz Antônio Fernando Guimarães, do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais, por favorecer os clientes do escritório de advocacia Vilhena & Vilhena.

O luxuoso apartamento onde o juiz mora em região nobre de Belo Horizonte pertence ao filho do advogado Paulo Vilhena, João Braúlio Vilhena, mas o ilustre magistrado jamais se declarou impedido nos julgamentos de causas envolvendo o escritório, o que demonstra conduta incompatível com o exercício da função no Judiciário.

O juiz pagava aluguel de R$ 200, valor ridículo e considerado “simbólico”, e o relator do caso, conselheiro José Adônis Callou de Araújo Sá, disse ter “dados que comprovam que as causas envolvendo o escritório Vilhena das quais Guimarães participou, que tiveram resultado favoráveis, têm valor impressionante, enquanto os de causas que se julgava contra tinham valores bagatela”. E acrescentou:

“Um magistrado pode ser amigo de um advogado. Isso é uma coisa. Outra coisa é que essa amizade produza feito de efeito econômico. Vantagens econômicas não são meramente afetivas. Não existe almoço de graça.”

Mesmo diante dessa situação, o presidente do Conselho Nacional de Justiça, ministro Cezar Peluso, e os conselheiros Ives Gandra Martins e Leomar Barros se posicionaram contra a punição, apoiando a possibilidade de o juiz Antônio Fernando Guimarães estar sendo era perseguido por disputas internas. O advogado dele, Evandro Guimarães, chegou a colocar o relator do caso em suspeição e o acusou de conduta irregular nos depoimentos.

Porém, no entender da Corregedora Nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, não havia dúvida no caso, e ela até considerou que “este processo traz à lume um verdadeiro câncer, presente em alguns tribunais do país”.

Muito bom, tudo muito bonito. Mas enquanto juiz corrupto não realmente for punido no Brasil, tudo é só brincadeirinha. Condená-lo a se aposentar mais cedo, com salário integral e direito de seguir trabalhando como advogado, isso não é punição, é bonificação.

, Francelino Pereira, que país é esse? Com toda certeza, não é um país sério, porque nele os juízes estão acima da lei e da ordem.

Pausa para um tema sério (1)

Carlos Chagas

Nos idos de janeiro de 1972, recém-chegado a Brasília   para assumir a direção de “O Estado de S. Paulo” na capital federal, ouvi de um amigo que havia passado por aqui  o ex-presidente Juscelino Kubitschek, embora proibido pelo governo   militar. Ele comprara uma fazendinha lá para os lados de Luziânia e nela costumava refugiar-se com frequência.  Mas não podia desembarcar no aeroporto comercial, nos limites da cidade.

Obrigava-se a chegar e  utilizar um aeroclube na cidadezinha de Formosa, do outro lado do Distrito Federal. Claro que num precário teco-teco.�
Telefonei para o presidente, então com gabinete no Banco Denasa, no Rio, que um ex-genro depois fez questão de expulsá-lo, num gesto de ingratidão digno de ficar para a História.  JK narrou-me todo o episódio. 

Naquela oportunidade, retornando à antiga Capital,  como sempre tendo que contornar Brasília, ia na cabine de um caminhão, conduzido por um amigo.  Era de tarde, chovia a cântaros. Ele estava sem paletó, de chapéu de palha. 

Teve uma tentação, que transmitiu ao  amigo:  em vez de dar a volta, porque não cortariam caminho passando pelo centro de  Brasília? Desde sua cassação em 1964,  não podia ver  a cidade por ele criada. 

Entraram pela avenida do Catetinho, primeira residência para  ele desenhada por Oscar Niemayer, nos tempos em que a Capital repousava  nas pranchetas. Uma construção de madeira, transformada em museu.  Estacionaram defronte e, apesar da água que caia, desceu da viatura. A memória começara a funcionar, trazendo-lhe imagens daquele   período desafiante e feliz da construção da cidade.  O zelador de plantão, abrigado da chuva, contou haver feito uma promessa,  quando se deparou com   JK  parado, com as mãos na cintura: deixaria de beber naquele   momento   mesmo!   Era um fantasma que estava vendo, apesar de sem gravata e de chapéu de palha… 

O caminhão tomou o rumo da cidade e entrou pela Avenida W-3 – Sul,  naquela época centro do comércio local.  Nem dava para ver direito as lojas e restaurantes, tamanho o aguaceiro, mas ficou impressionado com o número de bancos lá instalados.  

Dobraram à  direita e entraram  na Esplanada dos Ministérios.  Diante  da catedral, outra parada.  Não conhecia o monumento, erigido depois de sua cassação. O motorista foi  primeiro, para  verificar se havia   muita gente na igreja. Se houvesse, não desceria. Sorte: só duas ou três beatas rezando o terço. 

Extasiou-se com mais aquela “obra do Oscar”. Entendeu de pronto a mensagem das colunas de  cimento reunindo-se e tomando o rumo do infinito,  como numa oração eterna. Ajoelhou-se, rezou e sentiu o primeiro nó na garganta. 

Dali, ainda debaixo do temporal, foram à Praça dos Três Poderes. À direita o Supremo Tribunal Federal, à esquerda o Palácio do Planalto, atrás o Congresso. Diante dele, o pequeno museu da criação da Brasília, com seu rosto gravado em bronze na parede externa.   Não  se conteve.  Suas lágrimas misturavam-se às que caíam  do céu. Tinha valido à  pena,  pensou, sem mágoas para o general de plantão que devia estar no terceiro andar do Planalto. 

A saída pela W-3-Norte, ainda incompleta, e um sentimento que, relatou-me pelo telefone,  deveria ter sido o mesmo de um súdito das Gálias que pela  primeira vez entrasse em Roma. Não falou, mas aquela era a  sua Roma, que  havia erigido tijolo por tijolo, e que agora negavam-lhe a presença. 

Anos depois um ex-agente do SNI revelou que o presidente não passara sozinho por Brasília. Fora acompanhado de longe por arapongas,  numa viatura encarregada de vigiá-lo permanentemente.  O agente   contou  não ter tido coragem de abordá-lo e exigir que se retirasse de imediato ou conduzindo-o a um quartel. (continua amanhã)