Manifestação contra Cabral, no Rio, interrompe o trânsito desnecessariamente e não consegue apoio popular.

Carlos Newton

A manifestação contra o governador Sérgio Cabral, realizada agora há pouco no Largo do Machado, seguida por uma passeata até o Palácio Guanabara, estava muito bem organizada, mas cometeu o mesmo erro de sempre: fechou as ruas, num ponto estratégico da Zona Sul do Rio, provocando um engarrafamento desnecessário, com muitos transtornos à população.

No tempo do regime militar, qualquer manifestação ganhava logo apoio popular, parava-se o trânsito e ninguém reclamava, era sempre sucesso. Com a volta da democracia, a coisa mudou de figura. Ninguém apoia uma manifestação que fecha as ruas propositadamente, não havendo possibilidade nem das ambulâncias passarem, como ocorreu hoje.

Os organizadores dessas manifestações precisam adaptá-las aos novos tempos. No caso, o percurso entre a concentração, no Largo do Machado, e o final da passeata, no Palácio Guanabara, é de aproximadamente dois quilômetros. A passeata poderia percorrê-los ocupando apenas a metade da Rua das Laranjeiras, deixando o trânsito fluir, e tudo correria bem.

O pior foi que, diante do viaduto que dá acesso ao Túnel Santa Bárbara, importante a passagem da Zona Sul para o Centro, os manifestantes simplesmente sentaram no meio da rua. Para quê? Como dizia o poeta pernambucano Ascenso Ferreira, parodiando Cervantes, “para nada”. E ainda queriam ganhar apoio da população local.

O dólar cai, ameaçando perigosamente a indústria brasileira. A equipe econômica fica comprando dólares e aumentando as reservas, inutilmente. Por que não podemos seguir o exemplo da China?

Carlos Newton

O comentarista José Lyra indaga nossa opinião sobre a queda vertiginosa do dólar frente ao real. É claro que a queda da cotação do dólar tem problemas externos (a situação de crise da economia americana) e internos (a forma como a equipe econômica brasileira lida com isso). E realmente é espantoso o que está acontecendo na economia brasileira.

O Banco Central culpa a entrada líquida de dólares no País. O BC diz que esse fluxo financeiro é “composto por investimentos estrangeiros de longo prazo no setor produtivo e por captações de empresas brasileiras no exterior”, sem entrar em detalhes, quando seria fundamental saber que investimentos a longo prazo são esses. A alegação é muito intrigante, pois se sabe que essa entrada de dólares, em grande parte, não é para investimentos a longo prazo. Muito pelo contrário, são aplicações conhecidas como “hot money”, ou capital motel, sempre de curto prazo.

Muitas dessas aplicações são feitas na Bolsa de Valores. Em junho, por exemplo,os investidores estrangeiros lideraram a participação nos investimentos em ações, com 34,74%. Foi um mês ruim para a Bovespa, mesmo assim os estrangeiros estão lá, apostando na recuperação do índice, que nos últimos três pregões já subiu cerca de 4 por cento.

Com esse extraordinário volume de dólares ingressando na economia, o governo segue tentando intervir no mercado, para evitar que a cotação da moeda americana continue caindo em relação ao real, quem diria? E como resultado dessa política de intervenções, as reservas internacionais do BC continuam se elevando. Já perdi a conta. No início de março, lembro que havíamos passado de US$  310 bilhões em reservas. Isso é bom ou ruim?

As compras de dólares pelo BC no mercado à vista muitas vezes são maiores até do que o total de entrada de dólares e, como consequência, acabam se refletindo na posição cambial “vendida” dos bancos, quando apostam em mais valorizações do real frente ao dólar, no mercado futuro.

Traduzindo de novo: o Banco Central está adotando uma política suicida, porque cada vez que compra dólares, tem de emitir títulos da dívida interna em valores correspondentes, que pagam taxa Selic, ou seja, 12,25% de juros anuais. Com isso, a dívida interna aumenta na mesma proporção das reservas cambiais, mas como uma imensa diferença: as reservas rendem 2% ao ano, enquanto a dívida interna paga 12,25%. Isso é bom ou ruim? É um péssimo negócio.

E os bancos brasileiros, que no mercado futuro apostam na queda do dólar, fazem sucessivas captações no exterior em dólar, a juros baixíssimos, e investem e emprestam aqui em reais, com as mais elevadas taxas do mundo. Um excelente negócio. Por isso, estão lucrando como nunca.

A situação é cada vez mais crítica, porque a queda do dólar está provocando um fenômeno perigosíssimo – a desindustrialização. E o governo assiste inerte. Só há uma saída, a meu ver: a suspensão do câmbio flutuante, que é um dos orgulhos dos economistas do governo e está nos criando graves problemas.

O ideal é o câmbio flutuante, não há dúvida, mas nem sempre é possível. O Brasil já praticou uma política de câmbio fixo em várias oportunidades. Às vezes não há opção. Todos sabem que a China está indo muito bem economicamente, mas poucos lembram que lá o câmbio nunca foi flutuante. Quem sabe o que é bom para China não seria também bom para o Brasil, pelo menos durante um certo período?

Dilma começou bem no caso do Ministério dos Transportes, até que de repente resolveu perdoar o ministro. Coitado, ele não sabia de nada e agora terá de investigar os amigos.

Carlos Newton

É triste, mas temos de retirar o elogio feito ontem à presidente Dilma Rousseff, no caso de sua pronta intervenção para demitir a quadrilha que tomou conta do Ministério dos Transportes. Como é que a chefe do governo de repente tem uma recaída e manda até divulgar uma nota na qual manifesta absoluta confiança no ministro Alfredo Nascimento, que, se tivesse um mínimo de hombridade, já teria pedido demissão?

De acordo com a assessoria de imprensa da Presidência, caberá ao próprio Nascimento promover a investigação de denúncias de que a cúpula do Ministério sob seu comando promovia sobrepreço nas licitações e cobraria propina entre 4% e 5%, o que garantia às empresas aditamentos dos contratos.

“O governo manifesta sua confiança no ministro Alfredo Nascimento”, diz o texto lido por uma assessora. “O ministro é o responsável pela coordenação do processo de apuração das denúncias feitas contra o Ministério dos Transportes”, conclui.

Traduzindo: resolveram mandar o chefe da quadrilha investigar os crimes, que desta vez não foram revelados pela imprensa, mas pelo senador Mario Couto (PSDB-PA). Como registrou aqui no blog o comentarista Antonio Santos Aquino: “Da tribuna, dia sim dia não, o senador Mário Couto diz: “Pagot, tu és ladrão, estás roubando há muitos anos. Quem te segura, Pagot? Não esquece que eu estou te chamando de ladrão. E agora?”

A saudável novidade é que desta vez a própria Presidência da República resolveu ouvir a oposição, constatou que as denúncias de Mário Couto eram verdadeiras e defenestrou a quadrilha quase inteira. Pena que esqueceu de demitir o chefe, o próprio ministro, que também está necessitando de um belo Código de Conduta.

É claro que já circulavam muitos rumores sobre as irregularidades no Ministério, especialmente sobre a presença contínua do deputado Waldemar Costa Neto no gabinete do ministro Alfredo Nascimento, pois havia até uma sala especial reservada para ele, vejam a que ponto chegamos.

Aqui no blog da Tribuna, por exemplo, um dos comentaristas vivia fazendo brincadeiras com o sobrenome de Luiz Antonio Pagot, que era diretor geral do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). O comentarista (não recordo o nome) perguntava sempre: “Quem pagot?” ou “Já pagot?”

No final de semana, Dilma afastou o chefe de gabinete de Nascimento, Luiz Tito Bonvini, o diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, e o presidente da estatal Valec, José Francisco das Neves, o Juquinha, muito ligado ao deputado federal Waldemar Costa Neto (PR-SP), que em 2005 renunciou ao mandato para escapar da cassação por causa de envolvimento no mensalão, configurando um caso de reincidência específica em corrupção.

Pois é, a presidente estava se saindo tão bem nesse primeiro episódio de graves irregularidades em seu governo (Palocci não conta, pois vinha corrompido desde o governo Lula), e não dá para entender essa recuada e a demonstração de confiança num ministro mais do que sujo.

Aqui no blog, Helio Fernandes cansou de escrever sobre Alfredo Nascimento, explicando que ele só continuava ministro para que seu suplente (João Pedro, do PT) seguisse exercendo o mandato no Senado. João Pedro é um sindicalista amazonense, amigo particular de Lula, o que explica quase tudo.

O quadro é complexo, mas é muito duro supor que Dilma Rousseff esteja mantendo Nascimento apenas para agradar a Lula, com a preservação do mandato de João Pedro no Senado. Seria uma baixeza inominável, capaz de manchar de forma indelével a biografia da atual presidente.

É preferível acreditar que seja apenas uma jogada de efeito, para distrair a arquibancada, com tudo acertado nos bastidores. A presidente faz a nota de apoio ao ministro, pede que ele próprio conduza as investigações, seus colegas e correligionários então sentem a alma lavada, mas logo em seguida o próprio Alfredo Nascimento repentinamente resolve pedir demissão, por se sentir desconfortável ao ter de investigar amigos tão íntimos. É possível que isso aconteça, seria uma jogada inteligente, mas o senador João Pedro iria para o espaço, perdão, perderia a cadeira no Senado.

***
OPOSIÇÃO FAZ A FESTA

O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias, vai solicitar uma audiência pública com a presença do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, e do ex-diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot, para que eles prestem esclarecimentos sobre as denúncias de corrupção e superfaturamento de obras envolvendo esse ministério.

Já o líder do PSDB na Câmara, deputado Duarte Nogueira, considerou insuficientes as medidas adotadas pelo governo de afastar a cúpula do Ministério dos Transportes e abrir sindicância interna para apurar a existência de um esquema de corrupção que envolve pagamento de propinas.

Nogueira disse que o episódio merece “uma investigação profunda” e pretende apresentar uma representação ao Ministério Público para pedir a abertura das investigações. Além disso, encaminhará um requerimento à Polícia Federal e um pedido de auditoria especial para o Tribunal de Contas da União. E também não está descartada a convocação do ministro da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, para comparecer nas comissões temáticas da Câmara e esclarecer se o órgão já tinha detectado irregularidades na área.

***
SITUAÇÃO DE CABRAL SE COMPLICA

Embora aparentemente o escândalo no Ministério dos Transportes melhore a situação de Sergio Cabral, que sai do foco do noticiário, na verdade sua situação vai acabar piorando muito, porque um dos principais alvos da investigação será a Delta Construções, a empreiteira de Fernando Cavendish, um dos mais próximos amigos do governador fluminense.

Conforme assinalamos ontem no blog da Tribuna, a Delta Construções não é apenas a empreiteira favorita do governo do Estado do Rio de Janeiro, mas também uma das campeãs de faturamento nas obras a cargo do Ministério dos Transportes.

Quando o senador Mário Couto denuncia o Dnit, sabe muito bem o que está falando. Em seu Estado, o Pará, já houve uma grande operação da Polícia Federal que redundou na prisão de um dos diretores da Delta, por irregularidades em licitações, superfaturamento e muitas coisas mais, ou seja, nada mudou no Dnit.

Por fim, é triste constara que as relações perigosas de Cabral com Cavendish fizeram com que o governador se transformasse num personagem caricato, que sai pelas ruas à procura de um Código de Conduta, para tentar entender o que é certo ou errado. Que decadência.

Nocaute no primeiro round

Carlos Chagas

Ultrapassou a presidente Dilma o  obstáculo  inicial no  primeiro teste de combate à corrupção em seu governo. O episódio Antônio  Palocci não valeu, pois as lambanças praticadas pelo ex-chefe da Casa Civil aconteceram antes da posse, mesmo revelados depois. Ainda assim, a presidente afastou o  auxiliar.
                                                                 
Agora, caracterizou-se a roubalheira explícita no ministério dos Transportes e desde logo Dilma convocou os responsáveis, ainda que  Alfredo Nascimento não comparecesse, saltando de banda. Olho no olho ela identificou as falcatruas e exigiu o afastamento de quatro integrantes da quadrilha. Ontem, durante o dia,  faltava apenas a defenestração do ministro dos Transportes, já com  a cabeça no cepo.

Fica para a Polícia Federal o  levantamento do montante de recursos superfaturados, seu destino e a apuração de outros envolvidos, inclusive os empreiteiros, mas a pergunta que se faz é  que estruturas Dilma Rousseff  irá erigir sobre os escombros do PR. Se pretender manter o singular e diminuto  partido em sua base de apoio, procurando bem, encontrará gente honesta, em seus quadros. Mas se preferir desinfetar o  ministério,  que forças convocará? 

Por certo que PT e PMDB estão de olhos  e goelas bem  abertas para abocanhar mais essa fatia do poder, mas parece pouco provável que o ministério dos Transportes lhes venha a ser oferecido.  O mais provável será uma solução parecida com a que ainda agora serviu para  preencher a Casa Civil e o ministério das Relações Institucionais: pessoas da inteira confiança  da presidente, com vinculação partidária mas muito mais ligadas  a ela do que às legendas onde se integram, como Gleisi  Hoffmann e Ideli Salvatti. 

De qualquer forma, foi pronta a reação à primeira bandalheira descoberta, ao menos conforme as iniciativas adotadas. Dilma não esperou nem contemporizou, como fizeram Fernando Henrique e o Lula em diversas oportunidades.  Optou pela fórmula Itamar Franco…
     
***
NÃO MEXAM COM A BAHIA
                                                                  
A frase preferida do falecido senador Antônio Carlos Magalhães era  “não mexam com a Bahia”. Diversas vezes ele se insurgiu contra governos e governantes empenhados em prejudicar seu estado natal, até mesmo exagerando no episódio do Banco Econômico, que defendeu com unhas e dentes.
                                                                 
Estivesse entre nós o ACM, estaria distribuindo ponta-pés e caneladas em quantos tentam reavivar a proposta da divisão da Bahia em dois estados, criando-se um novo na região do outro lado do rio São Francisco.  A História, a tradição e a   política  devem ficar acima da geografia, para os baianos da mesma cepa de seu três vezes governador.  
                                                                 
Se o mesmo raciocínio valer para o Pará, o resultado do plebiscito previsto para dezembro revelará  o sentimento de unidade da maioria dos paraenses. Até porque, são alienígenas os defensores da formação dos estados do Tapajós e do Carajás. Bem como seus interesses.

***
 NEM  SÓ DE CRIMES DEVEM VIVER AS TELINHAS
                                                                  
A moda vem de longe, mas nos últimos meses acentuou-se fenômeno digno de ampla reflexão. Cada vez mais os telenoticiários  especializam-se em divulgar crimes, violência e barbaridades verificadas no país e no estrangeiro.  Não que devessem omitir essas desgraças, pretendendo sua inexistência. O problema é que para os responsáveis pela programação informativa parece existir apenas esse tipo de notícia. Até telejornais normalmente permeáveis a outros   acontecimentos do dia-a-dia, como  política,  economia,  esportes e  entretenimento   vão abrindo espaços para a  desgraça alheia.

Retrucam ser isso o que o povo quer, ou seja, os índices de audiência aumentam, e o faturamento também,  na medida em que se divulgam e esmiúçam assaltos, sequestros, estupros, latrocínios, tiroteios, corrupção, enchentes e terremotos.

Convenhamos, importa menos saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, ou seja, se o telespectador dá preferência a esse tipo de noticiário ou se esse tipo de noticiário não dá outra opção ao telespectador. Seria bom pensar grande, mesmo mantendo os parâmetros do sistema  capitalista e  evitando qualquer tipo de controle do conteúdo da informação.

***
AINDA ITAMAR
       
No auge da ditadura Geisel,  quando da divulgação da “Lei Falcão”, em 1976, poucos reagiram como  Itamar Franco diante da proibição de candidatos fazerem campanha pelo rádio e a televisão,  nos períodos de propaganda eleitoral.   Só era permitido apresentar, nas telinhas, uma foto do candidato, seu nome, número e profissão,  proibindo-se debates e até cartazes nos muros e postes. O senador mineiro foi à   tribuna e sugeriu que o governo militar baixasse uma lei mais simples: “é proibido ao eleitorado saber o que pensam os candidatos”. 

Naqueles idos vigia o Ato Institucional numero 5, atingindo inúmeros  parlamentares do então MDB. Especulações sobre novas listas de cassados eram feitas todos os dias, e Itamar frequentava todas.  Aos jornalistas ele  dizia  não estar preocupado, porque assim teria oportunidade de voltar a exercer a profissão à qual jamais pode dedicar-se,  a  engenharia.

Jobim: personagem de FHC, de Lula, de Dilma, agora de Nelson Rodrigues

Pedro do Coutto

O ex-deputado Nelson Jobim, ministro da Justiça de FHC, por este nomeado para o Supremo Tribunal Federal, e ministro da Defesa de Lula, após aposentar-se do STF, mantido no cargo por Dilma Rousseff, personagem portanto de vários governos, apresenta-se agora como personagem de “A Vida Como Ela É”, de Nelson Rodrigues. Recorreu a ele ao subir no palco dos acontecimentos, desta vez para passar à presidente sua cerimônia de despedida de tantos e diversos ministérios, de tantas e diversas tendências políticas.

Alguma dúvida? Se dúvida houvesse quanto sua intenção de afastar-se da Esplanada, não teria feito, no Senado, o discurso que fez ao participar da homenagem pela passagem dos 80 anos do ex presidente Fernando Henrique. Elogiou enfaticamente FHC e, no contexto, afirmou textualmente que hoje tem de tolerar idiotas. Esqueceu a expressão idiotas da objetividade a que o autor de “Vestido de Noiva” recorria frequentemente. “Só os profetas enxergam o óbvio”, para mim esta a melhor de todas. Cortes de linguagem fortes como os provérbios. E reveladoras de intenções, disfarces e de posicionamentos que a mente humana traduz e revela.

Nós precisamos ter presente – acentuou referindo-se a FHC – que os tempos mudaram. Nelson Rodrigues dizia no passado que os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas (repetiu novamente), que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento.

Mais do que evidente que as palavras de Nelson Jobim tinham (e têm) endereço definido. Presidente Dilma Roussef, no Palácio do Planalto, Brasília.

Não pode ser outro. Caso contrário, não injetaria nas expressões a ênfase que injetou. Está portanto de saída da Defesa. Partiu para o ataque. Escreveu para o esquecimento. Qual? Faltou explicar.

Mas a lacuna não tem importância, tantas as presenças em suas palavras. A maior delas a que passou a atmosfera de insatisfação. Clima indisfarçável para qualquer ator da cena política, uma vez que decorre sempre de situações reais bastante substantivas. Como vontades contrariadas, contestações em série, perda de espaço administrativo, enfraquecimento no eterno jogo do poder.

Existe a hipótese, mais plausível, de algum desentendimento mais forte com Dilma Rousseff, uma vez que Jobim projetou, no seu discurso, o confronto entre o estilo suave de Fernando Henrique em relação a outro mais rude. Tanto assim que revelou para todos que Fernando Henrique nunca levantou a voz. Levantar a voz? Porque dizer isso? Só poderia estar comparando o comportamento polido do homem do PSDB, tucano portanto, com o da mulher do PT que preside o país.

A excelente reportagem de Vera Magalhães e Cátia Seabra, Folha de São Paulo de sexta-feira, não dá margem a dúvida. O texto é primoroso. Traduziu o clima, tanto em torno de Jobim, quanto o panorama de tensão ampliado por ele.

Me veio à memória a única atuação de Nelson Rodrigues como ator, o de tio Raul, da peça “Perdoa-me por Me Traires”, Teatro Municipal, novembro de 1956. Tio Raul é chamado a intervir na crise conjugal de seu sobrinho e conclui: você não tem razão nenhuma.

Desce o pano. Intervalo para o segundo ato. Com o tipo de saudação a FHC, Nelson Jobim prepara sua saída de cena. Ou então ameaça deixar o palco caso Dilma não alise as arestas e os espinhos surgidos no Ministério Civil que deve coordenar as ações militares. Este o único dilema que Jobim iluminou pensando na reação de Roussef. Ela não queria mantê-lo no posto. Mas Lula a convenceu. Talvez agora o próprio antecessor esteja mais convencido das razões da sucessora. Quem sabe? As próximas semanas vão revelar. Uma novela.

Lembranças de Juscelino

Sebastião Nery

“Tres dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziania e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo e meu xará a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar :

– “Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, tres ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora”.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de vôo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo”.

***

No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

– “Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília”.

E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo buscálo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje : por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse?  Seria algum encontro amoroso?

E era”.

***

Esta é uma das muitas, numerosas historias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Mello Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro, “Tempo Diferente” (primorosa edição da Topbooks) sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro:

– “Aqui estão contadas historias reais e verazes, acontecidas com tantos homens importantes no universo literário e político do pais, que viveram num tempo diferente” : Getulio, JK, Jânio, Café Filho, Lacerda, Chateaubriand, Tristão de Athayde, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Evandro Lins, Austregésilo de Athayde, Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Raimundo Faoro, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende.

Agora que a imprensa e sobretudo a televisão quase esqueceram Juscelino, é bom relembrar outras historias contadas pelo depoimento de testemunha de Murilo, no capitulo “JK, do Seminarista ao Estadista”.

***

– “Eu era então (em 56) chefe da seção política da “Tribuna da Imprensa”, jornal de oposição, dirigido por Carlos Lacerda, que movia feroz campanha contra JK. Apesar disso, ele sempre me distinguiu com especial atenção e, na sua segunda viagem a Brasília, me convidou para acompanhá-lo.

Saímos do Rio num Convair da Aerovias-Brasil e aterrissamos numa pista improvisada, perto do Catetinho, que tinha sido inaugurado no dia 1o de novembro. Às quatro horas da madrugada do dia seguinte, ainda noite escura, JK já estava de paletó esporte, camisa de gola rolê, chapéu de aba larga, botinas e um rebenque, batendo à porta de nossos quartos, e convidando-nos para irmos com ele visitar as obras de Brasília, naquele imenso descampado :

– Aqui será o Senado, ao lado da Câmara, mais adiante os Ministérios. No outro lado, o Supremo e o palacio do Planalto, onde irei despachar”.

***

– “Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia eletrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou :

– Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo”.

Era o primeiro milagre de Brasilia.

                                 ***

E este bilhete de Adolfo Bloch a Murilo, já na “Manchete” em Brasília:

– “Murillo, ai vai esta lancha para você fazer relações publicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações publicas. E fizemos um mau negocio, porque um homem como aquele não se perde”.

A Polícia de Nova York é um fracasso. Blog daTribuna descobriu muito antes que Strauss-Khan era inocente.

Carlos Newton

No dia 21 de maio, a Tribuna já publicava que o executivo e político francês Dominique Strauss-Kahn, então diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), era inocente na acusação de crimes sexuais contra uma camareira do hotel de luxo em que se hospedara.

Desde o início do rumoroso episódio, surgiram versões de que Strauss-Kahn poderia estar sendo vítima de um ardiloso golpe político, que teria sido perpetrado para alijá-lo da disputa presidencial na França. Onde aparecia como pré-candidato do Partido Socialista, liderando as pesquisas e bem à frente do atual presidente Nicolas Sarkozy.

As matérias enviadas de Nova York pelos correspondentes e pelas agências, infelizmente, não traziam o principal sobre esse tipo de episódio – os detalhes. O que se sabia efetivamente era pouco. Mas suficiente para inocentar o político francês, como a Tribuna adiantou.

Strauss-Kahn estava hospedado, deixou o hotel e foi para o aeroporto. A camareira o denunciou à gerência, que chamou a Polícia. A camareira então foi levada a exame de corpo de delito (colher fluidos, sêmen e DNA do criminoso), enquanto um detetive invadia o avião, prestes a decolar, prendia e algemava Strauss-Khan em plena primeira classe. Um enredo verdadeiramente hollywoodiano.

E aí vinham as dúvidas, que o confuso noticiário não explicara. E fizemos aqui na Tribuna as seguintes indagações: 1) A camareira o denunciou logo após o ato, ou esperou ele se vestir, arrumar as malas, pagar a conta e deixar o hotel? Houve mesmo o exame de corpo de delito, com a minúcia necessária, tipo prospecção nas partes supostamente penetradas, para colher sêmen, fluidos, DNA? A equipe da perícia compareceu ao quarto do Hotel Sofitel, para periciá-lo com aquela eficiência de sempre? O quarto estava todo revirado? Havia sinais de luta entre a estuprada e seu algoz?

Na reportagem, lembramos que quem estudou Medicina Legal sabe que existem certas circunstâncias que caracterizam o estupro, um crime de difícil comprovação. Assinalamos que só há estupro mediante violência ou grave ameaça, com o criminoso agredindo a vítima ou empunhando uma arma. Como os músculos da coxa são fortíssimos, a mulher tem de relaxá-los para que ocorra penetração. Se o faz sem violência ou grave ameaça, definitivamente não é estupro.

Destacamos, então, que, como a camareira não foi espancada e Strauss-Khan estava desarmado, sem empunhar nem mesmo uma lixa de unha, não poderia ter forçado o estupro. É um velho, de 67 anos. Como dominaria uma jovem cheia de vida e atlética, que vive se exercitando ao limpar e arrumar dezenas de quartos por dia? Teria de lutar muito, espancá-la de verdade, o quarto estaria todo arrebentado com os sinais de luta, haveria muitas lesões e marcas no corpo dela e no corpo dele, especialmente nas mãos.

E o pior é que ela alegou ter sido forçada a fazer sexo oral e anal. Esse detalhe seria fundamental para caracterizar que não houve crime, mas apenas sexo consensual.

Estupro anal e oral, sem violência? Isso não existe, lembramos a 21 de maio. “Qual é o estuprador que se arriscaria a colocar a arma do crime entre os dentes da vítima, sob ameaça de sofrer amputação de sua parte mais sensível”, perguntamos na época.

Somente agora a Polícia de Nova York descobriu que Strauss-Khan é inocente. Quanta incompetência. Será que foi proposital?

Marina Silva vai mesmo deixar o PV, junto com Fernando Gabeira. O outro dissidente, o deputado federal Alfredo Sirkis, vai dar uma de tucano e ficar em cima do muro.

Carlos Newton

Marina sonha em montar uma nova legenda – batizada temporariamente de Partido da Causa Ecológica. Ela achava que o deputado federal José Luiz Penna ia abandonar a presidência do PV, mas estava muito enganada. Trata-se de um músico fracassado, sem emprego fixo. Nos últimos doze anos viveu às custas do PV, que pagava até as contas de luz, telefone e água da residência dele. Mas desta vez conseguiu se eleger e não vai largar o osso.

Com apoio de outros diretores, Penna fraudou sucessivas vezes a contabilidade do partido, aplicando os mais diversos golpes, que não passaram despercebidos à Justiça Eleitoral. Apesar disso, estranhamente ele continuou a desfrutar da confiança dos grandes líderes da legenda, como Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis e Aspásia Camargo, por exemplo.

Há alguns anos, quando foram descobertas pelos auditores da Justiça Eleitoral as múltiplas fraudes na contabilidade, vários dirigentes do partido se revoltaram contra José Luiz Penna. Todos foram expulsos, sem direito de defesa. Marina Silva só agora descobriu agora que o PV não é um partido político. Na verdade é apenas uma quadrilha, que vive às custas do Fundo Partidário, que é formado pelos impostos dos cidadãos.

O Partido Verde, que deveria entender de agricultura e paisagismo, está colhendo o que plantou. Fundado por um grupo de visionários, entusiasmados com a importância da preservação do meio ambiente, pouco a pouco o PV foi se transformando numa legenda podre, colhida fora do tempo, já madura demais em termos de corrupção.

Afinal, quem é José Luiz Penna, que desde 1999 preside o PV e vivia às custas do partido. Sua biografia revela que se trata de um músico e compositor, embora ninguém nunca o tenha visto fazer um show nem conheça qualquer composição dele.

Na direção do PV, Penna vem compondo uma impressionante obra de corrupção e cooptação de dirigentes. Formou uma sólida quadrilha, da qual faz parte o deputado maranhense Zequinha Sarney (que família, hein?), autor da recente proposta que manteve Penna na presidência por mais um ano.

Penna age confiante na impunidade. E tem boas razões. Os auditores do Tribunal Superior Eleitoral detectaram nas contas do PV as mais absurdas irregularidades, mas Penna contratou o escritório de advocacia de Nelson Jobim (hoje comandado pelo filho Alexandre) e conseguiu que o TSE aceitasse as contas, desde que o PV repusesse o dinheiro desviado, o que foi feito usando recursos públicos do Fundo Partidário.

Assim, o TSE inventou a figura jurídica do “ladrão arrependido”, aquele que roubou, foi apanhado, quando ia ser julgado disse estar arrependido, repôs o dinheiro e não foi condenado. Se a Justiça Criminal funcionasse assim, nenhum ladrão estaria preso, é claro. Sergio Cabral adotou a mesma estratégia. Apanhado em flagrante, desculpou-se dizendo que não existe um Código de Conduta e se propõe até a criá-lo, quanta desfaçatez

Na certeza da impunidade, José Luiz Penna chegou a se divertir postando vídeos na internet, em que aparecia junto a outros “dirigentes” do PV, e aproveitava para fazer gozações com Marina Silva e outras figuras do partido. Num dos vídeos, o presidente do diretório do PV em Osasco (SP), Carlos Marx Alves, diz a Penna que verdes recém-chegados pensam que vão levar a sigla “de bandeja”. “Entrou no ônibus e já quer ir para a janela, né?”, responde Penna, rindo.

Recordar é viver. Em 2007, quando surgiu o escândalo no PV, com irrefutáveis provas de corrupção, Penna conseguiu o apoio de Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis e Zequinha Sarney para expulsar (sem direito de defesa) os dissidentes, que exigiam o afastamento da quadrilha que domina o PV.

Portanto, Gabeira, Sirkis e Zequinha foram cúmplices de Penna. Agora, só ficou Zequinha na quadrilha. Gabeira e Sirkis trocaram de lado e estão apoiando Marina Silva. Mas parece que se arrependeram tarde demais.

Com seis meses de antecedência, Silvio Santos conquista o título de Maior Puxa-Saco do Ano. Mas é tudo por dinheiro, claro.

Carlos Newton

A Rede SBT começa a exibir hoje à noite , em cinco eletrizantes capítulos, os depoimentos que Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, gravou para a sensacional novela “Amor e Revolução”. Como já comentamos aqui, apesar de só ser conhecido no Rio Grande do Sul, onde foi deputado estadual, Carlos Araújo será o primeiro entrevistado a ocupar cinco capítulos. Nem mesmo José Dirceu, com toda a sua banca, conseguiu essa exposição na novela.

Na verdade, Carlos Araújo não dirá nada de novo. Vai negar mais uma vez a participação de Dilma Rousseff em ações armadas contra o regime militar, vai contar detalhes sobre o roubo do cofre da casa da amante do ex-governador paulista Adhemar de Barros e vai falar sobre a prisão de Dilma pelos militares, que ocorreu por acaso.

Como todos sabem, a novela é um fracasso de audiência e de crítica, além de estar repleta de erros históricos. Representa apenas uma forma de Silvio Santos pagar o grande favor que o então presidente Lula lhe fez, quando determinou que a Caixa Econômica Federal evitasse a falência do Banco PanAmericano, que provocaria a quebra de todas as empresas de Silvio Santos, inclusive a rede de emissoras de TV.

Assim, da mesma forma como bajulava os governos militares, com um longo quadro em seu programa aos domingos, chamado “A Semana do Presidente”, estrelado por Médici, Geisel e depois Figueiredo, Silvio Santos hoje bajula os detentores do poder nos governos civis, demonstrando um poder de assimilação impressionante, que lhe garante desde já o título de “Maior Puxa-Saco do Ano”.

Escândalo do Ministério dos Transportes vai bater direto na Delta Construções, a empreiteira preferida do governador Sergio Cabral e do Dnit (antigo DNER).

Carlos Newton

Nenhuma surpresa. Como dizia o grande escritor alemão Erich Maria Remarque, nada de novo na frente ocidental. Só que o novo escândalo aconteceu antes do que se esperava. A presidente Dilma Rousseff nem ligou para o fim de semana e determinou no próprio sábado que o ministro Alfredo Nascimento (Transportes) afastasse imediatamente todos os envolvidos no esquema de propinas na pasta.

Segundo reportagem da revista “Veja”, representantes do PR, partido que comanda os Transportes, funcionários do ministério e de órgãos vinculados à pasta montaram um esquema de superfaturamento de obras e recebimento de propina por empreiteiras.

Entre os acusados estão o próprio chefe de gabinete do ministro, Mauro Barbosa, o assessor do ministério, Luiz Tito, o diretor-geral do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), Luiz Antonio Pagot, e o presidente da estatal Valec, José Francisco, o Juquinha.

Dilma conversou com Nascimento por telefone, dando a ordem de demitir a quadrilha. O ministro estava fora de Brasília, mas a presidente vai recebê-lo hoje para ouvir pessoalmente as explicações dele, que já está com um pé (ou os dois) fora do governo.

Este novo escândalo nacional vai determinar novas investigações sobre a Delta Construções, a empreiteira de Fernando Cavendish, o amigo íntimo do governador Sérgio Cabral e da quadrilha do Dnit (antigo DNER), que cuida das rodovias federais.

De 2006 até agora, a Delta recebeu do Dnit, por meio de gastos diretos do governo federal, cerca de R$ 1,95 bilhão. Só este ano, segundo levantamento feito no Portal da Transparência, a empresa já recebeu do governo federal R$ 381,5 milhões – destes, R$ 341,1 milhões saíram do Dnit, vejam só que coincidência.  

No segundo mandato do presidente Lula, a Delta figurou sempre entre os primeiros lugares no ranking de favorecidos pelos gastos diretos federais, no item “Pessoas físicas, empresas e outros”. Foi a quarta em 2006, pulou para o segundo lugar em 2007, voltou ao quarto lugar em 2008, subiu para primeiro no ano passado, e este ano, até agora, está em segundo.

Quase a totalidade dos recursos federais recebidos pela empresa via gasto direto saiu do Dnit. Em 2006, por exemplo, a Delta recebeu R$ 248,7 milhões federais, sendo que R$ 237,4 milhões foram do Dnit. Já em 2007, dos R$ 392,2 milhões repassados à companhia via gasto direto, R$ 388,2 milhões tiveram origem no órgão.

No ano seguinte, a Delta recebeu R$ 370,1 milhões por gastos diretos, sendo R$ 329,4 milhões repassados pelo Dnit. E no ano passado, de R$ 773.7 milhões – o maior montante repassado à empresa desde 2006 -, R$ 652,4 milhões foram originários do Dnit.

Além do Dnit, a Delta foi favorecida pelos recursos de outros ministérios, como Defesa, Ciência e Tecnologia, Saúde e Integração Nacional. Desde 2006, a empresa recebeu da Defesa, por exemplo, mais de R$ 26 milhões, todos saídos do Comando do Exército.

Em anos anteriores, a empresa já se envolveu em outras polêmicas, como a que cercou a luxuosíssima obra da nova sede da Procuradoria Geral do Trabalho, em Brasília, coisa de primeiríssimo mundo. Em 2007, o TCU foi acionado para apurar acusações de cálculos inflados por serviços não executados nela. Outro contrato, de R$ 104 milhões para pavimentação de ruas na gestão Anthony Garotinho de 1999 a 2002, foi alvo de investigação do TCE-RJ, por suspeita de direcionamento de licitação, exibindo a longa folha corrida do empreiteiro Fernando Cavendish.

E como dizia Vinicius de Moraes, de repente, não mais que de repente, um escândalo estadual acaba sendo tragado por um escândalo muito maior, de âmbito federal, e a presidente Dilma Rousseff nem precisou esperar a preparação do Código de Conduta do governador Cabral para tomar as providências.

Aos amigos e admiradores de Helio Fernandes: a Advocacia-Geral da União responde este mês se aceita a proposta de acordo feita pela Tribuna, no processo de indenização.

Carlos Newton

Convencida de que transitou em julgado a decisão do Supremo que confirmou o direito de a Tribuna da Imprensa ser indenizada pelos 10 anos de censura prévia que sofreu no regime militar, entre 1968 e 1978, e ao mesmo tempo, certa de que não cabe ação rescisória para rediscutir os danos e prejuízos materiais sofridos pelo jornal que mais combateu a ditadura, a Advocacia-Geral da União estuda agora os valores a serem pagos num possível acordo judicial.

Em função da implacável censura, que por dez anos obrigou a Tribuna a circular com muitos espaços em branco, inclusive páginas inteiras, essa perseguição fez com que o jornal, o único do país que já tinha edição nacional e circulava com 24 páginas, passasse a ser impresso com apenas 12 páginas e perdesse praticamente todos os anunciantes.

A proposta de acordo feita pela Tribuna é muito vantajosa à União Federal , pelos seguintes motivos: o laudo pericial em que se baseia o acordo calculou a indenização num total 62% inferior ao valor verdadeiramente encontrado. E na proposta de acordo encaminhada à AGU, Helio Fernandes ainda abriu mão de 50% do valor condenatório estabelecido pelo juiz da 12ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Ou seja, o valor a ser recebido pela Tribuna na verdade significa apenas 16% do total verdadeiramente constatado pelo Perito da 12ª Vara e pelos Assistentes de Perícia indicados pela União e pelo jornal.

A União, portanto, sairá muito bem beneficiada com o acordo, especialmente porque, caso a proposta não seja aceita, há grande possibilidade de a indenização ser expressivamente elevada, pois os advogados da Tribuna consideraram o laudo pericial contábil em parte impreciso, tendo em vista os redutores aplicados, que, repita-se, diminuíram em 62% o valor encontrado pela Perícia.

Os advogados da Tribuna têm oferecido à AGU toda a documentação necessária e que prova que o acordo, de fato, é  muito vantajoso para o erário público, especialmente porque, a  cada mês, a indenização sofre atualização monetária e incidência de juros de mora de 1%

As negociações com a Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da União são técnico-jurídicas. sem intermediação de terceiros, o que, aliás, foi condição “sine qua non” exigida pelo jornalista Hélio Fernandes, diretor da Tribuna e o brasileiro que mais sacrificou seu patrimônio pessoal e empresarial na luta pela redemocratização do país e em defesa dos direitos humanos violentamente feridos entre 1964 e 1985. Inclusive, Helio Fernandes foi preso e segregado várias vezes. Tudo fizeram para silenciar a Tribuna, no que foram derrotados.

É chegada a hora, portanto, do acerto de contas da União e que, por certo, terá recursos para cumprir o estabelecido por todas as instâncias do Poder Judiciário. No ritmo intenso em que os técnicos da AGU/PGU vêm trabalhando na questão, é de se esperar que até o final de julho o acordo possa ser celebrado, o que possibilitará o retorno do jornal às bancas e o pagamento das dívidas trabalhistas no menor tempo possível.

Solidariedade dos comentaristas e leitores
ainda consegue manter o blog da Tribuna

Depois de enviar o extrato bancário e o balanço do mês aos comentaristas Martim Berto Fuchs, Luiz Fernando Binder e Carlo Germani, que funcionam com uma espécie de curadores do blog, estamos divulgando hoje a relação das contribuições recebidas em junho.

Sem a presença de Helio Fernandes, o total das contribuições caiu muito, como já esperado, atingindo apenas R$ 1.385,01. O próprio Helio previu que isso aconteceria, e o comentarista Carlo Germani também advertiu a respeito.

Apesar da queda nas contribuições, agradecemos a todos que têm conseguido colaborar para manter o blog da Tribuna da Imprensa, enquanto não é liberada a indenização a que o jornal tem direito. No final de julho, enfim saberemos se o blog poderá se manter sem as contribuições, como é nosso propósito. E um mês passa rápido.

Então, vamos em frente, juntos, usufruindo essa liberdade de expressão garantida pela Tribuna.

Segue abaixo o extrato de junho, com um lembrete, o registro é sempre do dia da compensação, não o dia do depósito.

Dia  ***  Nº do Doc.  *** Tipo de Depósito  ***   Valor

01              500001                  Doc. Elet.                     50,00
———————————————————————–
02              021434                Dep. D. Lot.                    15,00
02              021620                Dep. D. Lot.                    50,00
02              021654                Dep. D. Lot.                    17,53
———————————————————————–
03              137932                  TRX Elet.                     14,58
03              031239                 Dep. D. Lot.                  60,00
03              100004                  Doc. Elet.                     30,00
03              565420                  Doc. Elet.                     26,00
———————————————————————–
06              040909                 Dep. D. Lot.                 50,00
06              041452                  Dep. D. Lot.                 50,00
06              700002                   Doc. Elet.                   50,00
———————————————————————–
07              071017                 Dep. D. Lot.                 35,00
———————————————————————–
09              091039                 Dep. D. Lot.                 20,00
09              091650                 Dep. D. Lot.                 50,00
————————————————————————
15              038064                   TRX Elet.                    20,00
15              151426                 Dep. D. Lot.                   30,00
15              800014                 Doc. Elet.                    50,00
————————————————————————
16              161606                 Dep. D. Lot.                   50,00
———————————————————————–
17              171711                 Dep. D. Lot.                      5,00
17              171723                 Dep. D. Lot..                 20,00
17              908698                   Doc. Elet.                    50,00
———————————————————————–
20              203442                   TRX Elet.                    20,00
20              181113                 Dep. D. Lot.                 100,00
———————————————————————–
21               211557                Dep. D. Lot.                  52,00
————————————————————————
24              240826                Dep. D. Lot.                 250,00
24              241212                 Dep. D. Lot.                  50,00
————————————————————————
28            000093          Dep. Dinh.                   100,00
————————————————————————
29        300015         Doc. Elet.        100,00 ________________________________________________
TOTAL DE JUNHO ……………….…………….    1.385,01

Só falta a cadeia

Carlos Chagas                                                      

Desmantelada pela presidente Dilma a quadrilha que atuava no ministério dos Transportes, o ultimo capítulo está para ser encenado, se  é que não foi ontem, às 17 horas, quando o ministro Alfredo Nascimento viu-se  convocado ao palácio  da  Alvorada, certamente para ser demitido ou ganhar algumas horas para pedir demissão. Ele havia faltado ao encontro do dia 24, quando Dilma  desmascarou os bandidos que superfaturavam consultorias e obras de implantação e  manutenção de rodovias e ferrovias, mancomunados com empreiteiras variadas.                              

De qualquer forma,  Nascimento  não é mais ministro, assim como o deputado Waldemar da  Costa Neto, o chefe da quadrilha, não tem mais gabinete no ministério, de  onde,  sem ser funcionário, comandava o  esquema de corrupção na base de 4 ou 5% de comissão escoados para os cofres do Partido da República ou para o bolso do parlamentar. 

Arcabuzados já foram Luiz Antônio Pagot, diretor-geral do DNIT, Mauro Barbosa, chefe de gabinete do ministro, José Francisco das Neves, da Valec, e Luiz Tito, arrecadador geral. Melhor assim, pois Dilma Rousseff agiu com rapidez diante  das evidências da roubalheira, ainda que  duas ações  complementares se façam urgentes: botar os ladrões na cadeia, de preferência algemados, e identificar empresas e empresários envolvidos no pagamento de propina para declara-los inidôneos pelo resto da vida.                                                        

Trata-se do primeiro escândalo de vulto registrado no atual governo e a reação da presidente  da República não deixa dúvidas de que ela está mais para Itamar Franco do que para Fernando Henrique Cardoso e   Luiz Inácio da Silva. Sem contemporizar, ao primeiro sinal de denúncia afasta   todo mundo. 

***
SAUDADES DO ITAMAR                                                        

Duas vezes, como presidente da  República, Itamar Franco veio jantar em  minha casa, em Brasília, no tempo em que os presidentes da República  vinham jantar para conversas informais com jornalistas da crônica política. Na primeira,  ocupava interinamente a chefia da nação.  Apesar  de pela Constituição  Fernando Collor ainda poder voltar, Itamar havia  mudado todo o ministério. Confrontado com a imagem do antecessor, que tentara implantar a modernidade na economia do país, disse só aceitar a modernidade que levasse a todos os cidadãos os benefícios da civilização e da cultura.  Aquela definição marcou sua passagem de  dois anos e meio no governo, tornando-se uma espécie de anteparo aos ventos neoliberais do antecessor e do sucessor.                                                       

Na segunda vez, com a sucessão já definida em favor de Fernando Henrique, contou haver recebido o Lula em seu gabinete, no Planalto, servindo-lhe uma cachaça especial de Minas Gerais e dizendo que a garrafa ficaria ali à sua espera. Acrescentou que quanto mais velha ficasse a bebida, melhor. Era uma espécie de alento ao líder operário para aguardar com calma a passagem do  sociólogo pelo poder,  porque em seguida chegaria  a sua hora.                                                        

Agora que Itamar se foi, multiplicam-se elegias e panegíricos em sua homenagem, na imprensa inteira. É o reconhecimento póstumo de seu valor, porque enquanto  presidente recebeu petardos e pedradas da maior parte dos  meios de comunicação.  Os paulistas chamavam-no de caipira e atrasado, por haver sugerido ao presidente  da Volkswagen voltar a produzir o fusquinha, na verdade o único veículo que a classe média baixa podia adquirir.  Os cariocas zombavam dele por comportar-se como um homem comum, livre depois de desquitado,  dado a uma ou outra eventual conquista.                                                        

Poucos, como Itamar, representaram o brasileiro  médio, igual aos demais. Inflexível no trato da coisa pública e intolerante com a corrupção,  não vacilou  em afastar amigos e colaboradores acusados de irregularidades ou flagrados em incontinências verbais,  como Eliseu Resende, Rubem Ricupero e Henrique Hargreaves.                                                       

Deixando a presidência da República, verificou não ter como sobreviver, sem patrimônio nem emprego. Nomeado embaixador por Fernando  Henrique e depois  pelo Lula, nem por isso escondeu suas discordâncias com ambos. No interregno elegeu-se governador de Minas, insurgindo-se contra a ameaça de privatização da CEMIG. Mobilizou a Polícia Militar para cercar e  defender o palácio da Liberdade, levando para o além,  agora, as informações de que dispunha sobre a iminência de um ataque federal a Minas.

Adversário da reeleição, negou-se a disputar um segundo  mandato no governo mineiro, quando facilmente seria reeleito. Pena que seu retorno ao  Senado tenha durado menos de seis meses. Lá era sua casa, onde chegou com a onda de vitórias do MDB, em 1974,  jovem prefeito de Juiz de Fora. Permaneceu por dois mandatos, como dizia, o período mais fértil de sua vida política.

BNDES financia 85%, mas qual sua parte no Pão de Açucar-Carrefour?

Pedro do Coutto

Num lance arrojadíssimo, inusitado, o BNDES decidiu repentinamente financiar  a parcela de 85% da escalada do Pão de Açúcar em adquirir o Carrefour no Brasil,  mais uma participação na empresa francesa no exterior. Desembolso da ordem de 3,9 bilhões de reais: o crédito figura entre os três maiores na história do banco criado por Getúlio Vargas em 1951 e que começou a funcionar no ano seguinte. Teve atuação decisiva no programa de desenvolvimento econômico do presidente Juscelino.

Os repórteres Tomi Sciareta e Cláudia Rolli, da Folha de São Paulo, Márcia Chiara, O Estado de São Paulo, Ronaldo Ercole e Paulo Justus, O Globo, nas edições de 29 de junho focalizaram o episódio sob vários ângulos.
Todos controvertidos. A começar pela reação do gigante Casino, também francês, que se afirma ludibriado por Abílio Diniz e seu principal concorrente em Paris.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, o BNDES entrou com 85% da operação, mas qual a sua percentagem nas ações em garantia? A pergunta cabe porque a liberação do crédito, pelo que foi publicado, não se limita ao empréstimo colossal.

Estende-se à participação no empreendimento. Que é de risco. E pode até não se concretizar. O Casino publicou extensa e destacada matéria publicitária, primeiro na FSP, depois no O Globo, contestando o acordo Pão de Açúcar – Carrefour. Casino foi à justiça e sustenta que, por contrato firmado em 2005 com o Pão de Açúcar assumiria o comando de sua rede em 2012. Daqui a seis meses, portanto.

Além disso, qual o prazo de carência para o Novo Pão de Açúcar iniciar o resgate da dívida? Quais as frações do investimento e do crédito bancário? Isso é fundamental. Quem avaliza a operação? Qual o prazo dado para liquidação do crédito? Nada disso surgiu com a clareza indispensável.
No redemoinho existe também a participação do Banco Pactual que, me informam é controlado pelo banqueiro André Esteves, considerado um gênio do mercado financeiro. O Pactual compromete-se a aportar 690 milhões de reais.

Uma coincidência: informa a FSP que o Pactual tem entre seus sócios Cláudio Galeazi, ex-diretor do Pão de Açúcar. Acrescentando risco ao vôo financeiro, o Casino, no texto publicitário, acusa Diniz de jogar um lance de dados para fugir ao compromisso de transferir o comando da organização no próximo ano. E lembra ter financeiramente apoiado Abílio Diniz, há seis anos, com o compromisso do qual ele, agora, tenta escapar. O grupo Casino, que inclui a participação da grife Louis Vitton, destaca que em 2005 salvou Abílio Diniz de sérias dificuldades. O grupo Vitton participa do Casino através de seu controlador, Bernard Arnault.

Por todas as implicações nacionais e internacionais, o governo Dilma Roussef deve estar mais atento ao lance em jogo. A área econômica do país não é um cassino, para colocar um trocadilho no desenrolar da história. O item 8 do artigo 21 da CF diz competir à União: administrar as reservas cambiais e fiscalizar as operações de natureza financeira, especialmente as de crédito, câmbio e capitalização, bem como as de seguros e previdência privada. Tema portanto dos mais complexos.

Os defensores da operação argumentam que a nova empresa proporcionará a entrada de produtos brasileiros na Europa. Mas minha mulher, Elena, assinala que o movimento contrário sucederá com certeza: o ingresso no Brasil de mercadorias da Europa. Quem lucrará mais? O contrato exige iluminação mais ampla, devendo ter o sol por testemunha. Aliás um clássico do cinema francês.

Um homem chamado livro

Sebastião Nery

No dia 28 de janeiro de 1938, Getulio Vargas escreveu em seu “Diário” (Editora Siciliano/FGV, vol. II, pág. 176):

 “À noite, procura-me a Alzira (a filha Alzira Vargas) dizendo que a mulher do livreiro José Olimpio, que editara “A Nova Política do Brasil” (livro de Vargas em vários volumes), procurara-a chorando para dizer que o meu telegrama circular aos interventores, desaprovando a compra do livro, arruinava moral e materialmente seu marido. Fiquei realmente penalizado, mas não podia voltar atrás, porque quem me prevenira que se estava fazendo exploração para forçar a venda do livro fora o interventor de São Paulo (Ademar). Passei mal esta noite. Não pude dormir. Levantei-me e fui trabalhar até as três horas da madrugada. Excesso de fumo e café”.

Até 1º de maio de 1942, quando o “Diário” se encerra, Getulio não toca mais no assunto.Como podia ter feito aquilo com quem continuou editando seus livros, inclusive a série “O Governo Trabalhista do Brasil”?

***
GETÚLIO

O mistério só foi decifrado mais tarde. O jornalista Arlindo Silva, da revista “O Cruzeiro”, publicou reportagem na edição de 19 de abril de 1947, sobre a administração de Ademar de Barros em São Paulo (“O Governador Presta Contas”).

Ademar tinha sido interventor de 1938 a 1941 e foi eleito governador para 1947 a 1951. Arlindo Silva reproduziu o recibo da “Livraria José Olympio Editora”, referente à venda de 5 mil coleções dos cinco primeiros volumes de “A Nova Política do Brasil”, em 13 de dezembro de 1938, por 315 contos de reis.

Entre 28 de janeiro e 13 de dezembro de 38, Getulio, que não confiava em telefone (desde aquela época), deu um jeito de mandar pedir (ou ordenar) a Ademar que resolvesse o problema. Ademar resolveu.

***
JOSÉ OLYMPIO

Essa é uma das numerosas historias e documentos de um livro-monumento, do incansável jornalista, pesquisador e também grande editor (da Topbooks) José Mario Pereira, sobre 60 anos (de 1931 a 1990) de pioneirismo de um “civilizador do Brasil”, José Olympio Pereira Filho: – “José Olympio – O Editor e sua Casa” (Editora Sextante). 

São 421 paginas, projeto grafico do consagrado artista Victor Burton, primorosamente impresso, com centenas de ilustrações, fotografias, documentos e a capa dos principais livros editados por José Olympio em   meio século (nasceu em dezembro de 1902 e morreu em maio de 1990). 

José Olympio foi sobretudo um liberal da cultura e da política, um homem sem preconceitos, aberto a todas as ideias e todos os debates.

Judiciário vetusto e divorciado da sociedade

Roberto Monteiro Pinho

O Conselho Nacional de Justiça, com base no artigo 66, parágrafo 1°, da LC n° 35/1979, acabou de comunicar que os prazos para recurso nos tribunais superiores – sediados em Brasília – ficarão suspensos a partir de 2 de julho (sábado) e voltarão a correr no dia 1º de agosto (2ª feira) , em razão das férias de segundo grau. No período de 4 a 29 de julho, o expediente para atendimento ao público nos tribunais, será das 13h às 18h, mas, internamente, as unidades funcionarão em horário normal.

Esta é uma das pequenas mazelas que no conjunto de tantas outras existentes no próprio judiciário, contribuem para a lentidão processual, embora destaco: sejam as injunções praticadas pelos magistrados no curso da condução do processo, (neste particular a justiça laboral), produz um dos mais graves males para debilitar e levar este judiciário para a situação caótica em que se encontra. Vale lembrar que o recesso para os ministros no total de 30 dias elastece o prazo da ação, são milhares de recursos que só serão julgados no retorno dos ministros à atividade judicante.  Em se tratando de tribunais superiores, onde são julgados os recursos, na sua maioria nulidades e violação de normas constitucionais, a qualidade da justiça também é afetada.

A PEC dos recursos apresentada no Senado é inquietante, não pelo simples fato de ser proposta, mas pelo que ela poderá produzir, caso seja aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente Dilma Roussef. Entendo que o front jurídico montado pelo ministro Cezar Peluso colide frontalmente com o processo democrático vigente, pois não permitira que um acusado recorrente fosse este inocente ou tenha a ele atribuí do uma responsabilidade, não possa se defender, estando ai, maculado a máxima do direito ao devido processo legal consagrado pela Constituição Federal no art. 5º., LIV e LV, de que: “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal e ao garantir a qualquer acusado em processo judicial o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”.

Suponhamos que um trabalhador inicie sua ação alimentar na justiça laboral, e o processo chegue ao seu ponto máximo, onde tenha que recorrer de questão puramente constitucional estaria ele impedido dentro do processo do trabalho a pleitear seu direito na instância superior?

Vale lembrar que além destes dois incisos da Carta Cidadã, outros tratam das garantias judiciais, a saber: ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante, e a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra, da casa, da correspondência, das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas e da imagem das pessoas“. O Estado de direito estaria então ameaçado, senão vejamos:não haverá juízo ou tribunal de exceção“, e ainda, “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”, também, a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu“, ou, “nenhuma pena passará da pessoa do acusado“, idem, “individualização da pena, idem, “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente“. Ainda no caso das nulidades e da confissão por meio torpe e violento: “inadmissibilidade, no processo, das provas obtidas por meio ilícitos“, e mais, “não culpabilidade até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória“, acrescido de “publicidade dos atos processuais“, e de “direito ao silêncio“. É deveras preocupante a proposta do ministro Peluso.

Há pouco em entrevista concedida ao jornal da OAB do Paraná, o brilhante sumptuoso ministro do STF, Marco Aurélio de Mello, desferiu criticas contundentes a PEC dos recursos, alertando que, “A PEC dos Recursos não foi pensada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Na verdade, ela saiu da cachola do presidente Cezar Peluso”. O ministro argumentou que “a proposta, conflita com os princípios básicos da Constituição, principalmente no que se refere a processos crime”. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Ophir Cavalcante, também se manifestou sobre o assunto, divulgado na página da internet da OAB Federal, ao destacar ele a importância do advogado no Estado Democrático de Direito. “O advogado assume papel relevante para consolidação da sociedade democrática”. O dirigente alertou que a PEC dos Recursos, ao restringir o acesso aos tribunais trará conseqüências desastrosas ao Estado de Direito Democrático.  

É uma proposta feita no Congresso nacional para que a maioria dos casos não alcance os tribunais superiores, adverte Ophir, “Temos prazos que têm de ser cumpridos”. Não devo esgotar os argumentos tão somente no nosso texto constitucional e do Código de Processo Penal, quero lembrar os pactos internacionais subscritos e adotados pelo nosso Direito Positivo. Temos o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos firmado em Nova York, em 19 de dezembro de 1966 e promulgado pelo Governo brasileiro através do Decreto nº. 592/92, onde estabelece em suas cláusulas preceitos garantidores e reveladores de um devido processo legal. E não menos adjetivo o Pacto de São José da Costa Rica, de 22 de novembro de 1969, promulgado no Brasil pelo Decreto nº. 678/92.

Continuo acreditando na seleção brasileira

Vicente Limongi Netto

Claro, o Brasil não jogou nada contra a Venezuela. Mas não é o fim do mundo para a seleção brasileira. Geralmente é assim, quando se joga contra adversário ruim. Se os gols não aparecem, a irritação, a pressa e a precipitação tomam conta dos nervos dos jogadores. O Brasil começou com tudo. Percebeu que o adversário era limitado. Como não conseguiu abrir o placar, os venezuelanos, mas parecidos com um time de universitários, cresceram, tiveram fibra e garra para manter o zero a zero, o que significou uma vitória retumbante para eles.

Na verdade, todas as seleções crescem contra nós. Fazem de tudo para vencer a seleção pentacampeã do mundo. Contra o Paraguai o Brasil terá que ser mais objetivo e mais rápido. Evitando passes errados e cruzamentos medíocres. Continuo confiante nos talentos de Ganso, Neymar e Lucas. Basta jogarmos com mais seriedade, sem a tolice de subestimar o adversário. O jogo é jogado, o lambari é pescado.

TCU manda fazer concursos para substituir terceirizados, mas o governo faz o contrário: proíbe os concursos e novas contratações. Tudo isso com base num decreto criminoso de FHC.

Carlos Newton

O Brasil é um país realmente surrealista. O Ministério da Defesa continua sob o comando de um político sem nenhuma honra, que jogou sua biografia na lama, ao se jactar de que sozinho teria mudado a Constituição, incluindo no texto um artigo que não havia sido aprovado nas Comissões. Quer dizer, é um réu confesso de fraudar a Constituição, e o fez para beneficiar os bancos, tornando obrigatório o pagamento de qualquer dívida que o governo faça com eles.

Se o então deputado Nelson Jobim (PMDB-RJ) fez essa fraude, na condição de sub-relator da Constituinte, Fernando Henrique Cardoso não ficou atrás. Dez anos depois, em 1997, como presidente da República, FHC assinou o decreto 2.271, que “dispõe sobre a contratação de serviços pela Administração Pública Federal direta, autárquica e fundacional e dá outras providências”.

É um texto criminoso, tão criminoso quanto a fraude de Nelson Jobim. Com uma penada, simplesmente FHC revogou o item II do art. 37 da Constituição, que determina: “A investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração”.

Mais adiante, em seu item IX, o mesmo art. 37 exige: “A lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público”. Ou seja, somente lei complementar pode estabelecer esses casos excepcionais. E lei complementar precisa ser aprovada pelo Congresso com maioria absoluta (metade dos votos mais um). Mas FHC resolveu o assunto usando apenas o decreto.

Além de abrir a administração pública à terceirização, o presidente ainda teve a ousadia de indicar quais as atividades que serão, de preferência, terceirizadas: conservação, limpeza, segurança, vigilância, transportes, informática, copeiragem, recepção, reprografia, telecomunicações e manutenção de prédios, equipamentos e instalações. Estas serão, de preferência, terceirizadas, mas nada impede que outras funções também o sejam, salvo a chamada atividade-fim.

Mas o que é atividade fim? O decreto não define, não há nenhuma lei que o faça. Com sua mania de bancar o moderninho privatizante, FHC bagunçou completamente o serviço público. Jogou no lixo da criação do DASP, feita por Vargas, e ainda recebe agora um festival de homenagens ao fazer 80 anos. Que país!

Com base no decreto de FHC, a Petrobrás, com 80 mil empregados efetivos, já tem 291 mil terceirizados. Furnas, com um efetivo de 4 mil e 500, tem 1.850 contratados há mais de dez anos. O Banco do Brasil tem 36 mil; a Caixa Econômica Federal, 24 mil. Os terceirizados são fundamentais para manter os serviços, ninguém contesta. Mas essa farra do boi inconstitucional tem de parar. 

Mas a contratação de mão de obra terceirizada foi mantida e até turbinada na gestão de Lula e continua em alta no mandato de Dilma Rousseff. De janeiro a maio, as despesas com terceirização somaram R$ 1,33 bilhão, ou seja, 21% acima do que foi gasto no mesmo período de 2010: R$ 1,1 bilhão. Os valores consideram os gastos com dois itens da despesa orçamentária: “locação de mão de obra” e “despesas com pessoal decorrente de contratos terceirizados”.

Pressionada pelo Tribunal de Contas de União (TCU) para reduzir o número de terceirizados nos próximos anos, a Petrobras decidiu mudar o critério de como contabiliza seu quadro de empregados, que passou a excluir funcionários de empresas contratadas que atuam fora das unidades da companhia.

Com esse ardil, sem que houvesse demissões, quase 20 mil terceirizados sumiram das estatísticas da estatal no segundo semestre do ano passado, de acordo com dados enviados pela empresa à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nas estatais Banco do Brasil (BB) e Eletrobras, os números oficiais indicavam aumento de terceirizados em 2010. A Caixa Econômica também tem milhares de terceirizados.

O governo Lula deu show de terceirização na Petrobras, que tem vários sindicalistas em cargos-chave.O contingente de terceirizados dobrou entre dezembro de 2005 e junho de 2010, de 156 mil para 310 mil terceirizados, chegando à relação de quatro para cada concursado (76.977, em junho).

O quadro chamou a atenção do TCU, que investigou contratos de estatais e identificou “indícios de burla à legislação”, com terceirizados atuando em atividade-fim ou subordinados a concursados, o que é proibido pelo artigo 37 da Constituição. O TCU recomendou a substituição desses terceirizados por concursados em cinco anos a todas estatais.

Mas acontece que o governo Lula Rousseff proibiu novos concursos e contratações. Traduzindo: o TCU não será obedecido e ninguém tomará providências. É tudo um jogo de faz-de-conta. Uns fingem que mandam e outros fingem que obedecem.

Na fusão Pão de Açúcar-Carrefour, o Pactual vai pagar com recursos próprios ou com moeda podre, como fez no caso do Banco PanAmericano?

Carlos Newton

Devagar, devagarinho, o Banco BTG Pactual aos poucos vai se tornando um importantíssimo agente financeiro, em função da série de tacadas precisas de André Esteves. Mas será que vai integralizar sua participação no Pão de Açúcar/Carrefour com recursos de moeda podre (Fundos de Compensação de Variações Salariais do Ministério da Fazenda, corrigidos pela TR) como fez no caso do Banco PanAmericano?

Vamos lembrar um pouco as manobras radicais de André Esteves. Liderada por ele, a venda do Pactual para o Banco UBS em 2006 foi fechada na cidade de Nova York, e terminou com o pagamento de US$ 3,1 bilhões do UBS pelo Pactual. Esteves detinha 30% das ações do Banco e se tornou definitivamente bilionário.

 Em 2008, ele se alia ao economista Persio Arida, a um grupo de antigos sócios do Banco Pactual e a diretores executivos do UBS, para criar a BTG, uma empresa de investimento global.

No ano seguinte, a surpresa: a BTG recompra o Pactual do UBS por US$ 2,5 bilhões, ou seja, com deságio de US$ 600 milhões, formando assim o BTG Pactual. Com escritórios em Nova York, Londres e Hong Kong, o BTG Pactual se tornou um banco de investimentos nacional com alcance global.

No início deste ano, após o escândalo da associação da Caixa Econômica Federal com o Banco Panamericano, com a estatal investindo cerca de R$ 750 milhões para se associar minoritariamente a uma instituição mais do que falida, quando foram identificadas fraudes contábeis que causaram prejuízos inicialmente calculados em R$ 2,5 bilhões (mas posteriormente corrigidos para mais de R$ 4 bilhões, e depois novamente corrigidos para R$ 6 bilhões, e agora aguarda-se o próximo balanço…), o BTG Pactual aproveitou a oportunidade para adquirir o Banco Panamericano por modestos R$ 450 milhões, em moeda podre.

Agora, no caso do Pão de Açúcar/Carrefour, o BTG PACTUAL vai integralizar sua participação com recursos em caixa ou novamente com moeda podre (os Fundos de Compensação de Variações Salariais) a parte que lhe cabe nesse latifúndio, de quase R$ 700 milhões?

E a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), hein? Vai fiscalizar? Duvido.

Na quadrilha montada por Cabral para roubar o Estado, um destaque especial para Sergio Côrtes, o secretário de Saúde, que Dilma quase nomeou ministro.

Carlos Newton

É impressionante o volume de denúncias que chegam à Tribuna pela internet, contra o governador Sergio Cabral e a quadrilha que ele instalou na administração do Estado do Rio de Janeiro. O mais notável é que as denúncias vêm acompanhadas de reproduções de documentos oficiais, como escrituras públicas, carnês de IPTU, publicações em Diário Oficial e tudo o mais.

Essa reação da sociedade é altamente positiva, porque demonstra que a união dos cidadãos cria uma extraordinária força complementar, que pode até atingir importância superior à da atuação dos Ministérios Públicos, dos Tribunais de Contas, das Comissões Parlamentares de Inquérito e da própria Justiça, como um todo.

No caso das aberrações registradas no governo do Estado do Rio de Janeiro, a internet na verdade está passando por uma espécie de teste de força, porque não se pode confiar plenamente nas outras instituições que deveriam agir em nome do interesse público.

Como se sabe, o Tribunal de Contas do Estado está contaminado pela nomeação de políticos de currículo péssimo e caráter idem. O Ministério Público também tem envolvimento direto com o Executivo. E a Assembléia Legislativa do Rio vive seu pior momento, com uma bancada de oposição formada por apenas 11 deputados (em 70).

Portanto, para organizar de imediato uma movimentação de repúdio aos desmandos de Sergio Cabral na administração do Estado do Rio de Janeiro, só restou a internet, que felizmente já se tornou no Brasil uma arma política de grande alcance, cuja importância só tende a aumentar progressiva e velozmente, através da chamada democratização da banda larga.

Paradoxalmente, Sergio Cabral ainda pensa que poderá escapar ileso dessa situação. A desculpa da inexistência de um Código de Conduta, sugerida após dias e dias de incessantes reuniões da cúpula do governo, demonstra uma desfaçatez realmente inacreditável. Ao usar essa desculpa inconcebível, na verdade, Cabral simplesmente confessou sua “má conduta” e agora quer criar um Código especial para que nossos governantes possam saber o que é certo ou errado, 2.500 anos depois da instituição da democracia na Grécia.

Então, alguém realmente acredita que seja preciso criar um Código para que o governador enfim saiba até onde pode ir sua intimidade com um empresário? Nosso dedicado governador vai mesmo pesquisar “nos outros estados, no Brasil e no mundo”, para aprender a se portar como um homem público? Será que ouvimos bem?  

Na realidade, trata-se de um governante que “adora Direito Comparado”, mas não sabe o que é certo e o que é errado. E agora, quando já está no segundo mandato como governador, subitamente ele decidiu discutir “regras sobre o assunto” com o secretário da Casa Civil, Régis Fichtner, como se todos fossem engolir essa cortina de fumaça.

Cabral julga que Fichtner, por ser procurador de carreira, conseguirá convencer seus colegas do Ministério Público Estadual a não abrirem o inquérito contra o governador, como base nas denúncias publicadas pela imprensa. O procurador-geral, Claudio Lopes, fez sua obrigação, enviando ao governador, na última quarta-feira, um pedido de explicações sobre seu relacionamento íntimo com diversos empresários e também sobre a bilionária e inexplicável renúncia fiscal beneficiando até “empresários” de termas, que a vox populi chama diretamente de puteiros.

Como o MP lhe concedeu 30 dias para se explicar, Cabral espera que o tempo corra a seu favor e até lá o escândalo já tenha sido superado. Aposta também que, nesse intervalo, as conversações de seu chefe da Casa Civil, Regis Fichtner, já tenham surtido efeito, abortando a abertura da investigação da Procuradoria sobre o enriquecimento ilícito de Cabral e suas ligações íntimas com empresários de grande envergadura.

A abertura desse inquérito seria o primeiro passo para uma ação civil pública por atos de improbidade administrativa, a ser dirigida contra o governador e os beneficiários diretos dos seus favores ilícitos (empresários Arthur Cesar e Fernando Cavendish, o secretário de Saúde Sergio Cortes e muitos outros), pela configuração, em tese, de diversos crimes, principalmente  tráfico de influência e corrupção.

O que o governador não está levando em conta, nessa equação, é a importante variável da internet, que continua a despejar e fazer circular cada vez mais denúncias e documentos contra a quadrilha de Cabral, demonstrando que, certamente devido à falta desse tal Código de Ética, ele não somente ainda não sabe distinguir o que é interesse público e privado, com também costuma misturar suas relações na vida pública e na privada.

Do farto material que circula na internet contra Cabral, o mais impressionante, não há dúvida, são as denúncias contra o secretário de Saúde, Sergio Côrtes, seu vizinho no luxuoso Condomínio Portobello, em Mangaratiba. E pensar que Cabral quase conseguiu que a presidente Dilma Rousseff nomeasse Sergio Côrtes para o Ministério da Saúde. Que sorte que ela deu.

Adeus a Itamar Franco, exemplo e emblema para a história

Pedro do Coutto

De repente no último verão, para recorrer a um título de Tennessee Williams, depois de mais uma vitoria nas urnas, o senador Itamar Franco descobriu que a leucemia o estava torpemente apunhalando. Lutou com bravura, como sempre fez ao longo de sua bela vida política, mas não pode resistir a essa cilada do destino. Morreu no alvorecer de sábado, deixando para a história do Brasil um exemplo raro de integridade absoluta, sobretudo nos dias de hoje quando se torna pouco nítida a linha que separa os interesses públicos de objetivos particulares, e um emblema eterno de espírito público. 

Apresentado a ele por nosso grande amigo comum, o saudoso José Aparecido de Oliveira, durante um almoço em sua casa, percebi logo seu caráter. Um homem honesto, sobrevivente de uma espécie de políticos do passado que me parece em processo de extinção. Os fatos concretos que estão aí comprovam minha afirmativa.

Era um sábado. Ele estava assumindo interinamente a presidência da República numa viagem ao exterior de Fernando Collor. Um ano depois, assumiria em definitivo o Palácio do Planalto, consequência do desabamento interior do titular eleito em 89.

Teve visão. Assumiu em momento de crise aguda, dignificou o posto, dignificando-se a si mesmo e resgatando espaços decisivos da ética e da moral pública. Foi o autor da emenda constitucional 33/1993 que criou a CPMF, cuja receita para a Saúde seria dividida com os bancos a partir de 95 para assegurar o pagamento dos juros para rolar a dívida interna.

Dívida interna? Itamar a deixou na escala de 62 bilhões de reais.
Itamar tornar-se-ia também – ele sim, e não Sarney (art. Folha de São Paulo de 02/07)  – o verdadeiro autor e responsável pela elaboração e pelo lançamento político do Plano Real, que mudou para melhor a face da economia brasileira. Não só da economia, mas da sociedade brasileira.

Estava esquecendo de dizer, mas preencho a lacuna: FHC recebeu a dívida interna em 62 bilhões e multiplicou por onze vezes aos juros de 26%. Um desastre. Itamar empenhou-se a fundo em sua vitória sobre Lula. Não fosse seu apoio, FHC dificilmente chegaria ao poder. Reeleito então com seu próprio esforço, nele FHC permaneceu por oito anos.

Na alvorada de 2002, outra atuação decisiva de Itamar Franco, então governador de Minas, para a vitória de Lula. Abriu mão da reeleição em favor de Aécio Neves, que se elegeu por larga margem de votos. Com isso, Itamar não só forneceu a Lula 50% dos votos mineiros, como – detalhe essencial – imobilizou o próprio Aécio, indiretamente impedindo que pudesse apoiar José Serra, seu companheiro do PSDB na época. Hoje Serra e Aécio encontram-se em pólos opostos na estrada da oposição a Dilma Roussef. Mas este é outro problema.

No adeus a Itamar, tenho certeza de que, nesta altura, ele já se encontrou com José Aparecido e  Juscelino na eternidade. Viajou para o céu numa nuvem de honestidade, de integridade de compromisso social. Não fossem tais características, não teria sido responsável pela indicação do engenheiro José Pedro Rodrigues para presidir Furnas no primeiro mandato do presidente Lula.

No momento em que Itamar parte e segue seu destino, escrevo este artigo convencido de sua grande dimensão política. Ele mudou a rota do país quando este parecia que ia mergulhar numa catástrofe e num abismo sem volta.

A Nação deve isso a ele.