Processo contra a TV Globo/SP está parado, devido à morosidade do ministro Luis Felipe Salomão, que até hoje não encaminhou seu voto, mais de 2 meses depois do julgamento.

Carlos Newton

Acredite, se quiser: há exatos 70 dias a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, chamado de “Tribunal da Cidadania”, julgou recurso dos herdeiros dos antigos acionistas da TV Globo de São Paulo contra decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que considerou prescrito o direito de ação deles, que contestavam a aquisição daquele canal de TV pela família Marinho por meio de documentos considerados anacrônicos e imprestáveis, pelo conceituado Instituto Del Picchia de Documentoscopia.

O relator do importante e complexo processo foi o ministro João Otávio de Noronha, presidente da 4ª turma, que não só acolheu pedido de preferência para esse julgamento, como concluiu a revisão de seu voto em apenas uma semana. Seu longo voto encontra-se na Coordenadoria da Turma desde 1º de setembro, porém, ainda não pôde ser publicado porque o ministro Luis Felipe Salomão, que sem reservas acompanhou o voto do relator, até agora não concluiu sua manifestação e que em nada alterará o resultado do julgamento.

Com isso, o ministro Salomão apenas está conseguindo retardar a entrega da prestação jurisdicional buscada há 10 anos, e isso está acontecendo por “excesso de trabalho”, segundo alegado por sua assessoria.

Nesse sentido, oportuna a citação de trecho de entrevista dada ao jornal “O Estado de S. Paulo” pela ministra Eliana Calmon, nova Corregedora-Geral do Conselho Nacional de Justiça, para quem o Judiciário “está 100 anos atrasado. Eu sou uma magistrada que teme precisar da Justiça”.

Em outra entrevista, desta feita à revista Veja, a mesma magistrada foi além, acentuando que “o Judiciário está contaminado pela politicagem miúda, o que faz com que juízes produzam decisões sob medida para atender aos interesses dos políticos, que, por sua vez, são os patrocinadores das indicações dos ministros”.

O absurdo dessa lentidão foi também bem enfocado, recentemente, pelo ministro Carlos Britto, do Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento de mandado de segurança contra morosidade verificada em processo que tramitava em instância inferior:

“De nada valeria declarar com tanta pompa e circunstância o direito à razoável duração do processo se a ele NÃO CORRESPONDESSE O DEVER ESTATAL DE JULGAR. Dever que é uma das vertentes da altissonante regra constitucional de que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”(…) “O que importa considerar em termos de decidibilidade, é que os jurisdicionados não podem pagar um débito a que não deram causa. O débito é da Justiça e a fatura tem que ser paga é pela Justiça mesma. Ela que procure e encontre a solução para esse brutal descompasso entre o número de processos que lhe são entregues para julgamento e o número de decisões afinal proferidas”.

Nada mais precisa ser dito. Apenas que urgentemente o Conselho Nacional de Justiça e o Poder Legislativo estudem penas para o ministro que pede vista de processos relatados por outros ministros, interrompendo o julgamento e esquecendo os autos em seu gabinete, como qualquer outro dos milhares de feitos de sua relatoria.

Exemplo de penalidade leve e eficaz: não seria incluído em pauta de julgamento nenhum outro processo de ministro, que, após 20 dias de vista, não devolvesse o referido processo para a continuação do julgamento. Ele deveria ser obrigado a dar preferência no exame do processo que foi retirado de pauta por conta do pedido de vista.

Lula interferindo mais rápido do que muitos imaginavam: “Não quero Palocci em lugar de destaque para não fazer sombra à Dilma”. Na verdade, Lula cuida do espólio da Dilma, e da sua tão tramada e premeditada herança 2014.

Helio Fernandes

Para quem não acompanha o jogo político, pode ser estranho, que 24 horas depois da eleição da Dilma, o ainda presidente Lula já começa a vetar nomes de possíveis ou futuros ministros. Lula ainda é presidente, Dilma já é presidente, uma coisa nada a ver com a outra.

Mas é sempre assim, em qualquer parte do mundo. Como o presidente (ou primeiro-ministro) não pode tomar posse no mesmo dia da eleição, existe ou se forma o que chamam de transição, vácuo, vazio de poder. No Brasil vai de 31 de outubro (no caso do segundo turno) até 1º de janeiro, quando então ocorre a posse do eleito.

Mas nesta sucessão, as coisas se passaram de forma surpreendente, digamos, um presidente poderoso elegendo alguém sem importância. E por conta disso mantendo (ou pretendendo manter) os direitos ou os royalties sobre esse Poder. Ninguém ignorava que isso aconteceria, mas não se imaginava que começasse tão cedo.

Mas convenhamos, Dilma foi insensata ao anunciar como “homem forte” do seu governo (uma nova Erenice masculina) o ex-ministro Palocci. Ora, tendo estado ao lado de Lula nos últimos quatro anos, dentro do próprio Planalto, Dilma tinha obrigação de conhecer a “filosofia” de Lula em relação à repercussão de auxiliares, fossem de que estágio fossem.

E mais ainda definitivo: foi por causa dessa “filosofia” (desculpem, chamemos assim) de Lula, que Dilma foi retirada do limbo e elevada aos céus. E um que foi sacrificado “para não fazer sombra a Lula” foi o próprio Palocci, mas só no segundo mandato.

Sua entrada em cena logo no início, e como ministro da Fazenda, assombrou o próprio PT. No partido, Palocci era tido como um caboclo que viera do interior, acusado das maiores irregularidades e subia na pirâmide do governo.

Espantoso. Mediocríssimo, era identificado como marxista, porque tinha um sócio e parceiro nas tramóias e falcatruas, que se chamava Marx. Palocci ria muito quando o chamavam de “marxista”.

Palocci começou a crescer e a subir, a ponto de Lula dizer muitas vezes e publicamente: “Fico torcendo para o Palocci me dar sinal verde para abaixar os juros”. Era a evidência e a confirmação: Palocci subira mesmo, “então vamos aderir”.

(A escolha de Meirelles para o Banco Central, também foi um choque para aqueles raros do PT, que acreditavam em alguma coisa, não queriam apenas cargos e “mensalão”. Tiverem que se render a Meirelles, quando receberam a explicação: “A nomeação dele é exigência do sistema financeiro norte-americano”. Exigência tão exigente, que Meirelles já está há 8 anos, e se prepara para a adaptação: ficará no BC ou irá para onde o sistema financeiro decidir).

Dilma devia saber e conhecer os métodos do chefão. Desde a demissão de Cristovam Buarque (pelo telefone), de Mercadante (pela omissão e o desprezo), de Dirceu (por causa do mensalão), Lula ia ceifando os que tentavam aparecer e se credenciar como possíveis sucessores.

Dilma precisava da sensibilidade política para perceber: a nomeação de Palocci como chefe do período de transição, e depois ministro da Fazenda, era ao mesmo tempo suicídio virtual e desafio ao próprio Lula, a quem deve tudo.

E não é segredo para ninguém; assim como tirou Dilma do nada e elevou-a ao máximo, Lula preservará sem um pingo de hesitação, seu futuro mandato, daqui a 4 anos, sucedendo à própria Dilma. Nem contra nem a favor, apenas realidade ou fato indiscutível. Se alguém tem direito de seu o sucessor de Dilma, lógico, não tem mais direito do que Lula. E Dilma deve agradecer ao ainda presidente, a generosidade de deixar que ela complete os 4 anos. E se não quiser, ela não completa e não acontece coisa alguma.

Sejamos justos na análise: Lula queria ficar longe de tudo, não intervir, deixar a presidente Dilma erra sozinha, mas só a partir de 1 º de janeiro. Não podia assistir, estarrecido mas silencioso, a nomeação daquele que “já afastara do próprio caminho”. E Palocci era e continua sendo o mais representativo de todos.

O raciocínio (?) de Lula não foi hostil e sim previdente: “Para tranquilidade de Dilma, veto o Palocci agora, para não vetar em massa depois”. Ele é o chefe, é o homem mais poderoso, não pode assistir “escorregões” como esse.

Lula também não gostou da afirmação da presidente Dilma: “Vou renovar inteiramente a equipe de governo”. Lula riu, e disse para o Gilberto Carvalho (que já determinou que fique no Planalto, vigiando a Dilma): “Onde a Dilma vai buscar 37 ministros para fazer o que ela chama de RENOVAR o governo?  Não respeita os que governaram comigo”?

Lula sabe o que está dizendo, quando pergunta “onde Dilma irá buscar 37 nomes para completar o governo”? Ele chegou a esse número pela sua própria incapacidade de conseguir menos do PMDB. Que agora está querendo 11 ministérios, impossibilidade total. Pois os “partidos da base”, (10) também “querem mais”.

E não só ministérios. A Petrobrás tem subsidiárias e diretorias, verdadeiras potências. Um delas, a Transpetro, está desde 2003 com Sergio Machado, que não se reelegeu senador, foi para lá, transportado pelo amicíssimo Renan Calheiros. Falaram em  substituir Sergio Machado, o alagoano gritou: “fui reeleito, quero mais do que antes”.

***

PS – Ainda não abriu a temporada de caça aos cargos, mas o tiroteio já é grande. Há meses, depois que Erenice Guerra se “desmascarou”, disse aqui: “O chefe da Casa Civil de Dilma deverá ser Paulo Bernardo”.

PS2 – Tinha condições positivas, não rouba, não é brilhante, trabalhador, tem que ser aproveitado.

PS3 –Saindo, Paulo Bernardo deixa vago o inexpressivo ministério do Planejamento. Ótimo para o também inexpressivo Mercadante. Como já está tudo “planejado” entre Dilma e Lula, ótimo para Mercadante.

PS4 – Esse ministério é tão “desimportante”, que não tendo sobrado nada para Mantega, no primeiro governo Lula, contrariado, foi para lá.

PS5 – Vagou o BNDES, mudou, depois pulou para o Ministério da Fazenda, tão desconhecido que substituiu Palocci sem nomeação. Agora deve ficar na Fazenda, Dilma já disse: “Quero decidir no Ministério da Fazenda”. Ótimo, deixa Mantega lá.

PS6 – Falam muito que a diretora da Petrobras, Graça Foster, vai para “um cargo importante, por ser amiga de Dilma”. Podiam dizer, por ser competente.

PS7 – Sergio Gabrielli queria ser presidente da nova empresa “que administrará o pré-sal”. Recebeu um NÃO bem grande. Ficará na Petrobras, onde não manda nada, divide tudo com mais de 400 assessores. Depois, disputará e perderá o governo da Bahia.

PS8 – Foi puro ato insensato DOAR a vice ao troglodita (com 21 acusações não respondidas) Michel Temer. É agora, o segundo homem  do Poder. Que República.

PS9 – Se o PMDB quer 11 ministérios, quantos terão que ir para o PT? O PMDB, na maioria, é composto de lobistas, se assanham mas se acomodam.

PS10 – O PT vem cheio de reivindicação, e com um estado de espírito muito longe da acomodação. Este é o quadro geral, poucos dias depois da eleição. Aguardem, isso ainda é o mínimo.

Aécio-Serra-Alckmin-PSDB

Helio Fernandes

Antes da eleição, dizia e repetia: o ex-governador de Minas (saiu em março) não apoiará Serra nem será vice na sua chapa. Durante meses insisti: se Aécio aceitar a vice com Serra, podem dizer que sou o pior analista do mundo. Não aceitou.

No segundo turno, concordou em acompanhar Serra, a Veja colocou na capa: “Aécio é a empolgação na campanha de Serra”. Escrevi: se Serra perder, vão culpar Aécio. No domingo mesmo, depois da vitória de Dilma, escrevi o óbvio: a vida de Aécio vai se transformar num inferno, já está acontecendo.

Não esperaram uma semana. Queriam o quê? Principalmente depois de Serra dizer publicamente: “Isto não é despedida, adeus, apenas até logo”. O que Aécio responderá?

ALCKMIN CONSTRANGIDO E CONTRARIADO

Não gostou da declaração de Serra, se lançando para o futuro. Só que não podia protestar, o que fazer? Mas não esconde. “Antes de Serra ser presidenciável pela terceira vez, tenho o direito de tentar a segunda”. E conclui: “Se eu perder para o Lula em 2014, Serra fica com o caminho limpo”. Não acreditava que Alckmin, tão medíocre, pudesse manejar a ironia.

PMDB FORA DA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA

Os lobistas do PMDB não ocuparão o cargo. A situação mudou, os lobistas farão o presidente do Senado, e só. Além do PT de bastidores estar mais forte e “reivindicante” do que o PMDB, os números agora são outros. E o PT tem maioria.

Quem ficará no lugar de Meirelles?

Helio Fernandes

Concordou com Lula (com quem mais poderia concordar?) que ficaria mais um ano no BC. Dona Dilma quer confirmá-lo, mas ele já disse a Lula: “Já estou há 8 anos nesse cargo, mais 4 não aguento”.

Lula disse a ele: “Você pode ser embaixador dos EUA, depois estudamos o resto”. Meirelles disse SIM, a comunidade financeira, idem, idem.

Meirelles gostaria de ser presidente da República. Dois obstáculos intransponíveis. 1 – A vez é do próprio Lula. 2 – A Constituição brasileira exige para o cargo, “brasileiro nato”. Foi o que ocorreu com Kissinger nos EUA).

Brasília pede socorro

Carlos Chagas

As eleições de domingo revelaram que o povo de Brasília rejeitou o terrorista, no caso, com todo o respeito, Joaquim Roriz, mas que nem por isso o chefe do esquadrão antibomba, Agnelo Queirós, conseguirá desarmar o petardo prestes a explodir na capital federal.

Explica-se a imagem: Brasília foi construída para trazer o desenvolvimento ao Centro-Oeste, o que foi conseguido, mas não para constituir-se no formigueiro em que se transformou. Idealizada para centro administrativo e político do país, era para chegar aos 500 mil habitantes na virada do século XXI. A vida distorceu o sonho de JK quando se atenta para o fato de que só o Distrito Federal já hospeda 2,5 milhões de habitantes, sendo que,  reunido o entorno, chegamos a 4,5 milhões de cidadãos. Joaquim Roriz, no caso, foi o responsável por essa expansão, depois de quatro governos distribuindo lotes e  convocando o Brasil subdesenvolvido a auferir das benesses  de uma fantasia. Coisa que, se porventura eleito, ou sua mulher, seria elevada à última potência.

Basta lembrar que São Paulo levou 400 anos para chegar aos 2 milhões de habitantes, ficando claro que a velocidade do crescimento de Brasília desfez qualquer projeto de criação de um centro ordenado de progresso e de  comando nacional. A cidade e a região transformaram-se num buraco  negro capaz de sugar luz, matéria e energia do universo brasileiro.  Porque aqui, apesar de lastimáveis, as condições de vida são superiores às do Norte, Nordeste e adjacências. Se os hospitais tornaram-se um inferno, as escolas, sucursais do purgatório, a segurança,  um perigo constante, e até o trânsito, um caos, a verdade é que a  capital federal ainda é a solução para legiões de miseráveis e impossibilitados de sobreviver ao seu redor.  Basta lembrar que prefeitos de  Goiás, Tocantins,  Bahia,  Piauí, Maranhão, Minas e outros estados, em vez de investirem em  meros  postos de saúde em seus  municípios,  preferem adquirir ambulâncias para transferir seus doentes para Brasília. E estimulando seus habitantes menos favorecidos a tomarem o rumo da capital federal, onde até lotes são entregues aos recém-chegados.

O resultado é que até  agora as sucessivas administrações locais não deram conta de implantar serviços públicos bastantes para a legião dos desesperançados que aqui chegam com a esperança de vida melhor. Mesmo sem emprego, ainda conseguem evitar a morte dos filhos enfrentando filas monstruosas nos hospitais, ou inscrevê-los em lamentáveis escolas públicas.

Quem mais contribuiu para esse horror foi Joaquim Roriz, cuja mulher, felizmente derrotada nas eleições, prometia dobrar o bolsa-família, perdoar dívidas no banco oficial e nas multas de trânsito e sustentar os desempregados por tempo indefinido. Fazer o quê diante da realidade? Expulsar e mandar embora  irmãos nossos seria inominável. Fechar as barreiras do Distrito Federal, pior ainda. Mas continuar construindo pontes, viadutos, escolas e hospitais insuficientes para a demanda,  adiantaria muito pouco.

Esse o drama de Agnelo Queirós: realizar o milagre impossível da multiplicação de uma cidade numa megalópole que nem o Padre Eterno conseguiria administrar.

Sendo assim, só lhe resta uma saída: aproveitar a íntima ligação com Dilma Rousseff e apelar para que o governo federal adote políticas de fixação dos cidadãos  em suas origens, seja através da reforma agrária, da criação de condições de educação, saúde e segurança em suas próprias regiões, de ampliação do desenvolvimento no interior e  de métodos de governo planejados a longo prazo. Porque pouco adiantará ao governo federal despejar verbas em Brasília para fazer daqui a Ilha da Fantasia se em volta os vulcões continuarem a vomitar tragédias inomináveis.

Se Lula e Dilma não são iguais, as equipes também não podem ser

Pedro do Coutto

Não existem dois seres humanos iguais no mundo. Claro, sem dúvida. Da mesma forma não podem ser idênticas as equipes de um governo e de outro. Lula governou com um ministério, Dilma governará com outro. Não quer dizer que alguns titulares não serão mantidos, ou remanejados para postos diferentes. É natural. O mesmo raciocínio se aplica ao BNDES, Banco Central, Banco do Brasil, Caixa Econômica e empresas estatais. Se as pessoas não são diferentes, seus estilos também, os horizontes não são os mesmos. Se esta lógica vale para o imediato, quanto mais para percurso ao longo do mandato da sucessora de Luís Inácio da Silva.

Começou a fase de transição. Surgem notícias, como a que O Globo destacou ontem, acentuando que Lula concorda com Antonio Palocci na Saúde, mas não na Casa Civil ou na área econômica. Se concorda com sua nomeação na área da Saude, é sinal que José Temporão não deverá ser mantido. Há sintomas de que Guido Mantega pode permanecer na Fazenda, mas Henrique Meirelles no Banco Central não. Por que isso? Simplesmente porque Rousseff condenou a atual política de juros que endivida a população. E se o responsável por ela é, mais do que Mantega, Meirelles. Mas Dilma conseguirá mudar a direção do Bacen? Terá que partir para um diálogo com os grandes banqueiros.

Basta dizer que a dívida mobiliária interna do país, como publicou no DO  o Secretário do Tesouro, Hugo Arno Augustin, atingiu 2,3 trilhões de reais, praticamente o valor do PIB. Aplicada a taxa Selic em cima do montante, os juros rendem aos bancos, sem risco, em torno de 240 bilhões por ano. Trinta por cento a mais do que toda  a  folha de pagamento do funcionalismo civil e militar. O funcionalismo custa 169 bilhões. Está no DO de 30 de setembro. O montante dos juros representa 90% da folha do INSS para pagar 25 milhões de aposentados e pensionistas. Os tecnocratas não gostam destas comparações verdadeiras.

Todos esses números e vários outros estratégicos fazem parte do universo político e tornam impossível qualquer análise política sem a ela incorporar os fatores da economia e a força dos interesses que a envolvem. Conheci – e conheço – alguns comentaristas que fracassaram ao separar um plano de outro. A análise política tem de ser feita sobre a realidade e não sobre aquilo que se supõe ser o universo estudado.

Suficiente dizer que não existe sinônimo para a palavra política. Ela é algo múltiplo, um     impulso, uma atmosfera, entre seus limites, momentos e rupturas. Uma síntese de desigualdades, uma conciliação entre os contrários.

Nunca no mundo houve dois governantes iguais. O governo de Dilma não poderá ser igual ao de Lula. Não quero dizer com isso que ela vá romper ou não com seu antecessor e eleitor maior. Desejo assinalar apenas que as diferenças são naturais. Mais que isso: são inevitáveis. Existem sintonias e não sintonias, simpatias e antipatias, convergências e divergências entre os seres. Muitas coisas vão mudar no país.

E se de um lado Dilma deve sua vitória a Lula, com o êxito nas urnas que marcou Lula no campo da aprovação pela sociedade, ela não pesou contra. O presidente que se prepara para deixar o palco central teria que  apoiar alguém. Se ela, Dilma, tornou-se a escolhida, foi porque o presidente da República a considerou capacitada e a de melhor personalidade para refleti-lo em votos. Assim é a política. Só a política? Não. Assim é a vida humana. Todos nós vivemos entre a expectativa e uma esperança. Será sempre assim.

Leia o artigo “Degradação do Judiciário”, de Dalmo Dallari, sobre o Supremo, FHC e Gilmar Mendes

Helio Fernandes

Enviado por nossos leitores e colaboradores Marco e Henrique Oliveira, eis o artigo do jurista Dalmo Dallari sobre o Supremo Tribunal Federal, FHC e o ministro Gilmar Mendes. Foi publicado pela Folha de S. Paulo, em 8 de maio de 2002. E vale a pena ver de novo:

Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.

Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.

Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.

Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.

Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente -pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga-, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.

É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.

É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo especializou-se em “inventar” soluções jurídicas no interesse do governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique, o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União, aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa de anular a demarcação de áreas indígenas. Alegando inconstitucionalidade, duas vezes negada pelo STF, “inventaram” uma tese jurídica, que serviu de base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em que se baseavam as demarcações. Mais recentemente, o advogado-geral da União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem decisões judiciais.

Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais, contra atos de autoridades federais.

Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio judiciário”.

Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no “Informe”, veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado “Manicômio Judiciário” e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que “não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo”.

E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na “indústria de liminares”.

A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou a revista “Época” (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na “reputação ilibada”, exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.

A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou “ação entre amigos”. É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática

Dalmo de Abreu Dallari

Dilma presidente: “Honrarei a confiança do povo brasileiro”. Serra oposição: “Isto não é despedida, adeus, simplesmente um até logo”. O país viverá entre essas promessas, por enquanto, imaginárias.

Helio Fernandes

São duas definições, mais projetos, promessas tão falsas, iguais às da campanha? Na verdade, o clima tinha que ser mesmo esse, por mais dividida que tenha sido a eleição, não podia ser diferente. A presidente eleita não podia partir do zero, desafiando a oposição. Esta também não podia sair despejando sobre o Planalto-Alvorada, um fogo mortífero que não tem.

Pode ser tudo lugar comum, rotina habitual do dia seguinte de uma eleição presidencial. Sem o menor constrangimento, Geraldo Alckmin (governador ilegítimo com poucas vitórias) sacramentou o próprio caminho e não o de Dona Dilma, ao dizer: “Desejo para ela tudo do melhor, São Paulo é Brasil, queremos que tudo dê certo”.

Além da rotina da transmissão (?) do cargo presidencial, a certeza de Dilma e Serra que, apesar de tudo que disseram e disserem,  não têm autonomia de voo. Se tivessem, Dilma já estaria cuidado de 2014. A reeeleição, depois de FHC, é obrigatória. Mas se ela estiver pensando em reeleição, lógico que não será para ela, e sim uma tri-reeeleição para o senhor dos anéis, com ligeira interrupção.

O jornalão do Rio extravasou, invadiu o terreno não do jornalismo e sim da mistificação, revelando (?) em manchete “adivinhadora”: Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014”. A primeira parte, conhecida até das pedras da rua, quem elegeria Dilma a não ser Lula? 2014 para Lula pode até ser licença poética, mas longe de jornalismo.

O jornalão de São Paulo  não percebeu que a tecnologia da comunicação avançou, preferiu retroceder. E disse também em manchete: “Dilma é a eleita”. Muito tempo antes o mundo já retumbava, repercutia e saudava a primeira mulher brasileira a se candidatar e a se eleger. Mas o jornalão ainda estava na fase do jornalismo de 30 anos passados. Têm mais arrogância do que conteúdo.

Serra também “desejou” boa sorte a Dilma, fazer o quê? Mas não foi nem pretendeu ser sutil ao anunciar sua caminhada a partir de agora. Fez questão de confirmar o que escrevi há mais de 15 dias, aqui mesmo: Serra pode até ser candidato a prefeito em 2012, para tentar a terceira presidência em 2014, aos 72 anos.

O ex-governador não perdeu tempo. Tinha que dar o recado ao governador que estava ao seu lado. Alckmin foi candidato a presidente em 2006. nada surpreendente que queira tentar a segunda vez, como ele, Serra. Sabendo que Alckmin não é muito brilhante, Serra quis alertá-lo, talvez não percebesse: “Não estou dando adeus e sim até logo”. É todo o perfil de Serra, só que ele teve medo que esquecessem.

Dessa maneira, é compreensível que 2014 esteja mais presente do que 2010 e o consequente 2011. Serra também fez questão de ressaltar: “Elegemos 10 governadores”. E repetiu o número. Mas na pressa da constatação, esqueceu que São Paulo é o seu estado, mas o governador é inimigo íntimo, estava ao seu lado.

O outro grande estado vitorioso, Minas Gerais, Só que lá a prioridade é Aécio Neves, que não pagou a fatura no prazo certo (o segundo turno), pode até ser “protestado” no cartório eleitoral. Dívida que ficará para sempre na Serasa. Aécio nem apareceu, devia ser constrangimento,

O futuro de Serra oposição é uma incógnita. O de Dilma no Poder, incerteza completa. Não é a mesma coisa. Apesar dos 45 milhões de votos, Serra foi derrotado. Vitoriosa com 55 milhões, Dilma acredita no hoje 2010-2011, terá ou poderá transferir essa crença e esperança para 2014?

Dilma pode muito bem estar assumindo com a validade vencida. E não cabe a ela a REVALIDAÇÃO, e sim ao ex-presidente, o senhor dos anéis. Dizem que têm um contrato não escrito, “quatro anos para você, outros quatro para mim”. Nesse contrato imaginário mas realista, garantem, só se vê uma assinatura e não é a de Dilma.

***

PS – De qualquer maneira começará a fase da boataria a respeito dos ministros. Quanto mais medíocres os nomes anunciados, mais condições terão de serem verdadeiros.

PS2 – Só que Dona Dilma presidente já foi monitorada para o fato que Lula não deixa de  lembrar a ela: “Você só saiu candidata e foi eleita, porque liquidei todos que estavam no teu caminho”.

PS3 – Generoso e altruísta, Lula não deixa ela esquecer: “E todos, dentro do PT, tinham mais credenciais e tempo de serviço”. Com isso, Dilma tem que andar olhando para trás, sempre receosa.

PS4 – Repetindo a frase-conceito de Napoleão, que ela naturalmente não conhece: “Não tenho medo do inimigo pela frente, e sim do vento pelas costas”. Só que Lula não é um vento e sim um furação, nos tempos de hoje, um tsumani.

PS5 – No discurso de agradecimento, que mudança. A primeira-dama política, eleitoral e sucessora de Lula, desapareceu. Surgiu a Grande Dama do seu próprio mandato. Só não revelou, nem ela sabe, até quando irá. Mas tem que durar pelo menos 4 anos, para ver o de Lula.

PS6 – Com maquiagem e paramentada para ser “Dilminha paz e amor”, convenceu a todos, Nossa Senhora, que transformação.

Não perdoam Monteiro Lobato

Helio Fernandes

Querem censurá-lo, persegui-lo, caluniá-lo, 62 anos depois de sua morte. Acusação? Seria racista, brecha que encontraram na sua trajetória, na luta constante pela defesa do interesse nacional.

O primeiro a acreditar no petróleo brasileiro, foi preso por causa disso, obrigado a viver no exterior. Como os que dominavam o mundo controlando os trustes, não esquecem os heróis verdadeiros, querem eliminá-lo da História, para que ninguém siga o seu exemplo.

Não podemos aceitar esse tipo de vingança póstuma, para que não floresça a vingança na própria atualidade.

O banco do mensalão invade o esporte

Helio Fernandes

Quando o BMG começou a conversar com o Flamengo, para patrociná-lo, alertei o clube de dentro e de fora, daqui mesmo. Expressei meu temor assim: “Esse BMG é o banco do mensalão, como confiar nele?”

Devendo 333 milhões (dívida que já aumentou), o Flamengo não pôde nem exigir. Agora, os excelentes colunistas Jorge Luiz Rodrigues e Mauricio Fonseca mostram a realidade: esse BMG já controla 8 grandes clubes, continua querendo mais. Conversa com Botafogo e Vasco. Todo cuidado é pouco.

COINCIDÊNCIAS PELÉ-MARADONA

O brasileiro nasceu nos anos 40, redondo. O argentino nos 60, redondo. Pelé estreou em 1958, surpreendentemente antes dos 18 anos. Maradona, porque ainda não tinha 18 anos, surpreendentemente não foi convocado para a Copa da própria Argentina.

Tiveram vidas particulares inteiramente diferentes, mas eu estava na Itália em 1990, quando Maradona, sozinho, levantou uma cidade (Napoli) contra um país, (Itália) sendo estrangeiro.

Sem patriotismo, bairrismo, sectarismo, tendo visto os dois jogarem várias vezes, não tenho a menor dúvida: nunca mais aparecerão dois jogadores como eles.

Pelé tem muito mais títulos, o futebol brasileiro, apesar de toda a rivalidade, é sempre melhor do que o da Argentina.

Conversa com os eleitores, sobre Dilma, Serra, guerra de bastidores, reformas que não virão, e mais e mais

Antonio Aurélio: “Helio, como devo registrar o título de Dona Dilma agora que foi eleita? Presidente ou presidenta? Estou confuso, vejo com o a final e com o e. Obrigado”.

Comentário de Helio Fernandes:
As duas formas estão corretas, mas presidente é normalíssimo e rotineiro, por que inventar? Presidenta, é a quebra do habitual. Aqui você encontrará sempre com o e final.

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AGORA, A GUERRA DE BASTIDORES

Jorge: “De hoje até a posse em 1º de janeiro, de Dona Dilma, governadores, senadores e deputados, haverá alguma alteração ou turbulência?”

Comentário de Helio Fernandes:
Nada, nada, Jorge, tudo na mais completa calma, apenas “guerra de bastidores”. Os fatos se passarão não em público, surgirão nomes, como especulações fabricadas ou fatos que tentam confirmar.

Só um esclarecimento: em 1º de janeiro, apenas a posse da presidente. Todos os outros tomam posse em 31 de janeiro. Como consequência, os presidentes da Câmara e do Senado (cargos de ressonância) só depois de Dona Dilma no Planalto.

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AECIO VAI TER QUE SE EXPLICAR

Antonio Ávila: “Considero que quem saiu muito arranhado deste pleito foi o Aécio. Fez corpo mole. Será um simples senador por Minas, se o Serra conseguir se consolidar com líder da oposição, como falou no discurso. Concorda?”

Comentário de Helio Fernandes:
Concordo inteiramente. Não sei se fez corpo mole. Mas ganhou tudo no primeiro turno em Minas, agora o Serra perde por quase 2 milhões. O Aécio terá que explicar, com muita dificuldade. Obrigado.

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E VEM AÍ A VERDADEIRA DILMA?

Andréa Queiroz: “Agora o povo brasileiro conhecerá a verdadeira Dilma. Despida de marqueting, terá que sair das maravilhas e cair na realidade. Vamos fazer o sinal da Cruz e ter fé para tudo dar certo. Amém”.

Comentário de Helio Fernandes:
Perfeito, Andréa. Só que iluminada e enganadora como foi a vida dela, será difícil “cair na real”, como você diz. A saída? Ter fé, mas será necessária tanta, mas tanta, que Dona Dilma irá precisar de um Deus muito mais poderoso do que Lula,

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AS REFORMAS SERÃO REALIZADAS?

Antonio Soares Ranauro: “Perguntem à Dilma o que pretende fazer com os aposentados. Vai fazer as reformas política e previdenciária?”

Comentário de Helio Fernandes:
Nem pensar em reformas. Vai jogar bola na lagoa, como diz o povo. Muitas das reformas, nem imaginar. A reforma política e partidária, não deixarão que faça, é dar voz e voto ao povo. Preferem pão e circo. Ela vai por aí.

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FALTA CORAGEM PARA GOVERNAR?

Helton Haeflinger: “Quando Lula ainda era candidato e ameaçava vencer a eleição, o mundo foi turbinado com  boatos: ele representa o atraso, o comunismo, a anarquia. O dólar subiu, a bolsa caiu, a confiança no Brasil despencou. Agora Dilma surge sob os mesmos holofotes, depois de 8 anos do Lula. São 81 por cento de aprovação ao governo. Dilma vai confirmar”.

Comentário de Helio Fernandes:
Os interesses são colossais, é preciso muita coragem para governar. Você acha, Helton, que Lula teve essa coragem e transmitiu-a a Dilma? Ela está convencida de que entrará na História, mesmo que seja apenas por 4 anos. Só que a bolsa, nada a ver, e a confiança tem que ser verdadeira.

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“ESQUEÇAM TUDO O QUE FALEI”

Jorge L. Baleia: “Se tivesse sido eleito, Serra diria logo em seguida: “Esqueçam tudo que falei ou escrevi”. Tal como seu guru, FHC”.

Comentário de Helio Fernandes:
Certíssimo, aos 80 anos, FHC está chorando a derrota, não pelo Serra ou o PSDB, e sim por ele mesmo. Já se imaginava em Nova Iorque, embaixador na ONU.

Para o povo ou com o povo?

Carlos Chagas

Do primeiro pronunciamento de Dilma Rousseff depois de eleita fica uma dúvida: ela enfatizou  o sentido republicano e o compromisso democrático de sua eleição,  mas  ressaltou estar disposta a governar para todos.

Atenção na declaração: para todos,  não com todos.  Há uma diferença sutil que tanto os aliados quanto as oposições  começavam ontem mesmo a analisar.  Não que o PSDB, o DEM e penduricalhos esperassem  alguma participação no novo governo, sequer através de propostas e sugestões. Sabem estar naturalmente excluídos do poder nos próximos quatro anos, como nos últimos oito.

O problema aparece para o PMDB e demais partidos que se empenharam pela vitória da candidata. E até para alguns companheiros. A preposição  não admite discussões. Muita gente vai ficar de fora, como a partícula comprova. Ainda que todos os cidadãos  possam vir  a ser beneficiados pelos planos e programas da nova administração, conforme as boas intenções da presidente eleita, apenas alguns participarão da obra de governo.

Passa-se de imediato da teoria à prática. O PMDB não tem certeza de manter os seis ministérios que ocupa no governo Lula. Muito menos as centenas de diretorias de empresas estatais ou da administração direta. A tolerância do presidente Lula para com seus aliados poderá não se constituir na característica da sucessora,  inclusive porque falou duro quanto se referiu à meritocracia para o exercício das funções públicas, pautando as nomeações.

Michel Temer que se cuide, apesar de duas vezes citado  no discurso inicial de Dilma. Já  tendo sido gentilmente escanteado na campanha, nada indica que poderá entrar no gabinete presidencial com uma lista de peemedebistas propostos  para  ministérios e adjacências. Assim também o monte de papagaios de pirata flagrados atrás da nova presidente em suas primeiras horas de aparição vitoriosa.

Uma dedução pode ser tirada para os tempos que se aproximam: em muito difere do Lula a primeira mulher a exercer a chefia do Executivo. O país verá aposentadas as tiradas de humor duvidoso e de comparações futebolísticas em troca de raciocínios e de iniciativas diretas e ásperas.  A complacência cederá lugar à cobrança.

MUDANÇAS DE COMPORTAMENTO

Não se passaram quinze minutos após a confirmação,  pelos primeiros números,   de que Dilma Rousseff já estava eleita: uma singular metamorfose atacou  apresentadores, âncoras,  comentaristas e repórteres televisivos empenhados na narração das apurações.  Fora as exceções de sempre, durante semanas, até meses, seguindo exigências e orientação  dos responsáveis pelas redes, esses profissionais esmeraram-se em tratar a candidata com arrogância. Até levá-la ao ridículo tentaram.  Caracterizada a vitória,  virou objeto de  devoções profundas.  Tornou-se uma estadista.

Essas mudanças de comportamento fazem parte da natureza humana, mas, convenhamos, a mudança aconteceu rápido demais. Algumas horas depois, o mesmo fenômeno pode ser constatado pela leitura dos jornalões de ontem. A nova presidente não era mais a parceira de Erenice Guerra. Tornou-se a esperança nacional.

AS HIENAS DE SEMPRE

Deve preparar-se José Serra para o período das amargas. Começam a botar as unhas de fora aqueles que antes  aderiram  à sua candidatura  por falta de opções,  inveja ou sentimentos piores.  Apontam, só agora, erros,  falhas e vícios do período de campanha, quando davam a impressão de devotados e fiéis acólitos do candidato. Chegam a dizer que Serra deveria ter ficado em São Paulo, quanto tinha a reeleição certa de governador. Levantam críticas diante da aceitação de um silvícola para vice-presidente na chapa tucana, quando nem uma palavra levantaram diante da estranha indicação do deputado Índio da Costa. Sustentam que melhor teria sido a realização de prévias junto às bases do PSDB, que Serra rejeitou, e até supõem que se o candidato tivesse sido Aécio Neves, as eleições poderiam ter tido outro resultado. Trata-se de um abjeto acerto de contas, digno das hienas.

ABSTENÇÕES

No total, 29 milhões de eleitores abstiveram-se de comparecer às urnas, domingo. Um número proporcionalmente  jamais verificado antes. Efeitos do feriadão, em grande parte, como mostraram as imagens da praia do Guarujá, mas não apenas isso. No Norte e no Nordeste, faltaram condições para o deslocamento de muita gente até as seções eleitorais, como no país inteiro proliferaram os desiludidos, aqueles para quem nem Dilma nem Serra mereceriam seu esforço cívico. Há uma contradição entre os que defendem o fim do voto obrigatório   e o crescimento das abstenções, mas, no fim, quem terá sido mais prejudicado por elas? Sem dúvida alguma, José Serra.

Dilma define seus mandamentos, nem todos do PT

Pedro do Coutto

No seu primeiro pronunciamento como presidente eleita, domingo à noite, Dilma Rousseff revelou direta e objetivamente os seus mandamentos essenciais, sob a forma de amplo compromisso com o regime democrático, com a nação e com os princípios que vão nortear o governo que se instala a primeiro de janeiro de 2011. Como sustento sempre, não basta ver o fato, mas também nos fatos, como dizia meu amigo Antonio Houaiss, observar tanto o significado quanto o significante.

O Globo foi o único jornal, ontem, segunda-feira, a publicar o texto integral. Importante ler-se com atenção, assinalando os pontos efetivamente substantivos. Ela traçou as diretrizes de seu mandato, nem todas elas, pelo que se percebeu, coincidentes com posições do próprio PT. Termina a era Lula, começa a fase Dilma. Fecham-se as cortinas do passado, abre-se o palco do futuro. É tempo de alvorada no país depois do vendaval das urnas que consagraram Luis Inácio e assinalam o início de uma nova caminhada.

Mas afirmei que nem todos os mandamentos coincidem com as intenções do PT, pelo menos de setores dele. Vejam só os leitores o que ela disse sobre democracia e liberdade de imprensa.

“Assumo o compromisso de valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais básicos. Dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, somos naturalmente amantes da liberdade. As críticas do jornalismo livre ajudam o país e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.”

Essas afirmações, totalmente claras, como se constata, colidem frontalmente, com posições antidemocráticas defendidas por setores petistas de vários estados que cinicamente defendem a criação de um mecanismo oficial para o chamado controle da mídia. Inconstitucional, pois a Carta de 88, em pleno vigor, veta de forma taxativa qualquer tipo de censura ou controle, aliás falso controle, posso acentuar totalmente impossível. Uma invasão pouco disfarçada da propriedade privada e dos direitos humanos, já que os jornais são bens particulares e a liberdade de comunicação pertence a toda população, portanto à sociedade brasileira.

Mas Dilma assinalou outros ângulos divergentes. Depois da computação dos votos, chegou para a entrevista coletiva ao lado do ex-ministro Antonio Palocci no seu automóvel. Sinalizou, portanto, o seu provável, penso eu, chefe da Casa Civil, o que em síntese significa indiretamente a não reincorporação de José Dirceu ao sistema de poder. Para não acusar o golpe, José Dirceu deu entrevista a O Globo, ressaltando que nada pretende tampouco espera do novo governo.

– Não posso,  por causa do processo contra mim no STF, e não quero – acrescentou.

Não terminaram aí os pensamentos de Roussef. Ao contrário. Através deles, manifestou-se contra a política atual de juros e contra as privatizações, neste caso da era FHC. Vejam só.

“Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança. Não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só as migalhas.”

O que são gastos efêmeros? São 200 bilhões de dólares por ano, resultado da incidência dos juros de 10,75% sobre uma dívida que atingiu exatamente 2,3 trilhões de reais. Se alguém duvidar do montante, leia o balanço da Secretaria do Tesouro, assinado por Hugo Arno Augustin e publicado no Diário Oficial de 30 de setembro. Quem duvidar das palavras de Dilma, leia O Globo edição de ontem.

É isso. Os mandamentos são mais importantes do que parecem à primeira leitura.

A resposta que Serra deve dar quando for perguntado

José Carlos Werneck

Sempre quando acabam de serem divulgados os resultados de uma eleição costuma-se perguntar ao candidato derrotado:

-A que o senhor atribui sua derrota neste pleito?

Quando isto acontece me vem à memória uma entrevista, do senador Milton Campos, a que assisti ainda menino, quando acompanhava meu pai, jornalista do extinto “Correio da Manhã”.

Cercado por inúmeros repórteres, logo após ter sido derrotado por João Goulart, para o cargo de vice-presidente da República (naquela a época podiam concorrer individualmente, não havendo a chapa obrigatória), o grande político mineiro foi perguntado, por um jornalista:

– Dr. Milton, a que o senhor atribui sua derrota nesta eleição?

Calmamente, Milton Campos respondeu:

– Ao maior número de votos recebidos pelo meu adversário, o Dr. João Goulart.

Dessa maneira simples, pragmática e objetiva, o candidato derrotado, calmo, elegante e sereno, como sempre se conduzia, em toda sua de vida, encerrou a entrevista..

Foi a mais preciosa e singela lição de Democracia, que recebi em toda a minha vida e da qual nunca me esqueci.

Na qualidade de eleitor de José Serra, por quem trabalhei espontaneamente e anonimamente durante toda a sua campanha, é essa a resposta que eu gostaria que ele desse a todos os que lhe perguntassem, quais foram as razões de sua derrota para a já presidente Dilma Roussef.

Gostaria que José Serra, com a dignidade com que se conduziu em sua campanha, na qual recebeu um significante número de votos, erguesse a cabeça e serenamente respondesse:

-Atribuo minha derrota ao maior número de votos, obtidos por minha adversária, a hoje presidente eleita Dilma Rousseff, a quem desejo um governo de muito sucesso em prol de todo o povo brasileiro!

É assim que funciona a Democracia, regime repleto de defeitos, mas que até agora não se inventou nada melhor.

Passada a luta, as mágoas, e por que não, até mesmo a raiva dos derrotados, inclusive a minha, é hora de comemorar a vitória maior, que é a vontade da maioria e o triunfo da Democracia!

Parabéns José Serra pelos milhões de votos obtidos. Parabéns presidente Dilma Roussef, a primeira mulher presidente da República da História do Brasil. Sinceros votos de muita saúde, paz, e felicidades e de um excelente governo, para o País e seu bravo povo.

Afinal o Brasil merece! E muito!

Dilma presidente, nenhuma surpresa. Agora começará uma espécie de terceiro turno. Entre ela e Lula, ela e o PT, ela e o lobista PMDB. O país é o mesmo, os personagens, iguais?

Helio Fernandes

Não havia a menor possibilidade de erro: Dilma ganharia a eleição, o que deveria ter ocorrido no primeiro turno. O que aconteceu de circunstâncias, adiando a decisão para 28 dias depois, nem interessa. O importante e irrefutável: Serra não tinha uma possibilidade em um milhão de ser presidente.

Ele mesmo errou na análise e nas conclusões. Afirmou textual e taxativamente: “Tive 33 por centos dos votos, Dilma 46 e Marina 20 por cento. Somando os meus votos e os de Marina, chegávamos a 53 por cento, provando que o povo queria segundo turno”.

Impressionante a falta de compreensão de Serra para os fatos. Digo há 8 anos que “Serra jamais será presidente”, ele não conseguiu obter vantagem nem mesmo enfrentando candidata sem experiência política ou eleitoral, sem capacidade de articulação, sem carisma, sem competência, sem projeto, sem programa, sem compromisso.

Lula, o metalúrgico, com três derrotas, duas vitórias e a compreensão de que só seria vitorioso se não elegesse “nenhum dos grandes do PT”, se fixou em Dona Dilma. Foi um dos raros a entender que não ganharia nada se elegesse Dirceu, Palocci, Mercadante. Tinha que “inventar”, foi buscar alguém que não existia.

A capacidade de Lula se revela e se confirma, gostemos ou não gostemos dele. Não sai de cena, embora não possa ter certeza dos caminhos que serão trilhados pela sucessora. Não há espaço obrigatório para pessimismo ou otimismo, e sim para Dilma e Lula.

Quem não ficou na posição favorável que esperava, é Aécio Neves. Não participou do primeiro turno. Serra perdeu. Participou do segundo, Serra esteve longe de conquistar os votos que precisava. Mesmo dentro do PSDB, a tranqüilidade não dominará o dia a dia da vida do ex-governador de Minas. E Aécio será cobrado por esse resultado.

E é impossível negar a vitória espantosa e grandiosa de Dilma em Minas. Não dá para esquecer ou esconder.

Um fato importante, que precisa ser ressaltado com bastante interesse, é a abstenção. Foi de 22 por cento no primeiro turno, de 21 por cento ontem. Apenas menos 1 por cento, mais de 25 milhões inscritos. É muito.

Serra teve mais votos do que em 2002, quando foi candidato pela primeira vez. Sua votação é maior, direta e proporcionalmente. Isso pode estimular José Serra a concorrer pela terceira vez, em 2014. Não é ilusão, estará APENAS com 72 anos.

Dona Marina desapareceu, eu já dizia isso há muitos dias, depois do primeiro turno. Devia ter se AFIRMADO, feito declaração do voto (dando uma de Tony Blair), caminhando através de uma TERCEIRA VIA. Não tem condições.

***

12 FATOS QUE MERECEM DESTAQUE

1 – O primeiro candidato vitorioso determinado ontem foi Agnelo Queiroz, ex-PCdoB, que entrou para o PT. Mas a vitória não foi dele nem do partido, e sim da ficha-limpa. Quando Roriz renunciou e colocou a própria mulher, a eleição estava decidida. A mulher de Roriz teve ontem, no segundo turno, exatamente a mesma votação do primeiro.

2 – Fato não assinalado por ninguém, embora já esteja confirmado há 28 dias. Os 9 estados, indiscutivelmente os maiores, elegeram governadores no primeiro turno: São Paulo, Minas. Estado do Rio,  Ceará, Bahia, Pernambuco, os três do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

3 – Apenas Goiás (pelos 4 milhões de eleitores) e Brasília (por ser capital) ficaram para o segundo turno.

4 – O Tribunal Eleitoral acertou inteiramente em aplicar o ficha-limpa, mas errou totalmente depois. Devia ter decidido imediatamente nova eleição para o Pará.

5 – Jader Barbalho, que teve 57 por cento dos votos e foi cassado, anulou a eleição, e Paulo Rocha (que também terá o mesmo destino) também será cassado.

6 – O TRE não pode repetir o constrangimento de ter entregue o governo do Maranhão a Roseana Sarney, depois de 2 anos e meio de sua derrota.

7 – Na Paraíba, Cássio Cunha Lima, depois de quase 3 anos, perdeu o mandato, numa votação “decidida” por 4 a 3. O TSE entregou o mandato ao derrotado José Maranhão. Disputou a reeeleição (sem nunca ter sido eleito), não venceu no primeiro turno. Ontem, José Maranhão foi fragorosamente derrotado. O TSE deve estar envergonhado.

8 – Outro fato que mostra a completa falta de renovação da política brasileira. Nos Estados menores, onde houve segundo turno, a disputa foi feita entre a tentativa de reeeleição e um ex-governador.

9 – E em Goiás, o máximo: dois ex-governadores, Marconi Perillo e Íris Resende, que nada fizeram no Poder, mas disputaram a vitória, ganhou Perillo. Terá sido o menos pior?

10 – No Pará, o ex-governados Simão Jatene, derrotou a governadora Ana Julia, ontem. Mas ela já começou a insistir com Lula, para que a eleição de senador seja anulada. Assim ela pode disputar uma das vagas, estará eleita.

11 – No Amapá, o novo governador é Camilo Capiberibe, que além de ser do Partido Socialista, é opositor de Sarney. Este já cassou a família Capiberibe, um deles do Senado.

12 – Lula estava furioso com Eduardo Braga, ex-governador do Amazonas, que fez o sucessor e se elegeu senador. Mas proporcionalmente, foi uma das maiores vantagens de Dilma, 80 por cento.

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PS – Aí em cima. Estão os fatos. A conclusão desses fatos, só depois, mais tarde,  a partir de amanhã, mas é preciso esperar a posse.

PS2 – O que vai acontecer é muito difícil de analisar a partir de agora. Embora eu tenha analisado tudo em profundidade, com uma semana de antecedência.

PS3 – Na entrevista que concedi quarta-feira ao jornalista Marcone Formiga, da “Brasília em Dia” (e repetida aqui), todas as dúvidas concluídas, mas não definidas ou identificadas.

PS4 – Pois sempre coloquei que os problemas surgiriam e surgirão do relacionamento Dilma presidente, Lula ex-presidente, e o PMDB-lobista, ampla maioria.

PS5 – Já disse várias vezes e deixo amplamente em aberto. O que haverá, e tem que haver, não começará hoje ou amanhã.

Gilmar Mendes: “É melhor fechar o Supremo”

Helio Fernandes

Não é não. Basta cassar o próprio Gilmar, atingindo dois objetivos. Nos livramos dele e o Supremo volta ao número impar (9), não haverá mais empates e a presença da presunção, da pretensão, da polarização da arrogância.

(Valentim, continuo esperando o artigo de Dalmo Dallari sobre Gilmar. Não consigo localizá-lo, mas conheço o passado de Dallari e de Gilmar).

Conversa com leitores-eleitores, sobre Dilma, a inexistência do candidato ideal, o fracasso de Serra, o futuro de Lula e mais e mais

Leticia: “Helio, por que tanta raiva de Dilma? Ela é tão simpática, competente e certamente a mais qualificada. Por que você continua a chamá-la de “poste”? A Dilma será a melhor presidente que o Brasil já teve, superando até o Lula. Escreva o que estou dizendo”.

Comentário de Helio Fernandes:
Letícia, a raiva tem que ter uma base e um motivo, quais seriam os meus? Poste foi como o próprio Lula rotulou sua invenção. Se você acertar, que satisfação. Que o destino irá me negar, como negaria se o Serra vencesse, o impossível.

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O CANDIDATO QUE NÃO EXISTE

Everaldo (Vitória-ES): “Helio, sou seu fã de carteirinha. Gostaria de lhe fazer uma pergunta bem simples. Se você tivesse que indicar uma pessoa para governar o Brasil, quem seria? Fale sinceramente quem está apto, por favor, uma pessoa viva. Abraços.”

Comentário de Helio Fernandes:
Sempre escrevo com sinceridade. A sinceridade que utilizo agora, ao dizer que não tenho ninguém para indicar. E a razão mais importante para isso, Everaldo, é que todos os personagens que se prepararam para 2010, estão se preparando para 2014. Nenhuma novidade, renovação, capazes de impor as mudanças que o Brasil exige.

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EM DEFESA DO VOTO SECRETO

Ilson: “Votei às 4 da tarde. Estou ansioso pelo resultado. Não anulei o voto, mas não quero abri-lo, sou por demais tímido. E aqui onde moro, muita gente me conhece. Desculpe, não é covardia”.

Comentário de Helio Fernandes:
O voto é secreto, mantê-lo em silêncio não é de jeito algum covardia. São 135 milhões de eleitores inscritos, imagine se todos desvendassem o voto? Mas não vai contar aos parentes e amigos mais íntimos?

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LULA SERÁ TRAÍDO POR DILMA?

Antonio Ranauro Soares: “De qualquer maneira, Lula já tem uma saída. Se Dilma pisar nos próprios pés, Lula irá dizer que foi traído. Se ela conseguir andar sozinha, e fizer um bom governo, também foi obra dele”.

Comentário de Helio Fernandes:
No momento, Renauro, tudo pode ser dito, valem todas as opções. Lula e Dilma juntos até 2014, Dilma contra todos, contra o PT, até contra Lula. Mas não será Lula ou adivinhação. De hoje a 1º de janeiro, apenas imaginação. Depois, realidade prevista ou imposta.

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PODE-SE JULGAR O INEXISTENTE?

José A. Lima: “Helio, você foi tremendamente injusto com alguém que ainda não teve oportunidade de governar. Te perguntaria: é possível julgar o inexistente? Você acreditava que Lula fosse pior do que FHC, mas acabou ajudando Lula, acertou. Reflita e ajude o Brasil a seguir mudando. Acredito que Dona Dilma terá mais motivos e condições que Lula não teve e fará um grande governo. Não precisa se envergonhar”.

Comentário de Helio Fernandes:
Não me envergonho, José, estou sempre na guerra para fazer o Brasil vencer e se desenvolver. Não me importo que seja com ela, mas não consigo descobrir as condições para isso. Mas se fizer um grande governo, com Lula, sem Lula, ou Lula pretendendo 2014, que seja. Mas com a minha descrença.

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LULA SE ELEGERÁ O QUE QUISER

Jorge L. Baleia: “Helio, o próximo presidente terá que tomar medidas impopulares. Lula pretendia que Dilma não vencesse para ele ressurgir em 2014. Depois do primeiro turno, mudou, admitiu a hipótese de Dilma vencer. Se ela fizer um bom governo, Lula se elegerá o que quiser”.

Comentário de Helio Fernandes:
Eu já escrevi praticamente isso, várias vezes. Mas uma dúvida que você não preencheu: Lula em 2014, será eleito o que quiser? E a REEELEIÇÃO de Dona Dilma, em 2014?

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O VOTO NULO É UM DIRETO

Antonio Aurélio: “Notável tua entrevista dada na quarta-feira, e que saiu hoje, domingo. Estou te escrevendo também hoje, domingo, depois de votar. Desculpe, não votei nem em Dilma nem em Serra, já estava convencido que era melhor, não fui influenciado por ninguém. Obrigado”.

Comentário de Hélio Fernandes:
Estou satisfeitíssimo com a tua confissão de que não se deixou influenciar pelas minhas reiteradas afirmações de que votaria (e votei pela segunda vez) nulo. Só queria demonstrar minha convicção, como muitos me pediam. Mas não pretendia mudar a convicção de ninguém. Precisamos de muita participação, nenhuma omissão.

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VOTO CONSCIENTE PARA SERRA

Nilma: “Não perdi uma coluna tua, acompanhava diariamente. Pensei muito em anular meu voto, é a terceira vez que estou votando, quis decidir, espero não me arrepender. Também vou abrir meu voto, escolhi o Serra, pelo número de cargos que já ocupou. Não quero decepcioná-lo, espero quer ele vença”.

Comentário de Hélio Fernandes:
Apoio e aprovo tudo o que você disse e fez. Não anulou o voto, ótimo. Fez a escolha pelo erro, talvez  a única opção seja a que você apontou: o número de cargos ocupados. Mas não completou um só dos cargos, deputado, senador, ministro, prefeito, governador. Mas você, Nilma, não me decepciona de modo algum. Como está votando pela terceira vez, deve ter menos de 30 anos. O que é uma satisfação e não decepção.

Lições da urnas

Carlos Chagas

Revelado o resultado das urnas, logo podem ser tiradas algumas lições, pelo menos por este ano:

1. Ficou claro que votos se transferem, sim senhor. Claro, quando a popularidade serve para impulsioná-los. Dilma Rousseff não  ficou com os 83% das preferências populares do Lula, mas obteve o bastante para ganhar a eleição.

2. Quem não é  conhecido  pode chegar em primeiro lugar, como a candidata demonstrou, tornando-se conhecida em poucos meses e virando o eleitorado.

3. Passado político, realizações administrativas, tempo de serviços prestados à causa pública são fatores importantes numa eleição, mas jamais essenciais quando, para compensa-los, um candidato (ou uma candidata) apresentam-se como herdeiros da continuidade do antecessor.

4. Outra evidência é de que os tempos modernos desconstruíram a influência de entidades e instituições até milenares,  como a Igreja Católica.  Ficou provado que o  Papa  não manda nada, pelo menos nas eleições  brasileiras. A intervenção, mesmo subliminar,  de Sua Santidade,  não se refletiu em votos.

5. Apesar do espalhafato televisivo  feito pelas Igrejas Evangélicas nos últimos anos, e tendo conseguido eleger aqui e ali um senador ou um deputado, os bispos não arranharam a decisão do eleitorado, nem carreando mais votos para José Serra, nem retirando-os de Dilma Rousseff.

6. Passou a época das centrais sindicais,  ironicamente quando há oito anos  elas deram  a tônica da primeira vitória  do Lula. Se tivesse dependido da CUT a vitória da Dilma, ela entraria na galeria de uma série de líderes que o tempo levou, podendo no máximo eleger-se deputada federal do tipo Jair Meneghelli, Vicentinho e outros.

7. Da mesma forma frustraram-se os barões da imprensa, aqueles dirigentes de jornalões que um  dia imaginaram-se donos da opinião pública. Sua campanha ostensiva, como a  enrustida, contra  a candidata do PT serviu apenas  para assegurarem o apoio da classe  média  alta, que já detinham e que continuariam detendo  mesmo se não tivessem dedicado uma só das múltiplas manchetes e dos editoriais desperdiçados há  meses para denegrir o governo e sua candidata. Parece haver-se encerrado o período em que  desfilavam sua empáfia pelos clubes e restaurantes de luxo, bajulados pela freqüência elitista.

8. Baixou  a crista dos institutos de pesquisa,  todos incorrendo em clamorosos  erros na campanha pelo primeiro  turno, quem sabe até distorcendo números no intuito de agradar clientes. A unanimidade dos percentuais no segundo turno revelou apenas que tentaram recuperar o  faturamento para as próximas  eleições.

9. Outra lição a  tirar das urnas foi de que denúncias de corrupção,  verdadeiras, falsas  ou exageradas, valem muito  pouco na decisão  do  eleitorado.  Não são consideradas pela maioria dos eleitores.

10. Por último, nessa relação ainda inconclusa, a lição maior: eleições  deixaram de ser prática elitista, comandadas pelas camadas privilegiadas da sociedade. O voto   tornou-se   instrumento da maioria tantas vezes desconsiderada.  Daqueles que perceberam, certos ou errados, que detém o  controle do processo político nacional…   

O BRASIL É O MESMO

O brasileiro comum acordou hoje cedo, abriu a janela e, olhando para aquele pedacinho  de céu que ainda lhe é devido em meio à selva de pedra,  constatou haver o sol  nascido como todos os dias. Por conta do feriadão  prolongado, muitos voltaram  para a cama ou tomaram café com calma. Os que foram trabalhar enfrentaram os mesmos constrangimentos nos transportes coletivos,  raros e lotados. Para chegar à   fabrica, ao escritório ou ao comércio, o cidadão que ganha pouco e paga muito de impostos notou estarem as ruas mais sujas do que o comum.

Nesta ou naquela capital os garis já se encontravam a postos, limpando toneladas de sujeira, a maior parte de cartazes já velhos, papéis de propaganda eleitoral   aos   montes, plásticos usados aos milhares, embalagens de bebidas  e restos de comida. Um ou outro companheiro de trabalho comentava o  resultado  das eleições de ontem, escolhida que tinha sido a nova presidente da República. Pela primeira vez na República, uma mulher. Apesar disso, prevaleceu a rotina de todos os dias: preocupação com contas a pagar, com a performance dos filhos no colégio, o próximo Natal e os presentes cada vez mais  caros,  as programadas mas raras vezes concretizadas férias de fim de ano. Num minuto de desatenção diante do trabalho, vieram o pensamento e a conclusão: o Brasil é o mesmo, igualzinho hoje como ontem…

CINTURÃO DE DUVIDAS

Debruçada sobre o mapa do Brasil, dona Dilma estará verificando que apesar de Brasília estar marcada pela cor vermelha, ao redor e até mais adiante prevalece o azul. Goiás, Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul são estados loteados pela oposição.  Vivêssemos tempos idos e correria risco a própria existência da capital  federal, cercada de adversários.

Registra-se apenas um cinturão de dúvidas felizmente hoje transferidas para o plano dos confrontos políticos e das lides administrativas.

Inexistissem outras razões mais nobres estaria apenas nessa imagem geográfica a disposição da nova presidente da República de estender as mãos às oposições. Sem esquecer, é claro, que estados amigos também envolvem  os estados que a cercam.

Senão  de congraçamento, a hora é de todos buscarem entender-se.  Começando por ela mas passando pelos governadores dos estados referidos. Afinal, se o governo central  precisa deles, a recíproca será mais do que verdadeira: não governarão  sem Brasília.

Nesse período de  euforia que se segue ao festival eleitoral, começam a sair pelo ralo os  choques, as agressões e a violência das campanhas. O perigo é  o refluxo.

Os vencedores e perdedores. A Esfinge chamada Dilma: “decifra-me ou te devoro”. Como será na Presidência a ex-guerrilheira? Continuará na linha paz e amor? Ou assumirá sua real personalidade? O suspense é de matar o Hitchcock.

Carlos Newton

Os grandes vencedores desta eleição foram o presidente Lula e o ex-governador mineiro Aécio Neves, ao provarem que são capazes de transferir votos a candidatos sem a menor chance, como Dilma Rousseff ou Antonio Anastasia. Sem apoio de Lula e Aécio, respectivamente, nem Dilma nem Anastasia jamais ganhariam eleição.

E os maiores perdedores, quem são? Além de Artur Virgilio, Jereissati, Marco Maciel, Roriz, Mão Santa, Helio Costa, Jarbas Vasconcellos, Gabeira, Fogaça, Serra etc., não há dúvida que são Ciro Gomes, Aloizio Mercadante e o especialmente oPSDB, que sequer aceitou discutir a proposta de Aécio Neves de realizar prévias eleitorais para escolher o candidato à Presidência.

Se o PSDB tivesse aceitado, mesmo se Aécio perdesse a eleição interna e a candidatura Serra fosse a preferida, a própria realização das prévias teria impacto positivo junto ao eleitorado do PSDB, mobilizando antecipadamente as bases do partido. Além do mais, Aécio poderia ser vice de Serra e as prévias soariam bem, principalmente porque no PT não houve nem discussão. Lula simplesmente impôs a candidatura Dilma, e estamos conversados.

Ciro Gomes também saiu perdendo, e muito, porque foi enganado por Lula e ficou fora da disputa presidencial. Com Ciro concorrendo, o quadro seria outro, os debates ganhariam entusiasmo e os votos no primeiro turno se dividiram pelas quatro candidaturas, (Dilma, Serra, Marina e Ciro), trazendo muito mais emoção.

Ciro foi inacreditavelmente ingênuo. Acreditou quando Lula lhe disse que o PT poderia até apoiar a candidatura dele. Depois, acreditou de novo, quando Lula lançou Dilma e prometeu a Ciro que, se ela não decolasse, o candidato seria ele. Acreditou tanto, que mudou seu endereço eleitoral para São Paulo. Quando descobriu que tinha sido ludibriado, já era tarde, seu partido (PSB) já tinha feito acordo com Lula para apoiar Dilma e ele só podia disputar eleição em São Paulo. Mas ser candidato a quê?

Mesmo enganado e humilhado por Lula, Ciro Gomes ainda aceitou ser um dos coordenadores da campanha de Dilma no segundo turno, sem lembrar que no primeiro turno deu várias declarações à imprensa defendendo a eleição de Serra, por ser “mais experiente do que a Dilma”. Agora, Ciro é cotado para voltar ao Ministério. Mudou Ciro? Mudou Dilma? Ou mudou a dignidade humana? Escolha a sua resposta.

Já Mercadante saiu perdendo porque desde 1994 tem sido uma marionete nas mãos de Lula. Foi eleito deputado federal em 1990, seria facilmente reeleito em 1994, mas aceitou ser vice de Lula na disputa presidencial, foi para o sacrifício e ficou sem mandato por quatro anos. Até que, em 1998, voltou à Câmara Federal. Em 2202, foi um dos coordenadores da vitoriosa campanha presidencial de Lula e se elegeu senador. Estava em alta politicamente.

Todos pensavam que Lula o nomearia ministro da Fazenda, por ser o melhor e mais respeitado economista do PT, mas o presidente jogou-o para escanteio e preferiu o médico sanitarista Antonio Palocci. Justificativa: “Preciso de você no Senado”. Mercadante acreditou.

Palocci saiu, expulso pelo caseiro, e Lula, que tudo fazia para que Mercadante não se projetasse no cenário nacional, preferiu Guido Mantega. Depois, na hora de escolher o candidato à sucessão, preferiu Dilma. E sua justificativa para alijar Mercadante foi a seguinte: “Preciso de você em São Paulo“. Mercadante acreditou de novo, partiu para uma disputa altamente desfavorável contra Alckmin, com pouca chance de vitória. Até hoje Mercadante não entendeu que Lula quer o PT só para ele, no partido ninguém mais pode se projetar.

Assim, Mercadante – que, sem dúvida é o melhor quadro do PT – vai ficar mais quatro anos na chuva, sem mandato. A não ser que Dilma o convide para algum ministério. Mas será que Lula permitirá que isso aconteça? Claro que não. Só se for um  Ministério bem mixuruca. Mercadante vai ficar em posição subalterna. Podem apostar.

E Dilma? Será que vai arrancar a máscara carnavalesca e recuperar a carranca de antes, ou seguirá eternamente na linha “paz e amor”, que adotou na campanha presidencial? O mais provável é que ressurja o perfil da verdadeira Dama de Ferro. E se isso acontecer (e vai acontecer, mais cedo ou mais tarde), como ficará Lula? Dilma permitirá que Lula continue mandando no Planalto, como ele acha que acontecerá? Claro que não.

Quem conhece Dilma Rousseff e já esteve com ela em reunião de trabalho, fora da campanha, sabe que a nova presidente tem um temperamento fortíssimo. Assim que colocar a faixa e sentar naquela cadeira, vai rodar a baiana e não aceitará ordens de ninguém. Lula não perde por esperar. Se ele pensa que vai ser uma espécie de Rasputin no Planalto (ou uma versão de Garotinho no governo da mulher Rosinha), pode desistir. Dilma não é Rosinha. Traído e abandonado pela nova presidente, a decepção e a conseqüente depressão de Lula serão arrasadoras. Ninguém sabe o que ele fará.

Temperamentos à parte, na verdade Dilma Rousseff é uma incógnita na Presidência e vai surpreender, positiva ou negativamente. Com a experiência que acumulou nos últimos oito anos, pode se sair bem, caso escolha um bom ministério, mais isso será muito dificil, pois tem de agradar aos partidos coligados, que estão com as bocarras escancaradas, famélicos por prestígio, cargos e poder, não necessariamente nessa ordem.

A partir de hoje, está oficialmente aberta a temporada de caça aos ministérios. Por trás de tudo, a figura sinistra de Michel Temer, que há alguns anos Antonio Carlos Magalhães apelidou de “Cocheiro de Vampiro”. Realmente o novo vice-presidente mais parece personagem do escritor irlandês Bram Stoker, criador do Drácula.

É Temer quem trama nos bastidores a distribuição dos cargos, à revelia de Dilma e com apoio integra do PMDB. Como advertiu o líder Henrique Eduardo Alves, no mais recente encontro nacional do partido: “Não aceitamos essa história de uma eleição para um partido só ganhar. O PT é um grande partido, mas ou ganhamos juntos ou não ganha ninguém”.

Assim, Temer procura desesperadamente abrir espaço e se fixar como coordenador da base aliada. É como se Dilma estivesse dormindo com o inimigo. Os próximos capítulos serão eletrizantes. Você não pode perder.

Por quem os sinos dobram?

Pedro do Coutto

Com os resultados das urnas na noite de domingo confirmando plenamente as pesquisas do Ibope e Datafolha, para citar apenas dois levantamentos, ressoa no país a voz do voto e do povo encerrando mais uma sucessão presidencial, mais uma passagem do poder de tantas que fazem a história moderna do Brasil a que assisti desde a redemocratização de 1945.

Naquela época terminava o Estado Novo de 37, a ditadura de Vargas. Agora fecham-se as cortinas da era Lula e ingressamos em novo tempo, o tempo de Dilma Rousseff. Sua vitória consagrou a popularidade de Luís Inácio da Silva, um metalúrgico que chegou ao poder e dele sai com uma aprovação de quase 80% da opinião pública. A vitória da ex-chefe da Casa Civil foi mais uma vitória de Lula do que dela. Mas como não há duas pessoas iguais na face da Terra, não se pode prever agora uma continuidade absoluta de um mandato para outro, de um estilo para outro. Os fatos são dinâmicos, as condições e situações de governabilidade mudam. A começar pela perspectiva, bastante provável, de a popularidade de Dilma não se igualar à de Lula. E sem opinião pública e comunicação com a sociedade não se governa.

O título deste artigo – os leitores já notaram – é da obra clássica de Ernest Hemingway, escrita em 38, Por Quem Os Sinos Dobram?, transformado em filme de John Ford dez anos depois. Por quem os sinos dobram na vitória que o PT e o PMDB comemoram hoje? Pela esperança dos eleitores e eleitoras de receberem a sequência de uma política de alguma descompressão social e de expansão do crédito que está dando acesso a uma compra maior de alimentos, bens duráveis, realização de viagens? Certamente sim. Pelo equilíbrio relativo entre capital e trabalho, reduzindo as tensões e colocando sindicatos nas engrenagens do poder? Também isso. Da mesma forma que, no passado, Vargas, com a CLT, um tratado de vanguarda até hoje, impediu o avanço do comunismo no pós-guerra no país, Lula neutraliza o choque colocando algodão entre os cristais que separam o empresariado das classes trabalhadoras.

Ele – a bem da verdade – por intuição ou elaboração, conseguiu proporcionar espantosos lucros aos bancos, matriz do capitalismo, mas adicionar bem estar e principalmente esperança aos grupos de menor renda. O desemprego caiu, o salário subiu, esta, a meu ver, a principal razão de seu prestígio, ao lado de um carisma e uma simpatia pessoal inegável. Ele não assume o palco para amedrontar ninguém. Não é um ator dramático. E sim um tipo humano marcado pela naturalidade, fonte inspiradora de desempenhos magistrais de Marcello Mastroianni no cinema. Mastroianni parecia sair da tela para vir conversar conosco. Lula, na televisão, é assim. Segue esta linha. Mas não representa. É ele mesmo.

Os sinos dobram apenas por todas essas faces? Não. Falta uma. A própria Dilma Rousseff. Pela primeira vez no Brasil uma mulher chega ao Planalto. Porém, além disso, ela produz, com sua vitória, um choque na história. Pela primeira vez, no mundo, penso eu, uma ex-guerrilheira, ex-presa política, uma mulher jovem que sofreu torturas nas mãos de carcereiros de uma ditadura militar, atinge , pelas urnas a Presidência 40 anos depois, a Presidência da República de um país. Os votos que recebeu encerram definitivamente – e sepultam hoje – os porões do arbítrio de ontem. Nas ruas, não se ouve os gritos de dor de uma pessoa, mas de entusiasmo de uma multidão.