Sibilino ou grosso, tanto faz

Carlos Chagas
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No limiar de seu afastamento do poder, o presidente Lula vem acertando algumas contas, em especial na política externa. A dúvida é saber se age assim porque Dilma Rousseff poderá imprimir rumos diferentes e se o primeiro-companheiro, assim, deseja ver gravadas suas concepções, para futuras comparações.
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Tome-se nosso relacionamento com os Estados Unidos. Depois de oito anos de  sucessivos desencontros, o Lula lamenta como palavra final a crítica de que os americanos  não mudaram sua  postura diante  da América do Sul, mesmo com Barack Obama: falta-lhes visão objetiva porque mantém uma visão de Império também  com relação aos países pobres.
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As observações do presidente foram feitas durante sua despedida dos repórteres  credenciados no palácio do Planalto. Disse que esperava de Obama  mudanças objetivas, mas elas não aconteceram.  Esquecem-se, os Estados Unidos, de que 35 milhões de  latino-americanos vivem em seu território. Culpou o que chama de terceirização do governo de Washington, cheio de subsecretários para cada setor. Também aproveitou para bater no Conselho de Segurança das Nações Unidas, por conta das tentativas do Brasil de  trazer o Irã para a comunidade internacional: “não admitiram que países do Terceiro Mundo conseguissem o que eles não conseguiram, mas estávamos certos ao procurar aquele país.”
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De forma cáustica, o Lula falou de inveja e de ciumeira por parte dos Estados Unidos e da União Européia, mas não admitimos a subserviência, temos soberania. Não precisamos pedir licença a eles para acordar, espirrar ou  tossir.
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Terá sido  essa a reflexão mais contundente do presidente,  desde que assumiu, em termos de política externa.  Havia efervescência na embaixada americana, em Brasília, depois de divulgados os comentários referidos,   menos pelo seu conteúdo, mais porque os gringos ignoram a linha a ser adotada por Dilma Rousseff, que não poderá afastar-se muito do que disse seu  mentor e já quase antecessor. Pelo menos num primeiro tempo.�
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Fica difícil imaginar  a grande imprensa e o empresariado  concordando com os termos expostos pelo Lula, mas, como sempre, ele falou para o sentimento nacional, para a maioria das opinião pública e para a voz rouca das ruas. Ontem, já recebeu as primeiras farpas e até alguns petardos daqueles que se imaginam formadores de opinião, mas não seria precisamente esse o resultado pretendido por ele? A primeira viagem ao exterior programada por Dilma Rousseff seria aos Estados Unidos,  ainda que agora, garantia não exista mais.  Sibilino ou grosso, tanto faz, o Lula alcançou seu objetivo.

FICAM 

 Tudo indica que os  comandantes em chefe das três forças armadas continuarão em suas funções, recomendados que foram pelo ministro Nelson Jobim à presidente Dilma Rousseff. O titular da Defesa conta com o apoio de generais, almirantes e brigadeiros, considerado, de longe, o melhor que já exerceu a função, desde que criada. Como a recíproca é verdadeira, reina a paz no setor militar. Serão prestadas as continências  devidas àquela que a partir de janeiro será a comandante em chefe das forças armadas.

Escorregões não serão tolerados, nem da parte deles nem dos provenientes do PMDB, PP, PSB, PDT e penduricalhos. A postura da nova presidente não será tolerante como a do presidente Lula, diante dos companheiros e dos não-companheiros.

BARBA PROVISÓRIA

No Rio, para as festas de Natal, o ex-governador e senador eleito,  Aécio Neves, foi flagrado de barba crescida, que nunca usou. Espera-se venha a  cumprimentar  a navalha antes de fevereiro, quando toma posse. Se dependesse do avô, nem teria experimentado provar o novo figurino. Aguarda-se seu desembarque em Brasília, ainda em janeiro, para a comprovação. Quem se divertiu com as fotografias foi  o presidente Lula, que a um auxiliar comentou: “eu não disse que ele chegava?”

UM CERTO TEMOR

Registra-se no PT um certo temor, menos porque o partido não deixará de ser aquinhoado com muitas nomeações para o segundo escalão do governo, mais porque a relação entre Dilma e os ministros do partido parece que serão protocolares. À exceção, é claro, dos ministros de sua cota, do chefe da Casa Civil ao Secretário Geral, ao da Justiça e à do Planejamento. É bom que os demais tomem cuidado.

 

Eduardo Paes vai demolir o Elevado antes de fazer o Túnel?

Pedro do Coutto

Na edição de O Globo de 27, meu amigo Ancelmo Gois noticiou que o presidente Lula decidiu – muito mal – conceder um financiamento de 3 bilhões de reais ao prefeito Eduardo Paes, através da Caixa Econômica Federal, para demolir o viaduto da Avenida Rodrigues Alves. Como a população carioca vai pagar o empréstimo? Com aumento de impostos e taxas?

A destruição não faz sentido. Projeto do governo Carlos Lacerda, de 62, demorou dezessete anos para ser inaugurado, em 79, pelo governador Chagas Freitas. A obra foi – e é – de importância enorme para o Rio. Derrubando-a, o prefeito não só coloca em risco as redes de água e energia elétrica da área, mas também corta a principal via de acesso à ponte Rio-Niteroi, envolvendo carros de passeio, ônibus e caminhões de carga. Absurdo completo, um delírio ao ritmo de 25% do orçamento para a cidade este ano.

O desatino  não termina aí. No lugar do elevado, um túnel. Qual o custo desse túnel? Não se sabe. Vai piorar tudo. Além disso, o que será feito primeiro? A passagem subterrânea ou a destruição da linha do alto? O presidente Lula deveria avaliar melhor a questão. Na maquete, toda obra é perfeita. Na realidade, o panorama é outro. A esperança, agora, é que a presidente Dilma Roussef não dê sequência a uma devastação urbana do centro do Rio.

Repórter do Correio da Manhã, jornal que mergulhou no passado, acompanhei os lances iniciais do projeto e da construção. O projeto partiu da Secretaria de Planejamento de Lacerda, elaborado a seis mãos: Hélio Beltrão, Rafael de Almeida Magalhães, Eurico Siqueira. Mas mesmo com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por influência do presidente John Kennedy, cujo projeto, através do embaixador Lincoln Gordon, era fortalecer o governador que fazia cerrada oposição ao presidente João Goulart, o governo da Guanabara dependia de Brasília, portanto de Jango, para efetivar o investimento, já que havia áreas federais a serem percorridos, uma delas, próximo à Praça Mauá, sobre depósitos de armamentos da Marinha.

A situação de Carlos Lacerda não era confortável, pois em 1952 seu candidato a vice estadual, Lopo Coelho, enfrentava o candidato do PTB, apoiado pelo ex-presidente Juscelino e por Leonel Brizola, Eloi Dutra, que saiu vencedor.

Mas Lacerda levou o projeto ao ministro dos Transportes, Virgílio Távora, da UDN. Esperava receber um não. Mas recebeu um sim. Na ocasião, lembro como se fosse hoje, Virgílio, ao assinar o convênio, destacou o espírito público de Goulart aprovando o projeto de seu maior inimigo político. Carlos Lacerda agradeceu a Virgílio e Jango (poucos conhecem o episódio), acentuando que era um homem que não agradecia com facilidade, mas no momento sentia-se emocionado com a decisão federal.

As obras foram iniciadas e se arrastaram durante os dezessete anos a que me referi. No dia em que Chagas Freitas inaugurou o elevado, eu era diretor da antiga LBA, e, retornando do programa O Povo na TV, de Wilton Franco, no SBT, fui um dos primeiros a encontrar espaço livre para cobrir o trajeto de São Cristóvão à Avenida General Justo. Me lembrei então dos discursos de Virgílio Távora e Carlos Lacerda e verifiquei como demoram a ser realizadas as obras públicas no país.

Ela agora completou 31 anos de serviços fundamentais. Mas o prefeito Eduardo Paes, tomado pela obsessão de revitalizar áreas públicas no Caias do  Porto, prepara-se para desferir o golpe fatal, explodindo o elevado. Talvez junto com ele – se conseguir fazê-lo – estará detonando seu próprio conceito de administrador. Mas aí será tarde demais para o Rio.

Serginho cabralzinho, deprimido, desgastado, destituído, desmontado, desesperado, quase demitido, fugiu do Complexo do Alemão. Não foi à missa do Arcebispo, à ceia, ao cinema.

Helio Fernandes

A falta de representatividade pela inexistência de partidos, pela compra e venda de legendas, pelo domínio das cúpulas, pela não competitividade dos militantes, traz como consequência o que coloquei no título destas notas.

O governador Sergio Cabral, reeeleito, está no mais visível e completo ostracismo. Deserdado politicamente pela própria arrogância, não indicou nenhum ministro. Repudiado pelo PMDB (aparentemente seu partido), se autocondenou, se exilou no belo Palácio Laranjeiras, passa recibo na própria falta de prestígio.

Tentou capitalizar a coletivização do Complexo do Alemão, foi desmentido pelo fatos que não podem ser alterados. De Cabral é a tentativa, em 2007, de “pacificar” o Alemão, “a ferro e fogo”, com fuzis de alta potência dos dois lados.

Apesar dos equívocos e desacertos da ocupação, os resultados ainda são positivos. Pelo menos o afastamento do governador de toda e qualquer participação, é favorável, ou melhor, altamente favorável. Não prenderam ninguém de importância, mas o que se festeja intensamente, é a derrota do governador. E dizer que ainda temos que aguentar “4 anos disso”.

O governador vai à posse de Dona Dilma, de Brasília não escondem, “que felicidade se o governador do Estado do Rio não pudesse comparecer”. Mas vai, sobre isso nenhuma dúvida. Aqui mesmo no “seu reduto”, não comparece a fatos importantes. Mas na posse da nova presidente, estará presente. O Estado do Rio nunca foi tão humilhado e “desrepresentado”.

O Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Tempestá, rezou missa de Natal, pedindo a Deus que consolide a coexistência de todos no Alemão, Cruzeiro e as outras favelas, quase mil, abandonadas e ainda dominadas pelos traficantes.

Ao lado do Arcebispo civil, o Arcebispo militar, general Adriano Pereira (comandante do antigo e poderoso I Exército, hoje Comando Militar do Leste). A outra autoridade (?), o governador do Estado, não compareceu, fez como os “ex-donos” do morro, fugiu acintosamente.

Também não foi à ceia, nem tomou conhecimento da inauguração festejadíssima, do primeiro cinema no morro. Ninguém desprestigia e desprestigiou tanto o governo quanto ele mesmo. Sabia que ninguém tomaria conhecimento da sua presença, a ausência nem foi notada.

 ***

PS – Por que o governador, que já disse, “é a minha última eleição e o último cargo”, por que não presta um serviço a ele e à população, renunciando agora, antes do início do segundo mandato?

O futuro de José Dirceu

Helio Fernandes

É o que mais se discute no PT e até mesmo em áreas do governo. É inevitável a comparação entre ele e Palocci. Dizem: “O ex-chefe da Casa Civil é infinitamente mais competente do que o de Dona Dilma”.

E sobre acusações de escândalos, unanimidade: “Palocci é muito mais comprometido do que Dirceu”. (Essa é também a opinião do repórter, embora sem a menor importância.

A Amil está comprando tudo. Plano de Saúde, é uma das empresas mais rendosas, não só do Brasil, mas do mundo. Lembrem do filme-libelo de Michael Moore.

Helio Fernandes

Noutro dia, dei uma nota (pequena) sobre a Amil, que inesperadamente se transformou em potência. Como todos os outros planos, que geralmente não servem aos associados, mas enriquecem as empresas, a Amil está botando dinheiro pelo ladrão. (Ditado antigo, mas muito popular no Brasil).

Minha nota (exclusiva) era sobre a compra do Edifício Guilherme Romano, num ponto valorizadíssimo, Rua Voluntários da Pátria. Meu informante falou que estava tudo “fechado”, menos o preço.

Meu informante, corretíssimo, ressalvou: “Helio, começaram a conversar na base de 150 milhões de reais, estão quase acertados em 62 milhões. É um preço baixo para o negócio e o local”. Saí procurando, desvendei com outras fontes, sem abandonar as primeiras. È o seguinte.

Romano era competente, mas falastrão. Foi Secretário de Saúde controvertido, construiu o prédio, era amigo de gente importante, muita gente mesmo. Golbery, quando vinha ao Rio, se hospedava no apartamento de Romano, Vieira Souto, esquina de Vinicius de Moraes. Também foi muito amigo de Lacerda, que morreu quando Romano estava no exterior. Quando voltou, foi o primeiro a denunciar: “O ex-governador foi assassinado, não tinha nada quando foi para o hospital”.

Como esse apartamento (há 10 anos sem pagar IPTU), está incluído na transação, os 62 milhões ficam realmente bem abaixo do preço do mercado. O que acontece e serviria para acelerar o negócio. 1 – A família está mergulhada em dívidas. 2 – A viúva não queria vender apressadamente, mas os quatro filhos não aguentam mais. 3 – A Amil fez a proposta definitiva: 62 milhões pagos à vista, assumiria o ativo e o passivo.

4 – Aparentemente todos aceitaram, a divisão seria a seguinte, de acordo com o testamento. A viúva receberia 31 milhões (a metade), cada filho, 7 milhões e 750 mil reais, o que completaria os outros 31 milhões. (Isso é mais do que INFORME, é INFORMAÇÃO mesmo).

Ainda continuando na área financeira e surpreendentemente da Amil: comprou o Hospital Samaritano, o mais “socialaite” do Rio. Preço que me informaram: 180 milhões, também consideraram “desarrazoado”.

Outro plano em ascensão astronômica: Unimed. Ninguém conhecia nem sabia o que representava, começou a patrocinar o Fluminense, aparecendo na camisa do tradicional e aristocrático clube. Seu presidente (é um plano de propriedade só de médicos), agora na sucessão presidencial do Fluminense, confessou: “Obtivemos mais de 800 mil clientes, desde que passamos a ser exibidos na camisa do clube”.

Hoje, patrocinam dezenas e dezenas de clubes, dos mais variados lugares. E pagam os salários e os direitos de imagem de grandes jogadores, todos na base de 700 mil mensais, não incluídos aí os direitos de imagem.

700 mil por mês é completamente fora dos padrões, mas se não fosse o pagamento feito diretamente pela Unimed (que não atrasa), Muricy, Fred, Conca nem outros, estariam no Fluminense, que DEVE 350 MILHÕES.

 ***

PS – Michael Moore, que tem denunciado grandes escândalos nos EUA, fez um filme maravilhoso sobre os  Planos de Saúde. Denunciou tudo. A corrupção dos serviços de fiscalização, a ligação ESPÚRIA, que palavra, mas é essa mesmo, dos médicos e hospitais com os Planos.

PS2 – Estabeleceu os ROMBOS, os ROUBOS, os CRIMES, a ASSOCIAÇÃO e o DOMÍNIO dos Planos sobre os contribuintes, denúncias altamente documentadas, que relacionou de A a Z.

PS3 – Conclusão do documentário que deveria levar muita gente à cadeia, quem ia sendo preso era o denunciante: os EUA têm 300 milhões de habitantes, 150 milhões não têm Plano. Os outros 150 milhões têm Plano, mas não conhecem os limites ou a extensão dos seus direitos.

PS4 – No Brasil é ainda pior. Os que pagam só são atendidos de acordo com as normas e a boa vontade da direção do Plano.

PS5 – A situação execrável e incontornável, quando os Planos eram dominados por bancos e seguradora. Não acreditava que ficasse mais execrável e incontornável com grupos, digamos, particulares. Ficou.

Conversa com leitores-comentaristas, sobre Lindolfo Collor (avô de Fernando Collor), Vargas e Jango

Antonio Santos Aquino: “Helio, estimulados por você, teus leitores sempre liam a recomendação: podem divergir, podem concordar ou discordar. No momento não divirjo, apenas relembro. Lindolfo Collor, gaúcho, descendente de alemães, nascido Lindolfo Boeckel. Ficando viúva dona Leopoldina, sua mãe, casou com João Collor, alemão de quem Lindolfo manteve o sobrenome. Lindolfo Collor é avô de Fernando Collor. Formado em Farmácia em 1909, torna-se jornalista com grande atuação em diversos jornais. Forma-se também em Estudos Sociais, Jurídicos e Econômicos no Rio de Janeiro em 1916.
Como jornalista trabalhou e colaborou nos seguintes jornais: Estandarte Cristão, O Paiz, O Dever, Jornal do Commercio, O Meu Sábado, Jornal do Brasil, A Tribuna (jornal de Luis Bartolomeu de Sousa e Silva), ocupa o cargo de diretor de A Tribuna, vespertino do Rio de Janeiro em 1918, diretor da A Federação, jornal oficial do partido PRR(RS), ocupa o cargo de redator-chefe de O Paiz no Rio de Janeiro( 1926/28), dirige o jornal A Pátria (RJ-1929).
Foi deputado, preso e asilado duas vezes. Fundou em 1936 no Rio Grande do Sul o Partido Republicano Castilista, de efêmera duração. Em 1930 foi nomeado Ministro do Trabalho, elaborando, com a orientação de Getúlio e o apoio de Joaquim Pimenta,Evaristo de Moraes, Agripino Nazaré, Carlos Cavaco, Heitor Moniz, Horácio Cartier e o diplomata Heitor Nascimento e Silva, as Leis Trabalhistas. Ficou um ano e oito meses no governo revolucionário de 1930”.

Comentário de Helio Fernandes:
Desde os tempos da Tribuna impressa, você sabia que podia e devia (muitas vezes) divergir de mim. Só que agora, você não divergiu, apenas completou o que escrevi. E de forma definitiva. Dados e detalhes imprescindíveis para conhecer o ministro do Trabalho que implantou o salário mínimo em 1932, Obrigado.

JANGO E O SALÁRIO MÍNIMO

Antonio Aurélio: “Helio, só para esclarecer, coisa que você faz sempre e agradeço. Esses 100 por cento de aumento em 1952, que levou à derrubada de João Goulart do Ministério do Trabalho, foi iniciativa dele, sem conhecimento do presidente Vargas?”

Comentário de Helio Fernandes:
Pergunta interessantíssima, resposta dificílima. Normalmente, o presidente deve saber de tudo, concordar, autorizar. Mas depois de 15 anos de governar sem consultar ninguém, por força do sistema ditatorial, Vargas não consultava por desconhecimento e desinteresse.

No caso do aumento de 100 por cento, até concordaria. Na demissão projetada pelo próprio Ministro, Vargas estava inteiramente desinformado, não sabia o que era melhor ou pior.

                                                             ***
PS – Depois disso, ficou apenas mais 1 ano e meio, no Poder e na vida. Foi a saída GENIAL.

O último show de Roberto Carlos não precisava ser exibido, a Globo é insaciável

Helio Fernandes

A Organização promoveu intensamente a festa de Natal com entrada franca, e a grande atração de todo fim de ano. Falavam, insistiam, repetiam, “estarão presentes, no mínimo, um milhão de pessoas na Praia de Copacabana”.

A Polícia Militar, que sempre acerta nos cálculos (a passeata dos 100 mil, depois do golpe de 64, 1 milhão na Candelária no comício das “Diretas Já”, até mesmo quando revelou que 150 mil pessoas estavam presentes no Estádio do Vasco, no comício de Prestes quando saiu da prisão, em 1945) no show do Rei afirmou, “pouco mais de 400 mil pessoas estava na Praia de Copacabana).

 ***

PS – Roberto Carlos não merecia isso. Mas o de agora, será mesmo o último, uma pena que tenha sido tão medíocre. Pela repetição cansativa e pela falta de personalidades artísticas.

PS2 – Todos os anos, os mais famosos queriam estar, e estavam mesmo ao lado dele. Agora, só o terceiro time, e ainda assim, muito poucos.

Basquete feminino: demissão, SIM. Nomeação de quem fracassou, NÃO.

Helio Fernandes

Quando o Brasil fez um “papelão” no campeonato internacional, defendi a desistência do espanhol Colinas. Demoraram, acabaram mandando-o embora. Mas contrataram Enio Vecchi, que em 1994 foi fiasco com a seleção masculina (o Brasil ficou entre os 15 piores, no Canadá) e agora comandará a feminina.

Deviam contratar para Supervisor de todo o basquete nacional, Vlamir Marques. Bicampeão mundial, o maior comentarista da televisão, conhece tudo sobre o assunto. Escolheria o técnico, posso citar alguns jovens treinadores, muito melhores do que esse “cincoentão”.

Dilma vai indicar o novo ministro do Supremo e desta vez Lula não vai se meter. Mas não tem a menor importância. Depois do “jurista” Dias Toffoli, qualquer um pode ser nomeado.

Carlos Newton

O mais forte elemento criador das leis é o Direito Consuetudinário, que deriva dos costumes. Ou seja, a lei é concretizada por ser consensual. Não há resistência a ela. Na escolha dos ministros do Supremo usa-se, por exemplo, um dispositivo legal oriundo do Direito Consuetudinário – só devem integrar a mais alta Corte os “cidadãos de reputação ilibada e de notório saber jurídico”.

Bem ou mal, esse sistema prevaleceu até recentemente. Posso estar enganado, (por favor, me corrijam) mas não recordo de haver ocorrido – nem mesmo no tempo da longa ditadura militar – indicação de Ministros do Supremo que não atendessem estritamente a esses dois requisitos.

Ao que parece, tudo começou com o presidente Fernando Collor de Mello, ao nomear em 1990 o primo Marco Aurélio de Mello. Embora tivesse reputação ilibada e detivesse saber jurídico (era ministro do Tribunal Superior do Trabalho), estava com apenas 44 anos e sua indicação causou estranheza, por não ser um jurista famoso e pelo parentesco próximo com o presidente.

Depois, em 2002, Fernando Henrique Cardoso indicou Gilmar Mendes, que tinha 47 anos e teve seu nome contestado por vários juristas, inclusive Dalmo Dallari, devido às suas ligações próximas com o PSDB. Para aprovar a indicação no Senado, o governo FHC teve de fazer uma grande mobilização, custou caro, digamos assim.

Mas a pior indicação foi mesmo de Lula, em 2009, ao presentear o jovem Dias Toffoli, então com 42 anos. Tinha reputação ilibada, mas saber jurídico lhe faltava. O advogado petista já havia fracassado duas vezes ao tentar fazer concurso para juiz. Mas o presidente do Senado, José Sarney, defendeu a indicação, dizendo que “Toffoli é uma escolha brilhante”.

Na verdade, Toffoli só era conhecido por sua ligação com o PT. Foi assessor eleitoral durante as campanhas de 1998 e 2002 para a Presidência e advogado eleitoral do partido em 2006, antes de assumir o cargo de Advogado-Geral da União sob indicação do presidente Lula. Para aprovar seu nome no Senado, Lula teve de fazer mais esforço do que FHC para entronizar Gilmar Mendes.

E o Senado, mostrando sofrer de espinhela caída, aceitou Dias Toffoli. Depois da nomeação dele, reprovado duas vezes em concurso de juiz, qualquer um pode ser ministro do Supremo. Assim, em sua megalomania, o presidente Lula conseguiu desmoralizar até o Direito Consuetudinário, transformando a nomeação de ministro do STF numa “ação entre amigos”.

Diante desse quadro, a presidente Dilma Rousseff precisa restabelecer a tradição de nomear juristas de “notável saber”. Além do substituto de Eros Grau, a ser indicado agora, ela terá que nomear pelo menos outros dois ministros em seu mandato, para suceder a Ayres Britto e a Cezar Peluso, que completam 70 anos em 2012. Pode também ter que substituir Joaquim Barbosa, que é bem mais jovem, mas enfrenta problemas de saúde. Vamos aguardar.

Como suportar o vazio

Carlos Chagas 

Declarou o presidente Lula, ontem, no seu programa semanal de rádio, que governar foi gostoso demais. Depois, no café da manhã com os repórteres credenciados no palácio do Planalto, repetiu a mesma coisa. Tratou-se de um lamento.
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É natural  que o Lula venha a sentir-se como peixe fora d’água a partir do próximo sábado. Feliz, mas desconfortável. Não se  livrará tão  cedo  do assédio da imprensa, muito menos dos correligionários, dos curiosos e dos chatos. Só que não terá o que fazer, ao menos nos primeiros tempos. Se vai percorrer o país como presidente de honra do PT, é fácil falar mas difícil de realizar. Parece que  desistiu de criar uma fundação com o seu nome,  endereço,  telefone e escritório.   Para o exterior, em férias, não irá, ainda que possa passar não mais do que duas semanas numa praia do Nordeste  ou numa fazenda do Pantanal.�
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Problemas financeiros não terá. Além da aposentadoria de ex-presidente da República, conseguiu economizar bastante os proventos dos últimos oito anos.  Mas como preencher o vazio?
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Nessa hora, a saída para o Lula será seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, sem necessidade de eleger-se senador em eleições suplementares, já que seus adversários não estarão fazendo-o de alvo. Mas preparar a volta ao poder será a solução. Só que com um problema: JK viu-se sucedido por um quase desafeto. Nenhum compromisso tinha com Jânio Quadros e, assim, estabeleceu uma espécie de  confronto  com ele. Logo depois, com João Goulart, recusou maiores aproximações, sustentando cada vez mais a volta em 1965. Tinha até escritório eleitoral, ainda em 1962. Os fados desarrumaram tudo. Depois de cassado pelo movimento militar, aliás, injustamente, comeu o pão que o diabo amassou.
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O ainda presidente elegeu a sucessora, não poderá mostrar-se como alternativa para quem promete dar continuidade às suas realizações. Até tem declarado que Dilma Rousseff tem direito à reeleição. Mas se não preencher o futuro  com sua candidatura a retornar ao poder, dificilmente suportará o  vazio.�

SAPOS E URUBUS

Dilma Rousseff engoliu montes de sapos, ao constituir seu ministério. Convidou quem não conhecia, talvez até quem não  queria, em nome da harmonia em sua base partidária.  Adiantou?
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De jeito nenhum, porque no PT, no PMDB, no PSB e penduricalhos, registram-se amuos, idiossincrasias e até ameaças por parte dos descontentes. Dos frustrados pela impossibilidade de terem sido escolhidos ou de emplacar representantes dos diversos grupos em que se dividem as legendas.
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Por enquanto as escaramuças não se  transformaram em guerrilha, já que falta preencher centenas de cargos no segundo escalão, em cima  dos  quais os urubus continuam voando. Mas será questão de tempo até que os ressentidos mostrem  garras e presas.
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Muita gente diz que melhor teria feito a presidente eleita se compusesse o ministério de seus sonhos, sem interferências partidárias. Poderia ter sido pior, no caso, mas não adianta lamentar o leite derramado. A partir de sua posse, ela terá condições  de demonstrar a inocuidade das pressões recebidas, enquadrando em especial os  ministros caídos de paraquedas em seu governo.   Bem como de demonstrar ao Congresso quem manda no país. Convém  aguardar.

NADA DE CONSTITUINTE EXCLUSIVA

Aguarda-se a apresentação do plano de governo de Dilma Rousseff, capaz de ser esboçado em  seu discurso de posse,  mas, certamente, só divulgado em detalhes nos dias seguintes.
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Dos muitos balões de ensaio verificados durante a campanha e até agora, alguns murcharam, como o da criação dos ministérios da Pequena e Média Empresa,  dos Aeroportos e até da  Copa de 2014 e das  Olimpíadas de 2016.
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Uma proposta, porém, além de murchar, lambeu, quer dizer, pegou fogo sem deixar sequer as cinzas: o novo governo não proporá e nem apoiará a tese da Constituinte Exclusiva para a realização da reforma política. Caberá ao Congresso, se quiser e se puder, promover  as mudanças necessárias nas instituições eleitorais e partidárias.

Dilma não cruzará  os braços, como fizeram  Fernando Henrique e o próprio Lula. Terá opiniões a transmitir e a defender no Legislativo, através de seus líderes.  Não apoiará, no entanto, essa esdrúxula proposta da eleição de constituintes encarregados apenas  de promover o elenco de alterações necessárias ao bom funcionamento das instituições políticas. Seria embaralhar atribuições.

OS  LÍDERES DO GOVERNO

Nessa briga de foice em quarto escuro pelas vagas de ministro e de candidatos ao segundo escalão, pouco ou nada se tem falado a respeito de quem Dilma Rousseff escolherá para líderes do governo na Câmara e no Senado.  Como o novo Congresso só se instala em fevereiro, sendo janeiro mês de recesso, é possível que tudo continue como está.

Sem dúvidas, a nova presidente consultará o vice Michel Temer, os presidentes dos partidos da base oficial e os ministros mais diretamente ligados às questões políticas. Uma coisa, porém, parece certa: Romero Jucá não continuará no Senado. Para bom entendedor…

Um estatuto para 400 mil terceirizados federais

Pedro do Coutto

Sem dúvida um dos problemas mais importantes que esperam o início do governo Dilma Roussef é a questão trabalhista que envolve cerca de 400 mil servidores federais terceirizados só na área federal. Se a estes somarem-se aqueles nas esferas estaduais e municipais vamos seguramente encontrar no país mais de um milhão de pessoas.

Só a Petrobrás, de acordo com o balanço feito pelo Tribunal de Contas da União, possui 172 mil. Três vezes mais que o seu quadro efetivo, praticamente. O Banco do Brasil tem em torno de 80 mil, a Caixa Econômica mais ou menos 60 mil. Das empresas estatais, a que reúne menos é Furnas: 1 mil e oitocentos. Aliás é dos menores o quadro de pessoal de Furnas: apenas 6 mil e 500 servidores em números redondos.

No governo Sérgio Cabral, Rio de Janeiro, são mais de 40 mil, cujos vencimentos – segundo estudo do analista Filipe Campello – estão embutidos na rubrica “despesas gerais”. O que torna difícil estimar exatamente os gastos com a folha de pessoal. O fato é que terceirizados estão há vários anos trabalhando, são importantes para o desempenho das administrações, e necessitam um estatuto nos termos aliás previstos no parágrafo primeiro do artigo 173 da Constituição Federal.

O estatuto criando quadros extintos, congelando-os até aprovação da lei complementar que estabelece este dispositivo constitucional, é tanto fundamental quanto estratégico para evitar a interrupção dos serviços especiais e de concessão pública, de quer inclusive trata a lei 8.987 de fevereiro de 95.

Pois retirar os terceirizados do palco de trabalho, pelo seu número, como se constata, será precipitar uma crise sem precedentes, a começar pelo setor de energia elétrica. Mas eu disse que o estatuto é tanto essencial quanto estratégico. Explico por quê.

Em primeiro lugar, em face da recente decisão do Tribunal Superior do Trabalho – reportagem de Adriana Aguiar, Valor de 23 de dezembro, admitindo a terceirização nas empresas concessionárias de serviço público, caso específico da Light, mas decisão extensiva a todas as demais.

O julgamento do TST, inclusive, baseou-se em despacho do ministro Gilmar Mendes, no Supremo, apreciando caso de terceirização e envolvendo a Vivo. Se a normas constitucional não impede, sustentou ele, não há como a Justiça do Trabalho resolver em contrário.

Traduzindo melhor, mais especificamente, não só não impede, como especialmente determina. Basta ler o parágrafo primeiro do artigo 173, a que me referi há pouco. Este dispositivo afirma textualmente que lei complementar igualará,  para efeitos tributários, trabalhistas e de comercialização de produtos e serviços, as empresas públicas e sociedade de economia mista (caso da Petrobrás e do Banco do Brasil) às empresas privadas. Com base no artigo 173, inclusive, a Petrobrás implantou seu estatuto próprio abrangendo os 172 mil terceirizados que possui. Situação e texto mais claros impossível.

Fala-se em consórcio público, tudo bem. Mas como realizar concursos para admitir 400 mil pessoas? Isso de um lado. De  outro, fazer concurso para trabalhadores de linhas elétricas que atuam em todas as regiões do país? Não me refiro apenas a Furnas. Mas também à Chesf, a Eletronorte, Eletrosul, Itaipu.

E também aos consórcios público privados, nos quais estatais participam de forma minoritária. Caso da hidrelétrica Foz de Chapecó, no qual a CPFL, de Ermírio de Moraes, por exemplo, detém 51% do capital, enquanto Furnas 40%. Inclusive é a última obra inaugurada por Lula no seu governo. Concurso em empreendimentos particulares? Não há exemplo no país.

Faltam 4 dias para a posse, Dona Dilma aparenta completa tranquilidade. Na véspera do Natal, estava em Porto Alegre, “desceu 1 minuto” para cumprimentar repórteres. Marcou ponto?

Helio Fernandes

A expectativa geral não é nem de longe o ministério. Quando há dias, perguntava aqui mesmo se “seria Dona Dilma estrategista”, me referia precisamente a essas articulações. Era um terreno minado, cheio de obstáculos naturais e armadilhas nem tanto.

Toda e qualquer transição, tem o óbvio: o desespero dos derrotados, a arrogância dos vitoriosos. Neste caso, junta-se mais o ainda presidente, que faz a patética proclamação não escrita, de que “gostaria de ficar mais algum tempo”. E que o porta-voz Gilberto Carvalho ratifica; “Se houver dificuldade, Lula pode voltar”.

Não existe governo sem dificuldades, nem mesmo nas ditaduras. Estas dificuldades estarão na razão direta dos avanços e até mesmo dos retrocessos. Não é contradição e sim a reafirmação de que governar é contrariar interesses. Ou então, o que raramente acontece, satisfazer vontades e necessidades do povo. Aí, a elite endinheirada ou enriquecida, protesta imediatamente. Não se quer, não se exige , não se espera o empobrecimento dos ricos, e sim o enriquecimento dos pobres. Mesmo porque não existe fórmula para isso, nem à vista nem a prazo. (A elite do dinheiro é fanática pelo “Bolsa Família”. Uma multidão não precisa trabalhar, a culpa não cai em cima deles).

Lula conseguiu o que ninguém admitia. Isolado na fortaleza do Poder, e protegido pelos donos de órgãos de comunicação. Está deixando o governo, com a mesma cicatriz-tatuagem de Vargas: “PAI dos pobres e MÃE dos ricos”. Lula é hoje o ÍDOLO maior desses “proprietários da opinião pública”, que bradavam: “Lula quer acabar com a LIBERDADE DE EXPRESSÃO”.

Pode ter sido um jogo de cartas marcadas entre o presidente que sai e a presidente que entra. No auge e no apogeu do grupo dos “DIREITOS HUMANOS”, tudo se encaminhava para isso. Todos eles, que pregavam abertamente a censura total e irreversível, foram esquecidos, abandonados, demitidos sem decreto no Diário Oficial.

Não existe o inesperado em matéria de Poder, tudo é programado, planejado, executado, da forma exibida ou da forma contrária, ninguém se lembra de mais nada. Logo depois de vitoriosa, Dona Dilma começou a se pronunciar como ESPECIALISTA na PRIMEIRA EMENDA. A impressão: não tivesse feito outra coisa na vida, a não ser estudar, absorver e admirar a Constituição dos EUA.

E Lula? Não está aí para coisa alguma, não perde o sono com qualquer problema, existente ou agravado e fundamentado por ele mesmo. E o secretário particular que permanecera? Agora sem função específica, mas não intocável como imagina.

Dentro do ponderável, Dona Dilma surpreenderá muita gente. O imponderável nunca está sujeito a análise ou formulação, acontece e pronto. Em 1945, Vargas queria “Constituinte com Prestes”. Em 1950, Golbery e Lacerda quase impedem a sua posse. Nesse distante 1951, ninguém imaginava que o 1954 estava tão próximo e tão fora de expectativa.

 ***

PS – Gostaria de imaginar qual seria (ou será) o primeiro grande impacto de Dilma sobre a opinião pública. Falo em matéria de choque, de confirmação de planos, projetos, compromissos.

PS2 – Também seria esclarecedor, qual Ministro ficaria mais íntimo e mais assíduo com Dona Dilma. Os da “casa”, do Planalto (principalmente Palocci reabilitado) não contam. Mas nenhuma dúvida: no mesmo cargo, Palocci não terá nem 20 por cento da influência e importância de Dona Dilma.

PS3 – Dilma jamais repetirá Lula em relação a Palocci ou a qualquer outro: “Espero que ele me dê sinal verde para reduzir os juros”. Pode até não haver perseguição. Mas não esperem concessão da parte dela.

PS4 – A camisa 10, com o nome de Dilma, será vestida unicamente por ela. Não dividirá o Poder com ninguém, para errar ou para acertar. Meirelles sabia disso, tentou escapar da guilhotina, só que ele é especialista em FMI e não em Revolução Francesa.

PS5 – Palocci tem dois sonhos ou obsessões. Ficar os 4 anos na Casa Civil, e depois, seja o que Deus quiser. E quem será a Erenice Guerra de Palocci? Com a reputação que trouxe do município, e “consolidou” na Fazenda, pode ser um caseiro qualquer.

A hipocrisia e a covardia de Michel Temer, exaltando Quércia depois de morto

Helio Fernandes

É lógico, a corrupção tem que ser combatida, não por causa da ÉTICA e da MORAL, e sim pelo DESPERDÍCIO de dinheiro. Se houvesse a obrigação de “folha corrida”, como se falava antigamente, nenhum governo poderia ser formado, nomeado, constituído.

Collor sofreu impeachment, não quero discutir isso agora. Mas FHC foi quinhentas vezes mais corrupto, sendo que DOOU e ENTREGOU o país, comprou o segundo mandato, ainda queria o terceiro, como Menem (Argentina) e Fujimori (Peru), tão desregrados quanto FHC.

Há dezenas de anos prego a RENOVOLUÇÃO, nada estaria como está. E a primeira das reformas (que jamais será feita) deveria ser a dos partidos. As cúpulas não deixam, pois elas é que CONTAMINARAM e DESTRUÍRAM a representatividade.

Num regime não tão corrupto ou execrável, Michel Temer nunca chegaria perto do que chegou. Jamais passou de deputado (e até várias vezes, suplente que assumiu). Foi combatido duramente a vida inteira por Orestes Quércia, que foi tudo. Não respondeu.

Não quero fazer acusação ou “compensação” de atentados à moral. Mas agora o vice vem a público “chorando a morte do meu amado Quércia”. Por que essa exibição da falta de caráter que ninguém desconhece?

 ***

PS – Como o “macaco” famoso da televisão, eu só queria entender: CORRUPÇÃO é palavra usada apenas para a apropriação de dinheiro?

PS2 – E o desapreço pelo povo, o desprezo por toda a comunidade (que é a chave da vida de Temer) não vale nada? Já disse ontem: não quero absolver Quércia. Mas essa corja que domina a vida pública desde 1930, jamais será desautorizada historicamente? (Condenada pessoalmente, sei eu não será).

Chávez queria vir à posse de Dilma

Helio Fernandes

Telefonou para Lula, conversaram muito tempo, o ditador da Venezuela confirmou para o presidente do Brasil: “Vamos nos ver pessoalmente, estou me preparando para ir à posse da tua sucessora”.

Espertíssimo, Lula não perdeu tempo: “Gostaria que você viesse, mas tenho que dizer. Como a posse é no dia 1º, não vem ninguém, você ficará muito exposto. E a imprensa aqui é toda contra você”. Chaves não vem.

“A Praça, a Praça é do povo, como o céu é do condor”. Mas como o salário mínimo foi aumentado (em 100 por cento), Golbery derrubou o ministro do Trabalho, João Goulart

Helio Fernandes

Todos que estão no Poder gostam de usar e abusar da palavra povo. Embora se sirvam dele, quase nunca servem a ele, se preocupem, tentem de várias ou de qualquer maneira disfarçar seus sentimentos. O genial poeta era sincero, e foi inebriante, empolgante e fascinante, localizando e englobando o povo e a praça, duas coisas naturais.

Ditadores, democratas, poderosos de todos os poderes, gostam muito de citar o salário mínimo como uma de suas grandes realizações ou concessões.

Isso começou em 1780, com a Revolução Industrial da Inglaterra, que praticamente acabou com a escravidão na Europa. Tendo multiplicado por três a capacidade de produção das máquinas, precisavam de mais e mais consumidores. Fizeram a “conta no lápis” (ainda não existiam as máquinas de calcular), constataram que era mais rendoso liberar os escravos para terem suas casas e seus negócios. Os que ficaram, recebiam mensalmente um total estipulado, era o SALÁRIO MÍNIMO.

Depois foi se tornando oficial. Com a Revolução mexicana, de Pancho Vila e Zapata. Os dois generais “analfabetos”, traídos, foram assassinados, mas conseguiram a bela Constituição de 1918. Mussolini, em 1922, na famosa “Marcha sobre Roma”, deu esse direito aos trabalhadores. Vargas também, ufanista, consagrou esse princípio, com o ministro do Trabalho, Lindolfo Collor. (Avô do próprio).

Esse salário é sempre mínimo, exigência dos empresários e excesso de burrice da legislação. Os patrões descontam 22 por cento mensalmente por cada empregado, estes são ROUBADOS em 9 por cento do que ganham. Se pudessem depositar esses 9 por cento durante a vida de trabalho, se aposentariam com o triplo do que recebem.

Agora, lutam no Congresso por causa desse salário que pretendem aumentar em 6

 por cento, no máximo. Ficam oscilando entre 540 e 560 reais, com alguns tentando chegar a 580. 600? Dizem logo: “O país não aguenta”.

Em 1952, esse salário mínimo derrubou o ministro do Trabalho. Era João Goulart, que no 1º de maio desse ano, aumentou o mínimo em 100 por cento.

O presidente era Getúlio Vargas, que sofria tremenda oposição. Lacerda e Golbery, então amicíssimos (inseparáveis) resolveram: Lacerda comandaria o desgaste político do presidente, ele, Golbery, veria a forma de ajudar.

Não foi difícil, sendo para derrubar, Golbery era invencível. Da ativa, coordenou com alguns militares, decidiram protestar publicamente contra esse “AUMENTO EXAGERADO”.

Surgiu então o famoso “Manifesto dos Coronéis”. Redigido por Golbery (ele também assinou), com 69 deles, exigiam a saída de João Goulart.

*** 

PS – Jango “sentiu” a força do movimento. Foi a Vargas, explicou: “Presidente, o momento não é de combate, não temos força, vou pedir demissão”. Saiu mesmo, foi uma desastre para Vargas, para João Goulart mais um episódio na carreira polêmica.

PS2 – A primeira assinatura era do coronel Amaury Kruel. Quando Jango chegou à Presidência, quase 9 anos depois, Kruel já era general, Jango nomeou-o Chefe da Casa Militar. Promoveu-o a 4 estrelas (general de Exército, indicou-o comandante do II Exército (São Paulo).

PS3 – Os “diálogos” de Kruel pela televisão, são conhecidos e as exigências do general “para manter Jango na Presidência”. A exigência inicial era esta: “O presidente João Goulart tem que demitir todos os comunistas do seu governo”.

PS4 – Jango que já estava irritado, achava que mesmo se aceitasse “exigências”, Kruel não tinha tanta força, foi embora. Se tivesse resistido em 1952, não teria fortalecido a ele mesmo e ao presidente?

Na formação do governo Dilma Rousseff, existem dois grandes perdedores: Ciro Gomes e Henrique Meirelles, que acreditaram em Lula e se deram mal, muito mal.

Carlos Newton

Fora do Ministério, que futuro aguarda Ciro Gomes, que vinha realizando uma das mais brilhantes carreiras políticas de sua geração? Foi prefeito, governador, ministro da Fazenda, ministro da Integração Nacional, deputado federal, candidato a presidente duas vezes, em 1998 e 2002, quando tinha até chances de ganhar.

Ciro continuava (e até continua) sonhando com a Presidência, mas desta vez tudo virou pesadelo. Era ministro e amigo do presidente Lula, saiu do governo em março para se desincompatibilizar e disputar a eleição. Mas foi inacreditavelmente ingênuo. Acreditou quando Lula lhe disse que o PT poderia até apoiar a candidatura dele. Depois, acreditou de novo, quando Lula lançou Dilma e prometeu a Ciro que, se ela não decolasse, o candidato seria ele.

Acreditou tanto em Lula, que mudou seu endereço eleitoral para São Paulo. Quando descobriu que tinha sido ludibriado, já era tarde, seu partido (PSB) já tinha feito acordo com Lula para apoiar Dilma e ele só podia disputar eleição em São Paulo. Mas ser candidato a quê na Paulicéia Desvairada?

Ficou fora da disputa presidencial e da política federal, como um todo. Com Ciro concorrendo, o quadro seria outro, os debates ganhariam entusiasmo e os votos no primeiro turno se dividiram pelas quatro candidaturas, (Dilma, Serra, Marina e Ciro), trazendo muito mais emoção.

Mesmo enganado e humilhado por Lula, no segundo turno Ciro Gomes ainda aceitou ser um dos coordenadores da campanha final de Dilma, sem lembrar que no primeiro turno dera várias declarações à imprensa defendendo a eleição de Serra, por ser “mais experiente do que a Dilma”. Uma dessas entrevistas não podia ser negada. Foi gravada e exibida pela Rede SBT.

Ciro Gomes era considerado um ministro certo, garantia-se que iria voltar ao Ministério da Integração Nacional e concluir a inacabável (e absolutamente necessária) transposição das águas do Rio São Francisco. Mas acabou ficando de fora e se arrisca a passar quatro anos ao relento, pegando sol e chuva, até a eleição de 2014. Será que vai acertar um cargo subalterno? É difícil, mas possível. Quase tudo é possível.

Também fora do Ministério, outro grande perdedor: Henrique Meirelles. Em 2002, fora eleito deputado federal em Goiás pelo PSDB, com votação recorde, quase 183 mil votos. Ninguém o conhecia, mas foi a mais rica campanha já vista em Goiás. Está explicado, e assim, aos 56 anos, Meirelles se elegia para a Câmara Federal, mas já sonhava com o Planalto, exatamente como Ciro Gomes.

Ex-presidente mundial do BankBoston, dinheiro não é problema para Meirelles, que só visava o poder. Em 2002, como era preciso colocar alguém no Banco Central que defendesse os interesses do sistema financeiro, para “acalmar o mercado”, Meirelles foi indicado a Lula por Aloizio Mercadante, que tinha sido seu assessor econômico no BankBoston e acabara de se eleger senador pelo PT de São Paulo.

Bem, já que o esquema era para preservar os interesses do “mercado”, Meirelles aceitou o “sacrifício”, renunciou ao seu mandato de deputado federal (era obrigatório fazê-lo) e assumiu o Banco Central. Assim se passaram quase oito anos, até que em março Meirelles ia sair, para se candidatar ao Senado ou ao governo de Goiás, pelo PMDB, e especulava-se que poderia ser até o vice na chapa de Dilma.

Mas o presidente Lula, da mesma forma como convencera Ciro Gomes a ficar na “regra 3”, com reserva de Dilma Roussef, também convenceu Meirelles a desistir da eleição e ficar até o fim no Banco Central. Isso aconteceu na chamada “undécima hora”. Meirelles foi o último ministro de Lula a se decidir sobre a desincompatibilização.

É redundantemente claro, lógico e evidente que Meirelles só aceitou porque continuaria no cargo no governo Dilma ou poderia até ser promovido para o Ministério da Fazenda. Acontece que o “acordo” foi feito com Lula, mas quem empunha a caneta para assinar a nomeação de ministros é Dilma Rousseff,

Meirelles ficou na mesma condição de Ciro Gomes. No relento. Mas agora não tem mais 56 anos, já está com 64 anos e só haverá eleições gerais em 2014, quando já ficará muito próximo dos 70 anos, o que faz muita diferença em eleições majoritárias.

Os casos de Ciro e Meirelles demonstram nitidamente que, no decorrer de sua impressionante e extraordinária trajetória, não há duvida de que Luiz Inácio Lula da Silva realmente aprendeu a ser político, em todos os sentidos, incorporando até mesmo o péssimo costume de não cumprir acordos com importantes aliados, o que é comum no Brasil.

Por fim, quanto a Aloizio Mercadante, ex-assessor de Meirelles no BankBoston e que o conduziu ao Banco Central, sobrou para ele no governo Dilma Rousseff apenas um ministério de terceiro categoria, como já era esperado.

Os legisladores de Brasília

Carlos Chagas

Dos 81 senadores, 27 foram eleitos em  2006 e vão continuar até 2014. Eles ou seus suplentes. E 54 senadores  foram recém-eleitos em outubro, dentro da renovação dos dois terços. Ficarão até 2017,  eles ou seus suplentes.                                                        

Os 513 deputados eleitos em 2006 precisaram renovar seus mandatos em outubro.  Nem todos, pois se uns desistiram, outros tentaram novas  funções, valendo registrar que 280 conseguiram manter suas cadeiras, ou seja 233 novos deputados  estarão assumindo junto com os velhos,  em fevereiro.�
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Somados  aos  senadores,  os deputados perfazem 594 parlamentares  prontos para oferecer sua experiência ao aprimoramento do arcabouço legislativo nacional.
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Conforme Jean Jacques Russeau, no “Contrato Social”, os legisladores precisam  “de uma inteligência superior, que vê todas as paixões humanas sem experimentá-las, que fazem por merecer uma glória apenas distante, talvez até mesmo trabalhando em silêncio  num século,  para benefício do seguinte”.
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Confere? Se quiserem, acrescente-se às qualidades que deveriam ser inerentes a todo parlamentar as exigências feitas por Maximilian Robespierre, referidas em sua excepcional biografia escrita por Ruth Scurr:
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“Seriam necessários  filósofos tão iluminados quanto intrépidos: que vivenciaram as paixões do homem, mas cuja principal paixão seria o horror à tirania e o amor pela humanidade; pisando sobre a vaidade, a inveja, a ambição e todas as  fraquezas das almas mesquinhas, inexorável quanto ao crime armado com poder, indulgente quanto ao erro, simpático à miséria e terno e respeitoso com  o povo.”
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Pois é. Nem na França revolucionária encontraram-se modelos para preencher tais requisitos, já que Rousseau havia  morrido sem conviver com o Terceiro Estado, nem com  a Assembléia, muito menos a Convenção e o Diretório. E  Robespierre, incorruptível, foi logo depois responsável pelos dois  anos de terror que levaram dezenas de milhares de cidadãos  à guilhotina.
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Entre nós, fica o problema: qual o papel  de nossos 594 legisladores prestes a jurar ou renovar o juramento de aprimorar as instituições? Senão filósofos, serão ao menos iluminados? Intrépidos a que ponto? Sem paixões? Com amor à humanidade, despojados de vaidade, inveja e ambição?  Inimigos do crime urdido nos escalões do poder, preocupados com  a miséria, dedicados ao povo?
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É bom lembrar que felizmente  sem o sangue que afogou Paris, os legisladores de Brasília devem acautelar-se com as consequências do que aconteceu por lá. Os parlamentares franceses apenas prepararam o palco para a entrada de Napoleão. Os nossos correm o risco de seguir caminho  parecido. O corso daqui dos trópicos nasceu em Garanhuns, criou-se em São Paulo,  está prestes a mudar-se para São Bernardo e  terá  chances de repetir o Dezoito Brumário…

MELHOR  NO PRIMEIRO  MINUTO

Marcadas absurdamente  pela Constituição para o primeiro dia de janeiro, as posses de presidente da República e de governadores estaduais têm  gerado  cansaço, atrasos no relógio, ausências e muita improvisação. De que  maneira os governadores do Norte e do Nordeste, por exemplo, mesmo na parte da manhã, prestarão juramento nas Assembléias, assumirão e receberão os cargos nos palácios e conseguirão  viajar a Brasília a tempo de assistir, de tarde,  a entrega do poder a  Dilma Rousseff? Uma correria dos diabos, sujeita aos percalços da natureza e  do tráfego aéreo.
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Vai uma sugestão: o primeiro dia de janeiro começa um minuto depois da meia-noite do dia 31 de dezembro. Por que os novos governadores  não prepararem as cerimônias de posse para aquele momento, de madrugada,   ficando livres para voar em seguida até a capital federal? Claro que haverá prejuízos relacionados com  as comemorações de Ano Novo, mas sacrifícios, quem não haverá de fazê-los?

Inaugurando Foz de Chapecó, Lula sai consagrado do palco

Pedro do Coutto

Quando inaugurar a hidrelétrica de Foz do Chapecó, obra de Furnas, entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na quinta-feira, o presidente Lula fecha as cortinas de seu governo e sai, consagrado pela opinião pública, do Palácio do Planalto, palco a que conduziu sua sucessora, Dilma Rousseff, vitoriosa nas urnas de Outubro.
Deixa um saldo bastante positivo de ações, tanto assim que, segundo pesquisa do IBOPE, recebe aprovação de 87%, recorde mundial, contra uma rejeição somente de 4%. Ele inaugura a usina Foz do Chapecó, capacidade para gerar 855 mil MW, de Brasília, através de circuito de televisão.

É uma obra do PAC, a última concluída por ele, cuja barragem tem 47 metros de altura. Custou 2,6 bilhões e o cimento utilizado seria suficiente para construir oito estádios do Maracanã. Mas estes são detalhes que singularizam o investimento que acrescenta geração de energia ao parque econômico brasileiro. O setor elétrico foi um dos pontos de destaque de seu mandato.

Mas eu disse que ele deixa o palco consagrado, ultrapassando sérios obstáculos como o mensalão, os aloprados de São Paulo, além de episódios como o causado por Erenice Guerra, bastante sério e de reflexos eleitorais. Não fosse Erenice, demitida da Casa Civil, Dilma teria vencido no primeiro turno.

O que explica tanto êxito de um presidente – coisa raríssima – registrado inclusive em seu crepúsculo? Fosse na alvorada, não seria de surpreender. Mas na saída de cena quando perde o maior instrumento de poder da vida humana – a caneta mágica – é porque, além do inegável carisma e simpatia, existem outros fatores decisivos.

Destacam-se três: o nível de emprego melhorou, os reajustes salariais foram restabelecidos ao nível da inflação, o crédito se expandiu e, com ele, o consumo. Chegamos assim a uma trilogia que sintetiza as aspirações humanas. O consumo é a chave final.

A sociedade, ao contrário do que pensou Karl Marx, não está preocupada com a produção de bens, nem com as diferenças na escala social. O gênio alemão, redator chefe da Gazeta da Renânia, que escreveu O Capital em 1869, livro mais vendido no mundo depois da Bíblia, cometeu um erro ao profetizar o futuro, embora seja, sem sombra de dúvida, o maior analista político da história.

É que os trabalhadores, na realidade, não desejam se revoltar: nada disso. Querem aderir, se capitalizar. Aliás, não existe pessoa alguma no planeta que não deseje se capitalizar. A força da capitalização é essencial e insubstituível. Até porque é ela que leva ao consumo.

Há poucos dias, almoçando com dois amigos, o cientista Zieli Dutra e o economista Filipe Campello, este colocou um tema importante. Indagou o seguinte: se a população acha ruim o sistema de saúde, péssimo nível de saneamento, abaixo da crítica a atuação do INSS, o caos a demora da Justiça em decidir definitivamente as ações, uma calamidade a segurança pública, um descalabro a atuação da máquina administrativa, porque consagra o presidente de modo absoluto? Para Filipe uma contradição. A dúvida leva ao pensamento.

Tem que haver para tudo uma razão. Esta se encontra na situação pessoal de cda um, de cada família, na altura relativa do consumo. Se houve descompressão nos salários e no crédito, o poder de compra melhorou – e melhorou mesmo – que La Nave Va, como no filme de Fellini. Não quero dizer que isso está certo. Mas é assim. Cada um por si e Deus por todos, como se afirma. Uma prova? As UPPS. Se a segurança melhorou, deixa para lá o consumo de drogas.

Faltam 5 dias para Dona Dilma chegar de fato ao Planalto. De direito já está lá. É preciso apenas cumprir a transição, em todos os países, depois da eleição, sempre dois presidentes.

Helio Fernandes

Essa rotina intermitente, normalíssima de esperar o tempo passar, mas tão lentamente que provoca muita angústia, vai terminando. Mas falta cumprir o “constitucional”, embora o presidente que sai, esteja fazendo hora extra no exibicionismo, e deixando rolar lágrimas e saudades pelo futuro que não desvendou nem conquistou, mas faz questão de esclarecer: “Posso voltar”.

Todos podem voltar ou até irem, como ensinou o poeta, que desvendou para todos o caminho da libertação e da possível felicidade: “Vou embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei, tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei”.

Só que a Pasárgada de Lula é aqui mesmo, tudo aquilo que o poeta imaginou, se acumula num só personagem, o próprio Lula. Ele é o Rei, sabe de emoção própria qual é a “mulher” que deseja, e a “cama” já escolheu faz muito tempo, tudo sintetizado, sumarizado e divulgado, na esperança da volta.

O Planalto sem data é a fixação de Lula, está tão absorvido pela saída, que atravessa e atropela o caminho da mulher que quer entrar, foi designada por ele mesmo.

Nenhum presidente entrega o Poder com satisfação. Mas outra verdade, é que raramente um presidente, antes de sair já anuncia a preocupação de voltar. Lula decretou e acrescentou até um tom emocional, declarando: “Vou andar pelas ruas, sou povo, sempre estarei com o povo”. Eis uma frase que não precisa nem de interpretação, basta perguntar: “Até quando Lula pretende andar pelas ruas?”

Se alguém puder responder, terá a chave para decifrar o clima que começa no primeiro dia de 2011, e nem Lula percebe ou pode explicar até ONDE ou até QUANDO poderá se alongar.

E Dona Dilma? Intrépida, altiva e altaneira, “cumpre a parte que lhe cabe nesse latifúndio”. Como se vê, pode haver tumulto, angústia e ansiedade em volta dela, mas a percepção dos grandes poetas ameniza e emociona sua caminhada, que demora apenas mais 6 dias.

Nenhuma contrariedade nessa escolha do ministério-paulistério-mistério. Surpreendentemente chegou aos 37, apenas a repetição de um número? A certeza de que precisa mesmo de 37? Ou querendo mostrar que vai inovar muito mas não pelos caminhos tido como tradicionais? Para ela, até agora, nenhum problema que atingisse sua tranqüilidade, serenidade ou até exigindo hostilidade. E olhem que momentos e oportunidades não faltaram.

Enfrentou tudo aparentemente concordando totalmente, mas na verdade impondo, direta ou indiretamente, o que pretendia. E sua presença foi marcante precisamente com governadores, que em muitas fases históricas dominaram ou tumultuaram a República. E agora, pelo menos cinco deles tentaram influenciá-la.

Dois desses, satisfeitos, não exigiram nada, mas foram totalmente recompensados. Jaques Wagner, do seu partido, obteve tudo, só foi a Brasília uma vez. Até o PP, para manter o Ministério das Cidades, indicou um nome da Bahia, mas precisou do aval do governador.

O outro, Eduardo Campos, também reeeleito com verdadeira consagração, recebeu tudo o que pretendia, sem intimidação ou provocação, mas mostrando o que pode representar. E o governador de Pernambuco (do PSB) ainda se deu ao luxo de VETAR Ciro Gomes para vários cargos, deu por terminada sua atuação, assim: “Ciro Gomes ATIROU para todos os lados”. E por enquanto ficou sem nada.

Tarso Genro, governador eleito do Rio Grande do Sul, ministro com ela e como ela, reivindicou muito (um direito representativo dele) mas recebeu pouco. Os que podem ter cacife para 2014 dentro do PT, precisam ser vigiados, embora não hostilizados.

Eduardo Braga, também reeeleito, cheio de planos, queria o Ministério do Meio Ambiente. (Anunciei um ano antes, quando deixou o governo do Amazonas, com uma senatoria certa esperando).

O Meio Ambiente era do Carlos Minc, que quando se desincompatibilizou, deixou a competente Isabela Teixeira, preferiu que ela continuasse. Braga, ficou “amuado”, que palavra, Dona Dilma fingiu que não percebeu, ele ficou sem nada.

 ***

PS – Não surpreendentemente, o maior perdedor, evitadíssimo, foi o governador do Estado do Rio. Medíocre, vil e ignaro (royalties para o grande jornalista J. E. de Macedo Soares), tentou invadir o espaço da própria Dilma, saiu abalado e rastejando, nenhuma novidade.

PS2 – Se estivéssemos não na época de Natal e sim na Páscoa, cabralzinho seria o Judas deste sábado. Mas foi ridicularizado, humilhado e vilipendiado (merece as palavras), ao pretender implantar um ministro pela intimidação.

PS3 – E Dona Dilma (como eu havia confidenciado), não esqueceu o episódio, vergonhoso (para ele) e que se transformou politicamente em desastroso. Dona Dilma, como contei, nem atendeu mais os telefonemas dele. E nomeou um ministro do Estado do Rio, sem a menor ligação com cabralzinho. (Foi Luiz Sergio).

PS4 – O deputado do PT, não lembrado para nada, acabou Ministro das Relações Institucionais, embora o PT do Estado do Rio seja muito menor do que o PMDB.

PS5 – Desde 1998, quando Vladimir Palmeira ia ser governador, Dirceu e Lula, ainda sem terem chegado ao Poder, fizeram intervenção no Rio, com medo do prestígio do futuro governador. No Rio o PT acabou ali.

PS6 – Como ficou a ver navios, cabralzinho podia ter preenchido o Ministério dos Portos. Nem isso conseguiu. Mas promete se vingar. Ha!Ha!Ha!

Por que tanta Dilma e pouco Lula?

Antonio Aurélio: “Desculpe, o senhor tem escrito diariamente quantos dias faltam para ela assumir, mas esquece o presidente Lula. Ela existiria sem ele?”

Comentário de Helio Fernandes:
Fico surpreendido com a tua pergunta. E o que você pretende, que eu fizesse uma série sobre “quantos dias faltam para Lula deixar o Poder”? Aurélio, ele se promove sozinho (ou com os amestrados) de tal forma, que não precisa de apoio ou de ajuda de ninguém. Ocupa variados espaços, deixa para Dona Dilma todas as dúvidas e dívidas.

A Veja publicou no número que está nas bancas, uma foto duplamente sensacional. Não é de hoje, mas vejam Lula no Maracanã, já consagrado por ele mesmo e pela mídia orquestrada. É um salto lembrando Nureyev. Não há explicação, como ele se sustenta no ar? Só pela admiração não do próprio corpo, mas é a mente autocrática que impulsiona tudo.

(A foto admirável, é da excelente fotógrafa Ana Carolina Fernandes, não tenho nada com isso. O Fernandes é meu, mas a categoria jornalística é dela. Estava com menos de um mês, quando a mãe viajou para o meu julgamento em Brasília, até hoje “cobra” que não foi “amamentada” como os outros),

Esses cinco dias do salto na condição de coadjuvante para a de presidente propriamente dita, apenas dela.  O país será beneficiado com o que fizer, prejudicado com o que não fizer.

Lula, que colocou Dona Dilma no Planalto, e logicamente na História, está dividido “entre ele, e ele mesmo”. Só fala, não esquece de pronunciar a palavra voltar, não explica de que maneira.

*** 

PS – Não pode torcer, (como diz a Ofélia Alvarenga) para dar tudo errado, pois os erros ou desacertos desabariam sobre ele mesmo. No geral, não escaparia: “Eu não disse, Lula inventou uma desconhecida, o resultado negativo está aí”.

PS2 – Ou o outro lado da meada, Dona Dilma faz um governo positivo e proveitoso, como tirá-la no meio do caminho? Normalmente, os presidentes agora, têm direito a 8 anos.

PS3 – Num processo nada pedregoso, Dona Dilma sairia em 2018, com 71 anos. Lula estaria então com 73, qual a diferença? A diferença está ou estaria no improvável, no não imaginável, jamais no impossível.